[capítulo 02.]


[yamapi p.o.v.]



Wow. Ainda bem que eu já estava sentado. Só com o susto, eu provavelmente teria caído no chão. Coço a cabeça tentando por os pensamentos em ordem. Ok. A maldição realmente existe. Engraçado que não estou em tanto choque assim. Deve ser por causa dos olhos dele que eu sempre comparava com as do gato. Acho que meu subconsciente acabou aceitando nisso. Quando percebo, Koyama ainda não se mexeu, apenas ficou parado ali, em cima das roupas, o que não é nem um pouco bom considerando que ele mal se recuperou da tempestade de ontem e agora está nesse chão gelado.



Me levanto e quando dou um passo em sua direção, ele automaticamente dá um passo para trás. Isso... Foi estranho. Por um acaso ele acha que eu vou machucá-lo? Franzindo o cenho com esse pensamento, me abaixo e o chamo.



-Vem. Não é bom você ficar no chão já que ainda não se recuperou. Vamos, eu te carrego – sorrio enquanto ele intercalava olhar entre minha mão e meu rosto – acho que agora você já deveria saber que eu não vou te machucar.



Ele começa a andar em minha direção meio hesitante no começo, para logo depois começar a correr e pular no meu colo, me fazendo rir enquanto acaricio seu pêlo.



-Desculpe ter te assustado e não ter acreditado.



Ouço um miado em resposta e ele se esfrega em minha barriga, uma ação típica felina, mas é o modo que ele acha para me dizer que está tudo bem. Carrego-o em meus braços, ainda acariciando-o e recebo ronronos em resposta. O sorriso em meus lábios parece não querer se desmanchar. Também, com ele mesmo na forma de gato parecendo tão feliz, aliviado e alegre, não tem como.



-Né Koyama – ele me olha curioso – nessa forma, você não consegue falar?- ele faz \'não\' com a cabeça e fica miando, me fazendo rir um pouco – desculpa. Eu não estou entendendo nada do que você está falando. — colocando-o sobre a cama, o vejo andar nela até se ajeitar e depois deito ao seu lado – acho que vamos ter que deixar a conversa para amanhã então. — acaricio seu pêlo mais uma vez, vendo-o bocejar e fechar os olhos – boa noite.



[~*~]



Por que raios eu esqueço de fechar a cortina? Me viro na cama e tateio-a um pouco. Hum? Alguma coisa está errada. Arqueio uma sobrancelha e depois abro os olhos para confirmar. Aonde Koyama se meteu? Me espreguiço, e assim que levanto da cama, um cheiro bom invade meu quarto. Ah, então está explicado. Caminho até o banheiro sonolento, pensando em como é possível Koyama acordar tão cedo.



-Bom dia – murmuro baixo, me sentando ao seu lado.



-Bom dia Yamashita-san! — ele está sorrindo... de manhã? É possível sorrir de manhã? — Como não sei ainda o que você prefere para o café-da-manhã, hoje resolvi arriscar com o modo ocidental depois de ter achado pacotes de pão-de-forma. — sorri ao ver o banquete que ele havia preparado. Se continuar desse jeito, vai ser fácil eu engordar – Ou será que você prefere o nosso café-da-manhã? — franzindo o cenho, ele me olha preocupado e eu não consigo evitar de achar aquela cena fofa.



-Tanto faz. Eu gosto de comer, então não tenho preferências. Hum... Mas isso aqui parece bom! — roubo um pão de seu prato, comendo, sorrindo enquanto observo sua cara de indignado – É boom~! Koyama, eu também quero isso!



Ignorando o bico que você faz, continuo a comer feliz, vendo você rir baixinho e preparar o meu pão. Engraçado como já acostumamos com a presença um do outro. Parece que já nos conhecemos há tanto tempo.



-Então... — colocando o pão no meu prato, ele bebe um gole de suco rápido – Quer ouvir a minha história? — confirmo com a cabeça enquanto como um pedaço de maçã. O pão que ele prepara é tão bom que acho que vou comer por último – Não tenho muita certeza de quando foi que começou, mas irei contar tudo que sei e lembro.



