A Última Chance - J e of
18 Capítulo 18 - Rehab
Notas iniciais
POV Daniel
Voltei para a casa da Julie depois que a levaram para a clínica. Nem tive tempo de me despedir dela. Não me deixaram. Fiquei mal por isso. Me despedi de Pedrinho. Ele foi pra casa e pegou mais roupas. De lá, foi direto para o orfanato. Fiquei com pena dele. O jeito que saiu da casa dele me abalou. Era possível se notar seu semblante triste. Se eu tivesse lágrimas, com certeza choraria.
Fui para a edícula. Meu único refúgio. Encontro Félix, Martim e Bia conversando. Mal sabem eles o que aconteceu.
- Daniel. Você ainda não achou a Julie? Sumiu por dois dias e aparece assim... Como se tivesse acontecido algo. Aconteceu? – Bia disse.
Me sentei no sofá. – Aconteceu?
- O que? – Martim e Félix perguntam em uníssono.
- Eu encontrei a Julie sim. Mas acontece que ela passou mal por causa de droga. Depois ela foi pro médico e de lá ela foi encaminhada para uma Clínica de Reabilitação.
- Reabilitação? – Bia perguntou visivelmente surpresa. – E depois? Como vai ser?
- Ela vai sair da clínica e vai para o orfanato. O Pedrinho já até foi.
- Coitadinho. – Bia dá uma pausa. – E eu queria tanto falar com a Julie. Faz muito tempo que não falo com ela. Será que ela pode receber visitas?
- Não sei. – lhe respondi.
Ficamos conversando por um tempo até a Bia ir embora.
POV Julie
Finalmente cheguei à clínica. Era um lugar um tanto quanto diferente. Tinha um jardim imenso, com um gramado que circundava a clínica. Era um lugar bonito, tenho que admitir. Tinha uma espécie de pracinha no meio daquele jardim, com bancos e até balanços, coisa que eu achei muito inusitada. Tinha muitos internos andando por ali e quando eu passava com um dos funcionários da clínica, eu percebia alguns olhares curiosos para mim. Fiquei até um pouco envergonhada. A única coisa que eu queria era passar despercebida dali. Não quero que eles se lembrem de mim. Quero sair o mais rápido possível.
Apesar de gostar um pouco do lugar, eu já estava louca para ir embora. Eu sentia muita saudade de todos. Do Pedrinho, da Bia, do Martim, do Félix e, principalmente, do Daniel. Era o que mais me fazia mais falta. Eu só espero que ele não esteja chateado comigo por tudo que fiz. A consequência dos meus atos estava bem ali, a poucos metros de distância. Uma Clínica de Reabilitação.
Passei pela porta da recepção e logo vejo caminhando até mim um senhor de uns 30 anos vestido num estilo sport. Uma camisa branca com os primeiros botões soltos e gola aberta, um terno casual marrom claro, uma calça jeans num azul-claro sutil e calçava um sapatênis preto. Era um homem muito bonito, apesar da idade. Ele parecia bem jovem com o estilo dele. Acho que ele era o dono da clínica, o que era óbvio, já que ele se vestia assim e os outros funcionários dali vestiam roupas brancas. Pelo menos os que eu já tinha visto vestiam assim, com uma roupa toda branca, até os sapatos. Pelo visto, aquele senhor viria ali para me recepcionar. Assim que me viu, ele sorriu amigavelmente.
- Olá. Como vai, Juliana? – ele me cumprimentou.
- Oi. Eu vou bem, obrigada.
- Meu nome é Alberto. – ele me estendeu a mão.
- Prazer. – retribui o sorriso.
- Como pode? – arqueei a sobrancelha confusa. – Como pode uma moça tão bonita usar drogas? – ele completou.
Soltei uma risada constrangida. – Obrigada pelo elogio. Me sinto até mal em pensar que... – ele me interrompeu.
