A Órfã Doce
69 A culpa é do idiota do Castiel
Notas iniciais

Passei o dia trancada no quarto, nem trabalhar eu não fui. Lana não veio, escutei uma conversa de Kentin no celular. Aparentemente Lana quis vir, mas Kentin achou que não era uma boa idéia. Que bom... Precisava de um tempo sozinha para colocar a cabeça no lugar.
Eu estava sentindo uma fúria imensa e uma tristeza de mesmo peso. Declarar-me não deu em nada... Quem sabe ele estivesse dando o troco? Quando ele se declarou para mim, Kentin o ameaçou e eu o ignorei... Nada mais do que justo. Eu tinha que aceitar a decisão dele, mas eu não conseguia aceitar que eu tinha perdido para Debrah. Talvez eu fosse uma má perdedora como Kentin.
– Lynn, você ta bem? – Kentin perguntou do lado de fora do quarto.
Eu disse que sim, para não preocupá-lo nem nada do tipo. Eu acabei prolongando aquele “tempinho sozinha”, o resultado foi uns dois dias sem sair de casa. Kentin tentou conversar comigo, disse que Castiel iria embora depois de resolver uma briga que teve com os pais. No caso, ele iria próxima semana.
A tia tinha chegado, eu estava chateada por nem ao menos conseguir fingir que estava bem. Kentin deve ter contado tudo o que havia acontecido, porque eu não contei e ela veio falar comigo no meu quarto. Ela abriu a porta, me cumprimentou e sentou-se ao meu lado na cama.
– Você teve o coração partido? – ela foi direto ao ponto.
– Por assim dizer. – respondi.
– Pelo menos está aprendendo a ser mulher. – ela sorriu afastando umas mechas do meu cabelo para atrás da orelha.
– O que? Como assim?
– Mulheres devem controlar suas emoções, pois logo terão seus corações conectados a alguém que não se pode ter.
Baixei o olhar. Talvez ela soubesse do que falava. Algumas vezes, os adultos são prudentes. Por que “algumas vezes”? Por que sempre há pessoas que não têm essa qualidade. Eu sabia que a tia já tinha muita experiência de vida, ainda mais por causa do que aconteceu com a irmã e com... O pai de Kentin.
– Já houve um homem do qual eu amei. Quase até chegamos a ter um filho, cheguei até a engravidar, mas infelizmente... Ele partiu meu coração e o nosso filho não resistiu.
“Então um dia a Mika apareceu grávida”. – lembrei-me do que havia lido no “Diário dos sonhos”. – “Ela não estava grávida do Kentin?”. – pensei. – “Deve ter engravidado depois”.
– Você é jovem e bonita. Não tem que ficar se enroscando com qualquer um, acho que tem que ser mais seletiva. Eu sempre soube que aquele Castiel não era uma boa pessoa, por isso quando você foi para a Swett Amoris eu lhe adverti sobre o F4.
FLASH BACK ON
– Tome cuidado com o F4. – ela falou meio preocupada enquanto dirigia.
– F4? – perguntei. – O que é isso?
Ao lançar a pergunta, já tínhamos chegado aos portões da escola. Peguei minha bolsa e saí do carro, acenei e ela me desejou um bom dia, saiu sem me responder nada.
FLASH BACK OF
Ela poderia ter me falado isso! Mas não a bronqueei e nem coloquei a culpa nela, sabia muito bem qual tinha sido o motivo real de ela não ter me dito, esse motivo se chamava “Kentin”. Ela era minha tutora e ela é mãe dele, se eu me envolvesse com ele, ambos acabaríamos descobrindo. Talvez ela achasse que Kentin iria se recusar a ter uma outra pessoa dentro de casa que ele chamaria de “irmã”. Bem... No começo houve rejeição, mas foi muito bonito da parte de Kentin me tratar como irmã de sangue. O arrependimento bateu, nunca agradeci a ele por isso...
– Eu quero que você coloque um sorriso no rosto e empurre a tristeza para os joelhos, depois a empurre mais para baixo até conseguir pisar nela e sair seguindo em frente. Eu sei que é muito fácil falar, mas você não vai conseguir ficar bem sem nem ao menos tentar. Mas faça o que você tiver vontade, se quiser que aquele menino fique, lute. Se você achar certo, claro. Se ama algo, proteja...
– Com os dois braços. – a interrompi. – Mesmo que arrisque sua vida.
Já tinha até me esquecido um dos ensinamentos da escola militar. Esse era o ensinamento que incentivava a determinação. Era meio dramática aquela frase para esse tipo de situação. Eu não iria arriscar minha vida, mas a Debrah estava arriscando a dela! Ela iria ver só, iria fazer de tudo para encontrá-la e acabar com ela!
