8 Horas

3 Capítulo 3 - Bang Bang


Notas iniciais
Pretendo postar apenas aos fins de semana por estar com tempo escasso. Agradeço a compreensão e espero que se divirtam. Tenha uma boa leitura!

O loiro começou a se aproximar, com o sorriso irônico no rosto. Mariana se encolheu contra o carro, desconfortável.

Ele, então, parou. Seu sorriso sumiu e seus olhos se arregalaram.

–Você tá ferida? — ele disse com genuína preocupação enquanto acelerava os passos em direção a ela. Mariana então se lembrou que estava coberta de sangue. Tinha se esquecido. O outro homem também se aproximou, com o cenho franzido. Mariana levantou a mão para acalmá-los.

–Não, tá tudo bem comigo. — respondeu — Eu e meu pai encontramos um acidente na estrada, tinha muito sangue por lá. Acabei me sujando. — apontou para sua roupa. Os tênis brancos tinham gotas de sangue, as mangas do casaco cinza e a frente das coxas e joelhos da calça jeans tinham manchas escuras, avermelhadas. Tentou dar um sorriso, para acalmá-los, mas não teve muito sucesso. Mesmo assim sentiu a tensão deixar os homens.

– Que bom! — exclamou o loiro — Já passamos por outras cidades, não tem um posto de saúde ou hospital que ainda esteja funcionando. É como se todo mundo tivesse sumido no ar.

– Cadê seu pai? — disse o outro homem, com uma voz grave e profunda.

Mariana então sentiu um frio na barriga. Não sabia se podia confiar neles. Deixá-los pensar que seu pai pudesse estar em algum lugar por perto e que voltaria a qualquer hora podia ser uma cartada de segurança. No entanto, se o que eles lhe disseram era verdade, ela não teria mais ninguém para ajudá-la a encontrar seu pai.

Ficou alguns momentos em silêncio enquanto ponderava as possibilidades.

– Na verdade... — ela suspirou — Preciso de ajuda. No acidente que nós encontramos, me perdi do meu pai, ele sumiu — sentiu as palavras jorrarem de sua garganta, enquanto um nó se formava — Ele saiu pra ajudar as pessoas e apareceu um homem estranho, ele me perseguiu — engoliu em seco — tentou quebrar o carro — disse apontando para o veículo — e eu tive de fugir senão... Não sei o que ele faria comigo. — Ambos a observavam com interesse. O loiro tinha um expressão de surpresa — Mas preciso muito de ajuda pra encontrar meu pai. Não sei o que aconteceria se eu encontrasse aquele homem sozinha. — ela disse, deixando seus braços caírem pesados ao lado do corpo.

O homem mais alto deu um passo e pôs as mãos sobre os ombros dela, tranquilizando-a. Era facilmente uns trinta centímetros mais alto que ela, e suas mãos eram maiores do que a cabeça inteira dela. Ele sorriu tentando confortá-la.

–Mostra pra gente onde seu pai tá. Vamos te ajudar a procurar. — ela sentiu lágrimas tomando seus olhos e a esperança retornando ao peito. Se podia ou não confiar neles, ela ainda não sabia, mas eram sua única esperança e tinha de se apegar a ela.

– Eu sou Luiz — disse o loiro estendendo a mão pra ela. Apertou a mão dele de forma firme. O outro homem fez o mesmo:

– Marcus — mais uma vez ela apertou a mão dele e respondeu.

– Mariana. É um grande prazer conhecê-los. — ela disse, reconheceu o valor de cada uma daquelas palavras.

Marcus apontou pro carro.

– Quanto antes melhor, né? — disse. Luiz levantou o banco do carona pra que ela sentasse no banco de trás, enquanto Marcus se aconchegava no banco do motorista. Ela trancou o carro de seu pai, pôs a chave no bolso e embarcou no jippe.

Duas mochilas de acampamento estavam no banco de trás, assim como uma bolsa cheia de equipamentos. Na caçamba, atrás do banco, ainda tinham barracas e outros itens.

– Estávamos acampando nas montanhas — Marcus explicou, a observando pelo retrovisor enquanto dava partida no carro.

– Viemos procurando uma cidade pra descansar, ficar numa pousada ou qualquer coisa assim mas não encontramos ninguém nas cidades — disse Luiz, com sua voz estridente — Bom, teve aquele velho, mas ele não falava nada com nada.

Mariana tentava prestar atenção no que eles diziam, mas a inatividade fazia com que o sono lutasse para a dominar e sentia que o sucesso dele estava próximo. Tentou mudar de posição, para que ficasse menos confortável, mas para enfrentar o nível de sono que sentia isso era insuficiente.