- Não pense em nada, Julie. Felizmente você aceitou sua condição de dependente químico e a aceitou procurar ajuda. Muitos não têm a mesma força de vontade que você teve. Parabenizo você por isso. Quero que você seja bem vinda à clínica, que sinta como se estivesse em sua casa. Espero que você responda bem aos tratamentos e que se recupere logo. E que nunca mais use drogas outra vez.
- Eu espero também. – sorri, outra vez.
Entre o 5º e 10º dias do tratamento, eu já comecei a dar sinais de que a minha luta não seria nada fácil. Eu estava apática, tinha insônia, problemas de memória e coordenação motora. Algumas vezes ficava agitada e ansiosa, tinha alucinações. Isso tudo graças à abstinência de drogas. Meu corpo e minha mente exigiam a droga. Me disseram que era a coisa mais normal do mundo, já que eu estava a muito tempo sem usar drogas. Eu tinha medo de ter uma recaída quando saísse, mas me garantiram que com o tempo eu iria me acostumar e iria esquecer a vontade de usar.
Tive que ficar tomado uma medicação horrível. Eu odiava. Uma vez tive vontade de jogar fora para não ter que tomar, mas o enfermeiro que me medica, me “pegou no fraga” e me obrigou a tomar. Prometi que não faria coisa parecida outra vez. E eu não fiz mesmo. O tratamento de desintoxicação ainda é longo, não posso fraquejar logo agora.
Temos um período do dia que podemos dar uma volta pelo gramado do jardim. Era tudo que eu estava precisando. Respirar um ar, colocar meus pensamentos perturbados em ordem, esquecer um pouco dessa minha atual fase da vida. Uma pena eu não ter levado meu violão comigo. Eu poderia tocar para me distrair. Eu não vejo meu violão desde que saí de casa para fugir.
Me sentei debaixo de uma sombra de uma arvore e fechei meus olhos. Ouço passos se aproximando, esmagando folhas secas com os pés. O som emitido pelas folhas ficava cada vez mais perto. Sinto alguém sentando ao meu lado e colocando a mão em meu ombro. Abri os olhos e olhei para a pessoa que estava ao meu lado. Surpreendi-me.
- Você? Quem diria. – eu disse.
- Não sabia que você estava aqui. Você está bem?
- Estou. Eu é que não sabia que você estava aqui, Cabeça.
- Não me chama assim.
- Desculpa, é que eu não sei seu nome.
Ele sorriu. – Não seja por isso. Meu nome é Danilo.
- Danilo. Que nome lindo. Não sei o porquê de você usar esse apelido.
- Sabe como é. Né? No mundo que eu vivo, se é que você me entende, — ele olhou pra mim e assenti. – não é uma boa ideia usar o nome verdadeiro.
- Entendo. Como você chegou aqui?
- Meus pais descobriram tudo. Eles me fizeram escolher. A cadeia ou essa clínica. Não sou tão burro. Preferi a clínica. Pelo menos assim eu me livro desse vício. Espero que dê certo. Estou louco para voltar a ter a vida que eu tinha antes disso tudo. Quero fazer faculdade de engenharia. Quero ter uma vida normal a partir de agora. E você? Como chegou aqui?
- Começou da última vez que você me vendeu droga. Eu passei muito mal e me levaram para o hospital. Não teve jeito. Saí de lá direto para a clínica.
- E pensar que você se envolveu nisso por minha culpa. Sinto muito. Muito mesmo.
- Deixa pra lá. Eu tenho uma parcela de culpa também. Eu aceitei me drogar por conta própria. Você só serviu de alavanca para que essa estória toda acontecesse. Não precisa se desculpar.
- Julie. Eu acho que gosto de você. Muito. Vender drogas pra você, para mim só serviu como desculpa para poder ficar perto de você.
Olhei para seus olhos, soltando um suspiro pesado. – Você sabe que eu tenho namorado. Não sabe?
