68º Edição: Jogos Vorazes
5 Cinco
Depois que me dispus a trabalhar na cozinha o tempo pareceu voltar a sua velocidade normal.
O almoço não tardou a ficar pronto e comemos antes do meio-dia. Ficamos o tempo inteiro em silêncio. Escutava-se somente o tilintar dos talheres nos pratos, que em menos de dez minutos deram trégua, representando o fim da refeição e da fome que nos envolvia.
Ficamos sentados nas cadeiras por alguns instantes, aproveitando a companhia um do outro. A comida estava ótima, e fez o seu trabalho de nos animar um pouco, e nos fazer esquecer por uns minutos a Colheita.
"Que horas sairemos?" Perguntei.
“Daqui há três horas esteja pronta.” Foi a resposta de meu pai. “Vou terminar de cortar as árvores, e colocá-las na caminhonete. Vá descansar um pouco.” E sorriu.
Apesar de não estar cansada, aceitei sua proposta e subi para o meu quarto. Cogitei oferecer ajuda a ele, mas soube no mesmo instante que não aceitaria. Do mesmo modo que eu queria um tempo a sós, ele também queria. Do meu quarto, o vi cruzar o campo até as árvores caídas. Fiquei um tempo admirando a beleza de tudo. O sol encontrava-se no meio do céu, brilhando com uma força extraordinária, fazendo com que tudo que estivesse sob si, ganhasse uma sombra.
Faltava muito tempo para sairmos de casa e estava muito cedo para me arrumar. Resolvi ficar deitada, recuperar o sono que havia perdido na manhã, mas não estava funcionando. Então, enquanto esperava sua chegada, resolvi fazer uma análise minuciosa daquele teto com vigas de madeira e fundo esverdeado. E aos poucos fui perdendo os sentidos e caindo no sono, criando aquela sensação entorpecedora de não saber mais distinguir o que era real e o que era sonho. Antes de fechar as pálpebras tive a sensação de ver aquela mesma pomba sobre uma viga, me observando. Depois disso, tudo escureceu.
Me encontrava perdida no centro do Sete, sozinha de companhia e de ambiente, tudo parecia deserto, e o céu, obscuro, de natureza fúnebre. Tudo parecia assustadoramente calmo. Me pus a correr sem um rumo certo, sendo levada pelo desespero inexplicável e pernas que pareciam asas velozes. Logo fui parar em outro ambiente. Um talvez mais fúnebre que o primeiro. Estava repleto de pessoas, todas sentadas em cadeiras simples, havia um palco à sua frente, mas ninguém nele.
Me encontrava na repartição entre uma coluna de cadeiras e outra, no meio de uma passarela. Tudo estava calmo, as pessoas não falavam, não se moviam. Foi quando olhei para um desconhecido qualquer e reparei que nenhum possuía feição, mas todos pareciam olhar em minha direção. O medo no qual me encontrava não me deixava pronunciar uma palavra. Corri para a única direção que havia, passando por corredores infinitos de pessoas em semelhança com mortos. Nenhum possuía rosto, ou qualquer sensação que mostrasse estarem vivos.
Em algum momento fui parar em cima do palco vazio. Agora encontrava-me somente eu, um microfone, e duas urnas acrílicas. Era o palco da Colheita. Olhei para trás e pude perceber o telão que mostrava os outros Distritos, mas encontrava-se desligado.
Virei-me para a direção que a pouco havia corrido, para ter uma visão melhor. Agora podia ver todo o panorama. Cadeiras com pessoas estendiam-se em todas as direções. Não havia um movimento se quer, nem mesmo as nuvens pareciam mover-se. Tudo encontrava-se em uma aparência assustadora e escura. A grama sob os pés de todos parecia morta, o céu era de um azul triste, assim como as nuvens acizentadas. Não havia pássaros ou vento. Tudo perecia parado, até mesmo tempo.
Todos os corpos pareciam olhar para mim. Nenhum de movia ou levantava. Esperei por um instante para ver se levantariam e viriam atrás de mim. Mas não fizeram nada. Não sei quanto tempo passou quando enfim escutei uma voz feminina, doce, mas carregada de dor.
"São tempos difíceis querida, terá que ser forte." A voz flutuava por todo a ambiente e foi difícil achar sua dona. Mas logo percebi que vinha da primeira fileira, de uma figura que se destacava descaradamente dos corpos — que agora possuíam rostos de volta.