“Esqueça o Castiel. Lynn, você não terá o orgulho ferido outra vez”. – pensei.
Orgulho foi uma coisa que me atrapalhou por uns momentos, mas tudo que eu tinha agora era um coração partido e um orgulho ferido que tinha a necessidade de se vingar.
Kentin nem ao menos deveria saber o que estava acontecendo e o que Debrah contou para mim e para Lana. Kentin, assim como Armin, ele era meio neutro naquela história. Mas eu o faria ficar do meu lado, e eu sabia que ele iria ficar do meu lado. E foi isso o que eu fiz, durante a noite, quando as coisas se acalmaram e a tia teve aquela idéia maligna do “banho em família”, eu acabei falando com ele. Eu estava sozinha na banheira com ele, a tia tinha saído para pegar algo que eu nem tinha escutado o que era.
– Ela fez o que?! – ele arregalou os olhos. – Está falando sério? – fiz que sim com a cabeça. – Pois está na hora de eu mostrar a ela umas coisinhas que eu aprendi na escola militar.
Por uns cinco minutos Kentin ficou exaltado, fazendo seu discurso de ódio. Fiquei cabisbaixa, pelo menos ele me apoiou, mas mesmo assim estava triste por ter levado um fora daquele jeito. Mas ao mesmo tempo não sabia o porquê me sentia triste, antes eu estava totalmente determinada... Uma parte de mim me dizia que eu merecia tudo aquilo, eu magoei o Lysandre e o Castiel. Era só aquilo que eu sabia fazer, decepcionar as pessoas. Karma, lei do retorno, justiça, estava pagando pelo que fiz. Mas... Foi sem querer, não queria ter feito aquilo.
“Só faço burradas”. – pensei.
– Tampinha. – Kentin estalou os dedos perto do meu rosto. – É tão triste te ver dessa forma. – ele fez uma cara emburrada. – Eu te abraçaria se você não estivesse pelada, mas se você tivesse peitos, até que eu arriscaria.
Fiz careta, ele riu. Era sempre assim, apesar da malicia nas piadinhas dele, ele sempre conseguia tirar de mim uma careta seguida de uma risada.
– Obrigada.
– Pelo que?
– Por ser meu irmão.
A tia voltou para a banheira, óbvio que todos estavam de toalha. Nunca que eu iria entrar na mesma banheira com aquele pervertido com tudo descoberto, ainda mais porque ele iria me zoar de todas as formas possíveis como ele fez da outra vez.
Passei uma noite com a cabeça lotada de pensamentos, um repreendendo o outro. Estava realmente difícil saber o que eu faria, mas eu sabia de uma coisa: Estava na hora de desmascarar a senhorita certinha. Castiel iria embora próxima semana, enquanto isso, eles ainda estavam freqüentando a Sweet Amoris.
Naquele dia eu combinei tudo o que eu ia fazer, Kentin me ajudou juntamente com Lana e Alexy. Sim, Alexy. Pelo visto Armin andou falando umas coisinhas para ele, e óbvio que Alexy iria acreditar em Armin. O plano estava feito, só tinha que esperar até a hora do intervalo na sala do F4, meus cúmplices fariam o resto. Antes das aulas começarem, fui até o novo território de Lysandre, o jardim que ficava próximo a piscina.
– O Kentin me contou que...
– Eu sei... – suspirei. – Ele sempre tem essa mania de contar tudo para os outros.
– Você não queria que eu soubesse?
– Bem... – corei me apressando para explicar. – Não é isso! É que...
“Que não a amaria como eu amei”. – era o ultimo verso que estava escrito na folhinha do bloco de notas de Lysandre. Aquilo me dava uma dor no coração, ele não demonstrava, mas tinha certeza que não fui somente eu que tive o coração partido. Achei melhor fingir que não sabia de nada, acho que além de estar triste, ele ficaria chateado se soubesse que eu espionei o bloco de notas dele.
– É meio complicado. – expliquei.
– É meio complicado ou você não quer me dizer que não queria que eu soubesse? – ele arqueou uma das sobrancelhas, fiquei boquiaberta.
– Eu só não queria que você achasse que eu sou uma chorona. – cruzei os braços.
– Estava só brincando com você. – ele deu uma leve risada.
Ele era tão doce, e eu tão má... Tinha partido o coração dele e ele lá rindo. Como já havia dito antes, o que eu sentia por Castiel empatava com o que eu sentia por Lysandre, e parecia até que não havia modo de desempatar.
