8 Motivos Para Não Ser Perfeito
1 Primeiro Motivo
~ Por Nico ~
Acho que meus pais me julgam perfeito.
Você não deve ter me entendido direito, afinal todos os pais acham que seus filhos são perfeitos e isso não é necessariamente um problema.
Não pra mim, claro.
Eu meio que sou o culpado disso. Eu sempre tive consciência de que de perfeito eu não tinha absolutamente nada mas, meio que pra deixá-los contentes, eu fingia o ser ao me esforçar massivamente nos estudos, na prática de esportes, na fala eclética para dominar diversos assuntos e tudo mais.
Isso não devia ser ruim.
Mas, novamente... Não pra mim.
No começo era algo saudável mas fui ficando obcecado nisso. Nada, absolutamente nada, estava bom pra mim.
Notas altíssimas? Elogios? Prêmios? Subir de classe em duas semanas? Reconhecimento? Nada disso me saciava mais. Fui me engolindo na própria vontade que tinha de ser perfeito, de saber de tudo. Eu me tornei aquela vontade. Era meu único motivo para viver.
Acabei investindo cada vez mais nos estudos e na prática de esportes até um ponto onde não dormia mais que duas horas por noite e tinha apenas uma refeição mínima por dia. Minha fala ficou tão diversificada que não conseguia mais me manter em um mesmo assunto, todos se perdiam ao tentar falar comigo. Eu estava virando (ou já tinha virado) uma aberração.
Eu acabei mais inteligente que todos os meus colegas, não... até mais do que meus professores. Chegava agora a assustar. E eu só me afundava mais nessa louca vontade de melhorar.
Até um dia em que meu corpo não aguentou mais aquela rotina. Me sentia tão cansado e morto que não queria mais sair da cama. Quem cuidou de mim foi o mordomo junto a governanta que andavam cochichando preocupados sobre minha saúde mental. Faltei aulas e cursos por exatamente duas semanas e nem ligaram para meus pais para perguntar o que tinha acontecido. Acho que pensavam que eu tinha morrido e estavam comemorando.
Meus pais, ricos e ocupados, nem perceberam meu estado. Até a hora que perceberam, me tratavam apenas como um pequeno prêmio, um filho prodígio robô, que só tinha utilidade para se gabar em festas de alta classe. Até que me viram, ouviram o que os dois que estavam cuidando de mim tinham a dizer e tudo mudou.
Eles não agiram como eu queria que agissem. Na verdade, como ninguém esperava que agissem. Como nenhum pai agiria. Eles me condenaram. Como se a culpa daquilo tudo estar acontecendo fosse só minha. Como se eu quisesse virar perfeito para mim mesmo. Eles brigaram comigo, disseram coisas ruins e então se afastaram ainda mais do que antes, me ignorando.
Sim, os dois estavam decepcionados. Mas, maldição, não era a hora de esses malditos me ignorarem como quase sempre fizeram! Fingirem que eu não existia enquanto ficavam trabalhando dia-e-noite. Não era minha culpa que eu querer ser perfeito para eles gostarem de mim e me darem atenção. Não era, eu juro.
Só que eles não entenderam isso.
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