–Você tá com fome? — perguntou Marcus — Tem umas rações e barras de cereais numa dessas sacolas aí atrás. Tem água também, se você quiser. — Mariana hesitou por um momento — Vai, pode pegar o que você quiser! — ele disse com um sorriso — É tudo nosso!

Ela sorriu, um pouco constrangida, mas sua garganta estava seca e já começava a sentir dor no estômago por falta de comida. Sem muita dificuldade para achar, pegou uma barra de cereal, uma garrafa d’água e bebeu vagarosamente. Caso se precipitasse ficaria indisposta. Aquilo estava longe de ser uma refeição adequada, mas Mariana estava feliz por ter pelo menos isso para comer.

–A gente tava tirando foto da vida silvestre — Luiz disse, com seu jeito agitado — A gente não — se corrigiu — o Marcus. Eu só tava acompanhando e ajudando a encontrar as coisas. Ele é fotógrafo, eu sou botânico.

Mariana levou um susto com a risada gutural que Marcus soltou. Luiz olhou para ele com uma expressão feroz mas continuou falando, olhando pra Marcus com o canto do olho:

– Eu estudo muito as plantas mas sou especialista em ervas. — Mais uma gargalhada de Marcus. Era um som muito grave, mas divertido, acalmava Mariana. — Qual a graça, cara? — finalmente perguntou Luiz, revoltado.

Marcus tentou controlar a risada, e então respondeu, ainda entre risos:

–O fato de você ser maconheiro não te faz botânico e muito menos especialista em ervas! — e retomou a risada. Mariana conteve uma risada, também e escondeu-a com um gole na garrafa d’água.

– Eu sei mais sobre os efeitos e como fazer um enroladinho gostoso melhor do que muita gente que se formou em faculdade, tá? — respondeu, indignado.

– Você quem tá dizendo... — respondeu Marcus, se divertindo. Luiz no entanto não se deu por vencido e continuou falando ininterruptamente com diversos argumentos sobre sua eficiência como botânico.

Mariana se sentiu confortável, toda aquela zoeira era bem melhor do que o silêncio no qual viveu nas últimas horas. Os homens pareciam confiáveis. Marcus soava super-protetor, e parecia se preocupar com ela. Além de estar disposto a ajudá-la. A presença dele a acalmava. Já Luiz era muito mais agitado e falante, ele geralmente a deixava inquieta, mas não era uma companhia ruim. Era bom que ele estivesse ali para agitar as coisas, pois nem ela ou Marcus eram muito dados a longas conversas. Percebeu que estava em boa companhia e que talvez aquilo fosse uma mudança em sua sorte. Tinha esperanças de encontrar seu pai, se sentia muito preocupada. Talvez, se conseguisse, provaria para si mesma que não era uma pessoa tão ruim quanto pensava.

– E você? — soou Luiz — Qual a sua história? — Marcus o olhou de soslaio. Mariana foi pega desprevenida. Não sabia o que responder a uma pergunta dessas e a história era muito além do que ela estava disposta a revelar numa conversa casual. Fitou o fundo da garrafa ponderando o que contaria. Devia sobrar apenas um dedo de água no fundo da garrafa que dançava enquanto o carro se movia.

– Era estudante — ela disse, por fim — Fazia faculdade. Só. — disse como quem dava o assunto por finalizado.

– De quê? — perguntou Luiz, curioso, ignorando o tom de voz dela. Marcus olhou pra ele, em reprovação.

– Música. — respondeu, monocórdica.

– Hmm. — ele grunhiu, se dando por vencido.

O silêncio se instaurou. Mariana continuou olhando para o fundo da garrafa. Sentia como se pudesse confiar neles, mas contar sobre sua vida não era uma de suas vontades. Luiz olhava pra estrada, num raro momento de silêncio.

– Falta muito? — perguntou Marcus, tentando criar alguma conversa.

– Pela estrada, não sei — respondeu Mariana, com franqueza — tava muito escuro ontem. Mas pelo tempo, imagino que logo chegaremos.

– Espero que sim porque minha bunda já tá lisa — respondeu Luiz, Mariana riu com sua risada musical — Não que ela fosse grande, né? — completou, tentando diverti-la. Conseguiu tirar mais um sorriso dela.

– Ninguém tá muito interessado na sua bunda, Luiz. — respondeu Marcus em tom de brincadeira.

– Mas ela tava olhando pra minha bunda lá na cidade, tenho certeza que eu vi! — afirmou Luiz a provocando. Mariana chutou o banco dele.

– Claro que não! -respondeu com falsa indignação, mas se divertindo.

– Acho que ela não olharia pra sua bunda nem se tivesse pisca-pisca nela. — afirmou Marcus. Luiz respondeu o comentário o encarando enquanto o motorista levantava a mão pra trás. Mariana deu um tapa, comemorando o comentário.

