85º Edição dos Jogos Vorazes
4 Colheita do Distrito 4
Era um dia qualquer de trabalho no Distrito 4. Para os adultos, porque para os jovens, era um dia de pesadelo que nenhum deles, em sã consciência, se arriscaria a sonhar. Dia da Colheita. Todos estavam apreensivos, pois naquele dia fatídico, veriam mais duas pessoas do seu Distrito lutar pela própria sobrevivência. Por localizar-se a beira mar o Distrito 4, tinha como sua principal função a pesca. Diariamente quilos e mais quilos de peixes e outros frutos do mar eram mandados pra Capital. Por essa atividade, esse Distrito não era muito pobre, mas também não era muito rico.
Érika havia acordado bem cedo para acompanhar seus pais na pescaria, afinal era de lá que eles tiravam seu sustento. O barco deslizava mansamente sobre as águas azuis daquele lindo mar. Ela sempre teve a oportunidade de ver o sol nascer e se pôr no horizonte, com aquela cor alaranjada. Uma visão de tirar o fôlego. Não sabia se teria a oportunidade de assistir o sol nascer novamente, pois chegara o dia que ela menos gostava. Quando chegou de novo a costa, correu pra sua casa para não chegar atrasada no sorteio. Tomou um banho bem rápido, se enxugou, pôs seu vestido turquesa que ela ganhara da tia que lhe caía muito bem, amarrou os cabelos em uma trança e colocou no pescoço seu cordão de concha que ela mesmo havia feito. Achava que aquilo era seu cordão da sorte, só usava ele naquela ocasião, pois por quatro anos ele a livrara da morte. E ela rezava pra que ele a livrasse por mais aquele ano. Correu para o Edifício da Justiça e esperou. Ela andou a passos bem rápidos, pois estava com pressa e não queria chegar atrasada no sorteio dos nomes.
Érika, 17 anos. Era uma garota de estatura mediana, não chegando a ser muito alta ou muito baixa. Tinha cabelos negros que iam até o meio das costas, olhos pretos que encantavam e hipnotizavam, um sorriso bastante amigável e dócil, cobiçada por todos os rapazes do seu distrito por ter tal beleza. Não era um má pessoa, as vezes ela era um pouco irônica, mas somente com as pessoas que não ganharam seu respeito. Não tinha nenhuma imperfeição em relação ao seu caráter ou personalidade. Era uma garota extremamente esperta e uma ótima estrategista, mostrava ter muita habilidade com o manuseio lanças e arpões, muito boa em combate, principalmente na água. Podia prender o fôlego por até dez minutos, nadava muito velozmente, o que a fez a melhor nadadora de seu Distrito.
Alan acordou com um pesadelo que o deixou muito atordoado. Ele sonhou com a cena do irmão mais velho sendo morto por um carreirista do 2 na 82º Edição. Desde então, ele nutre um ódio muito grande por esse distrito. Ele estava sozinho em casa, seus pais haviam saído pra pescar e ele ficou dormindo. Levantou da sua cama e foi para o banheiro, lavou o rosto e ficou encarando o espelho por um tempo e se lembrando da cena da morte do seu irmão, rapidamente ele tentou tirar a imagem da sua mente e foi tomar um banho. Demorou um pouquinho no chuveiro e depois saiu. Se enxugou, e vestiu sua calça cáqui, camisa social e sapatos pretos. Pôs no pulso uma pulseira que seu irmão havia feito pra ele, usando uma concha, pedacinhos de corais e uma tira de couro. Saiu de casa e andou de cabeça baixa para o Edifício da Justiça, pedindo pra sorte estar ao favor dele por mais esse ano.
Alan, 18 anos. Ele era um garoto não muito baixo, mas também não muito alto, tendo cabelos um pouco mais ralo e curto, olhos pretos, sorriso bastante travesso, bochechas rosadas como as de uma criança. Um garoto muito esperto, tendo uma percepção um pouco mais apurada, meio bestinha de vez em quando. Não é muito veloz quando o assunto é correr, mas demonstrava muita força, um ótimo nadador e muito rápido na água, era excelente em manusear tridentes e ótimo em montar armadilhas.
