A Órfã Doce
92 A dor move muito mais
Notas iniciais

– Não imaginei a “garota das tranças” sem as tranças. – debochei. – Você é a vulgar que enrolou o Armin e o Lysandre, não?
– Sim, e você é a rodada que ficou com quase todo o F4.
– E como você sabe?
– Minha irmã estudava na Sweet Amoris. – ela arqueou a sobrancelha. – Mas ela era uma mera expectadora que apenas te observava e te seguia por ordem minha. Ela sempre foi boa em seguir os outros. Ela gostava do Lysandre e costumava seguir ele pelos lugares.
– E como é que você fica com o garoto que a sua irmã gosta? Ou melhor, por que não está revoltada com a morte da sua irmã?
– Acha que eu não estou? Tsc! – ela deu de ombros. – E afinal, ela nem era minha irmã de verdade. Eu fui adotada.
– Mas… Você disse que irmãos adotivos não são irmãos de verdade. Por que diz que ela é sua irmã?
– Quem é a chefona da máfia? É você? Não, não é você. – umedeceu os lábios. – O que a chefona fala, está falando. Está bom para você?
Irritante, assassina. Apesar de que eu não poderia muito falar dela. Eu matei a menina da sacada… Se é que não matei mais pessoas naquele lugar, mesmo que não na hora. Foi legitima defesa, claro. A lei permitia. Mas o ruim era ter que ficar com um morto na minha consciência. Acho que só estava refletindo sobre aquelas coisas, porque pela primeira vez na vida, eu senti realmente muito medo.
– Além de tratar das minhas “paradas”, eu sou uma ótima contadora de histórias. – ela apoiou-se nos cotovelos. – Quer ouvir uma?
– Não.
– Que bom. – ela puxou ar. – Aconteceu assim…
Tive que ouvir tudinho. Sobre ela ser daltônica, adorar sopa e ser adotada por um cara que era o chefe da máfia. Quando ele morreu, já que a filha mais nova era a biológica, ela teria a opção de assumir a posição dele. Mas além de nova, Nica disse que Nina não havia aceitado e disse que era melhor não se meter. Entretanto, acabou se metendo aos poucos, e isso acabou levando-a ao encontro de uma fatalidade.
– Ela disse que queria degolar você por ter feito o Lysandre ir embora.
– Mas a culpa não foi minha.
– Queria poder dizer isso a ela.
Ela estava um pouco calma, falava com um ar meio debochado. Ela me fazia lembrar a Tia Mika, falando coisas que não condizem com suas expressões. Mas além disso, aquela mulher não agia como deveria agir naquela situação. Era como se nada estivesse acontecendo, era como se ela não sentisse nada por conta do que aconteceu. E por mais que a conversa tivesse idas e voltas, ela continuava no joguinho para que eu adivinhasse quem era ela.
– Eu nunca fui boa em lembrar das coisas. Acho que foi por culpa do daltonismo. Enxergo tudo cinza, nem sei que cor é meu vestido ou que cor são seus olhos. – mordeu os lábios. – Além disso, tenho uma memória meio fraquinha. – deu uma piscadela, encostando o indicador na lateral da cabeça. – Mas eu sei que por mais que tenha pessoas esquecidas por aí, há certas coisas que as pessoas não conseguem esquecer. – ela encarou meus olhos e eu os dela, era um olhar profundo e invasivo, me fazia tremer levemente. – Você sabe como é isso, não sabe?
Várias imagens se passaram pela minha cabeça. O tiro nas costas de Kentin, meu beijo com o representante da escola militar, acordar num lugar estranho com uma mensagem no espelho escrita com batom, cair num lago congelado quando fui para a Alemanha, ver Castiel escolhendo outra garota, o acidente de carro, minha “doença”, os momentos na casa de Lysandre, ver Angela e Castiel juntos, pensar em como Lana havia morrido. Seriam momentos gravados com sangue nos cristais do meu coração. Não respondi, apenas baixei o olhar. Já havia encarado pessoas mais rudes, mas estava tendo medo de uma pessoa que falava calmamente. Talvez as pessoas perigosas fossem como ela.
– Você era muito novinha. As pessoas te devolviam para o orfanato. Acho que foi uma coincidência eu te perseguir ao invés da Lana. – ela fez bico, mordi o lábio.
O modo como ela falava me lembrava os psicopatas nos filmes. Depois que me lembrei dos malditos filmes, meu olhos começaram a marejar. São aqueles psicopatas de filmes que falam coisas cruéis enquanto sorriem, te contam algo duro como se não fosse nada e depois te executam. Estava temendo por tudo.
