A Órfã Doce

74 A degeneração


Notas iniciais
Oi morangolinas, aqui é a morangochan. Pois bem, antes de começar o capítulo, eu queria explicar umas coisas. Duas personagens novas vão aparecer, são duas amigas minhas, mas nessa fanfic, elas só estão para tapar uns buracos na história. Não serão personagens fixas. Prestem atenção na data em que a Lynn coloca no diário. Não, eu não errei, não, o tempo não passou. Essa simplesmente é a data da época em que a fanfic se passa. Boa leitura.

– Quando soube?

– Dias atrás.

– Não está zangado comigo?

– Sim.

– E então por que não brigou comigo?

– Eu quero, mas não consigo.

Ele me abraçou, mesmo que eu estivesse deitada. Ele estava triste, muito triste. Seus olhos verdes demonstravam isso. E eu estava mal, tão mal que não conseguia chorar e abraçá-lo de volta. Para falar a verdade, nem sei como consegui correr. Havia outra coisa que eu havia observado e isso foi o que me deixou mais intrigada...

– Kentin... – o chamei. Ele me soltou e limpou os olhos com a luva de tecido grosso, que aliás, ele não estava com as mesmas há poucos minutos. – Quando se cai, normalmente os braços tentam servir de apoio para amortecer o impacto, não é? – ele fez que sim com a cabeça.

Não disse mais nada, aquilo só me deixava triste. E pensei bem olhando a face confusa de Kentin. Era melhor deixá-lo confuso do que mais triste ainda.

– Mexeu nas minhas coisas para encontrar o colar? – perguntei, retornando ao assunto anterior.

– Sei que não devia. – ele suspirou. – Mas fiz quando você estava dormindo.

– Não se incomodou?

– Com o que?

– Eu passei sete anos e você passou cinco, atiro melhor do que você. Nenhum ciúme? – brinquei, ele não evitou a risada.

– Você não é nada comparado a mim, tampinha!

Sorrisos estavam esboçados em nossas faces, os mesmos foram diminuindo com o passar do tempo. Ficamos naquele silêncio, encarando um ao outro. Pude notar a face de preocupação, talvez nem tudo estivesse bem. E aliás, tinha quase certeza. Ele não choraria simplesmente porque eu caí. Até porque ele não chorou quando me derrubaram da moto na escola.

– Seu diagnostico. – ele parou um pouco buscando coragem. – A médica me ligou dizendo que amanhã poderíamos vir ao consultório para receber os resultados.

– Ela disse... O que eu tenho?

– Não. Ela disse que só diria quando estivéssemos lá. – explicou. – Ela conhece a mamãe há muito tempo e soube das coisas que aconteceram com ela depois que ela abandonou a faculdade. A Morango recomendou que eu não contasse nada para a mamãe por enquanto.

– É tão ruim assim? – as lágrimas já brotavam.

– Não sei. Eu já falei que ela não me contou nada.

No dia seguinte nós fomos ao tal consultório, mas Kentin me deixou plantada lá, esperando. Esperando o que? Havia mais três pacientes na minha frente, e Kentin falou alguma coisa sobre ir comprar algo que eu nem tinha idéia do que seria.

Ainda estava com o curativo no queixo, havia trocado ontem com a ajuda de Kentin. Sentei-me numa das cadeiras dos corredores vazios. Havia duas garotas, distantes, até que queria conversar, mas não tive coragem de ir falar com elas.

– Uma vez meu pai caiu e precisou de um curativo igual ao seu. – uma voz comentou de lado, encarei o autor. Aliás, autora. Uma menina de cabelos castanho claros, quase como os de Kentin, só que num tom mais escuro. Os olhos tinham quase o mesmo tom do cabelo. Era magrinha, mas não muito. Rosto redondo, pele levemente clara, voz suave. – Eu fiquei observando você por uns minutos. Aquele menino era o seu namorado?

– Namorado?! – esbocei um sorriso e quase quis rir. – Não, ele é o meu irmão.

Acabamos dando risada do engano que ela cometeu.

– Eu estava esperando a minha amiga para me ajudar a carregar aquilo. – ela apontou para um bocado de bolsas. – Ela vem trazendo mais com a minha mãe, mas me sinto um pouco incomodada em deixar meu pai sozinho no quarto do hospital.

– Se quiser posso ajudá-la. – me ofereci.

– Mesmo? – ela sorriu empolgada. – Meu nome é Lícya, e o seu?

– Lynn.

