A Órfã Doce
95 Cinzas na cama
Notas iniciais

– Quero que me diga agora mesmo. – ele hesitou. – Você prometeu que contaria.
– Ok. Estou saindo com uma menina.
– Só isso? Por que escondeu de mim? Não me importo com quem você sai.
– Se importou quando foi a Lety. – retrucou ele.
– Me importei quando mentiu dizendo que ia na sala do F4 quando na verdade foi beijá-la. Me importei porque a encontrei quase pelada no seu quarto. Eu me incomodo com isso, assim como me incomodo com você assistindo pornô na sala de estar. Se tivesse o mínimo de decência, eu não me importaria.
– É um pouco diferente agora. – confessou ele, ignorando a sessão de fatos relatados. – Você a conhece e vocês são muito próximas. Isso não te incomoda?
Um silêncio pairou no ar. A primeira coisa que veio pela minha cabeça foi Lana. A primeira cena que foi montada em minha cabeça foi de Kentin despindo-a. Logo em seguida a indignação tomou conta de mim.
– A Lana?! – arregalei os olhos. – Não está falando dela, está? Se estiver, não sei o que deu nela, mas fique sabendo que ela gosta do Nathaniel e não vai ficar com você!
– Te incomodaria saber que eu estou saindo com ela?
– Sim!
– Te incomodaria se eu levasse alguma garota para meu quarto novamente?
– Sim!
– Te incomodaria se eu estivesse saindo com qualquer garota?
– Sim! – a resposta saiu automaticamente, mas logo a pergunta ser analisada pelo meu cérebro, vi que ele estava tirando onda comigo. – Não. Já disse que não.
– Por que queria saber tanto qual era meu segredo?
– Porque pensei que confiasse em mim. – cruzei os braços. – Eu sei que não somos tão próximos, mas eu queria que fossemos. Talvez nós sejamos irmãos para o resto da vida, não entende o que isso significa?
Ele levantou-se do balanço. Não respondeu, apenas ficou chutando levemente a areia com as mãos nos bolsos. Eu apenas aguardava a resposta observando cada movimento, cada respiração e o vapor frio que saía de sua boca.
– Hei. – o chamei. – Não gosto quando me deixa falando sozinha!
E ele ficou em silêncio novamente, me olhando os olhos. Respirando enquanto o vapor frio saía de sua boca. Até parecia que em sua cabeça estava ocorrendo um motim entre seus pensamentos. Aquela expressão que ele fazia parecia com a minha. Um vento congelante soprou, movimentando meus cabelos, onde metade estava dentro de uma touca. Ele umedeceu os lábios, veio em minha direção e se debruçou, colocando a mão na corrente do balanço. Acabei recuando, e com esse movimento acabei deixando a bolsa cair na areia do parquinho.
– Você tropeçou?
– Sim. Desculpe. – ele se recompôs. – Só ia dizer que já está na hora de irmos para casa.
– Certo.
Antes de sairmos, peguei a bolsa e logo após fui seguindo Kentin até o carro. Enquanto estava no caminho de casa, fiquei totalmente pensativa. Aquele olhar, expressão e movimentos eram suspeitos. Parecia até que… O Kentin tinha outra intenção. Mas não, ele sequer bebeu. Deveria mesmo ter tropeçado.
– Dê-me a chave. – pediu ele, estendendo a mão.
– Estou procurando. – respondi revirando a bolsa. – Droga, não estou achando.
– Como assim não está achando? – ele interrogou indignado. – Ora, sua burrona! Entreguei para você justamente porque não queria perder a droga da chave.
– Calado, monte de cocô! – bradei. – Você ainda deveria ter a cópia da chave consigo!
– Eu perdi a cópia.
– Eu perdi a chave. – cruzei os braços. – O que a gente faz agora? – estalei os dedos, vendo uma possível saída. – Não podemos passar a noite em um hotel ou coisa assim? Não dá para ficar do lado de fora, está muito frio.
– Estou apenas com o cartão, e como gastamos hoje, não há crédito o suficiente para hotel. Se algum dos meninos ainda estivesse na cidade, poderíamos dormir na casa deles. – Kentin lamentou a má sorte. – Já sei!
Ele correu de volta para o carro, checou algo no porta-luvas e me chamou.
– Para onde estamos indo?
