Notas iniciais
Não sei dizer ao certo se ainda existem pessoas acompanhando esta história, mas sinto que devo um pedido de desculpas a todos os leitores por ter sumido dessa maneira. No intervalo entre o último capítulo postado e esse, muita coisa aconteceu na minha vida. Uma delas foi a mudança de escola, que para minha surpresa tomou grande parte do meu tempo até que eu conseguisse me adaptar. Nesse período, para ser sincera não me senti motivada e não tive vontade de escrever nada que não soasse melancólicamente triste. Mas agora as coisas parecem estar voltando ao eixo. Não posso afirmar que vou postar capítulos com frequência ou se chegarei a concluir a história. Eu profundamente espero que sim. A história de Amery e desses Jogos, ainda tem muito a render. E eu não quero desistir. Então espero que entendam e me desculpem por ter sumido dessa maneira.

Fui induzida a tomar litros de café, o que ajudou um pouco a me despertar. Da mesa, segui Nero e Fath para uma sala especial, eles me arrumariam para a abertura oficial do Jogos, que aconteceria no fim da tarde.

A sala era gigantesca, e como ontem eles já haviam adiantado um pouco do trabalho, fiquei a observar eles a escolherem moldes de vestidos, opções de penteados, a cor das minhas unhas. Por um segundo sussurraram se seria uma opção mudar a cor das minhas sobrancelhas. Trocamos algumas palavras e fizeram algumas perguntas sobre minha vida e sobre o Sete, que poderiam ajudar a escolher as coisas.

A cada segundo, se revelavam pessoas amáveis, simpáticas e divertidas. A todo instante faziam brincadeiras entre si, me fazendo sorrir. Olhava admirada a diferença eles e mim. Em como eram extrovertidos, rindo, dançando, fazendo brincadeirinhas maliciosas, enquanto eu, ficava a mofar na cadeira, onde por mais que tentasse manter a concentração no que estava acontecendo, tinha meus pensamentos desviados para a Arena. Sabia que não me acalmaria até que tudo acabasse, tinha o coração sempre acelereado e uma eterna sensação de que coisas dariam errado para mim. Descobrir que estava indo aos Jogos pois minha mãe havia me contado a verdade foi algo aterrador e me fazia sentir como se minha vida não tivesse muita significancia. Por que não me fazer esquecer sobre isso? Interceptar a carta?

Mas não. Não precisei saber muito sobre Zeus para entender como ele era. Existiam muitos como ele no meu Distrito, em geral, pessoas que vinham sobre ordem de Capitol, ver como as coisas estavam. Pessoas que achavam que deveríamos pagar por nossas ações de maneira dolorosa, com castigos humilhantes, que não existia perdão sincero sem antes a pessoa sentir dor. Os deuses não podiam interferir nos destino dos filhos ao contar-lhes a verdade, e quando faziam, essa ação tinha consequências. Afrodite parecia sofrer comigo indo aos Jogos, mas mesmo assim, não era ela quem poderia morrer.

Lembrei de meu pai no Distrito, como deveria estar, desejei ter perguntado a minha mãe sobre ele, e agora teria que esperar por uma próxima conversa com a mulher. Esperei que estivesse bem, que Walsh, que era quase um filho para o meu pai, estivesse com ele para confortá-lo.

Foi acordada por Nero, que me avisou que já haviam escolhido tudo para a cerimônia. Prometam-me que iria arrasar e que seriam loucos os patrocinadores que não me quisessem. Quando perguntei como iria vestida, trocaram olhares e disseram junto “é surpresa até você estar toda vestida!”

Então começaram o trabalho e só pararam para o almoço e quando tudo estava pronto. Não sei onde conseguiam arrajantar tanta coisa para fazer comigo, mas se ocuparam a tarde toda a arrumar detalhes em mim.

Sabia que me vestiriam com algo lembrasse meu distrito, que basicamente era madeira. Nunca em todos os anos assistido aos Jogos, vi alguém do Sete vestindo algo diferente de uma árvore, então não sabia ao certo se esperarava pelo igual anual ou por algo diferente. Afrodite dissera que Fath tinha um bom senso de moda, então torci para que não me vestisse como um graveto cheio de folhas.

Faltando uma hora para o inicio da cerimônia estava pronta, e fiquei surpresa com o resultado. Estava parecendo uma guerreira de algum livro de fantasia que lia. Meu distrito era rico em árvores e fizeram questão de trabalhar com o verde.