Eram três bolsas, pela aparência, não pareciam nem tão cheias, quanto mais pesadas. Quando olhei para os objetos do lado do banco onde ela estava sentada, entendi o porquê dela precisar de ajuda. Eram muletas.

– Eu consigo levar as três. – sorri pegando as três bolsas.

– Não, eu posso carregar uma. – ela insistiu.

– Pode deixar. Não é incômodo.

As bolsas nem estavam tão pesadas, mas deve ser difícil carregas as três, e ao mesmo tempo, ter que se apoiar num par de muletas sem perder o equilíbrio. Será que ela sempre falava com as pessoas para conseguir ajuda? Ou apenas quis falar com alguém, já que estava sozinha e viu que eu também estava?

– É esse quarto. – ela apontou para um dos quartos do corredor. Apoiou o peso em uma das muletas e abriu a porta com uma das mãos. – Cheguei, pai. – ela sorriu.

Era um homem com uma aparência abatida, fraca, mais fraca que a minha. Ele nem ao menos falou, só esboçou um leve sorriso.

– Essa é uma amiga minha. – ela forçou um sorriso em minha direção.

Ela acabou de me conhecer, mas se eu estivesse na situação dela, eu faria o mesmo. Talvez o pai dela se zangasse por ela ficar falando e pedindo ajuda a estranhos. A porta abriu e uma menina surgiu, aparentemente tinha a mesma idade que Lícya. As duas deveriam ter quase a mesma idade que eu, mas eu tinha uma leve suspeita de que elas fossem mais novas, um ano pelo menos.

– Hei, a sua mãe não veio. Ela disse que ia ficar até mais tarde trabalhando no... – ela parou assim que me viu. – Quem é?

– O nome dela é Lynn. – ela explicou. – Essa aqui é a Gabriela.

– Prazer em conhecer.

– Igualmente.

A mais nova aparentava ser Lícya, tinha um ar mais infantil e inocente. Gabriela era centímetros mais alta do que eu. Era mais morena, cabelo longo e escuro.

Houve uns cochichos entre elas. Senti-me incomodada por um momento. Já estava me preocupando. E se Kentin chegasse e não me visse? Bobagem, ele me ligaria. Não teria com o que me preocupar, só levaria uma bronca.

Vi Gabriela ir em direção a cama. Lícya foi empurrando uma cadeira da altura da cama até se aproximar da mesma, Lícya sentou-se. Gabriela pegou uma placa de plástico bem grande onde havia escrito algumas sílabas. Ambas seguraram em frente ao pai de Lícya. Nem todas as sílabas estavam lá, quando não estavam, ele fazia um sinal com a mão e elas pegavam outra. De sílaba em sílaba, ele formava uma palavra apenas apontando.

– Ele não pode falar? – perguntei. Burrice, se ele pudesse falar, já teria falado. Gabriela fez que não com a cabeça.

– Ele tem uma doença rara. – Lícya explicou. – Uma doença que debilita os movimentos do corpo, debilita a fala e um pouco na capacidade de comer. É uma doença que ataca as células do cerebelo e da medula, se não me engano. Ele caía várias vezes. Ficava perdendo o equilíbrio. Tinha que descer as escadas segurando forte no corrimão, e às vezes caía quando descia as mesmas. Foi uma época bem difícil para mim e minha mãe. – lágrimas tímidas escorriam pelos olhos dela. – O diagnostico foi que ele tinha a Degeneração Espinocerebelar.

“Cair, perder o equilíbrio, descer as escadas com dificuldade”. – repeti para mim mesma.

– Quanto tempo faz desde que ele pegou essa doença?

– Uns três anos. – Gabriela suspirou. – Estamos tentando ao máximo para que...

Nossa conversa foi interrompida por um barulho agudo e uniforme vindo dos aparelhos. Petrifiquei na hora, o coração dele havia parado de bater. Gabriela apertou freneticamente o botão que chamava a equipe médica ao quarto. Quando os médicos chegaram, disseram que eu teria que sair junto com as meninas. Lícya chorava desesperadamente enquanto Gabriela tentava acalmá-la.

– Acho melhor ir. – Gabriela aconselhou. – Não queremos envolver você em algo que você não tem nada a ver. Pode ir. Sei que está aqui para alguma consulta.

Fiquei perturbada ao sair de cena, e na mesma hora, meu celular tocou.

– Onde está? – Kentin gritou do outro lado da linha.

– E-eu... Estou indo para a recepção. Encontre-me lá.

