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1 Capítulo Único
Notas iniciais
I. Outono
Outono antes era tempo de chá e noites perto da lareira trabalhando nos casos, madrugadas ao som de violino e longas caminhadas pelas ruas frias de Londres rumo as cenas de crime. Essas coisas ainda estavam presentes, mas o significado delas...
Sempre há uma mudança de significado quando você está andando ao lado de uma pessoa da mesma maneira que andava antes, mas agora, você sabe que esta pessoa é sua.
E John Watson não sabia o que fazer com aquele novo significado.
Nada parecia ter mudado, mas ao mesmo tempo, nada era igual. Ainda que a rotina ainda fosse a mesma, os olhares não eram mais desviados ao serem pegos em flagrante, mãos que se esbarravam não se apressavam mais ao se afastar. Os horários de dormir ainda eram diferentes, mas agora a cama era a mesma.
Mesmo Sherlock ficava confuso de como tudo podia ter mudado tanto e ao mesmo tempo parecer que havia sido o tempo inteiro assim.
Era simplesmente natural, como as folhas amareladas caindo das árvores e se espalhando pelo parque. Caiam para que algo novo florescesse. E depois, parecia que nada havia mudado, por que a árvore ainda parecia a mesma.
Talvez não fosse algo a ser entendido. Talvez só devesse ser aceitado.
Mas quando eles se pegavam encarando um ao outro, não podiam evitar se perguntar como aquilo tudo podia ser possível, e se a neve que o inverno traria, soterraria tudo.
II. Inverno
Connor deixou que sua testa repousasse em cima de um dos livros abertos na mesinha de centro. Já havia até esquecido para que matéria estava estudando. Mais alguns minutos e dúvidas sobre qual era mesmo seu curso estariam surgindo.
Virou o rosto para o lado, o suficiente para que o relógio na parede entrasse em sua linha de visão. Passava pouco das quatro da manhã, e ainda assim, o momento de ir para a cama parecia muito distante, levando em consideração os livros espalhados pela sala.
Notou movimentação vinda do quarto e se virou bem a tempo de ver Oliver entrando na sala, esfregando os olhos com os dedos da mão direita.
― Ainda acordado? ― perguntou se sentando no sofá atrás de onde Connor estava no chão.
― Não tenho certeza. ― Connor riu.
Oliver passou os dedos pelo cabelo do companheiro.
― Vou fazer um pouco de café ― disse. ― Duvido que você tenha condições de se levantar. ― E se dirigiu a cozinha.
Connor assistiu Oliver se afastar, e aquela preocupação e aquele peso em suas costas fico mais forte. Olhando para Oliver ele via o quanto tinha a perder.
Quando Wes bateu com o maldito troféu na cabeça de Sam Keating, ele não havia percebido. Porém, horas depois, ele se achou em um ataque de pânico na porta daquele mesmo apartamento, e apesar da maneira que ele e Oliver haviam terminado, Oliver o ajudou e o acolheu.
E Connor tinha que tê-lo de volta.
Não havia sido fácil, mas tinha sido o melhor desafio de sua vida. A melhor parte dela. E ele simplesmente não podia perder Oliver, e também não podia colocá-lo em perigo.
Afinal, ele não era cúmplice de assassinato e de ocultação de cadáver.
Oliver era apenas o idiota que tinha se apaixonado pela pessoa errada e nem se dava conta disso. E Connor passava vários momentos se preocupando de que ele notasse, e passava outros vários momentos fazendo o seu melhor para se tornar a pessoa certa.
O fato de que ele estava sempre envolvido em alguma armação para manter o crime que ele e seus colegas haviam cometido escondido, definitivamente não ajudava. Quanto tempo teria que se passar para que ele finalmente sentisse que era seguro e não tivesse que ser tão paranoico todo o tempo?
― Oliver? ― chamou, de impulso, recebendo uma resposta monossílaba para indicar que estava sendo escutado. ― O que acha de viajarmos?
― Viajar no natal? ― Oliver voltava da cozinha com duas xícaras de café fumegantes, numa declaração muda de que iria ficar acordado fazendo companhia a Connor.
― Viajar hoje, agora. ― A manhã de sábado só estava no início, afinal.
Oliver riu.
― Você não tem, tipo, milhões de provas para estudar? ― sentou no chão ao lado do namorado, entregando a ele uma das xícaras.
― Quem se importa com diploma?
― A falta de sono está começando a afetar seu cérebro.
― Eu poderia roubar um banco e assim nunca teríamos que nos preocupar com dinheiro.
― É, só com a polícia batendo na nossa porta. ― Oliver tornou a rir antes de tomar um gole do conteúdo da sua xícara.
― Você iria me visitar? ― perguntou subitamente, tentando disfarçar o melhor que podia a seriedade da questão. Porque importava, e importava muito.
― Olha, se você realmente está pensando em fazer de novo role-playing envolvendo algemas, é melhor não perder a chave dessa vez. ― Oliver foi direto ao ponto, seus olhos cheios de afeto ao mirar o namorado sonolento e que para ele, estava pulando de um assunto sem importância para outro.
Porque Oliver não sabia, e talvez fosse melhor nunca saber.
― Idiota. ― E ainda assim, Connor sorria quando beijou Oliver. ― Então, que tal uma pequena ajudinha para eu ficar um pouco mais acordado?
― