A Órfã Doce
40 Fada encontrada
Notas iniciais

Eu e Armin não trocávamos mais palavras, até porque estávamos de férias e não tinha como eu vê-lo constantemente como o via na escola. Essa situação mudou quando voltamos às aulas em um novo ano letivo.
Fui para a escola com um pensamento na cabeça, era feliz, talvez fosse feliz... Feliz era a palavra certa?
FLASH BACK ON
No dia seguinte ao que eu voltei da Alemanha minha tutora veio a meu apartamento, disse que queria ter uma séria conversa comigo.
– Acho que errei em deixar você sozinha. – ela encarou o chão. – Lysandre veio falar comigo... Sobre algo que aconteceu aqui perto...
– Lysandre? Ele não sabe de nada, não dê ouvidos a ele. – falei nervosa, aquele olhar que ela fazia era de desapontamento.
– Ele tem razão, ele e o Armin... – ela me olhou com o mesmo olhar triste.
– Armin...? – encarei o chão surpresa, ele tinha aberto a boca sobre o acidente que tinha acontecido no lago.
– Não os culpe, eles só quiseram o melhor para você, disso você não pode negar. – ela falou gentilmente. – Estive pensando, desde que me tornei sua tutora... – ela pausou. – Pensei em ter uma filha, você aceitaria?
FLASH BACK OF
Eu sempre a amei, mas eu tinha receio. Eu não sou uma menina que alguém sonha em adotar, e logo ela, que queria tanto uma filha. Talvez ela mudasse de ideia tendo a mim como filha, será que ela desistiria de mim?
Também comigo tem uma energia que só atrai merda, tanto que as famílias que me adotam sempre se arrependem ou acontece alguma desgraça. Coincidência? Acho que não. Com essas experiências eu aprendi a não acreditar em coincidências. Não existem coincidências, só o inevitável.
Dias se passaram depois que as aulas começaram, Armin trocava olhares comigo, mas não trocava nenhuma palavra. Os meninos do F4 não me olharam de forma diferente, afinal, se soubessem do que aconteceu comigo e Armin eles iriam me olhar de maneira diferente, ou não... De qualquer forma ele fez bem em calar a boca para variar.
Mais dias se arrastaram na rotina interminável de toda a semana. Eu nadava com Iris às vezes, às vezes não, às vezes não ia por causa da presença da nojenta da Lety, meus dias se variavam por causa disso.
Ao chegar à escola naquele dia, vi um olhar diferente vindo de Castiel. Ignorei. Se fosse realmente diferente, ele tinha vindo puxar meu saco ou me zoar. Naquele mesmo dia, Armin me olhou daquela forma.
“Que olhar é esse?” – pensei comigo.
Após refletir e relembrar de quem me lançava aqueles olhares concluí algo.
– São olhares de deboche. – falei para mim fazendo uma cara de raiva. – Como eles se atrevem?
– Falando sozinha, Lynn? – Nathaniel sorriu saindo de sabe-se lá onde.
– Irritada. – corrigi.
– Então está cuspindo fogo para o ar? – ele deu uma risada.
– Cuspir fogo me lembra de dragões... A propósito, como está sua irmã? – juntei as frases e dei um sorriso sarcástico no final, apesar de ser a irmã dele de que falávamos, ele parecia concordar nisso. Pois nem sequer me bronqueava.
– A vida não está fácil para ninguém. – foi o que ele disse.
Ao falar com Nathaniel eu esqueci mais os meus draminhas do cotidiano. Até porque ele enfrentava dias tão sacanas quanto os meus. Só queria saber se ele estava psicologicamente bem de novo, se aquela ideia de tirar a própria vida havia ido embora. Queria saber se a mãe dele estava cuidando bem dele, afinal, esse era o dever dela como mãe, ainda mais tendo um filho tão bom quanto Nathaniel. Eu sempre achei Nathaniel uma pessoa muito boa, embora ele tenha tomado algumas decisões erradas, nada que não pudesse ser relevado ou corrigido.
Encontrei Kentin no jardim quando estava indo para a piscina. Ele lia algo ao invés de tocar o violino.
– Por que não está tocando? – estranhei.
– Não estou com humor. – ele respondeu sem me encarar.
– E o que isso tem haver? – arqueei a sobrancelha.
– Isso tudo é porque faz questão de me atrapalhar enquanto toco? – ele deu um sorriso sarcástico.
– Como adivinhou? – devolvi o sorriso.
Depois da escola eu fui ao Culinária Mágica, durante o movimento fraco, atualizei Lana.
– Nossa, sua vida é tão interessante. – ela fez bico.
