A Órfã Doce
76 A órfã doce
Notas iniciais

– Isso não aconteceu! – exclamei agarrando a revista e a olhando, com intuito de ver outra pessoa naquela foto. – A Angela posou pelada! Mas ela não tinha namorado?
– E o que é que tem? – ele arqueou a sobrancelha. – Devolve! – ele exclamou tomando a revista de mim. – O mundo precisa ver essa bunda!
– Me dá isso aqui! – urrei tomando a revista de volta. – Isso não se faz! Eu sei o que você vai fazer com essa revista, seu Zé punheta!
– Hei! Não me acuse disso! – ele berrou com um tom incomodado.
– Acusar? Você mesmo falou que fazia isso com a revista da sua mãe, PERVERTIDO!
– Como se você também não fizesse isso! – Kentin me acusou, ele corou e eu corei. Já havia cerrado o punho para socá-lo.
– Que deselegante. – Lana falou parada no segundo degrau da escada. – Se vão falar de masturbação, pelo menos não deixem os vizinhos escutarem os gritos de vocês.
Era domingo de manhã. Lana foi para casa depois do café-da-manhã, que no caso, foi o que sobrou do bolo que Kentin tinha feito.
– Cadê o seu diário? – ele perguntou. – Essa semana eu tenho que levar para a morango ler.
– Certo. – dei um suspiro.
Lembrei-me automaticamente do “Diário dos sonhos”. Pelo que li, o diário era uma forma de desabafo que foi recomendado por um psicólogo ou algo assim. Também liam o dela. Já tive mais conversas com Miki desde que fiquei doente, ela apareceu para mim de novo, perguntando que doença era aquela e o porquê daquele desespero todo. Pelo que me recordo de uma dessas conversas, foi que ela me contou sobre esse tal diário e o procedimento que ocorria depois que ela escrevia. Ela também me explicou porque ainda escrevia, mesmo depois de morta. Ela escrevia com o intuito de dar conforto para a tia, Miki disse que era uma forma de dizer que ela não havia abandonado a irmã. Mas mesmo assim, a tia não sabia de TODAS as coisas da casa, até porque Miki não escrevia tudo no diário. Ela nunca escreveu sobre minhas conversas com ela. Imagina só a reação da tia se descobrisse que eu recebia visitas constantes da irmã dela.
– Sabe... Às vezes eu fico imaginando se a Miki sentiu a mesma angustia que eu.
– Hei! Não fale essas coisas! – ele fez bico. – Você acha que eu não sinto angustia por causa da doença que você tem? Se eu pudesse, te daria o mundo inteiro se isso fosse fazer você ficar bem de novo. – baixe a cabeça, mas sorri, e foi um sorriso tão grande que dava pra ver até de costas. E pensando bem, eu faria o mesmo por ele. – Eu não quero que você morra. Não quero perder uma terceira pessoa!
“Terceira?” – pensei. Um silêncio se instalou e era óbvia a minha cara de curiosidade, mas parecia que aquela pequena informação saiu sem querer. E pela cara que Kentin fez, também era óbvio que ele não queria falar sobre aquele assunto. Decidi deixar para lá e fingir que não ouvi nada.
– Acha que foi uma boa ideia deixar a Lana ir sozinha para casa? – Kentin limpou a garganta e mudou de assunto. – Tem muito pervertido por aí.
– Ela é faixa vermelha em karatê.
– Vermelha?! E que tipo de menina que luta karatê briga com outra menina na base do puxão de cabelo?
– Parece até que não conhece mulher. – resmunguei.
Silêncio de um lado, silêncio de outro lado.
– Sinceramente, não quero ir à escola na segunda.
– Mas vai, nem que eu tenha que jogar você no chuveiro como naquela vez! – ele exclamou zangado.
– Não é por isso... – encarei o chão. – Não quero ver o Castiel.
– Eu sei que o Castiel é um pau no cu, ENTRETANTO! – ele levantou o indicador e aumentou a voz, que automaticamente pedia por atenção. – Ele sabe que o seu aniversário é essa semana, e ele vai até Marte atrás de você. Não tem como evitá-lo.
– Eu fico em casa!
– Ele virá.
– Eu vou para outro lugar.
– Ele irá a sua procura. Melhor me escutar.
