~ Por Narrador Onipresente ~

Era uma terça-feira, final de tarde, quando essa história começou a guinar para um caminho feliz.

Nico estava sem carona para voltar para casa, seus pais tinham esquecido dele — como quase sempre. Então ele pegou o metrô.

Na terceira estação depois da sua, uma menina entrou. Ela parecia ter a sua idade mas era absurdamente magra e, mesmo assim, bonita. Ela se sentou ao seu lado. Ele a observou curioso por um tempo, até ela virar o rosto levemente para ele. Nico desviou o rosto bruscamente, as bochechas levemente coradas por ter sido pego.

Ela lhe lançou um sorrisinho pequeno e enviesado e, envergonhada, pôs o cabelo atrás da orelha mudando a rota de seu olhar para a janela oposta. Todos os três atos, o garoto achou adorável, vendo de rabo-de-olho.

A garota tinha fixado o olhar na janela e não os tirava de lá. O olhar vidrado, as mãos sobre a barriga, rosto em expressão nem feliz nem triste... parecia imersa em pensamentos taciturnos e sombrios que ninguém além dela conhecia. Algo preocupou Nico naquele olhar soturno e frio. O lábio dela passou a tremer e então ela fechou os olhos, que tinham enchido de lágrimas que não caíram. De repente, ela tombou para o lado, no colo do garoto, dúctil e desmaiada.

Os outros passageiros nem pareciam ter notado algo errado naquela cena, ocupados demais com suas vidas e seus pensamentos. Talvez aquilo tenha parecido apenas uma menina caindo de sono. Isso até o garoto, austero e até agora ignorado, gritar pedindo que alguém ligasse para a emergência. A menina estava com a respiração e pulsação muito fraca, estava parecendo muito mal, não apenas cansada.

Duas moças vieram ajudar, um homem que usava o celular ligou para o hospital mais próximo e todos no vagão passaram a observar a cena incomum.

Na próxima estação, o garoto desceu com ela nas costas, subindo até a rua e esperando a emergência, que chegou rápido. Ele acompanhou-a, mentindo ao se dizer irmão dela. Procurou dentro da mochila que ela carregava algum celular para avisar algum parente ou amigo dela, sentado no canto da ambulância, enquanto os paramédicos tentavam reanimar seus sinais vitais.

Ele encontrou um celular e nele descobriu que o nome da garota era Ônix. Ligou para uma garota que estava listada como “irmã do meio”, avisando da situação.

Ônix ficou adormecida por dois dias e, durante esse tempo, Nico falou com a irmã dela e voltou para casa, apenas para voltar lá pouco depois. Dormiu pouco e faltou um dia de aula, algo que não era do seu feitio mas não conseguiu evitar. Algo o tinha prendido à ela desde o momento em que ela entrou naquele metrô e sentou ao seu lado. Ele não queria entender, só queria que ela ficasse bem logo e queria ter plena certeza de que tudo tinha dado certo com ela.

Nas conversas com a garota (irmã dela), ele descobriu que ela também tinha problemas. Problemas não parecidos mas que começaram pelo mesmo princípio: Agradar outras pessoas. E por isso – por saber o quê ela passava -, ele queria protegê-la.

O médico veio avisar que ela tinha acordado e a primeira a entrar foi a irmã. Nisso o garoto não podia nem querer discutir. Ele não era nada dela e, talvez, Ônix nem quisesse vê-lo.

A menina que ele teve chance de conhecer estava muito feliz, a ponto de quase ter um ataque cardíaco. Mas como tão logo entrou, saiu também. Parecia cabisbaixa.

“Ela quer te ver”, disse dando passagem para ele entrar. “Fique o tempo que desejar, vou comprar milk-shake para ela.”

Ela se foi e ele respirou fundo. Ao entrar, a loira sorriu para ele com algumas coisas presas no braço – agulhas e curativos -, e um tubo nas narinas. Ele não deu muita atenção a essas coisas.

“Obrigado por se preocupar comigo mesmo eu sendo uma completa estranha. Me fez voltar a acreditar que existem pessoas gentis por aí.”

