O dia amanhecia calmamente no horizonte quando resolvi me levantar. O céu se despertava num turbilhão de cores misturados à nuvens douradas que fariam inveja a qualquer pintor mal-sucedido. Me limitei a uma pequena olhadela rotineira, já acostumada àquela magnificência do céu. O dia mal começava e havia muitas coisas a fazer. Vesti minhas botas e um casaco e desci escada abaixo.

Eu e meu pai, éramos os únicos moradores residentes daquela casa de dois andares. Um privilégio quando se mora num distrito como o Sete. Esse privilégio se dava, unicamente pelo trabalho árduo do meu pai e pelo medo de me ver sorteada na colheita. Isso, e também a casa pertencia a minha familia desde o principio dos Distritos. Mas provavelmente a teríamos que ter devolvido a muito tempo, se não fosse a dedicação do meu pai.

A casa era simples e comum. Sozinha, perdida e cercada por uma enorme montanha, batizada de Gigante, por seus aspectos robustos, que riscava todo o norte, além é claro de enormes pinheiros espalhados por todos os cantos. Essa solidão dava a casa um ar de melancolia, como que não pertencente à época ou ao lugar.

Era um lugar calmo e perfeito para as atividades de meu pai. Ele era responsável por supervisionar o trabalho e ajudar cortar os troncos de árvores que iam para as indústrias do meu Distrito, direto para as luxúrias de Capitol. Onde, sabe-se lá o que faziam, nunca havia um bom retorno a nenhum de nós.

Meu pai, um homenzinho de ombros pequenos e sorrisos largos, era uma daquelas pessoas bonitas de corpo e alma, mas envelhecidas antes do tempo necessário. Em seu meio século de vida, possuía rugas e expressões de quem vive preocupado. Mas era dono de uma força impressionante sendo capaz, de sozinho fazer o trabalho de duas pessoas, ao levantar pedaços de troncos pesadíssimos e levá-los a nossa caminhonete numa distância considerável.

Vez ou outra pedia ajuda a um vizinho nosso. Walsh, um garoto com 20 anos, crescido numa casa próxima, e criado por todos que moravam por perto. Seus pais haviam tentado fugir, e, sendo descobertos, foram mandados a Capitol, súplicando — rezava a lenda- que poupassem a vida inocente do filho. E assim os pacificadores fizeram, abandonando o garoto a qualquer jeito no meio da rua, aos cinco anos de idade, não sem antes levar uma bela surra. E assim vizinhos próximos o descobriram, chorando, encostado a um arbusto denso, com sangue seco sob seu rosto e vestimentas, o adotaram como único filho no mesmo instante.

Hoje em dia mora sozinho em sua casa, deixada de herança pelo casal idoso que o havia adotado. Trabalhava na indústria do centro do Distrito e pouco saía de casa. Mas sempre parecia disposto a ajudar meu pai, fosse no que fosse. Apesar de quase não pronunciar palavras, suspeitava que fossemos seus únicos amigos. Meu pai o adorava, e por sua vez, tinha mania em suas brincadeiras de dizer que o garoto queria apenas me impressionar, e se fazer percebido por mim. Nesses casos, sorria, tentando mostrar que era indiferente ao assunto. Meu pai colocava-se a rir e a voltar ao trabalho.

Walsh parecia não notar as brincadeiras ou insinuações do meu pai, ou apenas ignorava. Dificilmente me olhava nos olhos, e nosso contato resumia-se a cordialidade da boa educação um com outro em respeito ao meu pai. Não que eu não gostasse dele, apenas me faltou o jeito convidativo e amigável que meu pai possuía com os outros.

Eu, é claro, me resumo numa fisionomia da cabelos longos e claros. “Como se raios solares resolvessem tornar-se sólidos” dizia meu pai. E um par de olhos, no qual haviam todos desistido de descobrir a cor, pois cada um enxergava cores diferentes. Um corpo magro, e em comparação com o resto das garotas do meu distrito, saudável. Bochechas rosadas e um sorriso quase despercebido. Batizaram-me de Amery e por sobrenome possuo Behren. Meus amigos, resumem-se ao meu pai, Walsh — se quiser considerá-lo — e uns poucos livros velhos da instante, que lia e relia todos os anos, sem nunca enjoá-los. Por isso, é perceptível meu caráter introspectivo e calado. Hoje encontrava-me ainda pior.

Como mencionei, morávamos naquela casa devido principalmente a dedicação de meu pai e seu trabalho cansativo. E por tempo vivemos bem e sem medo do temível tessera. Mas um incêndio ocorrido pela região onde morávamos, resultou ao meu pai um preço impagável e destruídor. Além de ter perdido uma parte considerável de sua mercadoria, Capitol, incapaz de encontrar a razão do incêndio, culpou meu pai por destruir uma propriedade de Panem e resignou a ele uma multa a ser paga que só poderiar quitar em no minimo cinco anos. Meu pai, incapaz de poder se defender, foi obrigado a pagar por algo que não era sua culpa, ou tornar-se avox em Capitol. Isso, e ainda contávamos com o fato de termos demitido uma série de empregados bons, fazendo meu pai sentir-se culpado ainda mais.

Essa multa e a perda de uma parte considerável dos pinheiros, resultou ao meu pai uma quantia a mais a ser paga e de um dinheiro que não possuíamos mais. Tentamos de tudo para nos reerguermos, e durantes dois anos funcionou, mas aos poucos fomos afundando. Não poderíamos sair da propriedade sem antes pagar a divida de Capitol, e eu não possuía idade suficiente para trabalhar. Vendemos tudo que se poderia ser vendido, e mesmo assim, acabamos por nos vermos presos sem saída. Agora, o terror do tessera já era invetável. No terceiro ano de divída, fomos obrigados a inscrever meu nome seis vezes no tessera, assim como ocorreu no quarto ano, tendo de me inscrever quatro vezes.

No período da Colheita desses dois anos, nunca havia me sentido tão aflita e vunerável. Haviam crianças, menores que eu, com seu nome inscritos mais vezes do que poderia contar. Mas o pavor não se limita a essa quantidade. Já vimos crianças serem sorteadas tendo seu nome inscrito apenas uma única vez, assim como outras com seu nome assinado em boa parte dos papéis presentes. É dificil de se admitir e ninguém nunca o fez em voz alta, mas o alivio egoísta que brota dentro de si ao ver que seu nome não fora sorteado e sim de outra infeliz criatura, é indecifrável.

E assim sobrevivi aos quatro primeiros anos da dívida. Sendo esse o quinto e último. Os estragos do incêndio já estavam quase por completo apagado e conseguíamos voltar a nos erguer. Porém ainda tive de inscrever meu nome duas vezes. O que, comparado a antes é um número menor, mas a agônia de se pensar que ainda tem uma possíbilidade a mais de ser sorteada é a mesma.