7 Sinners
3 Dia 1 - Gula
Notas iniciais
–Se não sair logo vai se atrasar! — gritou minha mãe, do andar de baixo.
Não é como se eu estivesse dormindo, eu estava lendo. Do lado da minha casa, bem de frente para a janela do meu quarto, meu vizinho tocava Friday novamente no rádio. Como essa garota ficou tão famosa?
Meu irmão saiu correndo de casa, provavelmente pra encontrar a namorada dele: Luxúria.
Não que eu tenha algo contra ela, mas nós duas não somos as melhores amigas. Além disso, meu irmão é muito bonito para namorar alguém tão feia quanto ela.
Me levantei da cama para não me atrasar. Desci as escadas e fui tomar café. Minha mãe estava fazendo panquecas, ou melhor, tentando, porque em termos de cozinhar ela não é a melhor nisso.
Ah, me perdoem, acho que ainda não me apresentei direito. Me chamo Luana e sou a possuída pelo espírito da Gula. Sou magra e tenho cabelos pretos lisos. Não tenho muito a dizer sobre mim e não quero uma descrição como a de alguns livros, que escrevem tudo sobre a pessoa.
Minha mãe me serviu três panquecas e um copo de suco de laranja. Infelizmente, meu apetite é como vocês imaginam pelo meu pecado: infinito. Se há outra coisa que gosto fazer tanto quanto (porque mais que não é possível) comer é ler. Obviamente aquele prato de comida não daria para me saciar.
Graças aos céus, se é que foi de lá que nossa maldição veio, eu tenho um poder específico para minha gula. Caso eu toque em um objeto com as mãos e eu deseje, ele se multiplica.
Isso é ótimo, já que minha família está longe de ser rica e não teria como eu pagar por tudo que como. Ou teria... já que também consigo multiplicar dinheiro...
Enfim, o poder em si é bem desgastante, portanto não uso toda hora.
Hoje, porém, não estava com muita fome, então criei apenas umas 17 panquecas extras, comi e fui para a escola.
Chegando na sala, quase todos já estavam lá. Ira e a Preguiça ainda não haviam chego na sala, então meu irmão estava ao lado daquela garota gorda... Deus, como ela é feia! Claro que nem me atrevo a falar isso para o Orgulho, mas que ela é feia, ela é.
Me sentei e abri meu livro. As palavras começaram a voar e me levar para outro mundo, outra realidade. A história era emocionante e falava sobre um casal, onde ele era branco e ela era negra, que foi separado por conta de uma lei que existia contra negros na época e foram forçados a se divorciar.
Isso só foi a público porque outra mulher branca, que supostamente amava o rapaz, fez uma denúncia para a polícia. Devido ao preconceito da época, os dois foram separados e sua esposa, condenada a morte por se envolver com um branco.
O rapaz, totalmente desesperado, decide tomar uma atitude drástica. Primeiro ele descobre quem fez a denúncia. Com a revelação de um amor secreto e também a raiva de ter sua esposa condenada por conta daquela mulher, ele...
–Adervaldo, sente-se logo! — gritou a professora.
Levei um susto e ergui a cabeça. Adervaldo, ou Ira se ainda não o conhece, estava de pé do lado da cadeira vazia... Me pergunto quando ele chegou na sala.
–Professora, eu vou me sentar. — disse, me virando para encará-la — Estou só esperando a Luxú... a Aline sair do meu lugar.
–Do que está falando? — perguntou a professora — Seu lugar está vazio!
Foi a vez dele se virar e perceber aquilo. Uma onda de risos preencheu a sala enquanto ele trocava algum olhar com a Luxúria.
Mas isso não importa. Onde eu estava? Ah sim, ele mata a mulher!
Após perceber o que havia feito, a culpa recai sobre o rapaz. E então, ele confessa o que fez para a esposa.
Ela, horrorizada, não consegue perdoá-lo e diz que o pior que aquela mulher fez não foi colocá-la em uma sentença, mas, sim, sentenciá-lo a ser um assassino.
No final, a esposa dele é enforcada e, enquanto está morrendo, ela olha para ele e uma lágrima escorre, logo antes de finalmente morrer. Com todo o peso da culpa, ele pega o revolver que usou para matar a amante e se suicida.
Que história fantástica!
Sorri satisfeita e só então percebi que a aula havia acabado. Peguei minhas coisas e comecei a voltar para casa.
Quase na saída, meu irmão e a namorada vieram gritando me convidar para almoçar no McDonald's e, como eu estava com fome, aceitei.
–Obrigada pelo convite.
–Não precisa me agrader. — ele disse, sorrindo — Está lendo que livro?
–Hã? — perguntei. Estava lembrando da história e percebi que ele olhava em direção ao livro que eu segurava — Essa coisinha? Acabei de ler na escola.
–E estava lendo há quanto tempo? — perguntou Luxúria. Acho que senti um pouco de... ciúmes na voz dela. Acho que é por ela não saber que eu e o Orgulho somos irmãos.
