A Órfã Doce
68 Decepção
Notas iniciais

Naquele dia eu não vi Castiel, evitei ver ele e Debrah novamente. No outro dia eu me encontrei com Lysandre, mas não falamos nada relacionado sobre a conversa que ele teve com Castiel. Quando fui falar com Lana, ela estava inquieta. Na verdade, ela estava inquieta desde aquele ocorrido com Nathaniel. Não queria ao menos tocar no nome de Nathaniel ou no de Melody, era compreensível.
A confusão do dia começou quando, no meio da aula, Lana pediu para ir ao banheiro. Estava querendo puxar assunto com ela e talvez pedir algum conselho, mesmo que Lana não estivesse no seu estado normal para isso. Pedi permissão à professora para ir ao banheiro para encontrar Lana, mas não encontrei Lana por lá, então já estava voltando. Ouvi umas conversas no corredor, duas vozes que meu ouvido conhecia de longe. Era Ambre e Lana, o que Lana fazia com ela?
– Ela está vindo. – Lana sussurrou.
Ambas estavam na porta que ficava depois de uma pequena escada. Essa escada levava ao corredor onde havia as salas de aula. Assim que Debrah pisou no primeiro degrau, Ambre pegou um balde que estava do seu lado e jogou seu conteúdo em cima de Debrah. Acho que não era água, aquilo era azul, me lembrava a tinta de Alexy. Debrah ficou parecendo um avatar. E sabe por que aquilo e justo naquela hora? Debrah não teve tempo de ter uma reação e nem ao menos viu quem foram as responsáveis, o sinal tocou para o intervalo. Não demorou muito para as pessoas se aglomerarem ao verem o chamativo tom de azul que marcava o chão branco e ao mesmo tempo, as roupas, pele e cabelo de Debrah.
Ambre e Lana tinham vazado há muito tempo, aproveitaram a multidão para sumirem das vistas de Debrah e para não levarem a culpa, lógico. Debrah nem ao menos se fez de vítima, acho que ela estava muito zangada para isso. Tratei de sumir rápido também para não levar a culpa de nada. Eu não fiz nada com ela, mas nunca se sabe! Debrah está contra mim e faria qualquer coisa para me difamar. E isso é fácil quando ela fica na base das lágrimas de crocodilo.
Estava meio dividida, queria dar uma bolacha na cara de Castiel e ao mesmo tempo queria evitá-lo. Depois de ontem, percebi que Lysandre não estava tão bravo assim comigo. Será que... Ele me ajudaria a fazer Castiel acreditar em mim? Não sei se estava pronta para pedir a ele. De qualquer forma, eu meio que já pensava em desistir. Será que ainda valia a pena? Será que ele já tinha me ajudado quando falou com Castiel? Armin tinha razão, ele estava coberto de razão. Eu estava nessa briga por causa de Castiel, era o motivo principal, pelo menos. Critiquei Lana e estava no mesmo nível que ela, quanta hipocrisia...
Chamei Lana para vir dormir na minha casa. Acredita que Kentin ainda mal falava comigo? Mas a culpa também era minha, eu não puxava assunto com ele. Apesar de que quando havia um problema, ele sempre evitava falar comigo. A tia iria vir hoje, mas teve outro ensaio e uns imprevistos.
– Eu vi o Alexy hoje. – Lana comentou para quebrar o gelo. – Veio me pedir desculpas. Ele disse que falaria com você, ele falou?
– Não. E ainda bem que não falou. – fiz bico. – Não sei se desculparia.
– Não seja assim! – ela repreendeu. – Alexy me contou que Debrah o defendia quando eles eram mais novos. Todos eles estudaram juntos desde crianças. Você me conhece há muito tempo, mesmo que eu fosse a vilã, você acreditaria em tudo que eu falasse. Não precisa ser tão dura com Alexy, ele errou e agora tem consciência disso.
De qualquer forma, eu não precisava me sentir arrependida! Não fui eu quem virei as costas para ele. Lana estava certa, mas não excluía o fato dele ter me abandonado. Onde está a amizade agora? Naquela confusão das fotos, Lysandre só acreditou em mim depois do exame que ele fez (que até hoje eu não sei por que ele carrega um teste de drogas), mesmo assim ele foi prudente desde o inicio, apenas quis ter certeza. Pelo menos ele não virou as costas para mim, nem naquele dia e nem hoje.
– O que fazia com Ambre hoje? – interroguei.
– Os inimigos dos meus inimigos são meus amigos. – ela explicou fazendo um sorriso brotar. – Eu não gosto da Ambre, mas digamos que fizemos uma trégua por enquanto. Admita, foi engraçado!
– Viu a Lety esses dias? – perguntei desviando do assunto.
– Eu soube que ela machucou o braço com o golpe de judô da Charlotte. – ela sorriu. – Parece maldade, mas eu adorei isso!
– Não te suspenderam por causa da briga? – arqueei a sobrancelha lembrando-me que dois professores a tiraram de cena.