A voz vinha da mulher mais bela que já conheci. Parecia sorrir ao meu espanto com sua beleza. Vestia um longo vestido simples e branco, ornado com alguns detalhes em dourado. Sentava-se na mais delicada das poses, com as mãos pousadas sobre as coxas, formando um arco com os braços nus. Sua única joia era uma colar com uma pássaro branco de asas abertas. Parecia obter toda luz e toda vida que aquele lugar não possuía. Tudo parecia mais vivo ao seu redor, poderia dizer que emanava certo tipo de áurea para concretizar sua aparência surreal.
Seu rosto, não era, nem de perto como as das mulheres de Capitol. Não havia, cabelo gigantesco ou penteado pitoresco ou uma maquiagem carnavalesca. Tudo era da beleza mais simples. Se havia maquiagem, era da mais básica que se podia existir. Tinhas os lábios rosados e as bochechas coradas. Seu sorriso era o suficiente para tomar toda a atenção necessária. O resto era um mistério. Seu cabelo era longo posto todo de um lado só, mas a cor de suas madeixas, de sua pele ou de seus olhos, pareciam mudar a cada instante. Ora mulata dos olhos verdes, ora loira dos olhos cinzentos, senão de outras cores.
Olhos estes que pareciam ser a única coisa que quebrava sua perfeição. Se é sorrindo que se fala com os olhos, seus olhos falavam dor e tristeza. Não havia lagrimas ou qualquer vestígio de choro, mas parecia triste, melancólica, prestes a desabar. Mas mesmo assim me sorria afetuosamente.
"Não há o que temer querida, não estará só em momento algum." Disse docemente.
Não entendia uma palavra se quer do que pronunciava. Compreendia-as mas não fazia a mínima ideia do significavam. Mas acreditava mesmo assim. Ela dizia que não devia temer, que não estava só, que eram tempos difíceis e eu acreditava em cada palavra.
Em momento algum se levantou, ficando na mesma posição imperial o tempo todo. Agora todos os rostos pareciam tê-la descoberto e a admiravam com seus olhos mortos a mesmas beleza intrigante que eu admirava. De todo aquele lugar, sua figura era da maior realidade possível. Tentei me mover para chegar mais próximo — todo o medo e pavor haviam sumido — mas não conseguia me mover.
Percebi a figura de meu pai timidamente do lado da mulher que não tirava os olhos de mim e que ignorava a existência de tudo e de todos. Tentei chamar por ele, mas não me ouvia. Walsh estava ao seu lado, e também não me ouviu. Pareciam bons imitadores da mulher e me ignoravam.
Fui levada a me virar novamente, as urnas que outrora estavam vazias, agora, em uma delas havia um pequeno papel. No meu intimo, já sabia o que havia inscrito nele, mas não havia pavor em mim. Pesquei o papel e antes que pudesse abri-lo escutei soluços. Virei-me e encontrei com meu pai, ajoelhado na grama, olhava-me cegamente, chorando. A mulher olhou de mim para ele, pousou uma mão nas costas do meu pai, que chorava copiosamente. Eram os únicos do lugar agora.
Foi então que voltei-me para o papel e quebrei seu lacre. Sobre a folha branca, lia-se em letra escura: “Amery Brehen”.
Estremeci no mesmo instante em que acordei com alguém chamando meu nome. Demorei um pouco para entender que havia acordado, e que era meu pai quem me chamava.
Tudo ainda parecia real. O lugar, o palco, o papel, o choro, ainda vagavam vivamente pela minha cabeça, tanto quanto a mulher, que junto com o choro de meu sonho e a voz de meu pai na escada, parecia ter lançado seu último aviso: “seja forte.”
Essas últimas palavras pareciam rondar pelo meu quarto, vivas. Não demorei a responder pelo chamado de meu pai, e levantei-me lançando um olhar ao primeiro objeto que encontrei ao abrir os olhos.
Tudo parecia rodar maquinalmente pela minha cabeça. O sonho que vivi passava pela minha mente a cada segundo, sempre dando ênfase a uma ideia insana que havia surgido juntos com o abrir dos olhos e o vislumbre da pomba de porcelana. Foi como acender a lâmpada de um quarto escuro, desvendando todos os mistérios obscuros.
Não consegui deixar de pensar num instante sequer naquela mulher que poderia jurar ser minha mãe.
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