-É algo muito grave? — começo a ficar preocupado, mas ele apenas sorri negando com a cabeça.



-Vou tentar tornar a história mais curta para você entender. Você sabe que no passado os animais falavam e tinham poderes mágicos... — de fato, pensei, tem tanta lenda sobre isso – então...



-Espera! — ergui uma mão – não vai me dizer que você é a pessoa dessa lenda e que por sei lá que razão mágica, continua vivo até que alguém te liberte da maldição...



Koyama me encara em silêncio até absorver o que eu disse, rindo logo em seguida. Aliás, estava rindo tanto que caiu da cadeira e ficou rolando no chão, com a mão apertando a barriga e lágrimas saindo de seus olhos. Podemos dizer que consegui terminar de tomar meu café-da-manhã calmamente até ele voltar a respirar normal.



-Essa... — disse esfregando o olho – é a primeira vez que ouço algo assim! — sorrindo divertido, voltou a me encarar – Bom... É verdade que não são muitas pessoas que conhecem minha história, mas Yamashita-san é mesmo uma pessoa interessante! — sorri, rindo baixinho – Mas quer parar de desviar o assunto?



-Oh, desculpe. Por favor, continue. — rio de seu jeito brincalhão.



-Como eu estava dizendo... Naquela época, havia uma família de gatos que eram superiores aos outros. Era um clã que prezava muito o conhecimento, por isso gostavam de colecionar informações sobre tudo. Sabendo disso, muitas pessoas visitavam aquele clã em busca de informações de diversos assuntos. Doença, remédio, culinária, geografia, economia... Eles possuíam informações sobre tudo. E se caso a pessoa não achasse sobre o que procurava, os gatos curiosos como eram, iam atrás para descobrir mais alguma coisa. Aquela frase \'a curiosidade matou o gato\' não é à toa sabe? Houve muitos casos que o assunto era perigoso demais que acabavam sacrificando a própria vida – ele franziu o cenho imaginando a cena, focando a atenção em mim depois – mas toda família tem sua ovelha negra, né? — riu – no caso dos gatos, havia um que se divertia com todos os visitantes. Não tinha interesse no que acontecia ao seu redor, apenas queria se divertire como a maioria estava trabalhando atendendo aqueles que procuravam informações ou estavam viajando em busca delas, esse gatinho se sentia solitário com freqüência.



Um gato solitário? E eu achando que gatos eram individualistas. Voltei a atenção para Koyama que não pareceu muito feliz de perceber que eu desviei-amomentaneamente.



-Um dia em que se encontrava nesses momentos solitários, sentiu alguém lhe acariciar o pêlo, e ficou encarando o menino que sorria feliz. Parece que ele estava acompanhando o pai, e sem nada para fazer, viu o gato sozinho e resolveu chamá-lo para brincar. O gato, feliz por ter a atenção de alguém, logo aceitou a oferta. Se divertiram bastante e na hora de ir embora, o menino prometeu que voltaria mais vezes, assim o gato não ficaria tão sozinho. Cumprindo sua promessa, o menino sempre vinha e os dois ficavam horas brincando até a hora dele voltar. Anos depois, quando descansavam, o menino disse “é uma pena que a gente tenha que se despedir sempre. Seria tão bom se pudéssemos ficar juntos, não é?”. Ouvindo isso, o gato nada disse, mas uma idéia já tinha se formado em sua cabeça. No dia seguinte, depois de ter pesquisado bastante, quando o menino veio ao seu encontro, o gato contou-lhe a idéia, e encantado, o menino aceitou na hora.



Quando a noite chegou, os dois fizeram um pedido à lua que estava em seu poder máximo, a lua cheia. Comovida pelo desejo sincero dos dois, a lua concedeu o pedido e depois daquele dia o menino e o gato se tornaram um só, assim não teriam que se separar nunca mais.



-Parece um conto de fadas.



-Agora você pode processar quem te disse que conto de fadas eram mentiras.



-Será que eu ganharia bastante dinheiro?



-Não sei, mas você pode tentar. — rimos e Koyama me parecia mais relaxado de alguma forma.



-Então... Deixa eu adivinhar. Depois do pedido, eles se transformavam em menino de dia e gato à noite?



