8 Horas
4 Capítulo 4 - Presa
Seu corpo tremia violentamente enquanto a voz dos alto-falantes falava mais uma vez em seu tom imperativo, porém calmo:
–Ponha as mãos na cabeça e não se mova.
Ela tentou levantar as mãos enquanto soluçava descontroladamente. Três dos soldados mascarados e vestidos em preto apontavam as armas para ela de perto, outros verificavam o perímetro e andavam até os corpos no chão. Um dos mais próximos sacou um par de algemas metálicas com mais correntes do que ela esperava, andou até as costas dela e prendeu-a em seus pulsos. Depois encaixou em suas mãos um par de luvas grandes sem divisão para os dedos, como luvas de cozinha, prendeu cada uma delas muito forte em seus pulsos com uma correia. Ela mal conseguia fechar as mãos.
–Fique de pé. — disse o alto-falante do carro. O soldado a ajudou a ficar de pé. Quando a algema se esticou ela viu que a corrente se estendia até seus pés. Seu corpo tremia ainda em espasmos, era difícil se manter em pé enquanto os joelhos falhavam. O soldado, prendeu mais uma algema, com correntes um pouco maiores entre os aros, em seus tornozelos. A corrente que ligava as duas algemas permitia que colocasse suas mãos apenas na altura de seu peito sem que puxasse os pés. A menina o viu sacar uma máscara. Parecia uma focinheira usada em cachorros, mas com um formato humano. Preta, emborrachada, com um espaço na frente coberto por uma tela metálica. Pelas costas dela, ele passou a máscara em seu rosto. Era grande demais para a jovem. A parte que deveria se encaixar sobre seu nariz tocou sua testa enquanto as bordas atingiram seu olho. O homem começou a apertar a correia devagar. Um dos outros abaixou a arma e pegou a máscara, a apertando com mais força. A borda foi pressionada contra seus olhos. Fios de cabelo ficavam presos no meio das correias com um puxão de cabelo constante enquanto a borda da máscara apertava seus olhos e fazia-a chorar mais, porém agora pela dor e pela pressão que era imposta. Sua pálpebra ficara presa sob a máscara, tornando impossível abrir os olhos completamente.
Ele correu a mão por ela a apalpando a procura de itens e tirou de seus bolsos as chaves do carro, seu celular e a cartela de remédio.
O soldado que a prendeu anteriormente entregou ao segundo um pedaço do mesmo material da máscara que mais parecia uma coleira de cachorro presa a um cabo de aço. Quando o objeto foi passado ao redor do seu pescoço e apertado ela percebeu que realmente era uma coleira. Mais uma vez o cabelo foi preso dentro do aperto, fazendo com que o puxão doesse. O aperto da coleira era tão forte que Mariana mal conseguia respirar. Um dos homens prendeu a ponta de um cabo de aço num elo na frente enquanto outro prendeu num segundo atrás.
Com um sinal o primeiro soldado começou a puxar o cabo para que ela andasse. Seus joelhos mal conseguiam mantê-la em pé, quiçá movendo-se. Ela tentou andar toda amarrada e seus falharam. Ela perdeu o equilíbrio e caiu, mas não alcançou o chão. Ficou presa entre os cabos enquanto eles tentavam lhe manter em pé a força. Seus pés chutaram um pouco até que conseguiu recobrar o equilíbrio e ficar de pé novamente. Seu pescoço, pulsos e tornozelos ardiam. Seus olhos queimavam e pareciam que iam se partir tamanha a pressão que sofriam. O primeiro soldado puxou o cabo mais uma vez e ela começou a andar com passos lentos. Os homens agora mantinham certa distância dela, mas as armas não lhe eram mais apontadas.
Ao andar entre os carros, passaram pelo primeiro caveirão e foram em direção a um outro que fora estacionado metros atrás, junto com um terceiro veículo. Um dos guardas se adiantou e abriu as portas traseiras enquanto o soldado da frente prendia o cabo numa das paredes da jaula. O puxão fez com que ela entrasse no carro tropeçando enquanto se embolava no ninho de correntes das algemas. Ele prendeu uma argola, que ela não tinha visto no meio do cabo, num gancho, que a impedia de se mover para trás, e a outra ponta do cabo pendia da parede da jaula até o chão do carro. Neste momento ela notou que um dos soldados que a escoltavam apontava a arma para sua cabeça. Um terceiro fez o mesmo com o cabo e ela não tinha mais como se mover. Estava completamente imobilizada enquanto eles fechavam a grade da jaula e a porta do carro com uma pancada forte..
