A Órfã Doce
12 Defesa
Notas iniciais

Na segunda-feira antes das aulas, Iris me chamou para nadar com ela. Por mais que o frio estivesse muito grande, aceitei seu convite porque mal estávamos nos encontrando ultimamente. Senti até mesmo vontade de contar sobre o acorrido com os gêmeos, mas achei que Iris se sentiria incomodada. Pois ela não parecia ficar contente quando o assunto era o F4.
— Tem algo de incomodando, Lynn? — indagou Iris. — Não sei se é só minha impressão, mas você me parece aérea.
— Não é nada. — balancei as mãos e forcei um sorriso. — Eu te disse que arrumei um emprego, né? Pois é, eu estou trabalhando muito e isso me deixa um pouco cansada.
— Oh! É verdade. — a ruiva inglesa sorriu e voltou a entrar na piscina. — Qualquer dia eu passo para te ver por lá.
Continuamos normalmente pela piscina, apesar do frio. O esquisito foi ver uma garota desconfiada esgueirando-se pelas paredes, dando passos leves e silenciosos. E quando Iris sorriu para cumprimenta-la — com um ar de familiaridade, o que foi estranho — a garota apenas a silenciou colocando o indicador em seus próprios lábios. Era uma moça cheia de curvas, com um cabelo negro e longo. Tirando o fato de ela estar se esgueirando e portando um bastão de beisebol, aquela moça parecia bem normal. Claro que as aparências enganam, ela pulou em cima de uma câmera e a quebrou com o bastão. Logo em seguida me olhou áspera.
— Hei, menina. — ela me chamou. — Não encontrei a sala do F4 naquele dia.
Sua voz me fez a reconhecer. Ela era a moça de olhar paranoico que me abordou pedindo informações. "Pode me dizer onde fica a sala do F4?", foi o que ela perguntou.
— Eu queria ver o Castiel.
— Oh! Lembro-me de você. O que quer com o Castiel?
— Quero ter uma palavrinha com ele. — respondeu ela apoiando o bastão no ombro onde se segurava uma bolsa de alça longa.
Ela parecia estar bem irritada. Seria alguma garota furiosa que saiu com o ruivo e agora queria quebrar a cara dele? Se bem que eu não acho que alguma garota tenha realmente coragem de sair com um idiota como o Castiel, não se tiver dois olhos e juízo. Como a garota só estava me pedindo uma simples informação, decidi leva-la até lá. Afinal, que mal faria ver o Castiel levar um soco por um motivo bem merecido?
— Eu acho que volto logo. — informei a Iris assim que me troquei para acompanhar a moça. — Só vou leva-la até a sala do F4, ok?
Iris assentiu com a cabeça, mas vi novamente aquela expressão de incômodo. Ela realmente se irritava quando o assunto era o F4. A garota bonita só se alterou quando saímos do salão da piscina. Ela me prensou contra a parede e começou a me encher de perguntas estranhas.
— Qual é a sua ligação com o F4?
— Quê? Como assim?
— Você me parece ser bem íntima deles. Não é mesmo?
— Não! Eu recebi o F4 e chantageei o Castiel para tira-lo. Foi só isso.
Achei melhor responder as perguntas daquela mulher. Não só por que ela estava com um bastão de beisebol nas mãos, mas por causa daquela bolsa. Era enorme e parecia ser pesada. Vai saber o que ela poderia estar guardando.
— Então você foi a garota que impediu que o representante pulasse do terraço? — assenti com a cabeça e foi só assim que a mulher me soltou.
Entre nossos passos em meio a escola, notei olhares que eram curiosos para mim. Eram olhares de familiaridade, assim como o de Iris quando a viu. Aquela garota não parecia ser uma total desconhecida naquela escola. E isso só fortalecia a minha teoria de ex-namorada vingativa. Ela até mesmo esboçou um sorriso maligno quando chegamos no corredor da sala do F4.
— Abra. — ordenou ela.
— Não posso. Não tenho a chave.
A mulher de cabelos negros estreitou os olhos e bufou de raiva. Ergueu seu bastão e acertou na maçaneta várias vezes. Não parou até que a mesma estivesse quebrada no chão.
— O que significa isso? — indagou Lysandre assustado assim que a mulher entrou e minha silhueta a acompanhou sem pensar.
Assim que levantou seu vestido, as ligas de coxas com babados sensuais acima de meias finas foram evidenciadas junto com duas armas. Fiquei assustada tanto por não reconhecer aquele tipo de arma quanto por ela estar as sacando e apontando para os garotos na sala.
— Menino mau, muito mau. — sorriu ela passando os olhos pela sala em busca de uma cabeleira ruiva.
— Q-quem é você? — gaguejou Castiel catatônico.
— Calado! — trovejou a mulher armada. — O representante quase se matou por sua culpa, seu verme imprestável.
— Minha senhora, eu não acho que... — tentou Lysandre falhamente acalmar os nervos daquela perigosa figura.
— Eu mandei calar a boca, não mandei?! — esbravejou nervosa a criatura. — Eu deveria matar vocês.
— A gente?! — Armin levantou o tom de voz. — Mata só ele.
— É, a gente não tem nada a ver com isso. — concordou Alexy.
Por mais que Castiel fosse o segundo maior mala que já conheci em minha vida, não acho que ele mereça levar um tiro na fuça só porque foi mimado demais. E foi exatamente por isso que decidi tentar impedir a mulher. Uma decisão que requer coragem, de fato. Castiel não valia uma unha quebrada, mas os outros garotos não tinham nada a ver com isso.
