A Órfã Doce
32 Crise
Notas iniciais

“Merda, merda, merda, merda!” – pensei engolindo a seco, tentando camuflar meu nervosismo.
– Sabe o que? – arqueei a sobrancelha me fazendo de desentendida.
– Acha que me engana? – ele deu uma risada. – Quando a Melody pegou seu histórico, fui eu quem levei a Castiel. Eu não mostrei a ele, só disse que você era órfã.
– Por que fez isso? – bradei me levantando e o agarrando pela gola da blusa.
– Não interessa a você. – Armin deu um sorriso provocativo. – Sinceramente não achei que Castiel ia fazer aquilo. – Armin suspirou. – Mas não contei tudo a ele, eu sou uma pessoa precavida. Ia usar isso contra você depois.
– Pensei que fossemos amigos. – o soltei fazendo uma expressão de descontentamento.
– E somos. – ele continuou com aquele sorriso nos lábios. – Por isso que eu não falei para ninguém. E em troca... – ele passou a mão na minha perna. – Vai fazer algo para mim.
– A-algo?! Nem pensar! – trovejei me afastando com os olhos arregalados.
– Você é engraçada. – ele deu uma risada. – Estava apenas brincando. Tinha que ver sua cara.
– Palhaço! – exclamei dando um tapa na cabeça dele, me sentei aliviada.
– Mas sobre a parte de fazer um favor pra mim, você vai! – ele me encarou.
– Fala sério! O que quer? – perguntei fazendo corpo mole.
– Daqui a um mês começam as férias. – ele pausou um pouco. – Você vai comigo pra Alemanha para visitar meus pais, vai fingir ser minha namorada.
– Hein?! Por que essas coisas só caem pra mim? – cruzei os braços. – Eu faço isso, mas regra número um: sem beijo; regra número dois: não tente nenhuma gracinha, regra número três...
– Calada! – ele fez bico me cortando. – Eu não vou fazer nada com você. Só quero arrumar as coisas com meus pais.
– Por causa do Alexy? – perguntei.
– Ele... Falou a você? – Armin me encarou. – Droga. – ele olhou para o chão. – Alexy fala demais.
– Poderíamos trocar os favores. – sorri. – Ambos ficam de boca fechada.
– Nem pensar! – ele exclamou se levantando. – Vai ser do meu jeito e ponto final.
Horas mais tarde Alexy foi me deixar em casa, não quis comentar nada sobre minha conversa com Armin. Parei na porta do meu apartamento, coloquei a chave na fechadura, mas não cheguei a girar. Escutei gritos vindos do apartamento 112, o de Nathaniel.
– O que tem na cabeça? – ouvi gritos de uma voz feminina. – Para de ser mimado!
– Quem é você para me chamar de mimado? – eram os gritos de Nathaniel.
Aproximei-me mais ficando encostada na parede ao lado do apartamento.
– Sabe o que isso vai fazer com a mamãe?
– Se ela quisesse me ver bem, ela não teria me expulsado. Foi tudo sua culpa, sua vagabunda. – ouvi uns barulhos de coisas sendo quebradas.
– Para de ser egoísta, pense nos outros!
“É a Ambre?” – pensei.
– E quem é você para dizer isso? Para de querer ser moralista. – continuei a ouvir o barulho de coisas quebrando. – A vida é minha! A vida é minha! Eu tenho que pensar em mim!
– Vai fazer isso com a Melody? – ela continuava a gritar.
“Isso é resolver as coisas?” – pensei.
– Saí uma semana com ela, não casei com ela! – Nathaniel exclamou. Ouvi silencio. – Cai fora! Não preciso de palavra sua, você só me atrapalha! Você só me faz mal. – ele falou em um tom mais baixo, parecia que tinha se cansado de gritar.
– Vai se arrepender! – ela falou tocando na maçaneta.
Dei um pulo, dei passos longos e silenciosos até a minha porta. Fingi que estava chegando agora. Ambre passou por mim sem nem perceber minha presença, a olhei. Havia marcas vermelhas nos pulsos dela. Assim que perdi Ambre de vista, fui até o apartamento de Nathaniel e bati freneticamente na porta.
– Caralho Ambre! Eu já mandei você... – ele abriu a porta e viu que era eu. – Desculpe, pensei que fosse...
– Está tudo bem. – respondi. – Posso entrar? – perguntei.
– Sim, claro. Pode entrar. – ele fez um gesto para que eu entrasse.
Olhei para Nathaniel, ele estava com marcas de unhas pelos braços e sem a blusa, vi uma blusa rasgada no chão. Passei meus olhos pelo apartamento, jarros, espelhos, copos, tudo isso quebrado no chão.
– Eu... – ele encarou o chão.
– Brigou com a Ambre. – o cortei completando a frase. – Eu ouvi, também a vi saindo. Pelo seu estado, não só deram gritos.
Nathaniel parecia envergonhado, pediu para que eu esperasse. Voltou colocando uma blusa e pegando uma vassoura.
– Posso ajudar? – perguntei.
– Sim... Claro... – Nathaniel respondeu. Estranhei, ele parecia diferente.
– Houve algo? – interroguei enquanto varria os cacos do chão.
– Briguei com ela por causa da minha mãe. – ele passou a mão no rosto. – Ela quer que eu volte a morar com ela.
– Isso não é bom? – perguntei arqueando a sobrancelha.
– Não, isso é um inferno. É a pior coisa que poderia acontecer. – ele ficou andando de um lado para o outro. – Se me matassem a sangue frio eu teria mais sorte.
– Tsc, não seja exagerado! – exclamei.
– Você não sabe Lynn! Não quero voltar. – ele fez cara de choro.
Aproximei-me engolindo a seco, Nathaniel me abraçou forte, chorando desesperadamente.
– Calma. – pedi enquanto ele me apertava contra o peito.
Os batimentos cardíacos estavam muito rápidos, suspirei. Não gostava de ver ninguém numa situação daquelas. No dia seguinte, por mais que Nathaniel persistisse e falasse que não queria ir, já estavam tirando as coisas dele do apartamento para o caminhão de mudanças.
Nathaniel bateu a minha porta, abri e o chamei para entrar.
– Então é isso... – ele coçou a cabeça. – Só vamos nos ver na escola.
– É... – falei cabisbaixa.
– Agradeço por tudo que por mim. – ele me deu um abraço, como o de ontem.
– Acho que você faria o mesmo. – sorri envolvendo os braços na cintura dele, retribuindo o abraço.
Assim que Nathaniel saiu, coloquei a cabeça na janela e o vi entrar num carro. Ambre parece que me avistou na janela, pois ela fez uma cara de bunda e entrou no carro.
Meu celular tocou, atendi. Era Armin.
– Se apronte, vamos sair. – ele falou.
– Não quero. – falei.
– Você não tem mais vontades.
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