–Desde que as aulas começaram...
–As aulas começaram hoje...
–Exatamente.
Fomos ao McDonald's e eu pedi 3 BigMac's, mas como podem esperar, eu dupliquei os lanches depois, em um assento mais separado.
No fim, comi 32 lanches e a Luxúria uns 35. Acho que ela considera isso uma competição, então não queria que ela acabasse perdendo na frente do meu irmão. Ela já estava suando de tanto comer e parecia passar mal, então preferi passar um pouco de fome do que continuar com aquilo.
Uma pessoa normal não conseguiria comer 37 lanches, então acho que o pecado dela deve influenciá-la também, de alguma forma. Mas diferente de mim, ela engorda. E nossa, como é gorda!
Fomos voltar para a casa, mas decidi ir ver o meu namorado. Sim, por incrível que pareça eu tenho um. Então, me despedi deles.
Acho que as únicas pessoas que conseguem realmente aceitar nossos pecados são outras pessoas com os mesmos, por sorte, o grupo caiu com 3 garotas e 4 garotos, e todos acabaram namorando. Menos o Ira. E parece que ele não fica tão feliz com a ideia.
Meu namorado é o Ganância. Ele se chama Fábio, mas prefiro chamá-lo pelo nome do pecado. Assim parece que somos personagens de uma história. Besteira minha.
Cheguei na casa dele e ele me cumprimentou sorrindo.
Fábio é um garoto loiro, lindo, de corpo atlético e com feições que se igualam ao deus grego Apólo. Estava com uma camiseta regata branca, um colar com pingente de cruxifixo de ouro branco, provavelmente, shorts de tom caqui e sandálias.
–Oi, linda. Queria ir para a escola hoje, mas não consegui juntar o dinheiro do metrô...
–Devia ter me ligado, eu teria vindo te ajudar.
–Ah... é que cortaram a luz aqui de casa já fazia uma semana. Voltou hoje e eu não tinha como carregar o celular... nem crédito pra te ligar. — riu ele, mostrando o iPhone sem bateria.
Balancei a cabeça e olhei para ele. Tirei da bolsa um bolo de notas de R$50,00 reais que eu havia duplicado e entreguei pra ele.
–Sei que não é muito, mas aí tem R$2000,00 reais. Espero que ajude nas despesas.
–Não posso aceitar isso!
–Claro que pode. E relaxe, nós nos vemos amanhã. — respondi sorrindo.
Dei um beijo de boa noite e voltei para casa.
Meu namorado, digo, o Ganância, por mais irônico que seja, é muito pobre.
Na verdade, ele não é pobre, mas ele gasta tudo que recebe, mas não com contas ou responsabilidades, com gostos pessoais.
O poder dele? Ganhar dinheiro. Realmente, eu até posso estar sendo manipulada, mas ele simplesmente ganha dinheiro das pessoas ou situações.
Outro dia mesmo estava passando na rua e chamaram ele desesperadamente para posar de modelo. Ele fez uma sessão de fotos com urgência e pagaram uns R$1000,00 para ele.
Na mesma noite, ele, jogando League of Legends, gastou os R$1000,00 em RP, que é o dinheiro comprado do jogo, e pronto, ficou sem dinheiro.
Ele estava meio viciado nesse jogo, mas não durou muito porque ele não pagou a conta de luz e, por consequência, cortaram. Então não conseguiu mais jogar.
Voltei para casa e comecei a ler outro livro.
Esse era com um tema mais de fantasia, mas acho ótimo para distrair.
Começava falando de uma garota que conseguia enxergar a linha da vida das pessoas e ver quando elas iam morrer, junto com o evento da morte deles.
Por conta do seu poder, ela...
Algo chamou minha atenção na televisão e vi o Ira sendo preso.
As roupas dele estavam intactas e não havia uma mancha de sangue nelas. Seus olhos estavam vermelhos e ele gritava: Meu livro! Meu livro!
Até onde pude ver, ele havia se metido em outra encrenca, mas o pecado dele tem um toque sutil que não deixa pistas das pessoas que ele mata. Acho que, se contar todos até agora, ele deve ter criado umas 12 cenas dessa no último mês. E olha que estávamos de férias!
Depois de me distrair com a notícia, decidi ver um filme. Abandonei o livro e fiquei escolhendo pelos canais. Assisti uma comédia, uma aventura, um filme de terror e, enquanto estava começando um de romance, meu irmão chega em casa.
Olhei para o relógio e já eram quase 3 da madrugada.
–Voltou tarde hoje.
–Sim, foi engraçado lá na casa dela.
–Viu o Ira na TV?
–É, vi. Assassinato, né? Grande coisa.
–Ainda não contou para ela?
–Para quem?
–Sua namorada.
–Que somos irmãos? Nunca! Ela poderia terminar comigo...
–Você quem sabe. — respondi, mostrando estar decepcionada.
Não sei porque ele não conta de uma vez para ela.
Acabei de ver o filme e fui dormir.
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