Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a morangochan. A morangochan está rápida, não? Comemorem, mas fiquem tristes porque "A órfã doce" está esperando por mais alguns capítulos para acabar (e dar inicio a continuação huehue). Preparem a xana para não terem um AVC e vamos lá! Boa leitura.

“15/11/2025. Recebi o convite para o casamento de Rosalya e Leigh. O casamento seria na cidade vizinha e até Lana havia sido convidada. Kentin ficou meio aborrecido porque Alexy o convenceu a ir ao shopping conosco. Além de termos andado muito no shopping, Kentin ainda teve que carregar algumas sacolas para mim. Alexy teve até que escolher um vestido para mim. Para ser sincera, não sabia como deveria ser um vestido para ir a um casamento. Nunca havia ido a um. Alexy me contou que o vestido que comprou para mim era igual ao de Angela, pois as madrinhas do casamento teriam que ir vestidas com roupas iguais”.

A dama de copas estava dentro de um pequeno bolso do vestido. Se ela atraísse sorte, faria com que Lysandre fosse ao casamento. Entretanto, eu tinha quase certeza que ser esperançosa demais não iria me levar a nada. Desde cedo eu sabia que ele não iria comparecer ao casamento. Lysandre havia desistido da Sweet Amoris, do F4 e de mim.

E Castiel continuava por lá, incomodando minha visão e meu coração. Eu e Angela estávamos do lado esquerdo do altar e Castiel e Kentin do lado direito. De vez em quando, encarava Castiel como se fosse fuzila-lo a qualquer momento. E ao analisar seu olhar, notei que ele olhava para o sútil decote do vestido de Angela. Kentin me chamou atenção com alguns gestos discretos e me advertiu com o olhar. Claro, eu não poderia sair nas fotos fazendo cara de bunda.

Leigh sorria, olhava para a porta do salão e respirava fundo. Ele passou os olhos pelos convidados e pelas madrinhas. Abriu um sorriso gentil e desviou o olhar para outros lugares do salão. Um pouco de sua personalidade e da sua fisionomia me faziam lembrar seu irmão. Suspirei e encarei o chão.

– Algum problema? – Angela perguntou.

– Não. – respondi com um tom seco.

Não queria olha-la nos olhos. Não queria aceitar que a “correta Angela” era aquela que estava traindo o noivo com o idiota do Castiel. Por um minuto me perguntei se o noivo dela era tão ruim assim para fazer com que ela o traísse com Castiel. E eu me odiei por ter sentido aquela recaída quando os vi juntos. Tive que passar todos aqueles dias remendando meu coração para estar tudo pronto para aquele casamento. Enchi meu cérebro com todas as pisadas em falso que Castiel havia dado comigo, pensava nos maus momentos sem deixar espaço para os bons, não podia.

A música começou a ecoar no salão, Leigh mantinha o sorriso gigante em seus lábios. Rosalya entrou no salão de braço dado com o padrasto. Ao encarar Castiel, vi que sua expressão não era de felicidade. Talvez ele quisesse o pai ao invés do padrasto.

Assistindo aquele evento, pude concluir que aquele casamento tinha sido a coisa mais bonita que eu já havia presenciado. A união de duas pessoas que provavelmente iriam se amar e se aguentar até o ultimo dia de suas vidas. Tive que conter as lágrimas por um segundo. Talvez lá no fundo eu estivesse pensado em fazer aqueles planos com Lysandre. Naquele momento tinha me pego imaginando como seria se eu subisse em um altar com Lysandre sendo meu noivo.

Havia chegado o momento mais “decisivo” do casamento. A hora do “sim” da noiva. Todos a encaravam, Rosalya agora era o centro das atenções do evento. Ela mantinha um sorriso de felicidade, assim como Leigh. Seus lábios se moveram afim de falarem algo.

Um barulho na porta do salão chamou a atenção de todos, até mesmo dos noivos. O telhado de vidro do salão foi quebrado e de lá saíram, agarradas a cordas, duas pessoas com máscaras de gás e armas em porte. Mais destes atravessaram a porta do salão. Os primeiros serem rendidos foram os noivos, pelos dois primeiros que saíram pelo telhado. Um apontava a arma para a cabeça de Leigh, que acariciou o rosto de Rosalya, que chorava, enquanto outros homens já a algemavam.

