O clima em Jaman era sempre tempestuoso, imerso em uma atmosfera chuvosa e triste. Ninguém era exatamente feliz naquela ilha. Todos viviam com medo e com desespero. Tantas leis, regras, maldições... o grande comandante da ilha era líder da seita sagrada que nem mesmo tinha nome. Eles viviam sob os manuscritos sagrados encontrados naquela ilha desde seus antepassados. Manuscritos que contavam todas as lendas e regras, que para eles eram todas verdadeiras. A principal delas era a lenda do tesouro sagrado. Um guardião era enviado a terra a cada 80 anos para guiar o povo até o grande tesouro da ilha. Tesouro tão grande e glorioso que deveria ser equivalente a todos os preços das cabeças de piratas famosos. Alguns até diziam que poderia ser o tão procurado One piece, mas os habitantes de Jaman excluíram aquela hipótese.

O novo guardião fora enviado a terra em forma de uma garota. Ela nunca manifestou os poderes celestes até certo dia em que fora vista na sua “verdadeira” forma por habitantes da vila, desde então a garota fora caçada todos os dias para entregar o tesouro ao povo. Porém, a moça foi difícil e não quis revelar o lugar do tesouro... e então fora torturada de várias formas, na sua forma original e forma humana. Quando fugira da ilha, os anciãos comandaram buscas e apenas encontraram o bote em que ela estava. Provavelmente fugiu para longe com as habilidades do antigo guardião.

O grande comandante, Arthur, fazia os preparativos para vasculhar as ilhas vizinhas atrás da guardiã do tesouro sagrado. Sua besta estava equipada com flechas envenenadas, com um veneno retirado de um cogumelo alucinógeno, que causava dores e alucinações na pessoa envenenada. Além disso, Arthur possuía uma espada. Era um grande espadachim da ilha e possuía o poder da akuma no mi. Sua akuma no mi era a da imaterialidade. Nada o pegava.

O que ele sabia sobre Wyvia era a verdade, mas ele guardava essa verdade somente para si. Se as pessoas soubessem o que a jovem realmente era, deixariam de acreditar nele e provavelmente seria exonerado. Ele mantinha a população sobre as suas próprias mentiras e histórias. Ninguém naquele país podia desconfiar que Wyvia era exatamente como ele. Se soubessem, o país entraria em colapso e todos deixaria de crer nele. O que ele perderia com isso? Dinheiro, fama e principalmente poder sobre aquele povo. Amava ser um rei. Porém, sempre havia um porém. Arthur pensava também na possibilidade de Wyvia ser uma guardiã. Era difícil saber em qual das duas informações acreditar, porém estava preparado para ambas.

Os cabelos escuros eram amarrados em um rabo de cavalo e usava uma túnica vermelha, digna do grande líder de Jaman. Seus seguidores trajavam as mesmas roupas, porém estas eram negras. Cada um portava sua arma. Bestas, lanças, espadas, armas de fogo... todos preparados para destruir o mundo se fosse preciso para encontrar a guardiã do tesouro... ou uma simples usuária de Akuma no mi.

Wyvia, a águia real.

***

Quando acordou aquela manhã, Wyvia olhou para o sol que vinha da janela. Era o sol a pino, queimando a pele exposta de seus braços. Já devia ser mais de meio dia e ela ainda estava na cama. Após o pesadelo daquela noite, a moça demorou um bom tempo para pegar no sono. Não era de se admirar, após ter abraçado o corpo de Mihawk daquela forma, como se ele fosse um protetor, um herói que a tirara de um pesadelo que na verdade não passava de uma mera lembrança. Aquele tipo de lembrança feria a alma de Wyvia. Era deprimente a situação em que se encontrava naquele sonho e a moça desejou simplesmente apagar tudo. Agora podia respirar, pois estava a salvo com aquele homem tão misterioso e forte.

Levantando-se da cama, Wyvia quase esqueceu que estava com a perna fraturada. Ela colocou um dos pés gentilmente sobre o chão frio de pedra do quarto e começou a pular de um pé só até o banheiro. Conseguia se virar sozinha apesar do peso extra que tinha na perna e não gostava de admitir que sentia falta de ser levada no colo por Mihawk, que era atencioso e gentil com ela.

Droga, no que eu to pensando? Pensou ela.

— Pequena Wyvia!!! –gritou a voz de Perona do quarto.

A garota se apressou nos seus asseios matinais e saiu do quarto, mancando. Deu de cara com Perona, trajando roupas cor de rosa e segurando um par de muletas velhas na mão.

— Mihawk encontrou pra você. São antigas, mas dá pra usar!

Sorrindo, Wyvia começou a testar as muletas. Foram ajustadas de acordo com seu tamanho, então a moça conseguiu se adaptar bem a caminhar com aquilo. Começou a seguir Perona para fora do quarto.

Enquanto caminhavam, passaram por algumas salas. Dentro de uma delas, que estava com a porta entreaberta, Wyvia pôde ver uma grande quantidade de ouro e de berries. Era tanto dinheiro que ela ficou paralisada por algum tempo. Notando que a menina tinha parado de caminhar, Perona foi até ela e seguiu seu olhar.

— Ah, é uma parte pequena do dinheiro que o Mihawk tem. Essa é a parte que ele entrega para o governo mundial.

— Governo mundial? –perguntou a garota, confusa.

Perona lançou um olhar curioso para Wyvia. Aquela menina vivia em que mundo?

— Ah, você vivia em Jaman. Normal que não saiba nada sobre o mundo dos piratas. Vou te contar umas coisas sobre o Mihawk.