- Sei. – ele sorriu triste. – Cara de sorte esse. Espero que você seja feliz com ele. Porque se não for eu juro que... – ele cerrou os pulsos.
- Pára. – eu ri.
- Mas é serio. Eu não suportaria ter ver sofrer. – ele pausou. – Eu sei que você ter começado a se drogar foi por causa do ex-namorado que te bateu. Não pense que eu esqueci. Fiquei mal por saber que ele tinha te batido. Espero que o atual não te dê problemas.
- Não vai dar. Meu namorado é muito importante pra mim.
Ele sorriu torto e seu olhar tinha uma pontada de tristeza. Deixei que seu braço passasse por meus ombros, afinal, não estávamos fazendo nada demais. Ficamos conversando por um tempo.
O tempo estava passando imparcial. Semanas já se passaram, porém parecia uma eternidade naquele lugar. Muitas coisas foram boas ali. Outras, nem tanto. O tratamento continuava “a todo o vapor”.
Eu fazia sessões com um psicólogo. Ajudava muito às vezes. Eu conversava com ele e me fazia sentia melhor sempre quando me sentia mal. Eu também tinha terapias de grupo. Era bom ouvir as histórias de outras pessoas em situações parecidas com a minha. Em alguns momentos eu precisei chorar. Era impossível não se emocionar. Era difícil aceitar a realidade e isso me machucava muito.
Finalmente chegou minha vez de falar. Eu não sabia quais palavras usar para me expressar. Eu só sabia que precisava usar meu coração.
- Fale seu nome e sua história. – o responsável pelo grupo de apoio disse para mim.
- Meu nome é Julie. Juliana. – os olhares se viraram para mim. – Tudo começou quando fiquei órfã. Meus pais morreram e eu sofri muito. Comecei com a bebida. Depois, fiquei grávida do meu ex e ele me largou porque não queria assumir. Acabei perdendo o filho. Ele me bateu também. Resolvi ir mais além e comecei a usar todo tipo de droga. – há essa altura, eu já estava com os olhos cheios de lágrimas. – Foram tantos acontecimentos ruins que eu achei que minha vida iria acabar e que o meu mundo ia cair. Eu achei que me drogando eu iria ficar bem, que iria acabar com a minha dor. No começo era assim mesmo. Aquela sensação de alivio era quase imediata. Depois que o efeito passava, eu voltava a ficar pior. Eu precisei passar mal para que eu abrisse meus olhos. Eu queria mudar tudo, aceitar ajuda. Por isso vim pra cá. – pausei. – E é isso.
- Muito bem Julie. Obrigada por se abri para nós e nos contar sua estória.
Foi assim por um bom tempo. Meu tratamento estava chegando ao fim. Fiquei exatamente um mês, como programado. Foi um mês bastante longo para mim. Mas foi bom. Me sinto mais livre, leve e solta. Sem sarcasmo, sério. Era como se eu tivesse finalmente limpa de toda aquela droga no meu organismo. Isso era ótimo. Juntei todas as minhas coisas e rumei para a saída. Mas não sem antes me despedi do Danilo, vulgo Cabeça. Ele iria ficar mais tempo na clínica. Era notável sua melhora. Fiquei bastante feliz por ele. Ele se despediu de mim com um beijo no rosto, mas foi bem no cantinho da boca, quase perto dos lábios. Ele foi muito atrevido por isso. Uma pena não poder correspondê-lo, mas meu coração pertence a outro.
Entrei no carro da Valentina, do orfanato. Ela me levaria em casa para que eu pegasse outros pertences meus. Assim eu aproveitaria para ver meus amigos, matar a saudade. Sentia muita falta deles. O Pedrinho eu logo encontraria, já que ele já foi para o orfanato. Eu sou muito burra. Fugi para nada. Estou indo justamente para o lugar que eu não queria. Fazer o quê? Agora era espera fazer 18 anos para poder sair. Espero que chegue logo.
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