A Âncora

7 Falta de lucidez


– Como assim eu tenho câncer?

– Bem, não podemos dizer como aconteceu, mas podemos tratá-lo. Felizmente conseguimos retirar o tumor que se encontrava no baço, mas os outros órgãos estavam muito danificados e o tumor os dominou. Desculpe-me, mas com esse tipo de câncer você tem apenas 5% de chance de sobrevivência.

Tentei fazer mais perguntas, mas as palavras não saiam de minha boca. Nesse momento havia algo em mim, me comendo por dentro. Como poderia continuar vivendo?

Precisava de alguém. Alguém para ficar do meu lado e segurar minha mão, mas aparentemente estava sozinha. Minha mãe não poderia ficar para sempre. Ela também precisava trabalhar e pagar as contas, e agora principalmente as medicinais. Onde poderia estar Mathew?

– Já que já estou aqui — falei tentando ser animada — como será o tratamento?

– Bem começaremos com a quimioterapia e as doses de IL-2, que lhe farão mal então é preciso que alguém fique com você.

– Eu não posso! — disse minha mãe desesperada — Tenho que trabalhar e não posso tirar tantos dias de folga.

– Eu fico com ela — Sophia entrou no quarto voando, não tinha nem percebido que ela sairá depois da notícia — não tem problema, eu fico com ela.

– Muito obrigado, querida! Tenho que ir agora, mas volto para te ver de noite ok? — quando me dei conta minha mãe já estava na porta, com as chaves do carro nas mãos.

A médica saiu correndo por causa de um paciente que estava tendo uma convulsão. Pelo menos não estava assim, pensei.

– Então... — Sophia tentava achar assunto — como esta?

– Bem eu to com câncer, então não muito bem. E você?

– Eu encontrei com o Mathew.

– Então foi para isso que você saiu depois que a médica me falou minha sentença de morte?

– Não é uma sentença de morte!

– Eu tenho 5% de chance de sobreviver.

– Nós vamos superar isso.

– Onde ele está? — perguntei devagar. Tinha medo da resposta.

– Ele virá. Só precisa de tempo, mas ele vai vir.

– Já lhe dei todo o tempo do mundo. Compra algo para eu comer por favor? — só queria ficar sozinha.

– Tudo bem — rapidamente ela já estava entrando no elevador.
Levantei-me, decepcionada pelo cansaço e fui ao banheiro. Lavei meu rosto e olhei para o espelho. Meus olhos caídos e meu rosto pálido refletiam sofrimento. Atrás de mim um vulto caminhava pelo quarto de hospital. Era acompanhado de um animal que dava passos calmos.

Virei-me assustada. Quem estaria ali, andando pelo meu quarto? Sai correndo do banheiro e olhei para o vaco infinito do quarto. Na porta o mesmo vulto caminhava na direção oposta. Só podia segui-lo.

O acompanhei até pelos corredores do hospital e em 20 minutos estávamos de volta ao quarto.

– Quem é você? — a curiosidade me matava.
Subitamente o vulto parou. Era um homem. Virou-se para mim e tirou o capuz felpudo do grande casaco de neve. Seu olhar calmo e seu sorriso comovente me eram familiares.

– Pai?

– Olá Jojo.

Minha cabeça estava explodindo. Isso tudo não era possível. Meu pai havia falecido a 5 anos atrás em um acidente de avião quando voltava de uma conferência em Delaware e era o único que me chamava de Jojo. Mas estava aqui agora, falando comigo.

– Eu devo estar louca. Você não está aqui!

– Claro que estou querida. Estou aqui para você Jojo.

– Você morreu! E a médica falou que eu teria alucinações, mas que animal é esse ai contigo? — no calor do momento não tinha reparado no animal. Um lobo.

– Calma, ele é manso.

O lobo continuou seu caminhar sábio pelo quarto enquanto conversávamos. Ele me parecia familiar, era o lobo de meus desastres, andando com seu pelo dourado brilhando sob a luz do sol e seus olhos amarelos confiantes.

– O que você está fazendo aqui?

– Bem Jojo, estou aqui para te lembrar dos velhos tempos.

– Como 5 anos atrás quando você morreu?!?

– Isso tudo não importa Jojo.

– Mas é claro que importa! VOCÊ ESTÁ MORTO!

– Com quem você está falando? — Sophia já estava de volta, segurava um saquinho com comida e um refrigerante na mão. Olhei ao redor, ele não estava mais lá.

– Com ninguém — disse tentando esconder o fato de estar louca.