Wyvia queria muito saber mais sobre Mihawk, então seguiu Perona até a sala em que todo o dinheiro estava guardado. Além do dinheiro, na sala havia uma escrivaninha com papéis e tinteiros, além de um mural com vários cartazes de piratas procurados. Alguns deles com um enorme “X” pintado de vermelho.

— Mihawk-san captura piratas? –perguntou Wyvia sentando na escrivaninha e observando as pessoas do cartaz. Ela não tinha interesse no dinheiro, portanto era a última coisa que parou para ver. Os cartazes eram mais interessantes que uma fortuna.

— Se ele esbarra com algum inútil, por que não? –disse Perona com simplicidade apontando para um dos cartazes. — Tá vendo esse Don Krieg? Mihawk acabou com toda a frota de navios deles com um golpe da espada negra.

Os olhos dourados de Wyvia se arregalaram. Ela prestou mais atenção em Perona agora, querendo saber mais sobre a pessoa em quem estava confiando.

— Você deve saber que piratas são criminosos segundo o governo mundial. –disse Perona apontando para todos os outros cartazes. — Porém, tem um grupo de piratas que são conhecidos como piratas do governo. Estes são os Shichibukais. São piratas poderosos que trabalham para o governo. Todos são obrigados a dar dez porcento de sua riqueza para o governo. Essas coisas são meramente burocráticas sabe? Em troca eles tem seu nome retirado dos registros de criminosos e não podem ser presos.

— E o Mihawk-san é um Shichibukai? –perguntou Wyvia, encantada com aquilo.

Perona concordou com um gesto de cabeça.

— Eles são sete, se não me falha a memória. Mihawk é o único espadachim entre eles, mas é considerado o melhor do mundo.

Desta vez Wyvia sorriu, mais encantada que nunca. Então aquele homem que a salvou era importante, além de ser poderoso e forte. Ela realmente se sentia mais que segura nas mãos dele. Pensou na possibilidade de ter sido abençoada somente com sorte, pois aquela situação era boa demais para ser verdade. Após o sofrimento em Jaman, fora salva da morte simplesmente por um dos piratas mais incríveis do mundo, além de ser o melhor espadachim.

— Isso é incrível! –exclamou a garota. Estava encantada em conhecer mais ainda sobre a vida daquele homem. — Ele deve ser muito poderoso!

— Ele é sim. –concordou Perona então suspirando. — Mais alguma coisa que queira saber?

Sim, havia algo que ainda confundia um pouco a garota.

— Vocês são amantes? –ela perguntou, na inocência.

Com um berro, Perona começou a gargalhar freneticamente. Ela apertou a própria barriga e começou a flutuar no ar, girando e ficando de ponta a cabeça para rir.

— Não, que absurdo! –ela tentou parar de rir, e só conseguiu quando viu a expressão de assustada de Wyvia, além de que ela estava com o rosto levemente corado. — Ele me acha uma intrusa, apesar de suportar minha presença aqui. Por que a pergunta? Você tá afim dele?!

Quando fez a pergunta, Wyvia quase caiu da cadeira. A menina ficou tão corada que começou a rir, sem motivo, tentando dizer alguma coisa. Ela balançava os braços tentando negar, mas não conseguia deixar que uma palavra só escapasse pela boca.

— Não! Foi só uma dúvida! –ela tentou se justificar, mas não teve sucesso, pois o olhar de Perona para ela era de curiosidade. Um sorrisinho se formou nos lábios da mulher.

— Você está muito vermelha! –acusou. — Tem certeza que não gosta dele? Eu vi a forma com que você olhou pra ele no jantar e quando chegou aqui! Quer que eu te ajude com ele? Posso contar que você gosta dele...

— NÃO! –gritou Wyvia se levantando e cobrindo a boca da mulher, que ainda flutuava. — Meu deus, não diga nada a ele!

Perona se afastou da menina e continuou sorrindo.

— Não vai negar que está afetada por ele?

— Perona! –gritou Wyvia cobrindo a própria boca. — Não é isso... eu só estou grata por ele ter me acolhido... e fiquei curiosa em conhecer a vida dele, só isso!

A mulher fingiu que não acreditou. Ela cruzou os braços e ficou esperando que a garota menor dissesse o que ela queria ouvir, mas pareceu levar mais tempo que o necessário. Wyvia suspirou e seu rosto assumiu um tom mais rosado.

— Por favor, não diga nada a ele! Ele é um homem tão sério e além disso é muito mais velho que eu...

— Idade não quer dizer nada, Wyvia! –murmurou Perona. — Enfim, não fica negando esse sentimento não, ok? Dá pra ver nos seus de falcão que você foi atraída pelos olhos de falcão dele.

E dando uma piscadinha para Wyvia, ela apontou para o chão.

— Deixou as muletas caírem. Venha, vamos tomar café.

Só então Wyvia notou que sentia dor pela quase corrida até cobrir a boca de Perona. Ela reclamou da dor, alcançou as muletas e começou a seguir a outra até a sala de jantar. Apesar de envergonhada, a menina refletiu sobre o que Perona disse. Não podia ser verdade... ela mal conversara com Mihawk, não tinha tanto contato com ele. Não podia gostar com apenas algumas horas de convivência. Era óbvio para si que se sentia um pouco envolvida por ter olhos tão parecidos com aqueles e como se sentia segura perto dele, diferente de qualquer outra pessoa do mundo. Devia ser porque nunca fora protegida na vida. Nunca sentiu um abraço após um pesadelo. Nunca fora salva por alguém, alimentada e bem tratada. Wyvia vivia um sonho e torceu para que este nunca acabasse.

Eu não quero ir embora daqui... nunca mais. Mihawk-san, obrigada por ser para mim, por poucas horas, o que ninguém nunca foi.

Notas finais
Espero que estejam gostando :D