Tudo foi muito rápido, mas os homens foram ágeis e seletivos. Algemaram a mim, Kentin, Rosalya, os gêmeos e Lana. A formação deles era impressionante. Cada tipo de arma para a distancia em que estavam. Além disso, eram astutos e firmes. Nem ao menos deu tempo para reagir. Olhei para Kentin, ele negava com a cabeça. Entendi aquilo como um pedido para não fazer nada. Assenti com a cabeça e fiquei quieta.

O salão estava fechado e os convidados permaneciam eufóricos e alguns choravam.

Ouvi a discussão entre os dois que estavam perto dos noivos:

– Seu idiota! Era para ter jogado o gás primeiro!

– Você estava com o gás!

– Então joga logo!

Bombas de gás foram lançadas para acalmar todos os convidados eufóricos. Inclusive nós, os algemados. Não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. Seria outro sequestro? Aquilo já estava se tornando ridículo. Por que levar Lana e os gêmeos? Se fosse por algum interesse financeiro, deveriam levar o próprio noivo que acabara de herdar a herança milionária do pai que acabara de falecer. Tossi um pouco por conta do gás que se espalhava e bloqueava minha visão. Aos poucos minha visão foi embaçando e eu fui adormecendo.

Acordei com a voz de Kentin me chamando. Estávamos algemados e presos em correntes não tão grossas chumbadas ao teto. Estavam todos lá, mas uma das correntes e algemas estavam sem ninguém para prender. Daí se ouvia ecoar o som de gemidos de dor na sala ao lado.

– Lynn?

– Sim? – respondi com os lábios trêmulos pelo medo.
– Não se preocupe, vamos dar um jeito de sair daqui. Eu juro. – ele tentou me tranquilizar.

A sala era branca, com paredes largas e longas. Havia uma mesa prateada com cadeiras de mesma cor. Alguns pilares que iam do chão ao teto, quatro câmeras que monitoravam a sala e uma pequena caixa de som que parecia ser ligada a um interfone. A porta de saída parecia ser firme, só abria com um cartão de identificação. Pela posição das correntes, acabávamos sendo obrigados a ficar de pé. Meus braços estavam dormentes.

– Meus braços estão doendo. – choraminguei.

– Tente não pensar neles. – disse Kentin.

A porta se abriu. Todos o encaramos com um só movimento. Um homem que aparentava estar na casa dos 40 entrou na sala. Veio com uma ficha em mãos e um gravador de voz.

– Ok. Vou começar a sessão do interrogatório. – ele olhou para a ficha. – Lana. – ele falou o nome da mesma que tremia ao meu lado. – Aqui está você! – ele caminhou até ela. – Lembre-se que se você se recusar a responder, irá para a sala ao lado.

Ao encerrar a frase, outro grito veio da sala ao lado. Era um grito de mulher. Deveria ser Rosalya. Olhei para Kentin cheia de pânico, ele me olhava igualmente. Lana tentava segurar as lágrimas sem sucesso algum, tentava não demonstrar desespero, mas suas lágrimas faziam seu rosto parecer uma cachoeira.

– O que quer saber?

– Sessão número 78. Interrogatório. – ele falou próximo ao gravador. – Quando seu padrasto começou a traficar drogas?

– Como?

– Quando seu padrasto começou a traficar drogas?

– Não sei nada sobre isso. Só sabia que ele bebia, nada mais.

– Onde ele está?

– Eu não faço a mínima ideia.

– Não me faça perder a paciência. – o homem suspirou, sacando uma arma de choque. – Se não me contar, não pararei até falar.

– Eu juro que não sei onde ele está! – Lana exclamou. No mesmo momento o homem aproximou o aparelho de seu pescoço. – A ordem judicial! – ela gritou, fazendo-o parar. – Ele ameaçava a mim e a minha mãe de morte. Depois que conseguimos a ordem judicial, não tenho contato com ele há mais de um ano. Por favor, não me machuque. – ela falou rapidamente, tendo que recuperar o fôlego assim que encerrou o pedido.

O homem mordeu os lábios, frustrado. Deixou a sala com Lana chorando e todos chocados e amedrontados. Cada um de nós estava lá por algum motivo, fiquei me perguntando o motivo que me levou até aquela sala.

– Por que pegaram você? – perguntei a Kentin.

– Me pergunto o mesmo.

