Notas iniciais
Pessoal, queria saber o que vocês estão achando dessa história :3 é triste postar e não saber se estão gostando ou não hahaha

Lendo um jornal na sala de jantar, Mihawk bebericava café em uma xícara. Gostava de tomar um café pelas manhãs enquanto lia as notícias do mundo. Folheava, tentando encontrar alguma coisa interessante, mas não conseguia. Já estava ficando frustrado consigo mesmo por passar tempo demais procurando os olhos dourados de Wyvia em sua memória. O rosto choroso, com medo e se apoiando nele, buscando nele um abrigo para fugir de alguma coisa. Por que aquilo o afetava tanto?

Não se importava muito com as pessoas, nunca criara vínculos fortes. O único vínculo que tinha, basicamente, era uma relação de rivalidade e uma “amizade” com respeito pelo Younko Shanks, o Ruivo. Ambos tinham um respeito mútuo pelo outro. Lutavam várias vezes e praticamente empatavam. Poderia aquilo ser uma amizade? Para Mihawk, sim, mas ele não passava tempo demais pensando naquela possibilidade. O que mais incomodava naquele momento era que não parava de pensar na jovem que encontrou ao mar, precisando dele de alguma forma.

Quando já não conseguia mais prestar atenção no jornal, ele bebeu todo o café da xícara ao mesmo tempo que surgiu na sala Perona, trazendo Wyvia em seu encalço. A menina estava meio lenta devido ao uso das muletas, mas parecia se adaptar. Os olhos dourados dela encontraram os dele em segundos consideráveis para que a falta de vê-los fosse suprida.

— Bom dia, Mihawk-san. –disse a menina, timidamente. Ela sorriu docemente, logo se sentando na mesa, do lado oposto a ele.

A distância entre eles não era muito grande, portanto Mihawk pôde notar todas as feições belas e joviais da garota. Ela era tão bonita que chegava a assustar um pouco o espadachim, que não tinha o feitio de ficar olhando para as mulheres. Mesmo em reuniões com os Shichibukais, ele não perdia tempo olhando para Boa Hancock, que era considerada a mulher mais bela do mundo. Nunca teve interesse em admirá-la, até porque isso era meio perigoso. O oposto era com Wyvia. A menina tinha traços leves e até um pouco infantis. Traços angelicais demais, principalmente pelos olhos. Mihawk não conseguia compreender o motivo de haver alguém com quase os mesmos olhos que ele. Aquilo chegava a ser inconveniente demais para si mesmo.

— Bom dia. –respondeu, quase esquecendo de cumprimentar a moça. Ele voltou a ler o jornal. Na verdade, apenas folheou o mesmo, fingindo encontrar interesse. — Está conseguindo usar as muletas?

— Muito bem. –disse ela sorrindo. — Obrigada por isso também. Sinto que melhorarei logo.

A frase causou um pequeno desconforto no espadachim. Se ela melhorasse, ela iria embora. Por que aquilo incomodava? Será que ela estaria pronta para partir sozinha sendo tão pequena e indefesa?

— Para onde vai quando melhorar? –ele perguntou, sem desviar os olhos do jornal.

Perona apenas observava o diálogo dos dois. De vez em quando olhava bem para a expressão de Wyvia, com as bochechas vermelhas e para o próprio Mihawk, que escondia a cara atrás do jornal. Queria apenas aproveitar aquele momento e admirar os dois, tentando formar com eles um casal em sua cabeça. Não era difícil imaginar.

— Bem... eu não sei. Para algum lugar seguro. –disse a menina. Ela já estava em um lugar seguro. No fundo pedia mentalmente que Mihawk lhe oferecesse um lar, mas não pareceu apreciar sua presença. Estar naquela ilha garantiu a menina sorrisos que ela nunca deu.

Mihawk desta vez abaixou o jornal e fitou a menina.

— Não pode vagar por aí sozinha sem ter um rumo. –disse ele da forma que sempre dizia as coisas: de forma direta e sempre séria demais. — Você tem família em Jaman?

Wyvia cruzou as mãos no colo e apertou com força, desviando o olhar dos olhos dourados de Mihawk. O homem aproveitou-se da oportunidade para perguntar a moça a verdade sobre aparecer no meio do mar. Ela era misteriosa, ele queria saber o que acontecera. Embora tentasse imaginar o que aconteceu, ele tinha opiniões formadas: estava fugindo de alguém. As pessoas de lá eram cruéis, mas a que ponto?