– Lembra que houveram histórias no orfanato sobre uma órfã que foi transferida e colocada no programa de proteção a testemunhas? – meus olhos se arregalaram, aquele era o meu maior temor quando eu ia para uma família nova, por isso odiava tanto ser órfã e ainda mais ser devolvida para o orfanato e enfrentar mais um bando de estranhos. – Foi o pai da Lana. E por acaso, anos depois, você foi adotada por ele e eu meio que te confundi com a Lana. Não sabia qual era seu nome e pensei que você fosse a Lana. Mas vocês eram bem parecidas quando crianças. Eram franzinas, tinham o mesmo corte de cabelo com a franja que parecia que tinha sido feita com o molde de um pinico, e a cabeça que parecia uma azeitona num palito. – deu um pequeno risinho de deboche e continuou. – Eu estava atrás dela todo esse tempo para saber onde esse maldito estava. Mas… – ela fez careta. – Ela nunca soube do que aconteceu, a mãe dela nunca contou. Nem sei quantos anos a Lana tinha, mas o cara nem era casado com a mãe dela. Eu também não queria contar, por isso usei um pretexto qualquer e guardei a verdade para mim. Nem meus homens sabiam disso.
– E o que você quer comigo?
– Eu queria saber se você sabe algo sobre o paradeiro dele.
– E como eu vou saber? Ela falou a verdade! Ela não sabia de nada! Eu sei que ela não sabia.
– E como sabe que ela não sabia?
– O cara ameaçou bater nela, ela contaria se soubesse.
– Eu não contaria. – ela deu de ombros. – Ou talvez sim. Filhos da puta merecem serem entregues nas mãos de quem possa dar um jeito neles.
– E você simplesmente deixou que a matassem. – mordi meus lábios com o intuito de engolir o choro, mas um soluço acabou escapando junto com as lágrimas.
– Não foi culpa minha, não pedi para matarem ela. E não seja dramática, fedelha. Pelo menos ela pôde morrer sem perder nada e nem ninguém. Pessoas como ela morrem felizes. Pessoas como eu e você, não.
– Não mesmo.
A ultima frase foi dita por uma terceira voz que ecoou dentro da estufa. Olhei para trás rapidamente, quando o som do primeiro tiro surgiu. Saí da cadeira e me abaixei. Do chão, pude ver que era Lana. O vestido meio rasgado na barra, a meia-calça rasgada e as sapatilhas sujas. E nas mãos, a pistola que eu havia lhe dado inicialmente.
Foram tiros, um atrás do outro, sem parar. E Lana continuava a apertar o gatilho mesmo que a arma já estivesse descarregada. A mulher atrás de mim atirou, e assim que o tiro soou, o suporte que segurava vários vasos de plantas despencou. A poeira que subiu entrou em meus olhos, e só depois de coçá-los bastante e me erguer, vi a pior coisa que poderia ver.
Não houve gritos vindos dela, foi tudo muito rápido. Lana estava no chão, baleada, sangrando. Fui até ela, fiquei de joelhos diante daquela cena horrível. Peguei em sua mão, meu corpo inteiro tremia. Ela estava viva, e eu estava apavorada com tudo aquilo. E o sangue, o sangue era o que mais me fazia tremer.
Era estranho ter todo aquele medo e não abandonar as armas de fogo. Aquele pavor começou com uma armação na escola militar. Mas pensando bem, largar as armas depois de ter entrado na escola militar era a maior burrice de todas, até por conta de tudo que aconteceu.
– Eu aprendi a atirar. Vim salvar você. – disse ela, com um sorriso fraco nos lábios. – Ele disse que eu sou uma durona oficial.
– Shh! – implorei pelo seu silêncio.
– Eu sinto muito por não ter te ajudado quando você ficou doente. Eu era fraca demais para carregar sua dor como o Kentin fez. Eu sinto muito. – ela chorava, e eu também. – Eu sinto muito Lynn, eu sinto muito.
O choro de Lana ecoou por toda estufa, ela tirou forças inimagináveis para chorar e gritar. Eu segurava sua mão e tremia, não conseguia fazer nada. Ela sangrava e ia perdendo o fôlego aos poucos, e eu não tinha reação alguma.
– Como você é patética. – ouvi um deboche vindo das minhas costas seguido de um gemido de dor. – Ela se desculpa por ter sido fraca, mas não vê que há outra fraca em sua frente. Por que não reconhece isso? Você realmente se acha forte, fedelha? Pessoas que enganam a si mesmas são patéticas.
Apenas ignorei como uma fumaça de cigarro apagado no cinzeiro.
Lana esboçou um pequeno sorriso nos lábios, ergueu a mão e a fechou na corrente do pentagrama que ela havia me dado de presente. Puxou-me para perto e sussurrou um segredo que me deixou perplexa.
– Eu disse a ele que falaria se ele não falasse. – ela riu, e por consequência disso tossiu.
