Notas iniciais
Olá queridos! Um novo e lindo capítulo pra vocês! Espero que estejam gostando e por favor, me deem opiniões! Preciso saber se estão gostando de verdade *u*

Usando o vestido negro com listras, Wyvia estava encantadora, exceto por sua expressão de dor enquanto apertava um travesseiro contra o rosto.

— Devagar! –gritou ela com a voz abafada pela almofada.

Perona fazia um torniquete sem dó. Ajeitava a perna de Wyvia, dobrava um pouco para o lado, apertava... tudo para fazer com que as ataduras ficassem perfeitas.

— Olha, se eu não mexer, se eu não virar, seu osso vai calcificar do lado errado! Você quer mesmo ter a perna torta pro resto da vida?! –perguntou a mulher terminando de enfaixar os dois pedaços de madeira de cada lado da perna da moça. Após terminar o curativo, ela selou tudo com esparadrapo. — Já pode parar de choramingar, eu terminei! Agora vou pentear esse seu cabelo que está horrível!

Pegando uma escova de cabelo, Perona escovou com brutalidade os cabelos cor de areia de Wyvia. O pente travava no meio da cabeça pelo embaraço dos cabelos, mas ela continuava, sem dó, ouvindo os gemidos da menina. Quando terminou, parou por uns instantes de frente para a cama, observando a garota usando suas roupas e ficando até mais bonita nelas.

— Essa era minha camisola favorita. –disse ela fazendo bico. — Mas ficou ótima em você.

Com o rosto vermelho, Wyvia olhou para si mesma. Aquele tecido realmente era muito leve e solto para ser apenas um vestido simples, apesar de que em seu corpo, era realmente aquela peça de roupa. Se sentiu mais nua que antes.

— Mas... o senhor Mihawk... –ela queria terminar a frase e comentar que estava envergonhada, mas não precisou.

— Ele não está nem aí pra isso. –diz a mulher ajudando Wyvia a se levantar. Com o peso extra, ela começou a carregar a garota para fora do quarto, em direção a sala de jantar. A menina mancava um pouco, mas parecia estar melhor. — Não vai nem reparar em você, pode ficar sossegada.

***

Após algum tempo esperando na enorme sala de jantar, finalmente surgiu Mihawk trazendo consigo um caldeirão com alguma coisa fumegante. O cheiro de frutos do mar e de creme de leite inundaram o ambiente, e apenas naquele momento Wyvia notou o quanto estava faminta. Quase não comera nada desde que deixou Jaman, além de que as circunstâncias a impediam de comprar comida. Ela observou o homem, que agora trajava uma camisa branca social, além das mesmas calças e coturno. A expressão dele era exatamente como sempre. Deixou o caldeirão no centro da mesa e esperou que as duas moças se servissem. Ele se sentou em sua cadeira na cabeceira da mesa e abriu uma garrafa de vinho, despejando o conteúdo vermelho dentro de uma taça.

Ainda um pouco sem graça, Wyvia esperou que Perona se servisse primeiro, o que não demorou, pois a mulher pegou quase metade do caldeirão e colocou no próprio prato, com uma expressão de fome.

— Você não costuma fazer essas coisas por aqui! –acusou Perona se sentando e observando a pequena visitante colocando timidamente uma colherada de risoto de frutos do mar no próprio prato e voltando a se sentar na cadeira. — É só porque temos visita hoje?

Mihawk tomou um longo gole de vinho e ficou olhando para a taça, com uma expressão vazia e distante.

— Sim. –foi o que ele respondeu.

Wyvia deixou escapar um pequeno sorriso. Era até bom após se sentir desconfortável, saber que seria muito bem hospedada e tratada naquele lugar. Realmente aquele homem misterioso era gentil, apesar de toda aquela postura e semblante de alguém ruim.

Perona se remexeu inquieta enquanto comia.

— Mas eu já fui visita uma vez! Quando eu cheguei aqui você não fez essas coisas!

Os olhos de falcão se voltaram para a garrafa de vinho, até que ele voltou a encher a taça mesmo antes do conteúdo acabar.

— Você é intrusa. –disse ele voltando a bebericar o vinho.

Bufando, Perona voltou a comer, reclamando bem baixinho, dizendo coisas como “absurdo”. Enquanto isso, Wyvia ria bem baixinho também. Ela finalmente se deu a chance de provar do risoto, e estava uma delícia. Ela nunca comera algo tão saboroso quanto aquela simples mistura de arroz com creme e camarões.

— Isso está divino, Mihawk-san! –disse a moça entre algumas mastigadas. Ela limpou o prato e ainda queria mais.

Mihawk desviou o olhar da taça e devolveu os olhos dourados para a garota. Os mesmos olhos, ouro puro e dourado temperado. Era encantador o momento em que os olhos se encontravam.

— Coma mais. –disse ele fazendo um gesto com a taça para o caldeirão. — Tem muito ainda.

— Mas e o senhor? Não vai comer? –ela perguntou antes de se levantar para se servir de um pouco mais. Estava muito sem graça ainda para repetir a comida. — Eu já estou satisfeita. Muito obrigada.