– Ia sendo suspensa. Armin veio me ajudar. – ela suspirou. – Ele disse que adorou o barraco. – ela revirou os olhos, dei risada.
Graças a Deus Kentin não chamou ninguém. Normalmente quando eu trago Lana, ele chama algum menino do F4 para “equilibrar”. Pelo menos é o que ele diz. Normalmente Kentin sai por aí e acaba trazendo uma pizza ou algo do tipo, mas Lana quis me ajudar a fazer algo em casa.
Eu e Kentin paramos de brigar em relação às saídas um do outro. Na verdade, Kentin não estava mais tão chato como antes, ele não falava de Castiel e de nem outro menino do F4, não dizia que Castiel era o meu namorado e Lysandre e Armin eram a equipe de apoio. Sim, ele disse isso. Fiquei dias sem falar com ele.
Confesso que mesmo as coisas estando mais calmas, eu estava meio paranóica com esse lance do Kentin e da Lety. Certo que foi ela quem agarrou ele e nunca mais eu os vi próximos. Mas como naqueles dias eu estava estressada ao extremo, acabei deixando isso de lado. E era por estar tão estressada que eu chamei Lana para dormir lá em casa. Passávamos a noite falando mal dos outros. Toda menina faz isso quando está na companhia de uma amiga, ou até mesmo de um amigo. Enfim, isso meio que me deixava mais calma.
Sentamo-nos para jantar, estava me sentindo meio inútil por Lana ter feito quase tudo sozinha. De qualquer forma, ela fez a sopa e eu os sucos, ainda fiz alguma coisa, mas fiz o mais fácil.
– A sua mãe gosta da Lynn? – Kentin perguntou a Lana.
– Sim. Por quê?
– E se eu falar com ela para fazermos uma troca? Ela fica com a Lynn e eu fico com você.
Ambas olhamos feio para ele. Lana ficou corada, espera... Ela pensou que aquilo fosse uma cantada?
– Você cozinha bem melhor que ela. – ele justificou, aparentemente já estava vendo que alguém ali tinha pensado merda. – Uma vez eu tive uma infecção alimentar por causa de uma carne que ela fez. – ele fez careta para mim.
– Foi um peixe. – corrigi.
Lana disfarçou a risada, fechei a cara. Não foi uma infecção alimentar, ele só vomitou! De qualquer forma, ele reclamava e mesmo assim não sabia cozinhar nada! Como mulher presente na casa, posso concluir de todas as formas que Kentin fica super dependente quando começa a morar com alguém. Como ele vivia antes de eu vir morar aqui? Com aqueles achocolatados? O ruim é que ele comia e comia, e mesmo assim a peste não engordava!
Ficamos assistindo seriados na TV do meu quarto, Kentin deveria estar no dele. Mesmo que as saídas dele não me importassem mais, ele pelo menos avisava que ia sair. O bom é que agora eu sabia que Miki não era mais nenhuma força do mal. Confesso que eu tive um cagaço quando achava que Miki era um bicho que queria me matar.
Eu e Lana ficamos falando sobre a escola e sobre o que tinha acontecido lá. Perguntei o porquê de Charlotte ter feito aquilo com Lety. Simplesmente Charlotte odeia Lety e eu não preciso falar nada sobre a Debrah. Charlotte, a xingling e a Ambrega estavam falando mal do encosto do satanás. “Encosto do satanás” é o apelido carinhoso que eu inventei para a Debrah.
Até quis falar sobre Nathaniel, mas Lana não parecia muito confortável com esse assunto. Era um sábado, ela voltou para casa num domingo de manhã. Eu mesma fui deixá-la, mesmo sem saber pilotar a moto direito. Parecia que era macumba! Um loiro saiu da porta da casa à frente no mesmo momento em que nós saímos de casa. Todos permaneceram em silêncio e continuaram a fazer o que estavam fazendo. Estava meio aborrecida porque eles dois estavam de mal. “De mal” é expressão de criança, deve ser por isso que Kentin a usa tanto. Tem certas horas que é difícil suportá-lo, como quando ele teve catapora.
No dia seguinte eu fui procurar Kentin na escola. É difícil de achá-lo, ele não para quieto. Ou isso, ou ele se esconde muito bem. De qualquer forma, mesmo tendo falado com Lysandre depois do ocorrido de Castiel e Debrah na sala do F4, eu não o agradeci. Será que eles não tinham se beijado? É, eu tentava ao menos ser otimista em pensar que ela sequer encostou os lábios nele. Mas sempre aquele pensamento era desmanchado e a tristeza caía em mim. Eu gostava muito de Castiel, não queria perde-lo de vista e não queria que ele fosse embora com aquela cobra! De certa forma, mesmo gostando dele, achava que ele merecia aquilo para deixar de ser babaca.
“Paixão é irracional, amor é racional”. – Tia Cristal tinha dito aquilo. – “Impossível”. – pensei.
Amor tão rápido? Não existem amores rápidos! Eu pelo menos achava que não. Que tipo de ser humano sabe separar o que é amor e o que é paixão? Não acho que a pessoa embriagada de amor vá saber diferenciar um do outro. Devem ser as pessoas “sóbrias” que sabem diferenciar. Amor não! Eu só gostava dele.