– Para minha outra casa. Por sorte tinha esquecido a chave no porta-luvas.
Entrar na casa de Kentin outra vez era algo muito estranho. A ultima vez que estive lá, vi uma garota saindo daquela casa. Também me sentia estranha porque ele havia me dito que só levava meninas para lá. Mas esse pensamento foi afastado na mesma hora quando lembrei de Kentin caçoando de mim, dizendo que me via como um menino.
– Só tem um problema. – ele avisou. – Vai ter que dividir o quarto comigo. Na casa tem quatro quartos, as chaves de dois não estão comigo e apenas dois tem painéis. Mas ALGUÉM quebrou o painel do outro quarto e eu não consegui mais abri-lo. – disse ele de cara feia, fazendo referencia ao dia em que fiquei trancada com Armin e acabei afundando o salto no painel do quarto.
– Sem problemas. – disse sem graça.
Kentin procurava algo na cozinha. Eu estava no quarto, fiz um rascunho em meu próprio e-mail com intenção de passá-lo para meu diário quando chegasse em casa.
“20/12/2025. As coisas agora parecem opacas, acinzentadas. A ultima vez que me senti assim, foi quando recebi a certidão de óbito do Tio Fadinha. De certa forma o pessoal da escola militar não era tão amistoso a primeira vista, mas eu estava tão animada por encontrar um lugar onde eu gostava de estudar e me sentia bem. Ver um mundo colorido se tornar preto e branco novamente era um golpe muito doloroso. Quando vim para Sweet Amoris, tudo se coloriu novamente. Eu tive realmente a ilusão de que tudo ficaria bem por muito tempo, mas quando menos esperei, as cores foram sumindo de acordo com as despedidas. Primeiro foi o branco, depois azul e preto, em seguida o vermelho. De certa forma Kentin está certo, não é o fim do mundo. Invejo ele por encarar as coisas com tanta força para seguir em frente. Pode até parecer que eu sou uma dramática e exagerada, mas a tristeza em si já é um drama. Meus amigos foram embora e minha amiga quase morreu tentando me salvar. E o pior de tudo, é que eu não posso fazer nada em relação a isso”.
– O que está fazendo? – perguntou Kentin.
– Escrevendo. – respondi. – Quando acharmos um jeito de entrar em casa, passarei para meu diário.
Kentin não disse nada, mas quando encarei seu rosto vi que ele esboçava um sorriso que debochava de mim. Talvez ele achasse que meu diário fosse como o diário daquelas meninas de filmes americanos. As que colocavam “querido diário” na primeira linha de um caderno com uma tranca incrivelmente vagabunda.
– Toma aí. Caso queira comer algo antes de dormir. – disse ele, jogando um pacote de biscoitos em minhas mãos. – Eu procurei e procurei, não tenho nada para tentar cozinhar algo. Tive até sorte de encontrar alguma coisa que não estivesse fora do prazo de validade.
– Há quanto tempo não vem aqui?
– Sei lá. – ele deu de ombros. – A sorte é que mamãe irá chegar essa semana, talvez amanhã. Ela pode usar a chave que tem, ou chamar o chaveiro.
Kentin estava sem as roupas pesadas, havia trocado-as antes de voltar ao quarto.
– Se quiser, pode tirar o casaco. Eu liguei o aquecedor.
Confirmei com a cabeça. Mas tirei apenas a touca e o cachecol, largando-os em cima da escrivaninha onde estava o notebook de Kentin. Kentin deitou-se na cama, com o controle remoto em mãos ligou a televisão. Encerrei meu trabalho e desliguei o notebook.
– Quer dormir? – balancei a cabeça negando.
Fiquei encarando a escrivaninha. Lembrei de Angela e Kentin, lembrei da garota que saiu de sua casa e fiquei imaginando com quantas garotas ele havia transado ali. Sinceramente, aquilo me dava nojo.
– Hei, tampinha. – ele me chamou. – Eu troquei os lençóis desde a ultima vez que “usei” a cama. E se isso te tranquiliza, eu quase nunca trouxe garotas para esse quarto.
– E como sabe o que estou pensando ?
– Eu reconheço cara de nojo. Foi a mesma cara que fez quando me pegou vendo pornô na sala.