Tinha o cabelo trançado em uma trança embutida, e em cima dos meus cabelos via-se uma espécie de colar entre um dourado e marrom, ornamentada com pequenas joias verdes. Não havia muita maquiagem em meu rosto, exceto em minhas sobrancelhas que pareciam mais escuras, dando naturalidade e expressividade a ele. Se fechasse o rosto poderia, ao invés de me mostrar com medo, passar medo.

Vestia um vestido verde escuro que ia até meus pés, onde os braços conforme desciam, se abriam em enormes bocas pontudas. Parecia que em algum momento, o vestido ganhara uma distraída capa que compunha o final do vestido de uma deusa.

Nunca usara nada diferente de botas antes, e confesso, usar salto — apenas para ficar mais alta — não fora fácil para mim. Parecia impossivel manter o equilibrio e a pose de cisne na qual Nero e Fath insistiam que eu tivesse, mas no fim de quase um hora eu conseguira ao menos dar uns passos sem tremer as pernas.

“Ah! De qualquer forma, não precisará andar.” Comentou Nero, quando percebeu que precisávamos descer. Lançou-me um sorriso, como ao de um artista admirando a obra. “Magnifico, Fath! Olhe só como tudo lhe cai bem! Parece um dom!”

Apesar de não conseguir discordar que estava inacreditavelmente bela vestida daquele jeito, suas palavra pareciam servir apenas para me dar mais confiança. Fath sorriu e concordou. Em seguida caminhamos os três juntos, indo ao ponto de encontro dos tributos.

***

Mair vestia uma espécie de paletó completamente marrom e sem graça, o que acabou servindo apenas de realçe a minha roupa, infelizmente. Ainda relutava com a ideia de não me introsar com ele. Ele iria morrer, e se me aproximasse, não parecia correto, como forçar algo problemático a dar certo somente para diminuir a pena que se sente.

Não houve tempo para elogios e indignações. Todos os tributos já estavam preparados e fomos os últimos a chegar. Quando nos postamos na nossa carruagem, podia sentir os olhos virando para mim, me analisando e analisando a todos os outros. Resolvi fazer o mesmo, mas senti um frio na barriga e um medo que não me deixou desgrudar os olhos do chão. Qualquer um que me olhasse poderia ver o medo de encarar meus assassinos estampado na minha cara. Me senti fraca ao mesmo tempo que brava comigo mesma.

As carruagens formavam uma meia-lua, eram todas iguais — brancas e douradas, puxadas por dois cavalos, mudando somente o simbolo do distrito na parte da frente. Podia sentir minha respiração tornar-se cada vez mais irregular a cada segundo passado. Tentei manter o pensamento que seria somente um desfile, que duraria menos de cinco minutos e que não havia nada a temer, mas assim que alguém de Capitol terminara a explicação do percurso, pesadas portas foram abertas, nos revelando uma ensurdecedora e vibrante multidão. Senti o ar sumir dos meus pulmões.

Seguiríamos em ordem crescente de Distrito, no fim pararíamos novamente em forma de meia-lua e ouviríamos a pronunciação do presidente Snow sobre a abertura. Depois sairíamos novamente em fileira onde terminaríamos de cruzar toda a passarela e onde nossos acompanhantes de distrito estariam nos esperando.

Não sei ao certo se saiu da maneira combinada, pois tudo que conseguia enxergar parecia somente uma nuvem. Ouvia os gritos, os aplausos e as vaias, a voz de Caesar falando algo incompreesível. Me concentrei em ao menos manter uma postura de pedra, que não mostrasse medo ou insegurança, mas na melhor das comparações, provavelmente parecia tão assustada diante da quantidade de espectadores quando um pequeno esquilo se encontraria se fosse cercado por caçadores armados.

Lembro da carruagem ter desalerado e parado fazendo parte de uma perfeita meia-lua, foi quando voltei a mim. Engoli minha saliva e tentava manter minha tremedeira controlada. Todos estavam em silêncio, olhando para cima. E olhei também. Acima de mim havia um enorme palco, uma espécie de camarim, alto o suficiente para se descatacar dos outros, mas baixo o suficiente para conseguir encarar a todos. Era onde o presidente se postava. Snow parecia o mesmo apático de sempre. Sorriso tão gelado quanto seus olhos. Encarou um-à-um todos os tributos. Quando nossos olhos se encontraram não houve nada de especial a não ser indiferença. Não pude deixar de imaginar em quantos olhares cruzados já não havia passado em tributos agora mortos. Snow governava há muitos anos, setenciara muitos à morte ali mesmo. Sua costumeira rosa branca na lapela de seu casaco.

Sorriu, pigarreou e começou um breve discurso.