O espadachim sabia que a moça estava recusando por educação, porém não disse nada para não constrange-la de alguma forma. Certamente aquele risoto devia ter alimentado a moça para repor as forças, então não tinha problema em não comer a segunda pratada. Ele voltou a beber o vinho, aguardando o momento em que o jantar terminasse para levar a visitante para o próprio quarto.

Quando Perona terminou de comer, ela não esperou por eles, apenas se levantou, afofou a barriga e saiu dalí flutuando. Não queria mais carregar Wyvia pelo castelo, deixou que Mihawk fizesse isso.

Aqueles minutos na sala de jantar, Wyvia permaneceu com as mãos enroscadas no colo, evitando olhar para frente, onde daria de cara com o olhar penetrante de Mihawk. O homem parecia curioso, pronto para perguntar alguma coisa, mas parecia refletir muito. Agora sem Perona por alí para fazer piadas ou reclamar, estavam apenas os dois, e aquilo deixava a garota sem graça e tímida. As bochechas rosadas eram notáveis em seu rosto, por esse motivo evitava olhar para o homem. Ele era encantador, e apenas o fato de olhar para ele, já causava uma sensação cortante na garota.

— Não acreditei em você quando disse o motivo de ter fugido de Jaman. –disse Mihawk, totalmente direto.

Wyvia quase paralisou naquele momento. Permaneceu olhando para o colo, apertando as mãos, que não eram visíveis para Mihawk. Ela tentou não transparecer nervosismo, mas sabia que aqueles olhos de falcão não deixavam escapar nenhum detalhe. Ele parecia ver tudo o que ela sentia, como se fosse um livro aberto, como se estivesse nua.

— Acredite em mim. –ela tentou mentir com mais confiança. Confiar em sua forma de mentir era perigoso. — Eu não queria mais morar naquele lugar.

— Estou te oferecendo minha casa, te alimentando e cuidando de seus ferimentos. –disse Mihawk, com seu tom de voz duro e seco, típico de um líder. — Espero que seus motivos de fugir de Jaman naquela situação, com perna quebrada e bote pequeno e fraco não me causem problemas. Estarei de olho em você.

E sem esperar que a moça dissesse algo, Mihawk foi até ela e a pegou no colo como fizera no bote. Desta vez, Wyvia ficou calada, tentando esconder o rubor do rosto. Aquelas palavras foram fortes e profundas, provavelmente a deixariam pensando naquilo a noite toda. Não era legal mentir para alguém que estava realmente cedendo a própria casa e a própria comida para uma estranha... mas será que ela podia confiar nele tanto assim?

É perigoso pra mim... mas não quero que o senhor Mihawk desconfie de mim. Ele tem o direito de saber o que aconteceu, mas tenho medo de que ele me machuque como aquelas pessoas. Todas querem dinheiro e poder. Ele quer isso também? Pensou a garota, sendo levada em silêncio para um quarto diferente do que estava antes. Esse novo quarto era digno de uma princesa. Tinha um enorme lustre cheio de pedras preciosas encrustadas. A cama era grande e tinha cobertores de cetim dourados e rosados. Era tudo muito lindo e feminino.

— Esse quarto é lindo! –exclamou, deslumbrada pela beleza do local.

Mihawk a deitou na nova cama e então começou a se retirar. Ele não esperou ouvir nada da moça a respeito da fuga de Jaman naquela noite. Talvez ela estivesse escondendo alguma coisa muito grande e forte, ou talvez só estivesse com medo. Era natural alguém que veio de Jaman temer as pessoal, afinal, o que Mihawk ouvira sobre aquela ilha não era nada fácil ou bom. O lugar era cheio de superstições, maldições e todo tipo de seita. Se Wyvia era alguém daquele lugar, com pessoas que maltratavam as outras, ela então era um perfeito lobo em pele de cordeiro, pois nunca na vida Mihawk vira alguém tão angelical e delicado.

Lançou um último olhar para moça. Ela parecia tão vulnerável que poderia morrer apenas com um toque dele no pescoço. Poderia ser quebrada por qualquer movimento brusco. Ela não podia ser alguém ruim de Jaman. Talvez uma vítima, e ele preferiu pensar daquela forma.

Saiu sem dizer mais nada. Preferiu deixar a moça pensando no que diria a ele, se contaria a verdade ou se continuaria a esconder. De qualquer uma das formas, Mihawk não tinha medo dela. Era tão pequena e frágil que chegava apenas a encantar, como um botão de rosa, ainda sem desabrochar, mas com uma beleza que certamente confundia.

Que menina diferente, pensou ele, estou realmente curioso.

E então Mihawk foi para seus aposentos.

***

“Fale para nós. Conte o que esconde! Onde está? Você sabe o que é? Eu tenho certeza que sabe. A guardiã guarda o segredo?! Anda, fala!”