– Nem tanto, eu daria tudo para ter uma vida normal ao lado de uma mãe biológica que brigaria comigo por eu deixar a toalha molhada em cima da cama. – suspirei. – Você tem sorte.
– Você já me disse isso uma vez. – ela deu um meio sorriso. – Mas sua vida ainda continua interessante. Você ganha uma tutora que paga escola cara para você zanzar por aí com meninos bonitos.
– Só pra constar, nenhum deles é meu namorado. Não sei que graça você vê nisso. – questionei.
– São meninos e são bonitos. – Lana retrucou.
Quando cheguei ao meu apartamento, a noite já caía, cheguei e vi a porta aberta. Pelo visto eu tinha visitas, suspirei.
– Oi Lynn, aguardava sua chegada. – a Tia sorriu.
– Oi Tia. – dei um leve suspiro.
– Eu sei que não queria ter essa conversa. – ela manteve o olhar baixo. – Mesmo depois de todos esses dias de reflexão, ainda não mudei minha opinião sobre o que andei pensando.
– Tia. – suspirei. – Não sou o tipo de filha que a senhora deseja, quero que fique ciente disso.
– Sempre fui ciente disso, sou uma adulta. – ela me lançou um olhar de censura. – Não importa o que você diga, sou sua responsável e estou preocupada com você.
– Preocupada com o que? Eu sei me virar. – questionei.
– Você tomou um tiro. – ela deu ênfase na frase. – Sem falar que você andou se machucando e sofrendo muitos acidentes.
– Nada que três dias no hospital não deem jeito. – desviei o olhar.
– Está mesmo se ouvindo? – ela levantou a voz. – Você está sendo irresponsável, está mesmo me escutando?
– Claro que estou. – cruzei os braços. – Sempre fui responsável, por que questiona?
– Você precisa de mim, precisa de uma mãe de novo. – ela desfez o olhar de raiva e substituiu para um mais leve. – Preciso de uma filha, preciso saber que você está a salvo.
– Não precisa me adotar pra isso. – dei alguns passos soltando a bolsa.
– Outras pediriam por uma mãe. – ela arqueou a sobrancelha.
– Eu não sou as “outras”. – fiz aspas com os dedos. – Não entendo essa comparação estúpida que as pessoas fazem.
– Você tem algo contra mim? – imediatamente fiz que não com a cabeça. – Então por que nega que eu lhe adote?
– Essas coisas não são tão simples. – suspirei. – Eu tenho experiência em adoções, coisa que a senhora não tem.
– Experiências estão em todos os lugares. – ela questionou.
– Bem... – suspirei pausando. – Eu sei que uma hora eu iria acabar cedendo, cedo agora. Aceito sua proposta.
Naquela noite eu continuei a dormir no meu apartamento. Uma moça poderia ter se suicidado lá, mas eu continuaria ali até os papeis da adoção saírem. Quando eles chegaram, eu já não tinha escolha.
Dentro daquele carro, em viagem, eu tinha uma nostalgia do dia que ela havia me levado ao apartamento, já havia feito um ano que eu tinha saído da escola militar e voltado para Sweet Amoris. Se eu me arrependo? Talvez. Mas têm coisas que eu vivi por causa dessa troca, coisas que não tem preço, coisas das quais eu não me arrependo.
Ao chegar à casa da minha tia, a vi estampar um sorriso desconfiado no rosto. Estranhei, mas também não perguntei do que se tratava.
Ao me instalar na casa, notei que era bem confortável. Ela foi tão atenciosa que preparou um quarto com banheiro só para mim. Realmente eu me sentia a vontade e confortável, aquela sensação eu não tinha há muito tempo. Eu achava que a experiência de morar sozinha ia ser boa para mim, só causou mais problemas. Apesar de achar que morar sozinha era bom, não era. Pelo menos eu não achava. Tomei banho, fiquei só de calcinha e coloquei uma blusa, acho que não tinha nada demais, até porque só tinha eu e minha tia em casa.
Eu dormia tranquilamente em minha cama, até que eu tive um sonho estranho. Estava em um corredor de hospital e estavam mutilando as pessoas com armas de fogo. Corri para um quarto aleatório e me escondi debaixo de uma cama, logo alguém me encontrou com uma arma na mão. Acordei trêmula e assustada.
– Que sede. – resmunguei enquanto coçava os olhos.
Desci as escadas e fui até a geladeira onde enchi um copo de água. Assim que fechei a porta da geladeira, dei de cara com um corpo de fisionomia masculina. Comecei a gritar feito louca, era um ladrão? E o que piorava a situação eram as roupas que eu vestia.
Fale com o autor