O dia amanheceu nublado no Distrito 7, o ar estava úmido e carregado com o perfume dos pinheiros e da serragem de madeiras. Todos os lenhadores acordaram cedo e dirigiram-se a um galpão, onde se encontravam diariamente pra apanhar seus machados e motosserras para retirada diária de madeira, mas todos eles sabiam que naquele dia aconteceria a Colheita. Os pais estavam preocupados e aflitos, pois os seus filhos poderiam ou não sobreviver por mais um ano. Os jovens foram dispensados do dia de trabalho pra se prepararem pro que estava por vir, todos estavam apreensivos com a chegada desse dia, pois qualquer um poderá ser sorteado para ir disputar os Jogos Vorazes, e o escolhido quem sabe, pode ser morto. Por ser o Distrito responsável pela produção e extração de madeira, não tinha muitos recursos, sendo assim, um dos mais pobres.

Lucas levantou muito cedo e foi até a floresta para sentir o cheiro dos pinheiros, como fazia todos os dias. O ar estava úmido e o cheiro que exalava das árvores era algo aconchegante e o fazia sentir-se protegido, como se nada no mundo pudesse machucá-lo. Tudo estava do mesmo jeito, mas as pessoas não estavam, ele mesmo não estava. Andou até um tronco caído no chão e retirou de dentro o seu arco e flecha, diferente dos outros jovens do seu Distrito, ele não tinha a mesma habilidade de usar um machado. Colocou a aljava nas costas e o arco na mão direita, disparou algumas flechas em algumas árvores, e depois sentou-se no chão e ficou olhando pro alto. Após algum tempo, levantou-se, recolheu as flechas, devolveu suas armas ao esconderijo e foi pra casa. Quando chegou lá, tomou um banho sem pressa, saiu e se enxugou e vestiu uma camisa azul, calça preta e tênis branco. Foi até o espelho e arrumou seus cabelos, respirou fundo e foi até a sua gaveta, de onde tirou um pequeno urso talhado em madeira de cedro. Saiu do seu quarto e foi em direção a porta. Andou sem pressa nenhuma, chutando algumas pedras no caminho para o Edifício da Justiça.

Lucas, 16 anos. Era um garoto alto, cabelos pretos desgrenhados que iam até as sobrancelhas, olhos castanho escuro que eram sedutores e convidativos, pele morena, e com um sorriso encantador. Um dos rapazes mais bonitos Distrito 7. Era uma pessoa um pouco prepotente, preguiçoso, relaxado, friamente calculista, tinha um excelente raciocínio rápido e era bom em reconhecer comidas venenosas. Era bastante extrovertido e sorridente. Muito veloz quando questão era correr grandes distâncias, era ágil, cauteloso e silencioso. Ótimo em montar armadilhas e bom em camuflagem. Não mostrava muita habilidade quando o assunto era combate corpo a corpo. Diferente de todos do seu Distrito, não demonstrava a mesma habilidade com manuseio de machados, mas ele compensava sendo um bom arqueiro com uma mira. Mas sua melhor arma era seu poder de persuasão.

Tayná não estava com muita vontade de levantar da sua cama, o frio que fazia naquele dia só a deixava com mais vontade de ficar deitada. Mas era dia de Colheita, então ela era obrigada a estar no sorteios dos nomes. Não queria estar lá pra ver mais dois jovens de seu Distrito caminhando pra morte certa. O ar estava úmido e ela sentia claramente o cheiro dos pinheiros, talvez aquela seria sua última chance de sentir esse aroma. Levantou-se de sua cama e andou até o banheiro a passos lentos, tomou um banho rápido e depois saiu. Enxugou-se e colocou com leveza um vestido verde claro que ia até seus joelhos, deixou os cabelos soltos e pôs no pescoço um colar que tinha como pingente um pinheiro. Recusou o convite da mãe para tomar café da manhã, apenas saiu de casa e andou vagarosamente para o Edifício da Justiça, onde ocorreria o sorteio.

Tayná, 15 anos. Uma garota que possuía uma beleza singular entre todas as jovens daquele Distrito. Tinha cabelos castanhos claros que iam até os quadris, olhos castanhos sedutores, boca instigante e sorriso hipnotizante. Uma garota delicada e um pouco frágil. Não era veloz quando o assunto era correr, mas compensava sendo ágil e perspicaz. Era uma pessoa muito inteligente, raciocinava tudo com facilidade e rapidez, mas era um pouco fria e sádica. Não costuma mentir, mas o faria para sobreviver. Mostrava ter muita habilidade em manuseio de machados, embora também apresentasse aptidão no arco e flecha. Muito boa quando o assunto era técnicas de sobrevivência e camuflagem. Mas ela usava como sua melhor arma, a sedução.

Quando todos daquele Distrito encontravam-se reunidos, Rebecca Gilbert desce de seu aerodeslizador, e anda até o microfone para falar a todos com sua voz aguda e irritante. Um pouco desastrada, acaba derrubando o microfone por acidente, mas rapidamente recupera a compostura.

–Bom Jogos Vorazes, e que a sorte esteja sempre a seu favor. Antes de começarmos a sortear os nomes, eu peço que todos dediquem sua atenção a esse vídeo que eu trouxe pra vocês direto da Capital.