Sentei a seu lado. Ficamos em silêncio, olhando para o chão. Quando quis encará-lo para puxar assunto, ele virou o rosto como se evitasse fazer contato visual. Até parecia que poderia ler pensamentos, parecia que sabia que eu queria me assegurar se ele realmente tinha tropeçado no parquinho. A noite estava desgastante. Nenhum dos dois sentia sono e além disso, a comunicação parecia ter congelado. A sorte de um pouco de tequila, era a primeira vez que tomava. Foi aí que as coisas começaram a fluir.
– Corroeu o meu lábio. – ri. – Sinceramente, tirei minhas dúvidas. Você é muito pinguço. Se duvidar tem licor na sua gaveta de cuecas.
– Boa ideia, nunca pensei nisso. – era estranho ver Kentin bebendo muito e não rindo nada. Ele apenas movimentava o copo para que o gelo se misturasse a bebida.
– Por que está tão rabugento?
– Bom, tequila não tem um gosto muito bom. Sem contar que desce pela garganta como porra.
– Ai é? E como é que você sabe? – indaguei com um olhar malicioso, ele fechou a cara.
– Cala a boca tampinha
Passamos quase meia hora conversando. Ele falou mais de como era a cultura alemã e de todas as comidas gostosas que já havia experimentado quando foi para lá.
– Sabe, eu sempre quis viajar pelo mundo para comer coisas gostosas. Chocolate suíço, pão francês, chá verde japonês, essas coisas.
– Para quem quer comer e come muita coisa, você é bem palito.
– Ai é? Pois para um bêbado largado que vomita mais do que come, até que você está bem gordinho.
– Eu não sou largado nem gordo. – corrigiu ele.
Posso garantir que exagerei nas doses porque subestimei o poder alcoólico. Três doses foram o suficiente para me fazer ver estrelas.
– Hei Barbie. Quando vai pintar essa esponja que você chama de cabelo?
– E quando você vai tirar seu pinto para fazer jus ao título de Ken?
– Que grosseira. – reclamou ele. – Por isso que eu te amo tanto.
– Você precisa urgentemente vomitar e tomar muito café.
– Não é o álcool falando. Quer que eu te prove?
– Provar o que? Tem comida aqui? Estou com fome.
– Claro. – respondeu ele. – E eu planejo comer tudo.
– Quê? Não vai deixar nada para mim?
– Sua burra!
Ele saiu do quarto, tomando o copo de minha mão. Provavelmente tinha ido a cozinha. Meus olhos pesavam, meu estômago revirava um pouco. Deitei-me de lado na cama, com os olhos fechados. Talvez eu precisasse ser mais grata pela vida que estava vivendo. Era infinitamente melhor do que estar no orfanato olhando as nuvens cinzentas no céu gélido de Shapersgreen, vendo as freiras passarem pelos corredores. Eu tive muita sorte de não parar nas mãos de um maníaco como aconteceu com Nica. Foi só fechar os olhos para que a imagem dela tomasse minha mente.
Entreabri os olhos, minha visão estava embaçada. Os cabelos castanhos se transformaram em fios platinados, dois olhos distintos. Se aproximou e tocou meus lábios com os seus, quando abri meus olhos por inteiro vi que era coisa da minha cabeça. Meu irmão estava a minha frente.
– Pensei que tinha dormido… – ele parecia um pouco nervoso. Meu olhos permaneciam calmos, quase que querendo fechar novamente.
– Sabia que tinha mentido novamente. – as palavras saíram em sussurros. – Eu sabia que não era um menino.
– Eu nunca imaginei que você não ia dar a mínima importância a isso.
– E por que eu deveria? – quando entreabri os olhos, as cores pálidas voltaram aos fios de cabelo do garoto da minha frente. – Eu sou uma dama… – as ultimas palavras saíram em um sussurro inaudível. – De copas.
Tudo que sempre quis foi que Lysandre voltasse e terminasse o que tinha começado comigo quando estávamos em seu quarto. Ele tinha sido justamente a primeira pessoa que eu tinha gostado de verdade, mas meus erros foram grandes o suficiente para que pudesse perdê-lo para sempre. Eu já estava perdendo os sentidos ao lado de Kentin, ignorando o fato de receber um beijo do meu próprio irmão como se estivesse recebendo de um garoto qualquer. Nem percebi minha sanidade indo embora, na hora fiz um trato comigo mesma. Eu não veria Kentin na cama comigo, e sim Lysandre. Talvez Kentin sequer lembrasse no outro dia, ou lembrasse e não quisesse comentar nada. Por que não? Por que não permitir se eu já estava me sentindo tão abandonada?