— Não, não tenho família. –disse ela.

— Não há recifes de corais naquela parte do mar onde te encontrei. Me conte a verdade, o que aconteceu?

— Eu não lembro! Não me pergunte mais sobre isso, por favor! –disse ela. Seu rosto queimou na hora. Seria mais fácil fingir que não sabia de nada a ter que contar os motivos de ter fugido. Era algo tão simples, porém tão difícil ao mesmo tempo que a moça realmente ficava confusa e nervosa. Ela queria se livrar daquelas perguntas. Não estava pronta para contar a Mihawk sobre o ocorrido. — Eu não estou me sentindo muito bem... vou descansar. Com licença.

E então a moça se levantou, pegando as muletas e voltando para seus aposentos. Não queria mais falar sobre aquilo. A moça se sentia insegura em contar aquelas coisas tão pessoais para alguém que mal conhecia, embora admirasse muito. Não parecia o momento certo... não ainda. Estava indo tudo tão bem que a moça não queria ter que contar para receber um tipo de reação negativa. Mihawk poderia querer usá-la assim como todo mundo de Jaman... mas também poderia considera-la uma ameaça a aquela ilha, caso os Jamanianos quisessem vasculhar as ilhas a procura dela.

Não posso colocar o Mihawk-san e a Perona-san em problemas... mas quero que ele confie em mim... pensando assim, a moça então chegou no próprio quarto e se sentou na cama, pensando no que faria. Sua cabeça estava confusa e ela realmente se sentia um pouco mal, principalmente após ficar tão nervosa diante daquelas perguntas. Estar alí era como ter uma casa de verdade, mas não queria que o dono da casa a expulsasse.

Toc, toc.

Ao ouvir as batidas na porta, Wyvia não pensou em mandar a pessoa entrar. Queria ficar sozinha, descansar e pensar no que faria sobre sua própria vida. Tudo era tão difícil e confuso que ela tinha um medo incomparável de acabar com problemas, mais do que quando estava em Jaman. Ela se levantou e caminhou com as muletas até a porta. Quando abriu, estava pronta para dizer a Perona que estava cansada, mas não era ela.

Estar de pé diante de Mihawk, assim tão perto, era algo assustador para Wyvia. Ela era tão pequena e frágil que perto dela, Mihawk era como uma enorme estátua de mármore. A camisa branca de botões mostrava um pouco do peitoral dele, onde o crucifixo estava pendurado, reluzente. O olhar dele era penetrante como sempre, que até causaram na garota um arrepio de medo misturado com admiração.

— Não vou mais te pressionar. –disse ele, simples e direto. Ele olhava nos olhos dela, sem nenhum medo ou vergonha. Após pensar bem e ver como a menina ficava diante da situação, ele percebeu que realmente não valia a pena pressioná-la. Queria que ela tivesse confiança nele a ponto de contar sozinha a situação. Sem contar com a probabilidade da menina estar fugindo de alguém. Mihawk era inteligente e pensou naquilo. — Não se preocupe. Aqui você está segura, não há o que temer. Pode confiar em mim.

E então a enorme mão de Mihawk pairou diante de Wyvia. Ele apoiu essa mão no alto da cabeça dela e fez um leve carinho nos cabelos lisos cor de areia, quase percorrendo todo o comprimento do cabelo até o pescoço, mas ele parou quase na orelha. Aquilo transmitiu um carinho tão grande em Wyvia que novamente ela se sentiu realmente protegida, e só assim as palavras dele fizeram sentido. Ela podia sim confiar nele em qualquer hipótese.

Quando ele se virou e foi embora, a garota continuou olhando-o pelo corredor. Ela estava com o rosto tão vermelho quanto sangue. Passou a própria mão na cabeça, onde foi tocada por Mihawk e como se sentisse o carinho dele, ela sorriu. Era bobagem se preocupar atoa com ele. Mihawk nunca faria mal a ela.

***

A semana se passou com muita tranquilidade e sem pontos negativos. A perna de Wyvia estava melhorando com uma velocidade incrível, que deixou até mesmo Perona curiosa. A tíbia da moça não estava trincada, na verdade realmente havia uma fratura, que levaria no mínimo dois meses para uma recuperação completa, mas com apenas uma semana, o osso já havia voltado para o lugar, apenas precisava calcificar, o que parecia não demorar muito. Por várias vezes Perona perguntou a moça como ela se curava tão rápido, mas Wyvia desviava do assunto. Essas desconversas deixavam a mulher com muita curiosidade sobre a vida da garota, mas ela parecia difícil de se abrir totalmente.