– Kentin! Você quase morreu por culpa do Castiel! Se não tivesse me levado àquele restaurante, não teríamos sofrido aquele acidente. Tudo foi culpa do Castiel.
– Por que você coloca a culpa dos seus problemas em cima do Castiel? – ele perguntou calmamente.
– Está defendendo ele de novo?
– Eu não iria defender você. Você está errada.
– E ele está certo?
– Eu disse isso? Não, eu não disse isso. Só quero dizer que é injusto o modo como você quer fazer as coisas.
– Pode ser injusto, mas vai ser assim! – cruzei os braços. – E você! – exclamei aumentando o tom de voz. – Não sei como aprova isso! Não sei como quer me ver perto do Castiel.
– Tampinha, talvez você só esteja zangada demais com ele. Talvez isso acabe passando. – ele suspirou. – E... Eu vi como você era quando saía com o Castiel. Você era mais radiante, e eu adorava ver um sorriso nos seus lábios, embora que eu não gostasse de te ver na companhia dele.
– Aparentemente, você não gosta de me ver na companhia de nenhum garoto.
– Aparentemente, você também não gosta de me ver com nenhuma garota. Ou estou errado?
Fiz bico. Não o vi na companhia de nenhuma outra garota, a não ser Angela e Lety. E eu acho que foram os momentos mais constrangedores da minha vida vê-las com ele, apesar de que eu não me constrangi quando vi Lety beijando Kentin, só senti raiva.
– Se quiser ficar com a Lety, que fique! – fiz bico.
– Você não fala sério. – ele riu. – Quando as mulheres dizem isso, nunca falam sério.
É, pelo menos ele conhecia alguma coisa sobre as mulheres. E até que aquela conversa não estava mal. Ainda bem que ele ao menos tinha voltado a falar comigo constantemente. Antes do meu diagnostico, ele estava dando umas sumidas e às vezes eu passava a maioria do dia sem vê-lo. Pergunto-me o que ele estava fazendo.
Naquela semana era meu aniversário. Fiquei me lembrando como foi meu ultimo aniversário. Foi exatamente no dia em que eu dancei com Castiel na escola, mas ele não sabia que era meu aniversário. Até hoje eu não me lembro o motivo pelo qual eu não contei, eu acho que não tive motivos, só não queria contar mesmo.
Na segunda-feira eu fiz aquelas odiosas provas de matemática. Mesmo recebendo poucas explicações, acho que me saí bem nessas provas. O meu aniversário caía num dia de sábado, as provas terminariam numa manhã de sábado. Naquela manhã, antes de irmos para a escola, Kentin me deu os parabéns.
– O presente é surpresa. – ele piscou para mim.
Fiz bico, estava curiosa. Será mesmo que ele era bom em dar presentes? Bom, pelo menos eu gostei daquele par de luvas que ele tinha me dado. Mas naquele dia eu não as usei. Pode parecer surpreendente, mas naquele dia não fazia frio. O dia estava ensolarado, mas não um calor do inferno, era um sol gostoso.
Quando saí da sala das provas, fui para o jardim da escola, como havia combinado com Kentin. Ele disse que teria uma surpresa para mim, então eu fui às pressas para lá, mas não havia ninguém. Resolvi esperar sentada no banco. Encarei os lados. Com a chegada da primavera no mês passado, as flores se tornaram mais bonitas e o frio tornou-se menor. O sol já aparecia, mas as árvores do jardim faziam sombra na maior parte dele. Algo brilhava no sol, entre as flores brancas que tinham acabado de se abrir. Perto daquele lugar, havia umas proteções de madeira, formando uma cerca alta e bonitinha. Sentei-me naquele lugar de frente para a cerca, tomei o objeto em mãos. Um colar, ou um anel... Era um cordão prateado com um anel como pingente, nesse anel havia escritos duas letras “A”, ambas maiúsculas, e havia um coração entre as duas.
“De quem será?” – pensei. – “Será que eu devo deixar aqui?”.
O cordão prateado estava quebrado. Talvez eu pudesse ir até Nathaniel e entregá-lo para que ele deixasse na sessão de achados e perdidos. Quem fosse o dono iria procurar por lá, como Lysandre, que às vezes vai lá quando perde o bloco de notas.
Um vento forte soprou, uma margarida repousou no meu colo. As flores entre mim também eram margaridas, mas as que caiam sobre mim vinham de cima. Levantei a mão e uma repousou na mesma, como se fosse uma gota d’água de uma chuva que estava prestes a começar. Ergui minha cabeça, esperava ver um céu parcialmente nublado um pouco bloqueado pelas folhas das árvores, mas não vi nada disso. Tudo o que eu vi foi garotos, vários garotos. O F4.
– Feliz aniversário! – Alexy exclamou me puxando pelo braço, me forçando a levantar. Acabei deixando o colar cair no chão.
Eu tentei não encará-lo, mas Castiel não tirava os olhos de mim. Todos ali esboçavam sorrisos, até Lysandre, que não sorria por muito tempo. Menos Castiel, ele era o único sério. Mal havia notado, mas lá estava Lana, atrás de Kentin e Armin. Ela deu um breve aceno e um sorriso.
Não me disseram o porquê, mas todos nós fomos até a minha casa e ficamos na sala. Quando encarei um dos cantos da sala, lá estava um amontoado de embrulhos. Dei um sorriso discreto para disfarçar a empolgação, e me sentei no sofá, curiosa para saber de quem era de quem e o que eles resolveram me dar de presente.
Havia dois bolos em cima da mesa da cozinha. Eu perambulei pela cozinha enquanto Kentin esvaziava umas garrafas de bebida com o pessoal na sala. Lana entrou na sala com um olhar angustiado. E eu não demonstrei tanto espanto, já que meu olhar estava expressando um sentimento parecido. Mesmo sendo meu aniversário, ainda tinham sentimentos passados que eu não conseguia digerir.
– Lynn, eu...
Eu a encarei, ela balançava a cabeça de um lado para o outro como se estivesse negando algo. Seja lá o que fosse, ela parecia abalada com algo, algo inesperado.
– Você está doente! Por que não me contou?! Foi por isso que o Kentin não deixou você dirigir?
Apenas fiz que sim para confirmar todas as perguntas. Fiquei imaginando como ela soube. Óbvio que ela soube por Kentin, já que ele é o único, além de mim e a tia, que sabe da doença. Se ela já estava abalada daquela forma, não queria nem ver como ela reagiu no momento que soube. Aliás, se ela estava abalada daquele jeito, deveria ter descoberto há pouco tempo.
– É difícil falar sobre essas coisas. É como você evitando falar sobre o Nathaniel, compreende?
Ela pareceu compreender, apesar de que não gostou nem um pouco da comparação. O dia era para ser feliz. Mas pensando bem, meus aniversários nunca foram datas comemorativas felizes. Eu me lembro do aniversário mais assustador que eu já tive, que foi quando eu era da família de Angela. A família dela era decente de alemães, loiros de olhos claros. Eu era loira (mesmo que preferisse esconder os fios dourados com uma camada de tinta escura), mas meus olhos não seguiam os “padrões”. Então ele me mandou para um consultório médico para clarear meus olhos com laser. Na época, era um procedimento que estava em fase de testes. Era um procedimento em que se retirava, com o laser, uma substancia do olho chamada melanina. A melanina é responsável por colorações escuras do corpo, como: cabelos, pele e olhos. E a mesma tem um efeito de certa proteção. No caso, o olho sem essa substancia, torna-se azul. Meus olhos enfraqueceram e eu, rapidamente, tive que usar óculos. O que me assustou foi que o pai de Angela me forçou a ser parecido com eles, ele não queria que as pessoas soubessem que eu era adotada. A mãe de Angela não podia ter mais filhos (por isso me adotou), e pensando bem, sempre gostei dela e de Angela, elas foram às pessoas que eram mais legais comigo naquela família.
Eu me lembro quando eu decidi cobrir aqueles fios dourados. Foi quando o tio fadinha me colocou na escola militar. Normalmente, na escola, as pessoas ficavam fazendo piadas de loira (a coisa mais idiota do universo, mas ficavam). E, sinceramente, não acho que o cabelo loiro combine comigo.
Depois de cinco garrafas vazias, o pessoal até esqueceu que estavam lá para comemorar o meu aniversário ou uma coisa do gênero. Os dois bolos, que antes estavam na mesa, agora estavam na geladeira. O de morango inteiro e o de chocolate faltando duas fatias, que eu e Lana comemos enquanto conversávamos. Ela já estava mais calma, ainda bem.
– Pensei que elefantes criariam asas antes que eu visse o Lysandre chapado. – Lana deu uma risada.
– Talvez ele tenha sido pressionado pelos garotos.
– Por favor, Lynn. Não tenta fazer o Lysandre ter imagem de santinho. – ela arqueou a sobrancelha. – Você sabe que ele é uma pessoa muito bem decidida.
“Acho que não”. – pensei. – “Se ele fosse uma pessoa decidida, teria tomado uma providencia imediata quando soube que eu gostava do Castiel, já que depois ele disse que gostava de mim... Talvez Lysandre seja tão confuso quanto eu”.
– Acho que por trás da cara de santo do Lysandre há coisas bem mais... Sei lá. Coisas do nível do Castiel. – ela falava com toda aquela calma e alegria enquanto comia mais um pedaço de bolo.
“Licor de cacau. Kentin, seu imbecil”. – pensei.
– Eu não acho mesmo que Lysandre faz coisas do nível do Castiel. É muita decadência.
– Eu não deveria. – ela me fitou com um olhar de quem já via as paredes girarem.
– Mas eu vou contar umas paradinhas que eu soube pelo Armin. – ela encarou os lados e chegou perto da minha orelha. – Ele contou quando nós saímos.
Lana levantou-se e foi novamente na geladeira. Ao invés de pegar um pedaço, ela pegou a bandeja com o resto do bolo. Após depositar a bandeja em cima da mesa, eu via o bolo encolhendo a cada garfada. Era incrível como pessoas bêbadas gostavam de falar comigo, parecia mágica.
– Os pais do Lysandre são muito... – Lana demorou a responder, como não havia achado nenhuma palavra, ela colocou a língua pra fora e fez uma careta. Após colocar a língua pra dentro e dar mais uma garfada no bolo, ela continuou. – O pai dele era cientista, um rato de biblioteca que teve sorte. O vadio achou a cura do câncer e ganhou milhões. Depois disso deixou de ser cientista e virou empresário. Acho que você o conhece. Sabe, aquele lá que ganhou o prêmio Nobel. – ela fez um gesto vago com uma das mãos. – A mãe dele morreu num acidente de carro quando ele era moleque e depois o pai dele arrumou uma puta em Las Vegas. Segundo a Armin, ela não tinha onde cair morta, mas depois que virou uma puta rica, ficou se achando a rainha da cocada preta. Sabe... Não que o Lysandre fosse uma pessoa ruim, mas ele era uma pessoa muito... – ela fez outra careta, que eu não pude interpretar muito bem. – Ele e o irmão dele faziam coisas meio idiotas para chamar a atenção do pai. Por isso a Rosalya não abria as pernas pro irmão dele, naquela época. O Lysandre bebia, fumava, o Leigh comprava maconha, andavam com um pessoal bastante perdido. – logo ela olhou para mim com um olhar de quem se sentia com razão. – Pode crer que o Lysandre estava bem abaixo do nível do Castiel. – dito isso ela se debruçou sobre a mesa, com uma cara meio emburrada. Seus pensamentos já não deveriam estar na cozinha, junto comigo.
Não sabia se eu me sentia chocada ou triste por tudo que ouvi. Armin não mentiria sobre esse tipo de coisa. Aliás, nem sei como ele teve coragem de contar pra Lana esse tipo de coisa. De fato, o F4 inteiro sabia de muitas coisas uns dos outros. Kentin sabia de várias coisas, mas eu já havia me conformado de que ele não me contaria merda nenhuma.
Será que Lysandre também se envolveu com drogas? Até aí fazia sentido aquele teste de drogas portátil. Mas não faz muito sentido uma pessoa chapada verificar o que havia na sua corrente sanguínea. Aquilo deveria ter sido usado no Leigh. Claro que o que Lana me contou foram águas passadas. Não teria como uma policial ser noiva de um cara que usa drogas. Até porque ela o prenderia, e não noivaria com ele.
Eu preciso ser a pessoa que eu sou, e não a pessoa que eu era. Esse pensamento me confortou e me fez pensar a mesma coisa sobre Lysandre e Leigh. De qualquer forma, eu sabia que aquilo era para chamar a atenção do pai dele. Eu sei que Lysandre sofreu muito com tudo que aconteceu com a família dele, e eu compreendo que eu não sei muitas coisas sobre o assunto, mas o que eu sei já é o suficiente para fazer com que eu não o julgue.
A diretora da escola militar sempre questionava os tempos de hoje, ela disse que as pessoas estavam sendo muito irracionais. Eu sempre achei que as coisas sempre foram assim, embora elas não fossem. O armamento fora legalizado juntamente com o aborto e a liberação de bebidas alcoólicas para menores de idade. Apesar de que a penalidade por pessoas baleadas sem motivo era bem maior (só não era se no caso fosse legitima defesa, mas as pessoas ainda precisavam pagar certa multa se matasse alguém), os preservativos e a educação sexual eram bem mais presentes nas escolas e a lei seca era bem mais rigorosa. Mesmo assim ela disse que as pessoas estão sendo irracionais. Claro, álcool faz os seus neurônios praticamente fritarem.
“Deve ser por isso que Kentin é tão burro”. – pensei.
Realmente as informações foram passadas tão rapidamente que eu mal tive tempo de ter uma reação com intervalos de tempo. Quando eu dei por mim, o tempo passou tão depressa que já era noite. O motorista de Castiel veio para levar as pessoas “alegres” para casa e eu subi para meu quarto.
Naquele dia eu resolvi escrever qualquer coisa no diário da médica e começar a escrever outro diário. No meu computador, como Miki fazia. Uma pasta na área de trabalho com o nome “A órfã doce”. A senha era o meu apelido na escola militar.
“01/11/2025. Hoje é meu aniversario, mas eu acho que não estou feliz o suficiente para dizer que esse foi um ótimo aniversario. Foi nesse mesmo dia desse mesmo mês que eu recebi a noticia de que meu pai adotivo havia morrido. Eu sei que as pessoas ao meu redor quiseram me passar esse sentimento de alegria, mas acho que acabaram desistindo quando viram que não tinha jeito de me deixar de bom humor. Hoje eu vi o menino que eu gostava e que me magoou, a minha amiga soube da minha doença e ficou bêbada pela primeira vez, eu descobri coisas horríveis sobre o menino que... Eu tenho uma queda por ele, digamos. Talvez o meu irmão não seja a pessoa mais chata do mundo, mas eu tenho certeza que ele esconde coisas das quais não deveria. São coisas e segredos de pessoas que são próximas de mim. Entendo que ele queira me proteger, mas que tipo de pessoa protege os outros da verdade?”.
– Hei, tampinha! – Kentin exclamou da porta. – Vamos sair.
– Você bebeu.
– Não, eu não bebi. Porque eu sabia que nós íamos sair. – ele insistiu. – A Lana gostou do bolo? – Kentin provou com um sorriso.
– Eu digo que foi você quem fez, assim a tia Cristal mata você, e não ela.
Depois que ele saiu do quarto, eu tomei um banho rápido e coloquei outra roupa. Nem havia aberto os presentes, me sentia mal por isso. Eles tiveram tanta consideração e eu nem ao menos tive o mesmo sentimento para abrir os presentes. Quando estávamos no carro, Kentin estranhou o silêncio. E parecia até que ele me conhecia desde pequena, para saber que eu estava pensando em coisas não muito felizes.
– Me contaram umas coisas sobre você. Acho que é por isso que você está triste, não é?
– Que tipo de coisas?
– Sobre o seu antigo pai. Mas a Shermansky não quis me contar muita coisa sobre ele.
– Era porque ele era um traficante. – arqueei a sobrancelha.
– É por isso que você é tão vida loca? – ele brincou. – Traficante de drogas?
– Traficante de armas. – corrigi. – Mas ele tinha uma empresa de bebidas.
– Bebidas alcoólicas? E por que fez tanto drama na primeira vez que bebeu comigo?
– Porque eu não era pinguça. – fiz careta. – Eu nunca bebi até vir morar com você. Você me estragou.
E no final das contas, Kentin fazia um trabalho melhor do que o de uma multidão. Ele sempre me fazia sorrir, mesmo que eu estivesse triste. Acho que foi uma das coisas que eu mais gostei nele. Também acho que nunca consegui ser assim com outros irmãos que tive, nem mesmo com Lana. Eu e Lana não tirávamos as mesmas brincadeiras que eu e Kentin. Acho que foi por causa dessas brincadeiras, que nós nos tornamos tão próximos, digamos.
Fomos até uma casa que eu desconhecia, mas lá, estavam a diretora da escola militar e a tia.
– Olá, diretora. – dei um sorriso sem graça.