Dimitry chegou sozinho no telhado, correu para dentro da estufa com a arma erguida e o olhar fixado em Nica.
– Minha amiga. Minha amiga foi baleada. Ajude-a, por favor.
– Mas ela… – ele apontou para Nica.
– Não dê importância, está desarmada e presa. Apenas leve a Lana.
Dimitry não soube negar me vendo implorar daquela forma. Mais agentes viriam por ordem dele. Fiquei sozinha com aquela mulher novamente, a arma havia caído longe dela. O suporte que segurava várias plantas havia caído por cima dela, imobilizando-a. Aparentemente ela estava vulnerável.
– Você vai ser policial? – arqueei a sobrancelha por conta da pergunta esquisita. Depois de tudo que aconteceu, qual era o sentido de perguntar aquilo? – Eu queria ser policial, mas digamos que as coisas não saíram como eu queria.
– Isso não está machucando? – perguntei, me referindo a todas as plantas e a estrutura que as sustentava na parede de vidro da estufa.
– Claro que está, sua burra.
Óbvio que eu não iria libertá-la, algum agente chegaria logo e faria isso. Já deveriam ter rendido o pessoal do prédio, Dimitry até havia me encontrado no telhado. Eu não sabia o que sentir. Eu a conhecia, eu sabia o motivo pelo qual ela se tornou desse jeito.
– Eu só pensei em me vingar dele, sabe? E eu simplesmente… Acabei arruinando minha vida.
Fiquei parada, ainda no chão. Sentada virada para ela. O vestido do casamento com pequenas manchas de sangue enquanto as mãos estavam completamente sujas. Eu havia parado de tremer, mas só de lembrar que aquele sangue era de Lana, começava a tremer novamente.
– Pega aquela arma ali. – ela apontou com a visão em direção a arma que estava a alguns metros dela. – Atira em mim.
– Como?
– Atira em mim. Se me pegarem eu vou ser condenada a morte mesmo, não faz tanta diferença. Eu só não queria morrer como uma criminosa.
Era confuso uma criminosa ser, ao mesmo tempo, uma vítima. Havia tanto tempo que eu mal me lembrava de quando ouvi aquela história. Era a história de uma garota que havia sido abusada sexualmente por um homem que havia adotado-a. Todas as garotas do orfanato ficavam com medo de serem adotadas por isso. Inclusive eu, carreguei esse medo por muito tempo. Pela idade que diziam que a garota tinha e comparando-a com a possível idade de Nica, na época eu ainda era um bebê. E pelo visto, foi antes daquele homem se casar com a mãe da Lana. Ele era o padrasto horrível que Lana teve medo por tantos anos. Quando fui irmã dela, até eu tive medo dele. Mas se soubesse que ele tinha sido o homem horrível que havia estuprado uma garota que ele adotou, eu teria muito mais medo. Tia Cristal poderia até saber sobre essa história, mas se fazia de desentendida. Era o que ela mais sabia fazer quando era casada com aquele homem.
Nica contou, quando estávamos à mesa conversando sobre sua complicada história. Depois dos abusos, ele foi preso e ela foi colocada em um programa de proteção a testemunhas. Ele a ameaçou de morte e, por incrível que pareça, saiu da cadeia por bom comportamento. Casou com uma mulher que tinha uma filha e que queria outra, por isso teve a ideia de me adotar. Foi o tempo que eu e Lana nos tornamos irmãs. Aquela altura, Nica ainda não havia assumido posto algum na máfia, mas seguia cada movimento de Lana para, um dia, conseguir alcançar aquele desprezível homem. Infelizmente eu fui confundida com a Lana e fui alvo de algumas desgraças por conta disso. Eu fui devolvida porque a madre do orfanato não aceitava que bruxas adotassem as crianças de lá. Fui confundida com Lana naquele momento. E como Lana e Cristal se mudaram com uma ordem judicial para escaparem das mãos daquele homem, eu era o único alvo viável de Nica. Apesar de que eu tinha sido devolvida ao orfanato e fazia anos que não havia visto aquele homem. Talvez o objetivo fosse indicar onde Lane e tia Cristal estavam, assim poderia ser mais fácil de achar o estuprador. Entretanto, aquilo foi uma missão fracassada. Nem ao menos elas duas sabiam sobre o paradeiro dele.
Ela queria ter acesso a ele, queria alcançá-lo e fazê-lo pagar por todo aquele trauma e humilhação na sua infância. Para conseguir vingança, ela fez de tudo. Fez o que não devia, cresceu junto com seu ódio e tornou-se uma pessoa movida apenas pelo desejo de vingança.
– Você está… Se arrependendo?