-Gatos gostam mais do período noturno – comentou assentindo.



-Mas isso não explica o fato de voc~e não poder sair do apartamento.



-Não, não explica. Bom... Tem algumas coisas que foram se modificando com o tempo, mas não se preocupe com esses detalhes agora. Já sobre eu não poder sair... Digamos que meu lado felino acabou aceitando essa adoção que você fez, por isso não consigo sair.



-Ah... Espera! Quando você se transforma em gato, ainda é você, né? Ou você tem algo de dupla personalidade também?



-Não. Eu sou eu. Como eu disse, há coisas que foram se modificando com o tempo. Creio que a magia vai enfraquecendo. Deve ser por isso que só me transformo em noite de lua cheia. Mais alguma pergunta?



-Você é obrigado a ficar preso nesse apartamento o resto da vida só porque eu te adotei? — pergunto horrorizado só de imaginar.



-Não... — ele nega com a mão – só até meu lado gato achar que aprendi. -riu – mas até lá estou trancado aqui. Deve dizer que estou aliviado pelo seu apartamento ser grande. Não sei o que eu faria se ficasse trancado em um lugar minúsculo. — tento pensar em mais alguma coisa para perguntar e ele ri – não precisa se apressar e perguntar tudo de uma vez. Eu não vou fugir e não é como se eu pudesse sair daqui de qualquer forma. A gente pode deixar essa entrevista para outra hora. — concordo e ele sorri – ótimo! Agora, Yamashita-san...



-Yamapi.



-Hum? — ele faz uma cara confusa.



-Pode me chamar de YamaPi. Esqueça essa formalidade toda. — seu sorriso foi o maior que já tinha visto até hoje.



-Se quiser, pode me chamar de Keii-chan então! Er... Yamapi. -sorri ao ouvir meu apelido.



-Sim, Keii-chan?



-Outro dia, quando eu limpava o apartamento, achei algo, aí eu estava pensando...



Passamos a manhã inteira jogando twister e vídeo-game. Paramos somente quando nossos estômagos começaram a roncar, indo para a cozinha preparar algo para comer. Fizemos tanta bagunça que eu juro nunca ter visto minha cozinha de pernas para o ar daquele jeito. Acabei sendo expulso com Keii-chan dizendo que era para o bem de nossa sobrevivência porque se eu continuasse lá distraindo-o, ele não iria conseguir cozinhar e acabaríamos morrendo de fome. Que exagero. Para que serve o delivery então? Sentei no sofá fazendo bico, trocando os canais da tevê.



[~*~]



-Certo. Mais alguma coisa? — pergunto enquanto dou uma olhada na lista em minhas mãos.



-Não... Acho que não.



-Qualquer coisa, liga no meu celular. Então, vou indo até o mercado.



Olho o relógio e isso não me agrada nem um pouco. Maldito trânsito! Lei de Murphy, já ouviu falar? Pois é, odeio isso. Só porque eu inocentemente pensava que faria as compras e iria voltar para casa em quinze minutos, já fazem TRÊS HORAS! Maldito mercado cheio. Maldito trânsito. Malditos acidentes de trânsito. Malditos faróis vermelhos.



Suspiro cansado quando pego outro farol vermelho. Como será que Koyama está? Deve ser horrível ficar preso em um lugar sem ter nada para fazer. Amanhã acaba meu período de folga... Como vai ser? Koyama vai ficar um bom tempo sozinho. E pensar que acabei passando meus dois dias de folga em casa e não estou reclamando. Rio baixo com esse pensamento. Hum... quem sabe se eu comprar um gato? Aí ele podia fazer companhia para o Keii... Não. Só de imaginar que eles podem brigar com Koyama na forma de gato... E se isso acontecer na minha ausência? Nada bom. Peixes? Não. Não seria nem um pouco agradável se Koyama acabar comendo-os por puro instinto e cachorro é definitivamente um grande não. Estranho meu celular tocar, mas sorrio ao ver o número. É o número de casa.



-Fala Keii.



-Gomen né Yamapi... Mas será que você pode comprar ração de gatos também? — franzi o cenho. Anh? Agora Koyama deu de comer ração de gatos também?