Quando encontrei Kentin na recepção, ele me bronqueou até não poder mais. Nem contei a situação a ele, ele brigaria mais, e mesmo que eu quisesse falar, não conseguia. Estava muito abalada com o que tinha acontecido. As situações pareciam comuns entre mim e o pai de Lícya, e isso me deixou com um mal pressentimento.

Ao entrarmos na sala da médica, ela estava com uma cara nada boa. Tremi de base a extremidade, era ruim, tinha certeza que era ruim. Havia um envelope nas mãos dela, ela pôs sobre a mesa. Toquei no envelope, mas ela pôs a mão sobre a minha, me impedindo de puxá-lo.

– Eu pedi que se preparasse. Você se preparou, não é mesmo? – ela interrogou. Não soube o que dizer. Eu estava pronta? No começo, eu achava que sim. Mas ao passar dos dias, eu simplesmente fui tomada pelo desespero.

– Mesmo se eu não estivesse, a preparação não vai me curar, vai? – a encarei. Ela deu um suspiro leve e me deixou olhar o envelope. – O que é isso?

– São os últimos exames. Da ressonância magnética. – ela mordeu o lábio inferior. – Infelizmente, eu não tenho boas noticias.

“É uma doença que ataca as células do cerebelo e da medula, se não me engano. Ele caía várias vezes. Ficava perdendo o equilíbrio.” – relembrei da explicação de Lícya enquanto olhava as imagens da ressonância.

– Eu tenho a Degeneração Espinocerebelar, não é, doutora? – ela fez uma expressão de surpresa, demorou para que ela concordasse com a cabeça. – Então... Quer dizer que daqui a uns anos eu ficarei como o pai da Lícya? – dessa vez a resposta demorou a vim mais ainda, o olhar era baixo e triste.

– Sim.

Não era a primeira vez que eu havia ouvido falar sobre aquela doença. E isso me deixou mais desesperada do que qualquer outra coisa.

FLASH BACK ON

Lana havia tomado meu notebook para pesquisar algo. Ela parecia maravilhada e ao mesmo tempo, assustada.

– O que está procurando? – perguntei. – Fotos de meninos bonitos? – brinquei, ela corou.

– Não. É que o professor Faraize pediu para a gente fazer uma pesquisa sobre doenças raras. – ela explicou.

– Isso foi semana passada.

– Eu sei, mas eu gostei do assunto e estou pesquisando mais sobre. – ela virou o notebook para mim. – Essa aqui é a Degeneração Espinocerebelar. Uma doença que ataca a mielina, a substancia que funciona como fita isolante para que os impulsos elétricos sejam conduzidos ao longo da fibra nervosa.

– Não entendi. – fiz careta. Que forma mais complicada de falar.

– Quando há problemas na mielina, o sistema nervoso não funciona como deveria. Ou seja, os movimentos não são os mesmos, e como é uma degeneração, ela tem um estado progressivo.

– Ah... – fiz careta fingindo me interessar pelo entusiasmo de Lana. Apenas estava cansada e com preguiça de continuar a fazer a lição de matemática. Essa foi a nossa pausa, a que ela tomou meu notebook para ler sobre isso. – E tem cura?

– Não. – ela virou o notebook para mim e apontou para uma linha.

– Isso está escrito em Japonês. – fiz careta.

– O navegador traduz automaticamente. Traduziria se a sua internet não fosse tão lenta! – ela reclamou. – Aliás, eu já entrei nesse site, e nessa linha diz que a doença não tem cura e nem tratamento.

– Não tenho culpa da internet lenta. – resmunguei. – A conexão só fica lenta porque o Kentin fica baixando pornografia toda hora.

FLASH BACK OF

Coloquei as mãos no rosto e comecei a chorar desesperadamente, quase gritava de tanto desespero que estava sentindo. Não havia cura, não havia tratamento, não havia nada. Só havia eu e uma doença sem saída.

– Lynn, calma! Deve ter alguma saída. – Kentin tentou me reconfortar.

– Não tem. – a doutora falou cortando as asas de Kentin. – Sinto muito. – ela suspirou. – Mas o caso clínico varia. Eu conheço o pai da menina que você falou. O caso dele foi porque a doença progrediu e o debilitou rapidamente. Talvez o seu não seja assim.

As estatísticas eram de 4 ou 5 infectados entre 100.000 pessoas. Por que a porcaria dessa doença tinha me escolhido? Não poderia infectar outra pessoa? Uma pessoa má! Eu não era má, eu não merecia aquilo.