– Vocês me provocam porque tem inveja dela. — ele disse com desdém — Minha bunda é maravilhosa. — todos riram. As risadas perduraram por mais alguns momentos até que começaram a morrer quando os carros começaram a despontar mais a frente, na pista.

O carro parou no fim da fileira de carros. Todos ficaram parados por alguns segundos. Mariana então bateu nas coxas, sentada.

–Vamos? — perguntou. Estava ansiosa e um pouco temerosa, mas era melhor que fizesse isso agora. Os dois abriram a porta do carro e desceram. Luiz levantou o banco e ela desceu do jipe logo atrás.

Andaram por entre os carros, o caminho que ela fizera no dia anterior. Com a luz do dia, Mariana podia ver algumas manchas de sangue espalhadas, próximas aos carros. Não era uma quantidade muito grande, mas se repetia com certa frequência. O caminho era mais curto do que lembrava até o acidente. A mão da estrada no sentido do acidente estava com carros em fila dupla enquanto a mão oposta tinha alguns veículos parados no acostamento, na contramão. Era possível que eles estacionassem o jippe mais próximo. A lateral da pista seguia uma extensão gramada de pelo menos dois metros e depois uma plantação alta.

–Talvez ele tenha se embrenhado no mato. — disse Luiz quebrando o silêncio.

– Vamos nos separar e tentar rastrear alguma coisa? — perguntou Marcus. Mariana olhou para o chão. Não queria ficar sozinha de novo. Marcus se adiantou e segurou seu braço. — Você pode vir comigo. — Ela assentiu.

– Não seria melhor estacionar o carro mais próximo? — ela perguntou — Ele pode estar ferido. — disse sentindo um nó na garganta.

– Certo, vou estacionar aqui. — Marcus disse enquanto voltou em direção ao carro. Mariana e Luiz continuaram andando em direção ao acidente. Eram mais de dez carros batidos, algumas pilhas chegavam a ter três carros empilhados. O chão estava num tom escuro e avermelhado, pelo sangue da noite anterior ter ressecado no asfalto. Ficaram observando por alguns momentos o terror do acidente quando o jippe se aproximou alguns metros com seu barulho estrondoso e estacionou.

Antes que ela respondesse um som de automóvel começava a crescer atrás da fileira de carros parados e se escondeu sob o som do jipe. Luiz e Mariana observavam o caveirão negro se aproximando pela contramão enquanto Marcus começou a dar passos vagarosos em direção a eles.

Quando o carro parou as portas se abriram violentamente e homens fardados de preto, mascarados, desceram empunhando armas muito grandes que davam frio na barriga de Mariana só de vê-las dentro de carros de polícia. Agora eles apontavam para os três, enquanto os alto-falantes do carro gritavam.

–Ponham as mão na cabeça não se mexam.

Marcus levantou uma das mão e gritou em resposta:

–Vocês podem abaixar as armas, não tem ninguém...

–Ponha as mãos na cabeça. — o alto falante o interrompeu. Alguns dos homens apontavam as armas para Marcus, enquanto um apontava para Mariana e outro para Luiz.

–Vocês não têm o direito de apontar armas para civis! — Marcus gritou em resposta, Mariana pôde sentir o nervosismo enquanto o grito dele saia tremido. — Abaixem as armas.

–Ponha a mão na cabeça. — repetiu o alto-falante.

Marcus começou a dar um passo e então um estampido explodiu nos ouvidos de Mariana. E mais alguns enquanto ela via o corpo do homem tremer e sangue voar para todos os lados enquanto ele caia em direção ao asfalto. Ela sentiu suas pernas falharem e caiu de joelhos, sentindo seu estômago se revirar e o vômito subir por sua garganta. Luiz por sua vez virou em direção ao matagal e correu. Não mais de dois passos e seus pés deixaram o chão enquanto seu corpo caia no asfalto com milhares de tiros perfurando suas costas.

Mariana vomitou enquanto o alto-falante berrava mais uma vez:

–Ponha as mãos na cabeça. — ela tentou controlar os espasmos do vômito e colocar as mãos sobre a cabeça enquanto seu corpo tremia eela não conseguia conter o choro compulsivo. Os homens então se aproximaram apontando armas para a garota, suja de sangue e vômito caída no chão.

Notas finais
Por favor deixem comentários. Não esqueçam de apontar coisas que mais gostaram e coisas que poderiam ser mudadas. Sempre tentarei responder e conversar sobre as alterações, e claro, sempre levarei os conselhos de vocês em consideração. Obrigado por lerem e espero que tenham se divertido! Até a próxima.