Meia hora depois uma menina entrou na sala. Uma garota mais nova que eu, loira de mechas rosadas. Ela jogou uma ficha em cima da mesa e veio em nossa direção. O pior de tudo era que eu tinha impressão de ter visto aquela garota.

– Nina? – Armin interrogou.

– Silêncio, seu porco estupido!

Ela veio em minha direção, meu coração acelerou. Ela permaneceu em silêncio, ora me encarando, ora encarando Kentin.

– Lynn. – ela me olhou, dando um sorriso malicioso, pegando o gravador e aproximando da boca. – Interrogatório 79. Onde está o porcaria do Louise?

– Louise? O...

– Sim. O “tio fadinha”. O traficante de armas. Onde está?

– Ele morreu há vários anos.

– É claro... Ele morreu. – disse ela soltando um suspiro. Logo após voltou com uma bofetada em meu rosto. – ONDE ESTÁ?!

– Ela disse que não sabe! – Kentin bradou.

A garota tirou uma pistola da cintura e apontou para Kentin.

– Hei! Hei! Não atire! – exclamei. – Estou falando a verdade. Ele morreu!

– Ele não pode ter morrido. Nós não o matamos.

– Ele só poderia morrer pelas mãos de vocês?

– Escute, seu linguarudo. – a garota novamente apontava a arma para meu irmão. – Diga mais uma palavra que eu meto a arma na sua boca e pinto a parede com seus miolos. Não somos como a quadrilha que vocês derrubaram facilmente, ok?

– Como sabe sobre a quadrilha? – perguntou Alexy.

– Sou eu quem faz as perguntas aqui. E não se preocupe, o cara que irá comprar você virá rapidinho! – a loira respondeu com um sorriso no rosto.

O desespero de Alexy transbordou no mesmo instante enquanto Armin tentava acalma-lo. Vende-lo... Poderia ser porque Alexy é o portador de uma das síndromes mais raras do mundo. Meu coração estava apertado e tudo que eu sentia vontade era de chorar e pedir ajuda a Deus, se é que ele ainda me escutaria.

– Você não pode provar que ele está morto. Não queira ir para a sala de tortura como a policial metida a valentona. Eu não sou como o babaca do cara que veio até aqui. Não tenho remorso e nem piedade. Então é melhor abrir a porra da boca. Agora!

– Ele era meu pai. E mesmo que só tivesse me devolvido ao orfanato, como diabos eu saberia onde ele está? Estou com outra família agora.

– Claro. Com a família do Ken, não? – ela olhou para o mesmo. – Seu pai deve estar se revirando no tumulo por saber que o filho dele é um banana.

Kentin mordeu os lábios e respirou fundo. A sala ficou em silêncio e o único som que se ouvia era o choro abafado de Alexy.

– Você era o próximo que eu iria interrogar. – confessou a garota. – Mas quero terminar primeiro meu trabalho com essa aqui. – ela apontou com o queixo para mim.

Nossa conversa foi interrompida com um sinal agudo e uma voz saindo de um rádio que estava preso ao cinto das calças de Nina:

– Nina!

– O que é, porra? – ela respondeu, berrando.

– O cara da máfia.

A loira frustrada abriu a porta para a passagem de outra pessoa. Um moreno alto e forte entrou na sala. Deu de ombros com a cara emburrada da loira e deu alguns passos a frente.

– Qual deles?

– Ainda não sabemos.

– Como assim vocês não sabem? – retrucou o moreno.

– Ainda não terminei de interrogar todo mundo, mas sei que é um desses dois. – ela apontou para Armin e Alexy.

Por trás da voz exigente, havia um sorriso escondido que a loira parecia não notar. Alexy ainda chorava, mas não fazia barulhos e encarava o moreno com os olhos vidrados.

– Não seria esse? – o moreno aproximou-se de Alexy e segurou suavemente seu queixo.

– Hei, você! Não toque na mercadoria! – Nina advertiu. – Eu estou pouco me fodendo se a máfia vai usar ele para experiências em laboratório ou se você simplesmente quer comprar alguém pra foder com você. Mas só pode pega-lo quando pagar.

– Ok. – o garoto suspirou. – Aqui está o seu pagamento.