“Bem-vindos! Bem-vindos, tributos!” Essas palavras sofreram uma pausa graças a explosão entusiasmática da multidão. “Hoje iniciamos a abertura dos Jogos Vorazes e saudamos a coragem e bravura de todos vocês que estão aqui a representar seus Distritos. Escutem! Todos estes aplausos, direcionados a vocês, jovens guerreiros, que tiveram a honra de lutar para mostrar a face única e importante de suas casas. Muitos filósofos afirmam que é preciso haver um sacrífio para real compreensão das coisas. E o sacríficio de vocês, para mostrar o quanto é importante mantermos a união… nunca será esquecido. Nunca poderemos mostrar o quanto somos gratos por seus atos de bravura. Obrigado! Obrigado.” Terminou, ao som de aplausos calorosos. Pessoas levantavam e gritavam palavras de apoio.

Snow voltou a se sentar em uma enorme cadeira, enquanto os tributos terminavam a volta. Seus discurso era minunciosamente feito ao povo de Capitol e ao que eles precisavam ouvir para aceitar o Jogos, e não para os tributos. Um sacrífio, nosso ato de bravura. Era sempre um choque ouvir seus discursos nas cerimônias, como ocultava a parte dos sorteios e ressaltava a importância da união, como transformavam crianças em guerreiros corajosos. Será que nunca houvera alguém em Capitol a parar para pensar no lado dos Distritos? Não nos importa tanto os problemas quando não somos atingidos por estes. Ignorar e fingir que tudo está bem até o último segundo. Parece o único legado que nossos antepassados deixaram para nós.

As carruagens deslizaram de volta para um interior calado e frio, longe da multidão e de suas vozes. Pela primeira vez pude contemplar que todos os tributos tinham ao menos um vestígio de medo em comum. Todas as crianças permaneceram em silêncio quando chegaram, absorvidos nas palavras de Snow, cada interpretando à sua maneira. Com a chegada dos outros responsáveis, cada um a seu tempo, foi lembrando de voltar a ser o que era, ou ao que precisava ser. Olhares de intrigas e malicia despontavam dos cantos, cochichos e sussurros, conversas baixas. Todos se encaravam a procura de algo que mostrasse a fraqueza do adversário.

Mair continuava na sua mudez, mortificado com os olhos vagando sem um ponto fixo. Antes que pudesse chamá-lo, Blight e os outros apareceram.

“Ah! Mas estavam magníficos!” Resolveram comentar Nero. “Amery, estava deslumbrante! Fath e eu já pensamos no próximo figurino, tão maravilhoso quanto este.” Chegou mais perto e disse “Não pode acreditar na falta de reação de Caesar ao te ver, não conseguiu vomitar uma piadinha sequer!” Sorria para todos. Fath ao seu lado, agarrado ao seu braço esquerdo.

“Bem… para ser sincera, só lembro do discurso do Snow. O resto parece um borrão para mim. Não sei o que teria feito se precisasse andar, acho que teria cometido outro deslize e caído.” disse. Nero e Fath eram as pessoas que estavam mais perto de amizade que teria nos próximos dias, no meu pessimismo resolvi ao menos me dar ao luxo de tentar confiar meus sentimentos aos dois. Não me importava muito com a presença de Etha ou Blight ou ao casal destinado a ajudar Mair, todos pareciam cobras falsas que não perderiam tempo em me talhar se tivessem chance.

Olhei para Mair e toquei em suas mãos. Estavam incrivelmente frias. Em seguida nos direcionamos ao nosso andar. Todos pareciam no limite de tudo, descontraídos, ignorando os elogio de Etha sobre o vestido da menina do Um, que aparentemente era feito totalmente de diamantes.

O resto da noite foi esquecida. O espetáculo havia acabado e agora daríamos inicio ao treinamento. Percebi que, preocupada com toda a cerimônia de abertura, me esqueci de toda história com Afrodite. Agora que a noite surgia e as vozes se calavam, meus temores e arrependimentos iam voltando, acentuando meus erros e coisas que poderia ter feito melhor. No final da noite, já longe de todos os acontecimentos, desfeita da minha fantasia, me encolhi na cama, e mergulhei no cansaço desgastante do dia que me veio de uma vez. Afrodite não apareceu para mim, e sonhei profundamente, mas não sei dizer ao certo com o que. Foi um sono sem sonhos e só lembro de ser acordada no dia seguinte com a suavidade do nascer do sol, que me preparava, de uma vez por todas, para o baque de acontecimentos que o destino guardava para mim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.