A Última Carta
1 Piloto
Jesse J. Wright
Levantei de supetão naquela manhã. Por distração, havia adormecido na cadeira, escrevendo. Fecho o caderno sobre a mesa e me levanto alongando as pernas que pareciam mais dormentes que o normal. Depois, ando até o banheiro e paro na frente do espelho, esfregando os olhos de sono. A chuva fina caia lá fora, eu podia ouvir o som que ela fazia ao bater na calha e o vento, quando este soprava a janela com o feiche quebrado. O som era irritante, mas estava tão acostumado que ignorava. Arraquei as calças e deixei água quente cair sobre o meu corpo, enquanto tentava me distrair da força que m dizia para deitar e dormir um pouco mais.
Ainda de toalha, demoro a escolher uma roupa, mas acabo me decidindo por uma calça jeans folgada, blusa branca e um gorro cinza. Deslizo o gorro no cabelo, mas ainda tenho um topete meio desarrumado na frente. Passo o pente e o arrumo antes de descer a escada e bater na porta do meu meio-irmão para acordá-lo.
- Nik! Tá na hora! – eu grito, mas não estou certo de que ele realmente me escutou.
Mesmo assim, desço o ultimo lance da escada e vou direto para a cozinha. Quando abro a geladeira, ouço passos de alguém que corre desesperadamente vindo da mesma direção que eu. Quando vejo Anne surgir no pé da escada, ela tem os cabelos desarrumados e um rosto de quem havia andado chorando.
- Dean?! – ela pergunta esperançosa.
- Sou só eu Anne... – eu repondo com a voz seca.
Ela pousa a cabeça na parede e leva uma das mãos aos cabelos. Vejo o desespero que a acomete e tento ser solidário, por mais que eu não compartilhe da mesma preocupação que minha madrasta tem com o meu pai bebâdo.
- O velho não voltou para casa, não é?
Ela apenas assentiu nervosa.
- Tranque as portas e não deixe que ele entre antes que eu volte. – eu digo pegando um suco na prateleira de cima.
Quando bato a porta, a geladeira desmorona para esquerda, já que o pé desse lado estava quebrado. Eu chuto uma cadeira, e impaciente, pego um pedaço de madeira que deveria estar ali para sustentar a geladeira. Aquela casa estava caindo aos pedaços graças ao meu pai, e a cada dia ficava mais dificil.
Eu sento na bancada e cotinuo bebendo meu suco, quando Nik desce desesperado pela escada também. Ele traz a toalha nos ombros ainda secando o cabelo e dá bom dia a mãe quando passa por ela.
- Sabe que está atrasado, né? – digo em tom de provocação.
- Não enche Jesse. Achei que tinha me deixado para trás.
- Deveria! Para ver se assim você resolve comprar um relógio.
- Eu tenho um irmão mais velho, para que preciso de um relógio?
Dou um tapa nas suas costas e ambos rimos juntos.
Eu e Nik não somos realmente irmãos. Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos, e depois de três anos, meu pai casou-se com Anne, que também já tinha um filho que era apenas um ano mais novo que eu, Nik. Com todos os problemas que passamos com o pai, acabamos nos unindo para suportá-lo, e é como se fosse sangue.
- E Mason?
- Deixe que ele durma. Não ligo. – eu termino o suco e deixo a caixa em cima da bancada.
- Acho melhor você acordar seu irmão, Jesse. – Anne diz cuidadosamente, já que conhece o temperamento explosivo que Mason parece ter herdado do meu pai.
Mason era meu irmão de sangue, mas ele é um ano mais velho que eu. Depois da morte da minha mãe, Mason se reclusou. Ele se tornou incapaz de demonstrar afeto, mesmo por aqueles que sempre lhe foram gentis. Mason virou um garoto arrogante, com um ego maior que seu tamanho, que quase transformou a casa em protíbulo. Eu evito contato com ele, mas moramos na mesma casa, somos irmãos, e ambos odiamos o meu pai. De qualquer jeito, a forma como Mason destrata as pessoas me envenena e a cada diz ele se torna mais parecido com meu pai.
