A Última Aurora
8 O Dia Depois da Escolha
A Noite não desapareceu depois do perdão. Continuava a cobrir Nightreign como sempre fizera, densa e silenciosa. Ainda assim, algo tinha mudado. Não no mundo mas entre eles.
O Guardian acordou primeiro. A Recluse dormia de lado, o rosto parcialmente oculto pelo manto, os cabelos espalhados pelo peito dele. Durante algum tempo, limitou-se a observá-la, como se ainda precisasse de confirmar que ela estava ali, real, e que a decisão tomada não se desfizera com o amanhecer.
Havia marcas no corpo dela que ele não reconhecia: cicatrizes antigas, finas como linhas traçadas com cuidado. Passou os dedos por uma delas, devagar. A Recluse mexeu-se, mas não acordou. Apenas se aproximou mais, instintivamente.
— Ainda estás aqui — murmurou ela, com a voz carregada de sono.
— Estou — respondeu ele. — E vou ficar.
Ela abriu os olhos. O olhar era diferente do que ele conhecera antes: menos defensivo, mais cansado, mas estranhamente sereno. Ergueu a mão e tocou-lhe no rosto, como fizera tantas vezes antes da verdade mas agora sem receio.
— Não sabes o que isso me custa — disse. — Nem o que me salva.
Levantaram-se juntos e prepararam-se para seguir caminho. Os gestos eram simples: ele ajustou-lhe o manto, ela apertou-lhe as correias da armadura. Nenhum comentou o quanto aquelas pequenas rotinas pareciam novas, quase sagradas.
Durante a viagem, encontraram vestígios do povo do Guardian ruínas de habitações, objectos esquecidos. Ele parou diante de uma lança partida, enterrada no solo.
— Eles não voltam — disse.
A Recluse aproximou-se, sem palavras, e pousou a mão sobre a dele. Não pediu perdão. Não tentou justificar-se. Limitou-se a ficar ali, partilhando o peso da memória.
— Não voltam — concordou. — Mas não serão esquecidos.
À noite, sentaram-se juntos, lado a lado, sem a urgência que antes marcara cada momento. Quando se deitaram, não foi para fugir à dor, mas para descansar nela. O toque entre eles era lento, cuidadoso. Cada beijo parecia uma pergunta silenciosa: Ainda estamos aqui?
E a resposta vinha sempre da mesma forma. Sim.
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