Depois que Rebecca termina de falar, um vídeo começa a ser reproduzido atrás dela. Após dez minutos de duração, o vídeo termina e ela volta a falar com todos.

–Bom, todos já sabem o que vem agora, não? Vamos sortear o nome da garota sortuda desse ano!

Rebecca anda saltitando até a caixa dos nomes e mete a mão dentro, remexe um pouco os nomes e depois de um tempinho um papel sai por entre seus dedos indicador e polegar. Ela anda até o microfone, limpa a garganta e fala com alto e bom tom.

–A garota que vai ter a honra de disputar a 85º Edição dos Jogos Vorazes é Tayná Chiesorin!

Tayná a olha com os olhos arregalados e com o coração palpitando. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Tocou o pingente de pinheiro em seu pescoço, e depois o segurou com força com a esperança de que ele a deixasse mais calma. Andou a passos lentos até Rebecca, que a indica um lugar para que possa sentar e esperar.

–Bom, agora só falta tirar o nome do rapaz.

Ela anda de novo até a caixa dos nomes dos garotos, todos estão apreensivos para que seu nome não seja sorteado. Depois de um tempo com a mão imersa em vários papéis, ela tira um nome. Anda até o microfone e fala novamente.

–E o nosso sortudo que vai ter a honra de participar da Edição desse ano é Lucas Carvalho!

–Ah! Fala sério!? –grita ele em meio a multidão.

Rebecca olha diretamente pra ele.

–Pode vir, lindinho. Junte-se a sua parceira. –fala Rebecca.

Ele bufa, dá de ombros e começa a andar até ela. Chegando lá, senta ao lado de Tayná e espera.

–Bom, já terminamos por hoje. E os nossos tributos do Distrito 7 que terão a honra de ir para 85º Edição dos Jogos Vorazes é Tayná Chiesorin e Lucas Carvalho! Uma boa sorte a vocês dois! E até ano que vem, meus lindinhos!

Depois que ela termina de falar, dois Pacificadores vai até os dois e os conduzem para os compartimentos terão o direito de se despedir e onde ficarão até dar a hora de embarcarem no trem. Lucas é posto em um, e depois de esperar por um tempinho, sua mãe entra.

–Eu sou azarado ou o quê?! –bufa ele.

Sua mãe o olha com bastante paciência e fazendo de tudo pra não chorar.

–Meu filho, eu não quero te perder! –diz a mãe o abraçando e não conseguindo conter algumas lágrimas. –Alguns últimos conselhos, seja um rapaz durão, mate sem dó nem piedade. Eu já vi você com arco e flecha, mostre que é bom e vai conquistar patrocinadores numa boa. Consiga aliados, junte-se a garota do nosso Distrito se for preciso. De maneira nenhuma se una aos Carreiristas ou os provoque, eles devem ser o seu alvo ou o contrário.

–Os Carreiristas? Mas eles são ótimos, ganham quase todos os anos. Não sei tenho chance.

–A maioria deles é especialista em armas de curta distância, e combate corpo a corpo, use isso a seu favor. Corra mais que eles e chegue na Cornucópia primeiro, pegue a sua arma, mate quantos você puder e depois corra!

–Tudo bem, eu entendi.

–E ache água. Ela vai ser sua melhor amiga.

–Entendi.

Entra um Pacificador e avisa a mãe de Lucas que o tempo havia acabado, ela dá um último abraço no filho e depois sai, deixando-o sozinho esperando o momento de partir. Tayná espera cerca de dez minutos até que sua mãe entra e a abraça chorando e soluçando, e ela chora também.

–Cadê o papai? Porque ele não está aqui?

–Ele não pode vir, filha. –diz a mãe com pesar. –Mas ele me mandou te dizer algumas coisas.

–Fale rápido, o tempo é curto.

–Tayná, esqueça a sua delicadeza e fragilidade, eles só vão te fazer morrer mais rápido. Seja uma das mais duronas entre todas. Arrume patrocinadores, use todos os artifícios possíveis, a sedução, a sua beleza, tudo! Arrume aliados, a quem você possa trair e depois matar. Se for preciso, mate o garoto do nosso Distrito também, ele vai ser só um empecilho pra sua vitória. Consiga uma nota boa, e uma arma na Cornucópia. E o mais importante, volte pra nós, viva! –diz a mãe a abraçando.

–Eu não quero ter que matar ele. Ele pode me ajudar a ficar viva por mais tempo.

–Esquece isso, preocupe-se com você! E eu te amo, filha! Muito!

–Eu não vou matar ele. O máximo que eu posso fazer é acabar com a aliança e depois cada um por si. Não vou matar ele porque...

A conversa é interrompida quando dois Pacificadores entram, um para escoltar Tayná até o trem, o outro pra levar a mãe dela pra fora. Ela anda por um corredor estreito, até chegar a porta do compartimento de Lucas, ele sai de dentro e outro Pacificador se junta para levá-los até o trem. Eles seguem silenciosamente por todo o trajeto, ambos tendo apenas um pensamento ecoando em sua cabeça, ficar vivo. Quando chegam a plataforma, Albert González os cumprimenta da maneira mais amistosa possível. Ele é um antigo vencedor daquele Distrito e vai ser o mentor deles naquela Edição. Eles embarcam, e seguem o seu caminho rumo a Capital.

Notas finais
E ai? Gostaram?