Quando todos os jovens estavam reunidos em frente ao Edifício da Justiça, Alec Johnson desce do seu aerodeslizador usando roupas típicas da Capital, coloridas, berrantes, muita maquiagem, e outras coisas mais. Ele cumprimenta o Pacificador chefe do distrito e vai até o microfone pra falar com os jovens de lá.
–Bom dia. Bom Jogos Vorazes, e que a sorte esteja sempre ao seu favor. Antes de eu tirar os nomes, assistam esse vídeo que eu trouxe pra vocês lá da Capital.
Um vídeo rola em um telão ao lado dele, e ele aproveita pra colocar mais uma camada de batom nos seus lábios, o vídeo tem duração por volta de dez minutos, e quando termina, Alec volta ao microfone e fala novamente.
–Bom, todos já sabem o que acontece agora, não? Garotas primeiro.
E ele se dirige a caixa com os nomes das garotas. Érika aperta com força o seu cordão de concha, rezando para que seu nome não fosse escolhido. Depois de um tempo com a mão na caixa, Alec a tira com um papel entre os dedos. Ele se dirige ao microfone, abre o papel, limpa a garganta e finalmente fala:
–Érika Poça, sua vez esse ano.
Quando ouve essas palavras, Érika sente o chão ruir ao seu redor. Larga devagar a concha e começa a chorar. Não conseguia acreditar que fora escolhida. Andou a passos lentos até Alec, que a indicou um lugar para sentar enquanto voltava ao microfone.
–Agora os garotos.
Ele se dirige a caixa com os nomes dos garotos. Não demora muito com a mão dentro da caixa, a põe e a tira rapidamente com um papel. Volta pro microfone e fala de novo.
–Alan Batista, pode vir. É você.
Alan arregala os olhos com cara de surpresa e espanto.
–Não acredito... Vou ter o mesmo destino que o meu irmão. –diz ele com aflição.
Anda a passos lentos segurando com força a pulseira que havia ganhado do irmão, é cumprimentado por Alec que o indica um lugar ao lado de Érika.
–Os tributos desse ano já foram escolhidos. Um bom dia a todos e até o ano que vem.
Quando ele termina de falar, dois Pacificadores chegam para escoltar Érika e Alan, para que eles sejam encaminhados aos compartimentos para que possam se despedir. Logo depois de entrar no seu compartimento, os pais de Érika entram e logo abraçam a filha aos prantos.
–Eu não quero ir, mãe. Eu não quero morrer.
–Infelizmente não podemos fazer nada. Você só tem que vencer, filha! Já vi você pescando com aquelas lanças e arpões, e é muito boa. Faça o máximo que puder pra arranjar patrocinadores. Tente de tudo! Use a sua beleza a seu favor. –diz a mãe.
–E volte pra casa. Viva! –diz o pai.
–Eu vou tentar... –diz ela.
–Você não vai tentar, você vai conseguir! –diz o pai.
–Eu prometo pra vocês dois, eu vou vencer e vou voltar! –diz Érika.
Um Pacificador entra e diz aos pais dela que já era hora de eles irem embora. Os dois são levados pra fora enquanto ela espera sozinha a hora de ir para o trem. Ela aperta com bastante força a única lembrança que ela teria de casa, seu cordão de concha.
Alan fica no seu compartimento por volta de três minutos quando a porta se abre e seu pai entra. O cheiro de água salgada no pai dele o fez ficar ainda mais triste.
–Eu não quero ter o mesmo destino que o meu irmão, pai. Eu não quero morrer... –diz ele tristemente.
–Escuta aqui! Você não vai morrer! O seu irmão chegou nas finais! E você também pode! Não aceite a morte assim desse jeito. Você é muito bom com um tridente! Eu já vi! Mas prometa pra mim que não vai aceitar morrer assim desse jeito. –diz o pai.
–Eu... Eu... Prometo, pai... –diz ele enxugando uma lágrima.
Dois Pacificadores entram, um pra escoltar Alan para o trem e um pra levar o pai dele pra fora. Alan e o Pacificador andam até chegar em uma porta, e de dentro sai Érika segurando seu colar de concha e chorando. Os dois andam até o trem onde se encontram com Alice Stewart, uma antiga vencedora e mentora deles naquela Edição. Os três se cumprimentam, entram no trem e partem rumo a Capital.
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