Quando movi um músculo, uma mão tapou minha boca e me puxou lentamente para trás. Era Kentin tentando fazer algo a respeito. Ele estava com uma pistola em mãos e atirou uma bala de borracha nas costas da mulher. Assim que o fez, me empurrou para cima da mesma.
— Seu idiota! Qual é a sua?!
A mulher apontou a arma para Kentin e apertou o gatilho, instantaneamente segurei seu braço e a fiz apontar para cima. Uma cotovelada no maxilar foi o suficiente para tirar uma de suas armas para tentar rendê-la.
— E quando um companheiro seu cair no chão baleado, você vai pegar essa sua arma e vai fazer o que? Vai jogar no chão?
— Não senhora.
— Vai enfiar no cu?!
Como era bom ter lembranças da diretora da escola militar. Aquele era o tipo de mulher que me fazia criar forças. Agarrei nos cabelos da mulher e exigi respostas.
— Quem é você e o por que quer matar o Castiel?
A garota moveu bruscamente seu corpo para frente. Uma peruca negra foi o que ficou em minha mão. A garota de curvas delineadas por aquele vestido justo revelou ter uma longa cabeleira platinada por baixo daquela peruca.
— É você, popozuda! — exclamou Alexy dando um pulo de sua poltrona para dar um tapa no quadril da conhecida.
— Maldição, é você? — trovejou Castiel. — Eu quase morri do coração, sua desgraçada!
Era estranho saber que com uma peruca, a irmã de Castiel conseguiu chegar de mansinho para dar um susto em todos por causa da história do Nathaniel. Foi aí que me explicaram que a garota não dava notícias há mais de seis anos. E por suas palavras, um aparente motivo embutido a havia motivado mais ainda para fazer aquela "agradável" visita surpresa.
— Vocês todos se borraram. — debochou ela. — E foi mesmo muito bem merecido. Está vendo o tipo de amigos que você tem, Castiel? — bronqueou a platinada apontando para os gêmeos.
— Rosalya! — trovejou Castiel o nome de sua irmã. — Você já é policial em outra cidade, o que quer fazendo aqui? Já não dava notícias há anos porque brigou com a mamãe, o que quer aqui?
— Você é a sargento Rosalya da cidade vizinha? — indaguei boquiaberta. Aquela mulher além de ser sargento, ainda era líder de uma equipe que trabalhava nas forças especiais em casos de sequestros, grandes gangues e terrorismo.
— Sim. Como sabe?
— Eu tenho um parente de lá que é da polícia. Ele já me falou de você. — confesso que não sou uma boa mentirosa, mas essa mentira soou bem convincente.
— Você tem bons reflexos. — elogiou ela. — Agora pode devolver minha arma?
A entreguei super sem graça. Até porque a munição era de borracha assim como a de Kentin. Não sabia de quem sentia mais raiva: de mim mesma por ser tão burra e levar uma garota de dar medo para a sala do F4, ou de Kentin por me empurrar em cima de uma garota de dar medo. Aliás, garota é um termo errôneo. Ela já era adulta, mas parecia ser tão jovem que poderia ser facilmente confundida com uma estudante.
— Desculpa pela cotovelada.
— Você é corajosa. — admitiu ela com um leve sorriso nos lábios. — Não são muitas garotas que conseguem tomar a frente e mostrar ter mais coragem do que esses bundões daqui. — Rosalya revirou os olhos. — Pensei que depois de seis anos você criaria vergonha nessa sua cara imunda e aprenderia algo que preste nas aulas de tiro. — a mulher referiu-se a Castiel. O ruivo estreitou os olhos com tanta raiva e constrangimento que não sei se ele gritaria, a socaria ou choraria. — E se fosse um maníaco, o que faria?
— Mas não há nenhum maníaco por aqui. — relembrou Alexy ainda animado com a presença da mulher. — Foi só você, popozuda. — e novamente o estalar de um tapa no quadril soou.
— Não me chame assim na frente dos outros! — exclamou a platinada cheia de rubor.
Não sei o que deu em mim, mas por um vago momento me lamentei por ser uma estranha em meio de todo mundo daquela sala. Por um vago momento eu quis partilhar laços de amizade com aquelas pessoas. Eu era tão estranha para eles quanto eles eram para mim. E por mais que Castiel tenha aprontado poucas e boas comigo — e o desfecho do meu F4 ocorreu —, não conseguia sentir o mesmo nojo que sentia dele antes. Eu estava querendo a amizade daquelas pessoas? Pois é, Lynn. Deveria ter pedido a sua tutora para continuar na escola militar se fosse para se tornar uma idiota que quer ser amiga de qualquer um. Apenas Lysandre e Kentin me deram uma mão em meio de tudo aquilo e esses sim mereciam méritos. Mas tanto Alexy quanto Castiel aprontaram comigo, Armin não estava se importando com o que seu irmão fez a mim, ele apenas se exaltou porque seu gêmeo estava se passando por ele. E mesmo assim eu senti um desejo de me familiarizar com todos eles. Além de Iris, quais outras pessoas eu tive algo perto de coleguismo naquela escola?
— Nossa, quanta demora! — reclamou Iris quando eu voltei ao salão da piscina. — O que ocorreu?
— Nada demais.
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