Voltando ao príncipio da narrativa, o dia amanhecia lindamente como sempre. Mas não fui capaz de apreciá-lo com o mesmo gosto de todos os dias. Até o som dos pássaros pareciam soar mais tristes.

Levantei-me, se acostumando com a luz que adentrava. Não havia cortinas, por isso os raios solares davam direto com a porta de entrada, cortando todo o meu pequeno quarto aos poucos. Esse recinto, como todos na casa, eram de maior simplicidade, possuíndo apenas o que é necessário. O que havia no meu quarto era apenas uma cama, um guarda-roupa embutido a parede de frente, e uma escrivaninha, na qual tinha como único pertencentes uma lamparina e uma pequena pombinha branca feita de porcelana. Essa última, cortesia de minha mãe, deixada como presente de despedida, antes de resolver abandonar a mim e ao meu pai.

Troquemos de assunto. O que aconteceu, aconteceu há muito tempo, foi um pouquinho depois do meu nascimento, e nada mais sei que, ela se foi, e deixou a pombinha junto com uma carta, onde explicava ao meu pai o motivo do abandono. Meu pai ainda guarda a carta, mas nunca me deixou lê-la. Falar sobre esse assunto, o deixa triste, o que me deixa triste também. Mudemos de assunto então.

Calcei meu único par de botas confortável, usado, reusado e remendado, e um casaco da mesma cor daquela porta verde-musgo que contracenava com o chão branco-velho do meu quarto. Abri-a e desci as escadas num pulo, dando de cara com o senhorzinho a quem chamo de pai, na mais bela amizade com Morfeu. Tinha a serenidade no rosto daqueles que dormem profundamente.

Não ousei acordá-lo, passando quase com a leveza de um gato, para o comodo da cozinha, onde capturei uma maçã e fui para o lado de fora da casa. Àquela parte, dava para o fundo da casa, onde se concentrava todo o material de trabalho do meu pai. Eu o via trabalhar todos os dias da minha janela, que dava direto alí. O via estudar um pinheiro, pegar o machado e girá-lo com sua habilidade profissional inumeras vezes, até ver a árvore no chão. Onde a limpava, cortando os galhos, e a levava para a caminhonete.

Caminhei lentamente por aquela grama de verde seco. Tentei com a ideia de descalçar os sapatos a andar por ali com os pés livres. Mas, apesar de o sol se levantar com todo o seu calor, o solo ainda dormia, frio. Por isso, fui de botas mesmo, andando devagar até chegar onde meu pai costumava trabalhar.

Analisei a situação. Um tronco de árvore se encontrava no chão, ainda inteiro, conservando os galhos e as folhas verdes. O machado encontrava-se ali próximo, preso a um toco de árvore, junto com duas luvas grossas que meu pai costumava usar para não entrar farpas em seus dedos.

Antes de tudo, é preciso que saibam que nunca fui boa em matéria de força. Todas as minhas tentativas em segurar um machado e cortar uma árvore, fracassaram vergonhosamente, sendo minha última tentativa uma quase decapitação dos dedos do meu pai. Mas hoje estava inspirada. Tinha a necessidade de lutar contra o medo e ansiedade que a Colheita me causava, e isso só funciona quando nos empenhamos em fazer alguma atividade onde se transforma a força do pensamento em força fisica.

Por isso me empenhei em buscar o machado. Tirá-lo do tronco já não foi uma atividade fácil, mas não desisti, obtendo sucesso com segurança depois de uns cinco minutos. Então calcei as luvas de cor de terra, deixando minhas mãos numa temperatura quentíssima, mas em segurança. O machado pesava desconfortavelmente, sendo necessário que eu o segurasse com as duas mãos enluvadas, essas luvas por sinal, maior que o formato da minha mão, dificultando as coisas. Mas o segurei até pegar o jeito. Afastei meu cabelo do rosto, e marchei pesadamente em direção ao tronco caído. Agradeci silenciosamente por este não estar numa distância tão longa.

Vi meu pai executar aquela tafera desde sempre. Cresci vendo ele fazer na minha frente, onde me colocava sentada num tronco próximo e colocava-se a trabalhar, quando todos já haviam ido embora ou quando era algum feriado ridículo de Capitol e não havia ninguém trabalhando. Por vezes, e vi e revi todos os movimentos necessários: a maneira de se segurar o machado, o abaixar dos joelhos junto com o impulso para fazer a arma cair com força brutal sobre a madeira; outra força necessária para descolar o ferro da árvore. E a repetição desses movimentos até ver o tronco livre de seus galhos. Parece simples quando se é apenas um espectador, mas a força necessária para a execução dessa tarefa não era tão simples assim.

Mas me pus a tentar imitar meu pai. Lembrei de todos os movimentos necessários e dei o meu primeiro golpe, soltando um grito de alivio aos ver o sucesso do machado enterrado superficíalmente na madeira. Afastei novamente meu cabelo e desenterrei o machado. O ferro pesava, e em menos de cinco tentativas já me encontrava cansada, ofegando e inventando uma pausa como desculpa para descançar.

Me sentei num tronco de árvore próximo, e me limitei a olhar e ouvir a indiferença da natureza sobre mim. E sua imensidão também. A floresta de pinheiros que se desenrolava por volta da minha casa era maravilhosamente bela. Só se viam pinheiros e pequenos arbusto e apenas se ouvia diferentes tipos de píos perdidos na floresta. Certa vez eu e meu pai nos aventuramos a descobrir um pouquinho sobre ela, entrando mais à fundo que o normal. Olhando assim, de onde me encontrava, era impossível dizer que ali havia um limite, floresta e todo o infinito que sempre julguei ser formado de pinheiros e píos de passáros. Havia uma cerca feia de alta tensão rodeando toda a floresta. Era muito maior que meu pai e um pouco menor que um dos pinheiros, sendo impossível de se escalar.

Atrás de todas aquela cerca, se encontrava uma planicie, de chão verde, com grandes árvores bem ao fundo. Por um longo tempo, imaginei que era para lá que minha mãe havia ido morar. E por quase uma eternidade, me imaginei vivendo ali com ela, Com meu pai descobrindo um jeito de passármos pela cerca, e indo de encontro a minha mãe, que era perdoada pelo meu pai e me recebia de braços abertos e com um sorriso materno, num rosto que eu nem se quer era capaz de imaginar. Viveríamos alí, felizes, juntos, para sempre. Longe do Distrito, longe de Capitol, da tortura, do medo, do trabalho quase escravo. Indo para perto do que me parecia a eternidade, a serenidade, a felicidade consolidada.

Mas um dia um incêndio surgiu, desvastando todos os sonhos ingênuos de uma criança, me levando para uma realidade devastadora onde me colocava ao risco de morte pela simples certeza de um prato de comida. Por muito tempo me perguntei quando o mundo deixou de ser justo. E na escola, onde nos ensinavam a história da humanidade, foi lá que me deparei com a resposta, meio que sem querer. Nunca fomos justos, nem quando parecia existir liberdade para isso. O senso de justiça, de liberdade de expressão, implica com a necessidade que Capitol chama de evoluir. Foi quando entendi que me fazia a pergunta errada, e que não era quando deixamos de ser justos, mas sim quando deixamos de ser humanos.