Naquela semana, Mihawk manteve uma distância considerável da garota por motivos que ela não entendeu. Sabia que ele não conversava muito, mas também não mais a fitava nos olhos. Durante as refeições ele pouco lhe dirigia a palavra, e aquilo deixava a moça um pouco inquieta. Pensou que talvez Mihawk já estivesse cheio da presença dela naquela ilha e aquele pensamento a entristecia profundamente. O único momento em que Wyvia se sentia totalmente confortável para observar atentamente Mihawk era quando ele estava treinando com sua enorme espada negra. Ele parecia dominar todo e qualquer movimento de um espadachim. Não era atoa que era o melhor do mundo. Wyvia ficava horas observando o treinamento dele, sabendo que ele não podia vê-la de volta. Vê-lo se movimentando daquela forma, tão rápido e cheio de destreza quanto qualquer espadachim que a moça já tivesse visto era um encanto. Por vários momentos a garota também quis ser espadachim. Talvez assim Mihawk a notasse de alguma forma... mesmo que fosse como uma aluna.

Nos momentos fora dos treinos de Mihawk, Perona era sua única amiga, para quem ela se sentia na liberdade de se abrir de uma forma diferente. Embora não se abria sobre sua vida, se abria sobre os sentimentos construídos naquele castelo.

Na tarde fria daquele domingo, Perona estava trocando as ataduras de Wyvia, e quando retirou a última faixa, notou que nem mesmo marcas haviam na perna dela.

— Não é possível. –disse a mulher cutucando com o dedo indicador o lugar onde deveria ser a fratura. Ouviu Wyvia gemer com o toque. — Ainda dói? Mas não tem nem marcas aqui. Até o inchaço melhorou!

Wyvia deu de ombros.

— Sempre me curei muito rápido de ferimentos. –e imediatamente se lembrou dos dias em Jaman em que era perseguida, em que atiravam nela flechas envenenadas. Veneno que nunca se espalhava pelo sangue, simplesmente desaparecia. — Estou quase melhor... assim poderei ir embora.

Quando disse aquilo, Perona ergueu os enormes olhos negros para a moça. Notou o olhar triste com que ela dizia aquilo e percebeu na hora qual era o problema.

— Não minta pra mim. Você não quer ir embora, certo?

Entristecida, Wyvia balançou a cabeça. Cruzou as mãos no colo, como sempre fazia quando queria manter uma parede invisível entre si, como se aquilo fosse impedir Perona de ler suas emoções.

— Eu gosto daqui. Me sinto em casa com você cuidando de mim... e o Mihawk-san foi tão gentil em me oferecer esses cuidados, mas acho que ele já se cansou da minha presença aqui.

Suspirando profundamente, Perona tentou não se emocionar com aquelas palavras. Ela bateu de leve no ombro da moça e recebeu um olhar triste.

— Eu não sou bem-vinda aqui. –disse ela. — Mas o que eu fiz? Continuei aqui. Mihawk não me enxota dessa ilha porque sabe que eu não vou. Outra coisa... ele cozinhou risoto pra você. Ele nunca fez isso por mim.

E com isso, Perona passou uma faixa fina pela perna de Wyvia. Aquela faixa não era tão pesada e densa como as outras, portanto servia apenas para fixar na pele e evitar que o osso saísse do lugar novamente caso não estivesse totalmente calcificado.

Wyvia estava em silêncio enquanto Perona lhe enfaixava. Pensou no dia em que chegou e como Mihawk foi cuidadoso em escolher e limpar um bom quarto pra ela e as vezes que fez um jantar delicioso, algo que ele não parecia fazer por Perona. Porém, ainda assim havia algo estranho no comportamento dele. Parecia evita-la de alguma forma.

Com aquela semana que se passou, Wyvia percebeu muito tarde que Mihawk realmente era uma pessoa em quem poderia confiar. Devia ter notado isso antes, quando ele lhe deu liberdade para não contar sobre sua vida... e com isso Wyvia percebeu a situação.

Ele não deve confiar em mim... isso é óbvio agora. Eu devia ter contado os motivos de sair de Jaman. É por isso que ele está longe... porque não sabe o que eu sou de verdade.