As paredes da jaula tinham grades com pequenos quadrados de aproximadamente 1x1 centímetro. Depois da grade um vidro a separava do compartimento dos soldados. O chão era de ferro e apesar do cheiro de sangue e vômito em suas roupas, ela podia sentir o cheiro de cloro muito forte. Seu corpo inteiro doía e seu desconforto era tanto que ela mal conseguia pensar. Com alguma dificuldade se ajoelhou, porém sua perna ficou sobre uma corrente. Não tinha como se mover mais do que havia feito, então tentou respirar devagar e se acalmar, mas parecia impossível.
A porta do compartimento dos soldados se abriu e eles embarcaram. Ela não conseguia vê-los muito bem, tinha apenas uma noção pela sua visão periférica através do embaçamento das lágrimas em seus olhos. Com um tranco o carro começou a se mover. O movimento fez com que ela se balançasse, forçando seu pescoço contra a coleira mais uma vez. A dor aguda em seu pescoço desceu por sua espinha enquanto ela soltou um gemido agoniante.
O carro começou a ganhar velocidade na estrada vazia e suas costas reclamavam pela posição desconfortável em que ela estava. Ela podia ouvir os soldados conversando mas não conseguia entender o que eles diziam. Viu pela sua visão periférica que eles haviam tirado as máscara de proteção, mas era incapaz de distinguir algum traço de seus rostos.
O carro andou pelo tempo que pareceu horas. A cada pequeno movimento ou curva seu corpo balançava e lançava-lhe dores horríveis. A corrente da algema sob sua perna queimava. O puxão das correias em seu cabelo parecia que a escaupelaria e os músculos de suas costas pareciam que iam se romper a qualquer momento, porém, o que mais doía eram seus olhos apertados sob a máscara que lhe causavam um sofrimento agonizante. Depois de um tempo, pelo menos, conseguira se acalmar e a coleira não incomodava tanto sua respiração.
A cada minuto sentia em sua mente um grito de que não conseguiria mais aguentar, porém mais dez minutos se passavam e ela continuava firme apesar de todo o sofrimento. Com uma curva o carro começou a chacoalhar ela sentiu como se cada movimento era uma tortura. As dores de todas as partes do seu corpo gritavam enquanto a calma se foi e ela começou a chorar por causa da dor. O carro parou por um momento, e com mais uma arrancada sentiu seu pescoço começar a ficar molhado.
Sua mente começou a se entorpecer, a realidade começou a se desfazer e sua consciência começou a deixá-la. Mas antes que a escuridão a dominasse um puxão no cabo a chamou para a realidade mais uma vez. Eles estavam em frente a uma grande porta dupla de metal com janelinhas pequenas de vidro em cada uma delas. A porta foi aberta e eles a puxaram por corredores brancos e tão iluminados que agrediram mais ainda seus olhos já tão sofridos.
O corredor tinha uma fechada porta a frente e uma curva que seguia para a direita. O soldado abriu a porta e puxou Mariana para dentro. A sala era espaçosa, completamente revestida de azulejos brancos, com ralos no chão. Numa das paredes laterais ficava um longo espelho, que ela reconheceu ser uma daquelas janelas de observação. Na parede oposta a porta, pendia uma mangueira grossa, parecida com as mangueiras usadas por bombeiros, dobrada no chão. Uma toalha estava dobrada sobre uma pequena mesinha, ao lado de uma muda de roupas dobradas.
O primeiro soldado prendeu uma argola mais distante do que a usada no carro num gancho numa das paredes, fazendo com que o espelho ficasse a esquerda de Mariana. Mais uma vez ela estava imobilizada. Um dos soldados apontava a arma para ela enquanto um segundo soltava seus tornozelos das algemas e depois as mãos. Tirou então as luvas devagar enquanto ela observava suas mãos roxas pela falta de circulação. As mangas do casaco estavam esmagadas contra seus pulsos porém não parecia ter nenhum ferimento.
Ambos os soldados deixaram a sala e a caixa de som na parede, sobre o espelho, soou numa voz masculina, calma e grave.
–Você já pode soltar o colar dos cabos e removê-lo junto com a máscara de contenção. — A garota ansiosamente levou a mão trêmula a nuca enquanto tentava soltar a coleira. Seus dedos escapuliram pelo clip que prendia o cabo mas depois de algumas tentativas ela conseguiu soltá-lo. Fez o mesmo com a parte da frente, com mais facilidade, e tirou a coleira do pescoço. Sentiu uma gota de sangue escorrer até seu ombro, mas ignorou e começou a tirar a máscara. Se olhou no espelho. Seu rosto fino estava inchado e vermelho, com vergões de onde a máscara pressionou. Suas faces claras, com as maçãs altas estavam sujas de lágrimas atráves da poeira e do sangue que ela tocara o rosto sem querer. Seus olhos castanhos estavam muito vermelhos, e inchados, como se diversos vasos houvessem estourado. Entre as sobrancelhas finas e angulosas tinha mais um vergão de onde a ponta da máscara apertava.