Me privei se vê-lo fechando os olhos, apenas me concentrava nas memorias que ainda tinha guardadas da despedida desesperada que tive. Minha concentração foi praticamente desfeita quando as mãos masculinas acariciaram meu corpo e seus lábios beijavam os meus. Ficava difícil aceitar que era meu irmão quem fazia aquilo, difícil até de imaginar Lysandre fazendo tudo aquilo. O toque de Lysandre era tão dócil, já o de Kentin era árduo e ao mesmo tempo gentil. Mas mais difícil ainda era tentar fantasiar que Lysandre era quem me tocava, meu cérebro me pregava uma peça, me ordenava que abrisse os olhos de uma vez. Eu tolerei a tentativa de sabotagem, mas quando ele fez aquilo eu não me contive. Kentin já estava em cima de mim, cada joelho próximo a meu quadril, sentado em minha barriga, debruçado sobre mim, livrando-se das minhas peças de roupa. Eu tive que abrir os olhos, e os abri justamente na hora em que sua língua quente encostou em meu seio esquerdo. Foi um gemido na certa, e aquele som parecia diverti-lo e incentiva-lo a continuar mais e mais.
Suas pernas se acomodaram mais uma vez, dessa vez para trás. A intenção era ter espaço o suficiente para “explorar” outras áreas. Suas mãos repousaram na barra das minhas calças, sua boca descia através de beijos em minha barriga em direção a outros lugares. Refleti por alguns segundos e percebi que por mais que eu sentisse tesão, eu não estava preparada para aquilo. Muito menos para fazer aquilo com meu irmão. Não tinha como parar agora, meu coração acelerava enquanto sua boca descia pelo meu corpo.
O celular dele tocou.
– Atende. – gemi, mas ele não parava. – Atende!
– Não quero. – ele resmungou.
– Atende! – insisti.
Ele se ergueu, levantou-se da cama e atendeu o celular. Sua expressão era de decepção, me senti um pouco triste por ter feito aquilo, por mais que eu quisesse impedi-lo de completar o que estava começando. Eu permaneci imóvel na cama, observei e observei. Uma expressão de pânico tomou seu rosto enquanto a pessoa do outro lado da linha falava. Assim que desligou, atirou minhas roupas contra mim, ordenando que eu as vestisse.
– A gente tem que sair agora!
Enquanto dirigia em alta velocidade, eu ficava intrigada. Preocupada acima de tudo. Além de estarmos os dois ainda bêbados, estávamos indo em direção a nossa casa. Quando dobrou o carro na esquina da nossa rua, meus olhos foram se arregalando. Ambulância, bombeiros. Ambos parados em frente a minha casa que expelia um pouco de fumaça. Os vizinhos parados em frente, curiosos para saber o que acontecia. Quando desci do carro, Kentin correu. Eu tentei segui-lo, no meio dos vizinhos estava Nathaniel.
– Kentin, espera aí! – exclamei, mas ele me empurrou para cima de Nathaniel para que pudesse passar. – O que houve? O que houve? – perguntei a Nathaniel.
– Eu não… Eu não sei se… – foram as palavras dele, seu rosto tinha a mesma expressão de pânico que Kentin tinha.
Me espremi no meio das pessoas, passei por baixo da faixa amarela que interditava a casa gritando por Kentin. O incêndio já havia sido apagado, e por onde passava, nada estava queimado. Quando subi, vi que era o ultimo quarto do corredor. Nem precisei entrar para ver o que havia acontecido, da porta vi a cama queimada. Minha expressão mudou ligeiramente, decaiu com lágrimas. Até as pessoas da rua ouviram meu grito. Caí no chão sem ter forças para suportar aquilo, chorei escandalosamente. Kentin chorava ao lado de um bombeiro, a cama queimada, um cadáver com cabelos que haviam sido tingidos com tinta rosa que seria anunciada na TV. O rosto queimado, cinzas espalhadas na cama. E uma moldura próxima da mesma, uma moldura com a foto de gêmeas.
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