– Eu tenho impressão de que nem vou sair daqui viva. Quando dizem que você está morrendo, você vê a sua vida passar pelos seus olhos. Eu não gostei do que vi. E eu… Eu queria mudar. Mas não tem mais volta! Eu escolhi um caminho só de ida.
– Escuta, Nica. Eu... Eu não posso atirar em você.
– Vai me deixar sair daqui para ir à cadeira elétrica enquanto aquele porco ainda anda por aí? Não quero morrer como uma criminosa quando o real criminoso é ele. Por favor, Lynn. Você conhece minha história, e por mais que não tenhamos nos conhecido tão formalmente, você sabe quem eu sou e eu sei quem você é.
Meu coração doía e meus olhos expulsavam lágrimas. Eu não sabia o que fazer, e saber que a vítima daquela história estava bem a minha frente, me fazia querer chorar cada vez mais. Os tiros de Lana não prejudicaram apenas a estrutura que segurava várias plantas. Também havia prejudicado a estrutura da estufa. Foi o momento em que uma parte do telhado cedeu. Vários pedaços de vidro atingiram-na. Ela gritou, ela gemia alto com as dores que sentia. Meu corpo se petrificava. Todas aquelas sensações que eu estava sentindo, nunca havia sentido antes.
Ela havia me pedido. Não havia jeito de salva-la sozinha, nenhum agente aparecia e com certeza ela iria morrer ali. Sangrando e implorando por um simples alivio. Eu me sentiria um monstro por atirar em alguém que não poderia reagir, mas eu me sentiria um monstro ainda maior tendo em mente que ela me implorou por isso apenas para terminar com tudo de uma só vez.
Por isso eu fiz aquilo, por isso eu andei até a arma e a pus em mãos. Ela me encarava mordendo o lábio para abafar os sofridos sons das dores que sentia. Ergui a arma, mas meu corpo não obedecia, o gatilho eu não apertava, a arma não se mantinha erguida. Ia abaixando aos poucos e o rosto de Nica ia tomando mais desespero.
Ergui a arma novamente, engoli a saliva e respirei fundo. Toda essa preparação para novamente a arma ser abaixada aos poucos.
– Eu não faço a mínima ideia de quem você é. – uma mão masculina segurou o punho da mão armada e o ergueu. – Mas não deixarei você ficar assim.
Era Kentin.
– Hei, fedelha. – ela dirigiu-se a mim, com um tom de deboche despencando em um choro. – Eu te nomeio a nova garota das tranças. Mas, bom… Vai ter que arrumar outro Lysandre para você. – o sangue manchava as plantas, o chão e sua pele.
– Quais são suas ultimas palavras? – perguntou Kentin, ainda segurando minha mão. Pelo visto ele insistia que fizéssemos aquilo juntos.
– Fedelha. Se achá-lo, frita ele pra mim.
Ela fechou os olhos, eu fechei os olhos, não tive coragem o suficiente para ver aquilo. Quando o disparo foi feito, apenas virei de costas e encostei a testa no peito de Kentin para chorar mais do que eu havia chorado. Ele me tirou dali e levou a arma consigo, tirou a camisa para segurar a arma que Lana deixara no chão e colocá-la na mão de Nica. Sem deixar impressões digitais e o calibre das armas, coincidentemente, ser o mesmo, não haveria problemas. Quando me tirou dali, fomos para o hospital e depois para casa.
Nica parecia que sabia que iria morrer desde o começo. Ela me contou sua maior mágoa por achar que eu entenderia por ter sido órfã assim como ela foi. Mesmo que ela fosse a chefona da máfia, talvez quisesse pedir desculpas pelas coisas que aconteceu e explicar que tudo aquilo foi movido pela dor que ela sentia. A fé move montanhas, mas a dor move muito mais.
Havia tanta coisa da qual eu queria chorar, nem sabia por onde começar. Lana havia sido dada como morta, depois ela apareceu e logo em seguida quase morreu para tentar me salvar. Eu matei uma mulher estranha para conseguir sobreviver e matei uma mulher que sofreu o suficiente para trinta vidas. Descobri que a garota das tranças, amada de Lysandre, era uma mulher obscura com o coração petrificado por conta de um homem que tem alguma doença na alma. Temer realmente pela minha vida pela primeira vez. E não só pela minha, pela de todas e por tudo.
Quando eu fui resgatar o F4 quando houve aquele sequestro, eu não ligava, eu me sentia a dona do mundo e sentia como se ele girasse ao meu redor. Nada poderia me ferir, ninguém poderia ser melhor que eu. Por isso não temi por nada. Eu fui mudando no decorrer do tempo, e se eu fosse como era antes, estaria morta sem sombra de duvidas.
Reconhecer fraquezas não te faz fraco. Faz-te humano.
E por chorar tanto, pensar tanto, refletir tanto, eu me senti mais humana como nunca havia me sentido antes.
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