O moreno retirou uma arma com um silenciador no cano e disparou contra a testa da menininha loira. A cena parecia ter sido vista por mim em câmera lenta. Primeiro o disparo e depois o projetil que atravessou e espatifou a cabeça da menina. Por impulso, eu fechei os olhos e virei o rosto de lado. Mas meus olhos já haviam captado aquela cena horrorosa. Aquele cara matou a menina sem remorso. Talvez eles fossem pessoas parecidas.

– Grosseira de merda. – ele disse atirando nas correntes de Alexy.

Alexy o abraçou o garoto com toda força enquanto balbuciava algo que eu não conseguia entender.

– São seus amigos, Alex? – o moreno nos olhava, Alexy confirmou com a cabeça. – Oi, Armin.

– Ah, Andrew. Nunca fiquei tão feliz em te ver.

O segundo disparo foram nas correntes de Armin. Mais três balas foram gastas e todos estavam livres das correntes. O moreno remexeu pelo cadáver da loira no chão. Lana segurou meu braço enquanto tremia e choramingava.

– Acho que vou vomitar. – Lana falou referindo-se a cena macabra que acabara de ocorrer – Não acredito que esse garoto fez isso e continuou agindo normalmente como se nada tivesse acontecido.

Andrew tomou a pistola da menina caída, o cartão de acesso e um chaveiro, do qual servia para destrancar as algemas dos nossos pulsos.

– Ok. Quem aqui sabe atirar? – ele perguntou pegando a ficha que a loira havia deixado em cima da mesa.

Eu, Kentin e Armin levantamos o braço. O moreno distribuiu três pistolas que havia tirado de seu casaco.

– Ah, merda... – ele murmurou. – Quem é Lynn?

– Eu. – respondi.

– Estavam atrás do Louise? – confirmei com a cabeça. – Que perda de tempo.

Em uma associação rápida, apontei a arma para ele.

– Nossa que interessante. Eu sempre soube que ele tinha sido assassinado por pessoas da máfia. E coincidentemente você é da máfia, não? – minha respiração acelerou enquanto lágrimas de ódio escorriam pelo meu rosto.

– Lynn abaixa a arma pelo amor de Deus. – Alexy implorou.

– Seu filho da puta. – bradei para o moreno que mantinha um sorriso no canto da boca e nem havia se indignado a levantar a arma para mim.

– Sabe ao menos se ele foi morto pela máfia Alemã? – o moreno perguntou, levantando as mãos pedindo uma chance para conversar. – Meu pessoal sabia sobre a reputação que ele tinha. Ele foi morto na época em que eu ainda não era um membro oficial. Mas quem garante que não foi a máfia de outro país ou até mesmo outra quadrilha qualquer?

– E quem não me garante que não foi você e seu pessoal? Você é só um estranho que entrou no meu caminho, não? Por que eu deveria acreditar em você?

– Lynn. Baixa a arma. – Kentin mandou. – Agora, vamos. – ele forçou meu braço para baixo. – Isso você resolve com ele depois. Primeiro temos que sair daqui vivos.

O desconhecido apenas sacudiu a cabeça negativamente e mudou o assunto.

– Estou com agentes das Forças Especiais aqui. – o moreno prosseguiu. – Já desabilitaram o sistema de vigilância. – ele apontou para as câmeras da sala. – Mas ainda não sei como está indo o processo. Deu interferência no sinal do comunicador e eu não pude mais ter acesso as informações.

– A Rosalya não é membro das Forças Especiais? – Kentin perguntou.

– Exato. – ele respondeu. – Um dos membros da máfia Alemã projetou esse prédio. As paredes daqui têm uma passagem que levam para a sala vizinha. Usaram essa estratégia caso houvesse incêndio ou precisassem fazer uma fuga de emergência.

– E como é que a máfia está trabalhando junto com uma unidade especial da policia? – Kentin interrogou. – Vocês são criminosos e traficantes.

– Somos de outro país e isso é questão de interesses. As pessoas que sequestraram vocês participam da máfia local e estão contra quaisquer pessoas que tenham ligação com tráfico ou com pessoas de outras máfias ou quadrilhas. – Andrew umedeceu os lábios. – Digamos que o safado do governador ofereceu uma nota preta para a máfia Alemã se infiltrar aqui e destruir toda a base disso e matar o chefão. Pois seria um problema a menos para o país. Mandaram-me aqui porque eu sou um novo membro e nunca iriam conseguir informações sobre mim. Já havia contatado o pessoal há certo tempo. Soube do sequestro antes de acontecer, quem eles iriam pegar e por que. Entrei no negocio porque eles iriam vender o portador da síndrome rara para alguém que oferecesse mais. Eu dei um valor e eles aceitaram.