Com toda má vontade do mundo, subo as escadas e bato na porta de Mason. Ela se abre e eu vejo Mason adormecido com metade do corpo para fora da cama, quase caindo. Eu pego um travesseiro no chão e o arremesso na cabeça dele, que toma um susto e levanta num reflexo.
- Perdeu a noção?! – ele parece para cima de mim, mas eu desvio.
- Achei que não gostaria de chegar atrasado no primeiro dia. – eu sorrio ironicamente – universitarias a vista... Não é isso?
- Vai a merda. – ele senta na cama e puxa um cigarro da cabeceira.
- Anne já disse para não fumar aqui.
- E daí?
Ele me dá as costas e eu desço de novo. Mason consegue esgotar o bom humor de qualquer um, principalmente com o fedor do seu quarto. Fede a cigarros e cerveja. Eu já não suportava mais ficar ali, então pego minha mochila no sofá e as chaves da moto e puxo Nik pela parte de trás da camisa.
- Tranque as portas assim que Mason sair, tá bom? – eu digo a Anne. – Espero que tenha um bom dia.
- Bom dia para vocês meninos. – ela diz pouco antes deu bater a porta de casa.
Eu subo na moto e Nik fica de carona. Nik coloca o capuz e eu me dou por feliz por estar de gorro, odeio molhar o cabelo com a chuva. Arranco a moto de uma vez e dirijo tranquilarmente pelas ruas de Albuquerque. A escola fica a quatro quarteirões de onde moro, bem no centro de tudo. Restaurantes, bares, lojas e bancos... Tudo ao lado do J St. Snow High School. Nome bem estranho para uma escola que fica no Novo México, onde a neve não faz exatamente parte do nosso dia a dia. Pouco me importa o nome, o ensino era bom e eu e meus irmãos tinhamos descontos absurdos, que davam para conciliar com as compras do mês. Cada um de nós tinha um trabalho de meio periodo, e ajudávamos em tudo que podíamos, nem sempre era o suficiente.
Quando chegamos, logo me dirigi a uma vaga que costumava estacionar. Aquela é a vaga favorita de Mason e costumo deixá-lo estacionar ali por cortezia, mas hoje estava muito puto para qualquer gentileza. O primeiro dia de aula é sempre o mais dificil, e o mais chato.
- Te vejo depois Jesse! – Nik disse acenando enquanto se dirigia a entrada.
Eu acenei de volta, desci da moto e cruzei os braços apoiado nela. Olhei em volta, enquanto via garotos e garotas pulando uns nos outros em abraços demorados, cumprimentos comuns nas primeiras semanas de aula. Encontrei duas ou três meninas que eram dignas da minha atenção, uma em particular com um rosto muito familiar, mas concerteza era aluna nova, por mais que estivesse rodeada de veteranos. Me concentrei nela por alguns minutos. Cabelos pretos até os ombros, lisos, olhos castalhos claros e uma pele amarelada. Uma beleza imensurável que mal podia descrever.
Antes que tivesse a chance de me aproximar, o sinal toca e todos começam a entrar. Eu não estava nem um pouco interessado em assistir os primeiros horários, principalmente ouvir apresentações de professores dos quais já conheço. A chuva dá uma trégua, e eu caminho no pátio sentindo o cheio bom de grama molhada, me dava pequenos arrepios. Quando vejo apoiada de baixo de uma arvore, lendo um livro que não consigo identificar de primeira, a garota nova.
Eu penso em me aproximar, mas sou o tipo de garoto que as garotas julgam como “sem futuro”. Mason leva mais jeito com mulheres do que eu, por mais que só as use para sexo e as chute da cama dele no dia seguinte. Eu tomo coragem, já que estava intrigado com ela e sinceramente, ela era muito bonita para passar despercebida. Identifico o livro finalmente, As crônicas de Gelo e Fogo, o primeiro da serie, A Guerra dos Tronos, que inclusive já tinha lido. Mas na minha mochila, eu carregava o Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brönte me fascinava.