Seu rosto, comum mas de certa forma bonito, havia se transformado numa bagunça de marcas e sujeira. Seu cabelo castanho, liso, que lhe alcançava o meio das costas estava cheio e desgrenhado depois de tudo que ela passara.
A voz a interrompeu mais uma vez.
–Dirija-se até a parede no fundo da sala. — assim ela fez — Dispa-se. — ele disse secamente, sem nenhuma emoção. Mariana ficou parada encarando o espelho. Não estava afim de ficar nua na frente de estranhos. Mais uma vez a voz soou.
–Preciso informá-la que caso não se disponha a cooperar com nossos procedimentos você será sedada e os procedimentos serão efetuados da mesma forma.
Tirou o casaco, revelando os braços desnudos na regata preta. Seus pulsos estavam vermelhos, mas quase não apareciam por entre suas tatuagens em forma de partitura que saia da base de seus polegares e subiam seus antebraços, se entrelaçando numa dança até aproximadamente quatro dedos abaixo do cotovelo onde as linhas se desfaziam e as notas músicais se espalhavam, livres sobre sua pele..
Tirou a regata, ficando apenas de sutiã. Seus seios eram pequenos e sua cintura fina. As costelas apareciam ligeiramente. Estava realmente magra demais. Abaixou-se e tirou os tênis brancos sujos de sangue e vômito, as meias com desenhos de florzinhas coloridas e atirou-as de lado. Lutou contra o botão da calça com suas mão trêmulas, mas conseguiu tirá-la mesmo assim. Na parte superior de sua coxa direita havia uma tatuagem aquarelada de uma pedra vermelha em formato de coração enrolada por quatro fitas azuis que pendiam em direção ao seu joelho. Em cada uma delas havia uma palavra em cursiva. Na panturrilha da perna esquerda havia uma árvore morta, seca, em tinta preta e simples, sem o menor aspecto de vida.
Se olhou no espelho através da sala e viu o quão pequena e indefesa parecia, ainda mais naquela situação.
Virou-se de costas para o espelho enquanto punha os dois braços para trás e depois de algumas tentativas abriu o sutiã. Tirou-o e atirou mais uma vez sobre a pilha de roupas que se acumulava no chão. Ainda de costas abaixou-se e tirou a calcinha.
–Ponha as roupas perto da porta e volte para onde está, por favor. — disse a voz. Ela se abaixou ainda de costas pegou a pilha de roupas, se cobrindo e andou até o lado oposto da sala, perto da porta e do espelho. Deixou a pilha ao lado, como lhe foi instruído e voltou para perto da parede. Tentava se cobrir com os braços e as pequenas mãos, num esforço inútil. — Soldados vão entrar na sala agora. Mantenha-se deste lado da sala. — ele disse mais uma vez.
A porta se abriu e um homem fardado entrou com uma arma apontada pra ela. Logo atrás entrou um segundo, desarmado, pegou a mangueira do chão e apertou um botão. Apontou a mangueira para ela enquanto a pressão da água fazia barulho.
Um jato extremamente forte de água gelada a atingiu, forçando-a um passo atrás com o impacto enquanto tentava se proteger de toda aquela água. A pressão gigantesca atingia seus ferimentos e músculos e fazia-os doer incontrolávelmente. Por vezes acertava o seu rosto e ela se virava de costas num reflexo para evitar afogar-se, tamanha a pressão. Ele continuou assim por alguns minutos até que o fluxo parou. Ele dobrou a mangueira, pôs no mesmo lugar que estava e saiu da sala, seguido pelo soldado armado.
–Pode se secar e vestir. — ela andou rápido, tremendo de frio, até o outro lado da sala e secou-se rapidamente. O cabelo continuava molhado, mas não tinha muito mais o que fazer sobre isso. Vestiu-se rapido com a bermuda azul desbotada de elástico, muito comprida, e a blusa, de mesma cor e muito larga, e aguardou as próximas instruções.
– Vire-se de costas para a porta, ponha as mãos sobre a cabeça e não se mova.
Mais uma vez a porta abriu e dois guardas armados apontaram para ela enquanto um terceiro a algemava mais uma vez. Enquanto o guarda a puxava, dessa vez por uma corrente nas algemas, ela sentiu seus pés doerem sobre o chão frio.
Na verdade ela não conseguia focar numa parte de seu corpo que não doía. Não conseguia pensar em mais nada além de quanta dor sentia.
O guarda seguiu a curva da direita, abriu uma porta grossa de metal e a levou até um corredor com diversas portas laterais. Todas com gavetas em cima e embaixo. Abriu uma delas e tirou as algemas dela, com a garota ainda sob a mira das armas.
Ela entrou no quarto enquanto ele fechava a porta. Ao ouvir chave terminar de girar na fechadura suas pernas falharam, ela caiu no chão e começou a chorar.
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