Ele poderia ter evitado o sequestro, mas fomos usados como iscas para que ele pudesse pegar os homens da máfia desprevenidos. Quem iria imaginar que um cara da máfia alemã iria conhecer um dos sequestrados? De qualquer forma, mesmo que ele tenha nos libertado, ainda sentia raiva. Raiva por o pessoal dele ser um forte suspeito na morte do Louise e por ele nos usar como fantoches. Sei que todo o pessoal também sentia raiva por ter sido usado, mas eles tinham receio de falar e passarem a imagem de mal agradecidos. Eu não tinha vergonha de passar aquela imagem.

– E a Rosalya? – Armin perguntou. – Se ela é membro das Forças Especiais, ela deveria saber, não?

– Ela sabia. E nós sabíamos que haveria um sequestro, mas não sabíamos que seria no casamento dela. E também não sabíamos que tipo de abordagem eles iriam usar. Ela deve ter se recusado a falar o que sabia.

– E como ela está? – Lana perguntou receosa pelos gritos que ouvira anteriormente. Eu sentia o mesmo que ela.

– Não sei. Não tenho informações sobre ela, mas sei que eles a capturaram com intuito de conseguirem informações sobre as Forças Especiais. – ele respirou fundo. – Acho que já é seguro sair. Meu pessoal está se infiltrando no prédio. No total somos quatro atiradores, se ficarmos em trios, há uma chance maior de escapar. O objetivo é sair do prédio. Agora o modo de sair é o que fode.

Eu, Kentin e Lana formamos um trio e Andrew e os gêmeos formaram outro. Andrew nos deu um comunicador para que tentássemos entrar em contato quando o sinal voltasse ao normal.

– Vão atentos, mesmo que o sistema de câmeras esteja desativado. Esse prédio tem dez andares e não sei quantas pessoas armadas estão aqui hoje. Peguem esse cartão de acesso, tenho um equipamento que pode tapear o sistema de segurança dessas portas. – ele entregou o cartão a Kentin. – Normalmente a passagem das paredes fica por aqui...

Ele bateu na parede até escutar um som oco, logo depois deu uma investida de ombro e a parede desabou.

– Vão! E boa sorte.

Kentin bateu na parede oposta e fez o mesmo que o moreno que acabara que sair com os gêmeos. Lana ficava entre mim e Kentin. Kentin ia à frente enquanto eu checava à retaguarda. Não poderíamos sair pela frente naquele momento, já que o movimento maior seria no corredor principal. Teríamos que achar algum elevador ou escadas para descermos. O pior de tudo é que nem sabíamos em que andar estávamos.

– Deveria ter aprendido a atirar quando você se ofereceu para ensinar...

– Não tem problema, Lana. – sorri.

– É, pior seria se Castiel estivesse conosco. – Kentin brincou.

Na sala ao lado havia um rifle e um fuzil, ambos com uma quantidade de munição considerável.

– Bom, não são tão inteligentes assim. – Kentin deu de ombros. – Não se deixa armas na sala ao lado da dos prisioneiros.

– Toma Lana. – entreguei minha pistola a ela e peguei o rifle.

Kentin pegou o fuzil e colocou a pistola na cintura, junto com a munição. Lana segurava a pistola automática com as duas mãos trêmulas. Kentin não pôde avançar para a sala ao lado. Havia barulho vindo de lá.

A luz do painel de segurança da porta piscou, alguém havia passado o cartão de acesso. Esperamos entrar e fui a primeira a disparar, um disparo na perna assim que vi que não era nenhum conhecido. Uma bomba de gás foi jogada no quarto. Kentin avançou contra a falha na parede e foi para a próxima sala. Já havia fumaça por lá, mas havia uma coluna larga que ia da parede ao chão que poderia ser usada como escuro contra os tiros. Lana continuava encolhida entre nós dois, Kentin aguardava se alguém começaria a atirar, pois também haviam jogado granadas de fumaça naquele quarto. Minha posição era a mais perigosa, estava eu apontando para a entrada na parede por onde passamos, sendo alvo fácil para qualquer um.