- Quando você chegou? – ela levanta os olhos quando paro diante dela. Eu fico constrangido, mas apenas levanto as sonbrancelhas.
- Você não me viu chegando?
- Na verdade... Sou meio cega. – ela abre um sorriso simpático, que me paraliza por alguns segundos. Ela fecha o livro e tenta esplicar melhor. – 4 – ela aponta para o olho direito. – 3,75. – e por fim o esquerdo.
- Não me impressiona que não tenha me visto chegando. – eu dou uma risada. – Não tem óculos?
- Tenho, mas não gosto de usar.
- E por que não?
- É feio, velho... E está meio torto.
- Posso ver?
Ela puxou óculos no estilo aviador, com astes douradas meio desbotadas e se esticou sentada para me entregar. Eu analisei por alguns segundos e vi que uma das pernas estava meio frouxa e por isso entortava. Eu devolvi os óculos, me abaixei e abri a mochila. Eu peguei a menor chave de prata que eu tinha e peguei delicadamente os óculos da mão da garota. Eu apertei a perna frouxa e chequei duas vezes antes de entregá-lo.
- Obrigada... – ela disse sem jeito. – Mas ele continua muito feio.
- Pelo menos não está mais torto. – ela ri junto comigo.
- Sou Charlotte Mayhew, – ela estende a mão para mim e eu fico meio paralizado na hora de respondê-la. – e você é...
- Jesse Wright.
- Ah... Ouvi falar de você.
Meu estômago se revirou. Até a novata já ouvira falar de mim, o que não era nenhuma surpresa. Eu tento não parecer serio, mas a minha expresão era fria, meu sorriso havia sumido. Os boatos sobre os James Wright não eram os melhores, normalmente eram consequência dos atos irresponsáveis de Mason. Mas eu não poderia omitir a minha culpa, também não era um dos melhores alunos, um dos mais inconsequêntes. Não me adimira que uma garota novata já não soubesse quem eu era, com certeza deveria ter ouvido de algum fofoqueiro, ou alguma ex-namorada do Mason.
- Espero que tenham sido coisas boas. – minha garganta quase secou.
- Talvez... Você tem um irmão, não é?
- Tenho dois. – eu sorrio desconcertado.
- Mason, certo?
Mason. Claro que ela ia falar no Mason.
- É o meu irmão mais velho. – eu fico frio. – Te aconselho a ficar longe do veneno.
Ela soltou uma gargalhada e eu enfiei a mão nos bolsos. Ela me analizou um pouco e depois voltou a sorrir.
- Bonitas tatuagens. Tem um significado?
- Vários. Mas a história é longa.
- Acho que temos tempo.
Ela pisca os olhos e eu sorrio. Eu sorrio de novo, ela tinha um doce sotaque familiar do Arizona. Eu me aproximo e sento ao lado dela, limpando os sapatos na grama que só estava umida.
- Por que me perguntou sobre o Mason? – sou direto e ela engole a seco.
- Era só uma pergunta.
- Não foi o que pareceu.
- Você não se lembra de mim, não é? – ela cruza os braços e aperta os lábios, e eu continuo serio. Assinto como não e ela sorri meio torto.
- Eu fui a primeira namorada do Mason. E...
Antes que ela pudesse terminar a frase, ouvi o motor de uma moto arrancando. Antes que eu fosse capaz de qualquer reação, Mason desce da moto e caminha em passos largos na minha direção, gritando palavrões.
- O que está fazendo ai, Jesse? – ele estende a mão e levanta Charlotte. Ela o beija rapidamente e se vira para mim. – Fique bem longe da minha namorada.
“E sou a atual”. Eu deveria ter imaginado...
Notas finais
QUEM VAI ME PARAR?
Quando Mason decide dar uma festa, Jesse tenta alertar Charlotte que o irmão não é o mesmo garoto que ela conheceu na infância. Ao mesmo tempo, Jesse não pode deixar de se sentir atraído por Charlie, e logo os problemas aparecem quando a festa começa.
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