– Você pode fazer fisioterapia ou treinar artes marciais com alguém. – ela sugeriu.

Mal ouvia suas palavras, estava surda com meu próprio choro. Kentin repousou a mão em meu ombro tentando me acalmar, de nada servia.

– Já... Podemos ir? – Kentin perguntou.

– Só um minuto. – ela falou colocando um frasco em cima da mesa. – São umas pílulas, com elas e uns exercícios talvez acabem ajudando em algo. E quem sabe o processo da doença não seja tão rápido. Aconselho que esteja com ela quando ela estiver comendo. Se ela engasgar, você tem que ajudá-la. Qualquer coisa ligue para o meu celular.

Kentin saiu me arrastando da sala da médica até o carro. Parecia um pai autoritário puxando pelo braço uma criança birrenta. Eu não conseguia me mover ainda, ainda estava em choque. Tudo que eu fiz e queria fazer havia se destruído na minha frente em um só segundo.

– Então vai ser assim? – ele me perguntou.

– “Assim” como?

– Só vai chorar?

– Você sabe o quão isso é difícil pra mim?

– E quem é você pra falar de coisas difíceis? – ele retrucou. – Eu fui humilhado na escola, fui pra escola militar e me forçaram a deixar de ser quem eu era. Depois disso eu tomei um tiro nas costas e perdi meu pai. Acha que as coisas foram fáceis para mim? – desde a primeira pausa, eu sentia que o tom de voz estava alterado, e o mesmo só aumentava cada vez mais. Em poucos segundos, ele já estava gritando comigo.

“Tiro nas costas”. – repeti para mim mesma.

– E sabe quem atirou em mim? – ele segurou meu braço. – Foi você! Você atirou em mim. Eu te perdoei e fingi que nada aconteceu. Eu te reconheci como irmã. E eu não fiz isso para depois ver você ficar chorando como se fosse a pessoa mais sofrida do mundo. Você não é a vítima maior daqui, Lynn. Então cala a boca, para de chorar e seja uma mulher de verdade!

Ele me deixou sozinha no meu quarto. Tinha que processar todas aquelas informações. Minha doença, o meu segredo revelado, Kentin zangado comigo. Eu sabia que ele ia se zangar, ele iria arrumar uma forma de se zangar. Quando ele se zanga assim, não é uma coisa boa. Apesar de que brigamos sempre, eu conheço quando ele está realmente zangado comigo. Na verdade, ele fez bem em me dar um sacode. Foi merecido, admito. Eu só tive pessoas ao meu lado, passando a mão na minha cabeça, isso me confortou, mas ao mesmo tempo, matou a vontade que eu tinha para lutar, simplesmente porque eu me acomodei demais.

Fiquei sentada na cama, abraçando os joelhos, tentando me acalmar para não chorar novamente. Vi algo novo no meu criado mudo. Um par de luvas que não eram minhas, mas eram iguais as de Kentin, apesar de que o tamanho era menor. Sorri e as coloquei. Aparentavam ser novas, bem novas. Deveria ter sido isso que ele foi comprar quando me deixou sozinha no hospital, deveria ser uma surpresa. Eu andei observando ele dias antes de descobrirmos o que eu tinha, ele não demonstrava muito, não falava nada sobre, mas eu sabia que ele tinha esperança de que fosse algo comum e que eu ficaria bem o mais rápido possível. Será que agora ele ainda tinha esperança? Nem sei se eu mesma ainda tenho esperança. Mas se não houver esperança, qual é o sentido de continuar vivendo?

“25/08/2025. Tirei os pontos das costas no hospital. Depois disso eu tive umas leves dores e pouco sangramento. Senti umas dores de cabeça depois que tomei o remédio. Talvez esse diário não seja para abrir meu coração, mas... Eu não sei o que fazer. Eu tenho pessoas ao meu lado, mas às vezes eu penso em desistir. A ideia de não poder falar e nem andar me atormenta a cada segundo em que eu penso nisso”.

Notas finais
Acalmem a pepekis ativis. Eu sei que todo mundo ficou chocada com esse capítulo. Além de descobrir a doença da Lynn, vocês viram uma questão muito antiga. Várias leitoras associaram o diário da Lynn com o diário da Miki. Talvez a Lynn acabe ficando meio piradinha da cabeça por conta da situação dela. Mas enfim. Obrigada por ler e até a próxima.