– É pra hoje, Kentin. – reclamei.

Ao dar uma mexida sem querer na mira do rifle, notei que havia algo diferente. A mira possibilitava uma visão infravermelha. Assim que vi, contei a Kentin.

– Então checa esse quarto pra gente ir. – Kentin pediu.

Troquei de posição com Kentin e chequei o quarto. O som do primeiro disparo atingiu a coluna, justamente de onde eu acabara de sair.

– Vai, vai! – Kentin gritou saindo de sua posição e indo em direção a porta.

– O que vai fazer? — perguntei.

– Eles já devem estar se posicionando nos quartos. Já sabem que estamos atravessando pelas fendas na parede. – kentin passou o cartão de acesso no painel.

Mais uma granada de fumaça foi arremessada, da qual Lana teve a iniciativa de chuta-la para o corredor por onde iriamos passar. O braço de Kentin sangrava. Pelo visto o tiro que acertou a coluna da sala havia pegado de raspão.

– Estou bem. – ele falou a me ver encarar a ferida. – Vamos.

A velocidade era o que precisávamos mais. Havia agradecido a mim mesma por não ter escolhido ir ao casamento com o salto que havia pensado em ir. Havia ido com uma bota curta de salto baixo e grosso, já facilitava as coisas. Se fossemos apenas pelos quartos, seria uma boa por a maioria conterem colunas que poderiam servir para nos abrigar dos tiros, mas ao mesmo tempo, se muitos inimigos se acumulassem nas salas, teríamos problemas com a munição. Combate direto seria a melhor opção. Sem contar que seria mais rápido e daria menos tempo para que eles fizessem uma formação que nos bloqueasse das saídas.

Seguimos atirando pelo corredor, Kentin passou o cartão de acesso para uma sala. Abaixei-me para pegar um pente de munição que havia visto no chão. Quando entramos na sala, havia cinco pessoas. Kentin conseguiu atirar em quatro, a quinta estava com uma granada em mãos, e pela aparência era uma granada incendiária. Como a pessoa que segurava a granada era uma mulher, pensei em optar por combate corpo a corpo, talvez tivesse mais chances para impedi-la. Em uma tentativa de livrar-se de mim, a mulher subiu na sacada de mármore. A adrenalina pulsava no ritmo que meu coração batia. Corri até a mulher e me atirei em cima dela para impedi-la de atirar a granada na sala. Ela estava com uma mochila paraquedas nas costas. O ultimo tiro que eu dei com o rifle de assalto antes de deixa-lo cair, atingiu o lado esquerdo do maxilar e atravessou o lado direito da cabeça da mulher. Consegui abrir o paraquedas enquanto me agarrava ao seu cadáver. Logo que avistei outra sacada de mármore a que eu podia me agarrar, manobrei com dificuldade o paraquedas em direção da mesma. A granada incendiaria estava em minhas mãos e pulei na sacada de mármore esperando encontrar inimigos.

Tudo que encontrei foi um homem de cabelos longos vestindo o uniforme das Forças Especiais. O homem apontou a arma em minha direção e disparou. O projetil sequer me fez um arranhão, apesar de quase me ferir na perna. O tiro passou pelas camadas do meu vestido, formando um pequeno rasgão entre as camadas de tecidos.

– É você? — interroguei o encarando.

O homem suspirou aliviado ao me reconhecer como aliada. Seu nome era Dimitry, e fazia vários anos que eu não o via.

– Desculpe, senhorita.

Pulei da sacada para o chão da sala e corri para abraçar Dimitry. Apesar de saber que Dimitry não gostava de contato físico desse gênero, aquele abraço poderia ser uma exceção. Tanto que ele até o retribuiu.

– Relatório. – ele pediu, me largando do abraço. Ele sempre me fazia aquela pergunta quando estávamos fazendo uma missão de treinamento na escola militar.

– Estou cansada, com fome, farta desse vestido e tenho que achar meu irmão que está três andares acima deste.

– Seu irmão está com o Andrew ou com algum participante especial?

– Fala do pessoal da máfia?

– Prefiro chama-los de participantes especiais.

– Não, ele está com uma amiga minha.

– Ela sabe atirar?

– Não, mas meu irmão estudou em uma escola militar, então eu acho que ele conseguirá se sair bem.

Dimitry sorriu e afagou minha cabeça.