“Não foi nada demais”, ele respondeu.

“Agora, eu gostaria que não se preocupasse mais comigo”, ela disse em voz baixa. “Eu não mereço. Irei desmaiar na próxima semana de novo. Isso sempre acontece e você não irá poder impedir. Então, por favor, se sinta satisfeito com o que fez até agora. Você pode ir embora.”

Nico olhou aquela garota por um segundo. Ela estava o mandando embora de sua vida antes mesmo que tivessem conversado.

Com raiva, ele ate se virou para ir embora mas viu-a pelo visto da porta entreaberta. Ela tinha baixado o rosto, o rosto entristecido. E percebeu que não tinha duvidas de que o que iria fazer agora, era o certo.

Não importava tudo o que ela passou, nem o que ele tinha passado. Suas diferenças. Nem o que a vida tinha feito com ambas as personalidades. Ele não iria ir embora. Pois ele queria protege-la.

Se virou e andou de volta até ela, inclinando-se sobre Ônix e abraçando-a, tomando cuidado com os tubos. A menina se surpreendeu, ficando sem reação, estática.

“Eu não quero. Eu quero te ajudar. Eu quero ser ajudado. Sinto que você pode fazer isso por mim e eu posso fazer algo por você. Então, por favor Ônix, não me mande embora.”

Ela depois de um curto tempo, mexeu-se. Agarrou a camisa dele com uma das mãos e escondeu o rosto em seu ombro. Nico pode sentir o mesmo ficar úmido com as lágrimas quentes dela enquanto ela soluçava baixinho.

“O.k.”

O problema dos dois nunca tinha sido em si os seus problemas psicológicos adquiridos.

Ônix, desde que havia começado a ter bulimia, não queria ter amigos de verdade. Muitos se aproximavam para tentar ajudá-la mas ela os afastava, já que não considerava quem queria mudá-la seu amigo. Ela sabia que a bulimia era errado em seu interior mas algo a mantinha fazendo aquilo e o fato de ninguém insistir em se aproximar dela fazia ela piorar ainda mais.

Nico tinha problemas para arrumar amigos não por culpa de suas habilidades mas porque tentava do jeito errado. Ele sempre quis amigos que já conheciam sua habilidade e que já se sentiam intimidados. Seu olhar nunca foi do tipo que analisa e humilha a pessoa, isso vinha da cabeça delas que já tinha uma opinião formada sobre sua personalidade. Pessoas que não o conheciam, não sabiam sobre essas coisas, então viam como ele era realmente. Mas destes ele não se aproximava.

Notas finais
Oitavo Motivo: "Para quem mais importa, você será perfeito do jeito que é. Não precisará fingir ser quem não é". (Palavras da autora. Leiam, por favor): Se a culpa foi da sociedade que os julgava, que exigia deles algo que nem eles próprios conseguiam, tinha sido a culpada? Talvez. Mas, o principal era que os dois não souberam escolher como lidar com ela. Não é necessário ser perfeito ou se exigir em níveis tão extremos para se encaixar, é só analisar a sua situação melhor. Sendo ruim ou não, há sempre um caminho que não é algo do tipo que os dois usaram como o caminho certo e absoluto. Mas não sou eu também que vou julgar a opinião de ninguém, ou o que cada um faz da sua vida. Expus minha opinião - ainda mutável - sobre um assunto bem delicado. Espero que tenham levado apenas pelo lado artístico e figurado a história por mim criada, por mais que os problemas enfrentados pelos meus personagens sejam comuns. O final dos dois, fica à imaginação de vocês - estou disposta a escrever uma segunda fanfic para explicar a complicada relação dos dois que se seguiu a isso, comentem se desejam :3 - por enquanto ou não. Agora, ficaria feliz com reviews, favoritos e talvez recomendações. É um pedido chato, mas só queria saber se o meu trabalho valia a pena pra vocês. Mas, se apenas marcarem como lido, já ficarei muito feliz :) Até mais ver, queridos leitores.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!