– Está pensando no Castiel? – ele perguntou.
– Não. – menti.
– Então no que estava pensando?
– Quer ler meus pensamentos, Sherlock? – brinquei. – Por que está lendo minhas feições?
– Porque você é interessante. – ele sorriu, eu corei. O silencio caiu por uns segundos, a expressão dele mudou. – O Kentin também falou do que você iria fazer hoje e...
– Ele te conta tudo?! – fiz bico. – Realmente não sabe guardar segredo!
– Não se aborreça. – ele pediu. – Sabe... Eu não sei muito bem o que pensar do Castiel, mas não acho que ele te deixou triste de propósito, sabe... Ele já sofreu muito por causa da Angela e a Debrah meio que o fez sentir-se melhor em relação a mesma. Eu não o julgo por...
– Eu achava que a pior coisa que eu já tinha visto era o Kentin defendendo o Castiel, mas agora eu vi isso. – Lysandre encarou o chão. – Essa pode ser sua opinião, mas espero do fundo do meu coração que você não esteja tentando mudar a minha com essa sua explicação aleatória. – ele olhou para mim ofendido. – Tudo de ruim que aconteceu na minha vida desde que eu vim para cá, foi culpa do idiota do Castiel.
– Se ele é tão idiota, por que se declarou para ele?
– O Kentin contou isso também?!
– Não! Eu estava no telhado com ele. – já iria retrucar, ele mesmo falou que o Kentin é que tinha lhe contado sobre tudo o que aconteceu. – Eu menti. O que é que eu ia falar? Que eu estava lá e não fiz nada? Sinto-me mal por isso, eu juro.
– Eu me arrependo de tudo que eu fiz. Não deveria ter dado chances a Castiel e muito menos ter tido curiosidade de como é gostar de alguém. Mas me arrepender e chorar não vai adiantar de nada. E já que estamos falando verdades por aqui... – pausei um pouco respirando profundamente. – Eu li o seu bloco e sei que aquilo era para mim. Eu sei que agora você está zangado, então é melhor eu deixar você sozinho.
Levantei-me com uma dor no coração e extremamente arrependida por não dizer a ele sobre o que eu sentia. Mas eu teria muito tempo, primeiro eu teria que sambar na cara do Castiel e de TODA a escola, depois eu veria como eu diria aquilo para Lysandre.
– Você se importa comigo...
Parei meus passos no mesmo instante, arqueei a sobrancelha com dúvida, antes que eu me virasse, ele me puxou pelo braço e ficou de frente para mim.
– Diga-me, por que você se importa? Gosta de mim? – ele me segurou pelos ombros e aproximou seu rosto do meu, fiquei muda. – Diga algo. – ele insistiu.
“O QUE FAZER? O QUE FAZER? O QUE FAZER? O QUE FAZER? O QUE FAZER?” – gritei mentalmente. Na minha vida isso sempre acontece, a merda é jogada no ventilador quando eu estou totalmente despreparada.
– Eu não sabia como falar...
“Pronto, Lynn. Sua burra!”. – pensei. – “Tem noção da merda que fez? Velho, olha essa porra! Puta que pariu. Eu só me fodo nessa merda”.
– Então você não gosta do Castiel? – ele fez uma expressão de dúvida. Baixei o olhar, mesmo que eu não falasse nada, ele sabia que sim. – Entendo.
Ele afastou-se, me senti aliviada e mal ao mesmo tempo. Eu vivia magoando Lysandre, e mesmo que eu fizesse isso, ele não me abandonava. Tinha certas horas que eu me sentia como a garota das tranças... Lysandre estava sendo magoado por minha culpa, e foi do mesmo modo que ela fez... Que feio da minha parte ser igual a outras meninas. Era tudo o que eu não queria, ser igual aos outros, mas de tanto querer ser diferente, eu fiquei igual.
– Eu tento não pensar no que houve, essas coisas acontecem, eu nunca disse nada para você como o Castiel fez... Mas mesmo assim, mesmo que várias coisas ruins aconteçam comigo... – ele respirou fundo. – Eu sei que você é minha dama da sorte.
Ele se inclinou e me puxou pelos ombros. No meio de todos aqueles problemas, de toda a vergonha de dizer o que eu sentia, eu vi que a nova Lynn era apenas uma parte de mim que queria ser uma menina normal, mesmo que fosse forçando. Eu sempre fui normal, eu sempre fui eu mesma, só que de uma maneira diferente. Não sei de onde tirei essas conclusões, mas meu pensamento ficou totalmente abalado quando Lysandre tocou seus lábios nos meus, me dando um beijo sereno.
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