– Vocês devem se dar muito bem.

Quis dar uma risada diante da ingenuidade de Dimitry. Nem sabia se Dimitry sabia que eu tinha atirado nas costas de um garoto. Imagine só se ele soubesse que o tal garoto hoje era meu irmão.

– Estou orgulhosa de você. – confessei, olhando para seu uniforme.

– Você atravessou três andares sem usar escadas ou elevador. Também me orgulho de você.

Dimitry me armou com uma pistola reserva que tinha.

– Viu a Rosalya?

– Não, mas acho que ela não está muito bem. Quando fomos raptados, ficamos em uma sala onde dava para ouvir com clareza os gritos de uma mulher. E já que Rosalya não estava conosco, os gritos deveriam ser dela.

– Isso não é nada bom. – disse Dimitry mordendo o lábio inferior.

– Só um minuto. – pedi.

Fui até a sacada e me apoiei de costas, levantando a cabeça para cima. Kentin estava olhando para baixo, talvez por achar que eu não tivesse conseguido escapar. Quando me avistou, fez uma expressão de alivio. Usei o polegar e o indicador formando um circulo, garantindo que estava tudo ok. Logo após gesticulei para que ele continuasse a seguir.

Logo após que sai de perto da sacada, tratei de arrumar aquele vestido. Aproveitei o rasgão que Dimitry havia feito agora a pouco e o puxei, rasgando o vestido longo na altura da coxa.

“Alexy me mataria se visse isso”. – pensei.

– Poderia me dizer o motivo pelo qual me raptaram? Tipo, eu entendo que estavam procurando o Louise, mas por que me raptarem se eu já fui adotada por outra família?

– Digamos que você foi a ultima a ter contato com ele. Acharam que ele estava se fingindo de morto e que você provavelmente poderia ter mantido contato por todo esse tempo.

– Eu já ouvi o boato sobre ele traficar armas, e uma menina grosseira que me interrogou confirmou isso. Se ele foi morto por outra máfia, o que esse pessoal quer com ele?

– Ele era aliado da máfia local e morreu tentando se aliar com uma máfia estrangeira. No caso, estavam procurando ele porque ele os traiu. – Dimitry suspirou. – Sabe a quanto tempo eles estavam tentando te raptar ou te matar para chamar atenção do Louise?

– Estavam querendo me matar?

– Sim. A Rosalya fez um relatório para as Forças Especiais do qual o seu irmão passou as informações. Temos certeza que foram eles quem provocaram o acidente de carro, sabotaram seus exames e invadiram sua casa.

Mordi o lábio inferior. Meu coração acelerou e se encheu de angustia.

– Diga-me: foi a máfia Alemã quem matou o Louise?

– Bom – Dimitry suspirou. – Tenho quase certeza que sim. Mas não fique com raiva do Andrew, ele não tinha nada a ver com a máfia nessa época. E a maioria dos membros daquela época se afastaram ou foram mortos. Não posso dizer que ele é um santo, mas ele arriscou a vida para vim salvar vocês. Imagina só o que o pessoal desse prédio faria se descobrisse que ele é da máfia Alemã.

É claro que o babaca não iria ter me falado a verdade naquela sala, até porque eu estava apontando uma arma para a cabeça dele. Quando Dimitry falava que tinha quase certeza de algo, era o mesmo que falar que ele tinha certeza. Se ele tivesse essa “quase certeza” ao pé da letra, ele nem diria que tinha certeza, nem que fosse um pouco.

– Já devem ter descoberto. Ele matou uma garota do interrogatório na nossa frente e foi por outro caminho com dois amigos meus.

Dimitry resmungou um “droga”. A felicidade de tê-lo encontrado se anulava pela tensão da situação em que estávamos.

– Ainda atira bem?

– Bob Marley fumava maconha?

– Dê preferencias a ombros e pernas. Certo?

– Certo.

Pela primeira impressão que tive ao falar com uma segunda pessoa das Forças Especiais, foi notar que seus agentes eram pessoas que gostavam de manter os bandidos vivos para lotar cadeias e gastar eletricidade com mortes em cadeiras elétricas.

– Desculpe, mas não sei se iremos realmente em direção ao seu irmão. Minha missão é limpar tudo que puder e achar a Rosalya. Outros agentes irão encher os corredores em questão de pouco tempo.