No lugar de Kentin, eu achei Lysandre. Aonde? No jardim que ficava no caminho para a piscina. Kentin definitivamente tinha abandonado aquele lugar, talvez por eu ter andado demais por lá e ter atrapalhado os ensaios de violino dele.
Agradeci a Lysandre pelo que tinha feito. Sinceramente na hora que eu falei com ele, eu fiquei lá com cara de bocó sem saber o que dizer. Ele pensou tanto em mim... Eu o magoei, ele estava zangado, e mesmo assim estava do meu lado. Agora sim eu tinha altas suspeitas de que ele gostava de mim. Armin disse que tinha gente “brigando” por mim. Seria Lysandre um deles? Supostamente. Se Castiel era um e Lysandre supostamente seria o outro, quem seria o terceiro? E se fossem quatro, quem seria o quarto? Incluí Lysandre na lista. Se não fosse ele, quem seria? Eu admito que não tenho contato com a maioria dos meninos da escola, só os do F4. E é por isso que me odeiam tanto, principalmente as garotas.
Lysandre estava com o bloco de notas em mãos, assim que o olhar de Lysandre se desviou para as folhas de uma árvore que balançava por conta do vento, meu modo “ninja curiosa” foi ativado automaticamente. Inclinei-me e estiquei o pescoço o máximo que pude. Lysandre virou logo, mas eu consegui ler tudo.
“E ela largou minha mão
e foi para os braços de um sem coração
que não a amaria como eu amei”. – meus olhos ficaram arregalados, assim que ele virou-se para mim, tratei de estampar qualquer expressão no rosto.
– Houve algo? – ele perguntou. Nossa, Lynn! Como você consegue ser natural, ele percebeu na hora.
– Nada. – respondi procurando outra expressão. Então optei por um sorriso forçado.
– Deve estar triste com a decisão de Castiel. – ele encarou o chão. – Também fiquei chateado.
– Ah, sim! A decisão dele... – pausei um pouco. – Que decisão foi mesmo? – fiz uma cara de bunda, Lysandre me olhou meio confuso. Quem sabe ele falasse, não custava tentar. Até porque eu não estava sabendo de nada.
– Lynn! – Lana chegou gritando no meio da nossa conversa. Ela aparentava ter corrido para me encontrar, assim que parou, notei que estava ofegante. – O Castiel vai embora.
Pedi rapidamente licença a Lysandre e saí correndo sem esperar resposta. Lana disse que ele estava no telhado, corri o máximo que pude, e lá estava ele. COM A DEBRAH!
– CASTIEL! – gritei por ele, mas não gritei chorando, gritei FURIOSA.
– O que?! – ele virou-se para mim, indignado. – O que faz aqui? O que você quer?
– Você vai embora?
– E o que você tem a ver com isso? – Debrah provocou, Castiel não a olhava, por isso não via aquele sorriso de demônio na cara dela.
– Olha aqui, sua piranha! – coloquei o dedo na cara dela. – Você não se mete não. Dessa vez não vai ser a Lana quem vai bater em você, serei eu! E eu não darei um simples tapa em você, pode crer.
Castiel rebateu minha mão e me puxou para o lado oposto ao de Debrah.
– Escuta aqui! – ele me soltou e deu um passo para trás. – Já não basta tudo que você fez! Você fez uma confusão toda por causa da Debrah, até aquela menina bateu nela! Se acha que eu ficarei tolerando isso, está muito enganada.
– Castiel, ela está mentindo, você não vê? Ela só quer que você vá para dar estabilidade a ela, depois ela vai te descartar de novo. – Castiel já iria se por a falar para me questionar, mas fui me adiantando e falando mais rápido que ele. – Eu gosto de você. Não vá!
Por um momento tudo ficou em silêncio. O único som que se ouvia era o do vento soprando e o barulho baixo das buzinas do transito movimentado. Debrah estava estática, ela estava levando vantagem porque eu não admitia o que sentia por Castiel, agora sim seria um ponto para mim. Castiel umedeceu os lábios e me encarou fixamente com uma expressão fria.
– Saia daqui.
– Castiel, por favor. Acredite em mim. – insisti.
– Saia daqui! Nunca mais fale comigo, nunca mais se aproxime de mim e das pessoas que eu gosto. SAIA!
Castiel me mandou sair, mas quem saiu foi ele. Saiu puxando Debrah pelo braço. Fiquei parada, boquiaberta, sem ação. Minha visão embaçou, as lágrimas escorriam aos montes. Coloquei as mãos no rosto, choro alto acompanhado de soluços também altos.
– Tampinha... – uma voz veio de trás de mim, me virei rapidamente retirando as mãos do rosto. – Vem cá.
Kentin estava de braços abertos com uma expressão triste no rosto. Fui até ele rapidamente e o abracei, ele me abraçou mais forte.
– Não chora, por favor. Eu faço o que você quiser, mas não chore...
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