“Eu juro que não sei de nada! Não sei do que vocês estão falando! Isso é uma lenda! Não existe tesouro, não é possível! E eu não sei nada dele! Vocês estão cegos por essas lendas! Parem de ferir os outros por isso!”

E então a onda de surras e de torturas começava. Todos queriam saber onde estava o tesouro e apenas aquela garota, a moça da profecia, sabia onde estava. Eles a maltratavam de várias formas, puxavam as penas com força, amarravam as pernas longas e amareladas, com garras afiadas, a ponto de quebrar. Tudo era muito doloroso, e a pobre garota híbrida chorava. Não conseguia mais suportar tal dor. Os gritos cortaram o ar a medida que a cloaca era remexida por dedos cruéis e grotescos dos homens.

— Abra os olhos, Wyvia! –exclamou uma voz dura e forte aos ouvidos de Wyvia. A moça abriu os olhos, os arregalando em medo e surpresa. Ainda sentia a dor que lhe causaram, mas finalmente estava livre daquelas correntes nos pés e braços.

Mihawk estava sentado na cama diante dela. Estava sem camisa. O crucifixo dourado pairava no peito forte que subia e descia rapidamente, devido ao susto. Acordara no meio da noite ouvindo os gritos desesperados de sua visitante. Ele segurava os ombros dela com força, enquanto observava a menina recuperando o fôlego. O suor grudava seus cabelos na testa e lágrimas começaram a escapar.

Se sentindo salva novamente, sensível e desesperada, Wyvia se sentou e enroscou os braços no abdome forte de Mihawk. Com medo e chorando, deitou a cabeça no peito dele, se deixando chorar. Não tinha ideia do que estava fazendo, apenas queria se sentir mais segura do que já estava, apenas em ver os olhos dourados diante de si.

— Eu fiquei com tanto medo... –ela choramingou.

— Foi um pesadelo. Não precisa ter medo. –disse Mihawk apoiando uma das mãos na cabeça de Wyvia e a outra envolvendo as costas úmidas e mornas dela. Não parecia ser um simples pesadelo, e ele notou isso quando foi abraçado sem jeito pela menina.

Mihawk não costumava abraçar ninguém e nem ser abraçado. Não levava jeito com demonstrações de afeto, mesmo que aquela não fosse exatamente uma. Estava apenas sendo cortês em deixar a garota mais tranquila, principalmente após aquele susto. Grande como ele era, quase escondia o pequeno corpo da menina entre seus braços.

Soluçando um pouco, Wyvia já estava se acalmando. Seu coração já não batia mais de forma frenética, apenas mantinha um ritmo rápido, especialmente ao sentir o coração do outro também batendo em sua orelha. O dele era calmo e ritmado como as onda do mar, e era tranquilizador. Erguendo a cabeça um pouco, Wyvia se deixou vislumbrar os olhos de falcão diante de si. Vendo de perto, Mihawk era ainda mais encantador. O bigode simétrico e diferente dava um toque tão másculo e perigoso que chamava muito a atenção, além dos contornos maduros e o cavanhaque pela mandíbula. Os olhos dele eram um puro encanto. Ouro polido, digno de uma ave de rapina, porém eram olhos velhos, daqueles que pareciam ter presenciado todo tipo de experiência. Olhos tão velhos e que conheciam tudo: a verdade e a mentira, a dor e o prazer, a vida e a morte.

— Mihawk-san... –ela chamou o nome dele sem motivo. Queria apenas saborear o nome como se fosse um tipo de invocação divina. Não queria mais chama-lo de senhor. Ela abaixou o rosto, sentindo o mesmo corar violentamente. As bochechas ficaram vermelhas.

— Volte a dormir. –disse ele soltando a menina. Não gostava de admitir, mas se sentira um pouco intimidado pelo olhar dourado da garota tão próximo ao seu. Ele então se levantou e se afastou um pouco. — Precisa se recuperar para voltar a sua viagem.

Eu não quero ir embora, pensou a garota voltando a se deitar.

— Obrigada, Mihawk-san. –disse ela cobrindo o rosto, não querendo que ele visse seu rubor.

Tão sensível e vulnerável... Mihawk nunca presenciou um ser humano tão frágil e fraco. Pensou em guerreiros que conheceu, pessoas que enfrentou e que matou durante sua vida. Nenhuma era digna de piedade, pois ele apenas as via como insetos. Aquela garota era diferente, não era uma vítima. Era como uma princesa, daquelas que deveriam viver naquele castelo. Uma moça digna de viver, de ser protegida.

Ele balançou a cabeça tentando afastar aqueles pensamentos de cuidado. Não conhecia aquela menina direito, apenas estava com ela há poucas horas. Não podia criar tal vínculo de cuidado, pois logo ela iria embora e tudo voltaria a ser como antes. Mihawk voltaria a sua vida solitária, vagando pelos mares em seus deveres de Shichibukai e ouvindo Perona lhe perturbando enquanto estava no castelo.

Tudo voltaria a ser como antes. Pelo menos seria melhor para ele assim.

Notas finais
Espero que estejam gostando do andamento das coisas