Ela deu uma risada, que me fez corar mais ainda.
– Querida, sabe muito bem que agora nós somos da mesma família.
– É que... Não sou acostumada. – expliquei coçando a cabeça.
– Sente-se. – ela pediu. – Por que vocês não vão tomar um café?
– Não gosto de café. – Kentin fez bico.
– Então vai pastar pra lá! – ela apontou para outro cômodo da casa, sem tirar o sorriso do rosto.
A tia deu uma risada e foi puxando Kentin pelo braço. Era evidente que a diretora queria falar comigo em particular.
– Sabe, Lynn... Eu como ninguém mais, tenho muito orgulho de você. Eu sei que essa família não é muito grande, o tempo a desgastou e a separou. Também sei que você entende esse tipo de coisa, só não imaginei que você fosse fazer um bem tão grande a Mika sem nem ao menos fazer esforço. A Mika me contou que você ficou meio receosa em fazer parte da família dela, mas não era por causa dos “probleminhas” que ela tem.
– Eu só não queria atrapalhar mais ninguém, não queria depender de ninguém.
– Depender?! Tsc. – ela deu um leve suspiro no final. – Um dia você levantou a cabeça, olhou para mim, e disse que poderia cuidar de si mesma. E você conseguiu. Sinceramente, eu nunca vi uma pessoa tão forte como você. Com certeza você já deve ter ouvido falar sobre as histórias da Miki. Kentin me contou que ela andou... Aparecendo por lá. – fiz que sim com a cabeça. – A Miki perdeu o marido, o filho e a mãe. Depois disso, ela deixou tudo para trás e tirou a própria vida. Depois a Mika enlouqueceu, achou que eu era a mãe dela, foi pro psiquiatra, para a reabilitação, tomou remédios controlados e depois de muitos anos é que conseguiu ter o filho para si. O pai do Kentin morreu e ele quase morreu junto, ele soube da morte do pai assim como você soube, na escola militar. Você perdeu tudo, sempre perdeu e ainda perde, mas você levanta a cabeça como se nada tivesse acontecido. Esse tipo de determinação é impressionante.
– Não é “como se nada tivesse acontecido”. É que simplesmente sentar e chorar num canto não vai trazer soluções. Acredite, eu tentei. Eu fui obrigada a viver assim, e hoje eu sou assim porque tenho que ser. Um soldado não deve agir pelas emoções, certo?
Ela esboçou um sorriso. Talvez fosse pela satisfação de ver que alguém realmente deu ouvidos para o que ela falou. Eu sempre fui uma das estudantes que me entendia mais com armas do que com números em papeis, por isso sempre pensei em ser militar ou em algo do gênero. Se um dia a correnteza do rio realmente me levasse para esse lado. Eu prometi para mim mesma que, depois que saísse da escola militar, iria olhar o mundo ao meu redor e ver qual era o meu talento. Eu poderia ter algum talento, mas o mesmo se desgastaria junto com o meu corpo por causa da degeneração. Lógico que eu não falei nada para ela sobre a doença, ela parecia tão feliz...
– Eu fiz isso para você. – ela me entregou uma caixinha de madeira cor-de-rosa. Era super enfeitada com lacinhos, nem parecia ser o presente de uma mulher autoritária que gritava com todo mundo nos treinamentos. – Eu tenho certeza que você gostará e que isso animará você.
Assim que a tia chegou de volta à sala, o papo entre mim e minha “avó” se encerou. Perguntei onde Kentin estava e fui até ele. Aquela casa não era só uma casa, era A casa. O tipo de casa que eu sempre imaginei ter. Não era uma casa luxuosa nem nada do gênero. Era uma casa comum, mas ela estava localizada numa fazenda.
– Oi.
– Oi.
– Como aqui é lindo para ver as estrelas!
– Grande coisa. São só pontos brilhantes no céu, há várias delas.
– Depois você diz que sou eu quem sou resmungona! – fiz bico. – O que conversou tanto com os meninos para eles se esquecerem que a aniversariante era eu? – brinquei.
– Estávamos falando sobre uma viagem que vamos fazer antes da volta às aulas.
– Viagem pra onde?
– Pra uma ilha que os pais do Castiel compraram.
– Uma ilha? Ele tem uma ilha?
– Não é só “uma ilha”, é Madagascar.
Fale com o autor