A garota então se levantou, sem ajuda das muletas. Ela queria ir até Mihawk naquele momento e contar a ele toda a verdade. Talvez assim ele confiasse nela e permitisse que ela morasse naquela ilha com eles. Sentindo uma leve dor, a moça conseguiu dar um passo com a perna esquerda. Enquanto firmava a perna no chão, sentiu que esta não quebraria novamente. Já podendo andar, ela começou a caminhar devagar para fora do quarto, sorrindo um pouco. Estava tremendo por dentro e suas pernas estavam quase bambas devido ao nervosismo de contar toda a verdade para alguém de fora de Jaman, mas aquilo seria bom para sua amizade com Mihawk.

Eu vou contar pra ele... ele merece saber!

Andando devagar e mancando pelo castelo, por vários minutos a garota ficou envergonhada e decidiu voltar para seu quarto. Não queria contar os detalhes do que lhe aconteceu em Jaman. Os detalhes eram horríveis e constrangedores... não era uma boa ideia contar. Porém, depois de reflexões sobre confiança e lembrando do olhar dourado de Mihawk dizendo que ela não precisava ter medo aquele dia, então ela criava coragem para isso.

Ao chegar no salão principal, onde Mihawk estava sempre lendo seu jornal, a moça entrou. Viu o anjo da morte sentado, tomando vinho em uma taça. Quando seus olhares se encontraram, Mihawk deixou a taça na mesa e observou a garota se aproximando, sem o uso das muletas.

— Pelo que vejo já consegue andar. Você se recuperou com uma velocidade muito grande. –disse ele sem emoção. O tom de voz era sempre sério.

Durante aquela semana, Mihawk evitou olhar para os olhos de Wyvia, pois eles agora lhe chamavam mais a atenção que qualquer coisa no castelo. Os olhos dela eram como uma lâmpada incandescente que atraía mariposas, e ele se sentia uma mariposa atraído por aquele olhar tão angelical e oposto ao seu. Não queria ser atraído daquela forma, pois de alguma forma, no interior de seu coração, sabia que não era uma coisa certa a se fazer. Não era homem de se admirar por garotas tão jovens, na verdade não se encantava por ninguém... mas por que justamente aquela menina lhe atraía tanto? Ele não a conhecia bem, ela nunca falava da própria vida e desviava do assunto como se não tivesse uma gota sequer de confiança nele. Aquilo era curioso.

— Mihawk-san... –disse ela se aproximando bem devagar, cada vez mais perto dele.

A distância diminuiu muito, algo que não acontecia há tempos. O trono em que ele estava sentado ficava em uma espécie de altar no grande salão, e Wyvia ficou tão próxima que ele podia ver muito bem o contorno de seu rosto, as bochechas levemente rosadas e os olhos dourados. Os benditos olhos dourados. Os cabelos cor de areia caíam até os ombros, dando uma aparência bastante sulista a garota, e aquilo era encantador. O vestido que Perona lhe deu era rosa de veludo, com alguns detalhes em roxo. Aquilo modelava o corpo pequeno dela, dando curvas que o espadachim nunca notou que existiam. Ele desviou o olhar imediatamente e observou pela visão periférica que ela se sentou em um dos degraus do altar, bem perto dos pés dele.

— Precisa de alguma coisa? –perguntou Mihawk em seu tom sério e direto, olhando novamente para o jornal em mãos.

— Eu... –ela começou dizendo, engolindo um seco. Será que estava pronta mesmo para aquilo? –Eu...

Mihawk deixou o jornal no colo e prestou total atenção na moça. Ela realmente estava tentando criar confiança nele?

— Fale!

A menina tremeu e fraquejou por instantes. Os olhos dourados fitaram Mihawk novamente e ela suspirou. O rosto entristeceu consideravelmente enquanto lembrava dos motivos da fuga de Jaman. O grande líder Arthur era como o pior ditador do mundo para a garota e lembrar dele era algo horrível. O homem era um espadachim incrível, além de ser um usuário da Akuma no mi que poderia desmaterializar qualquer parte do corpo. Era impossível acertá-lo. Caso fosse procurar por Wyvia naquela ilha, a jovem não tinha certeza de que Mihawk poderia acertá-lo. Aquilo era um dever dela, somente.

Pensando nisso, a moça esqueceu completamente o que ia dizer. Seu rosto ficou vermelho e ela fitou os olhos atentos do falcão, esperando o que ela ia dizer.

— Mihawk-san... me ensine a ser uma espadachim? Por favor!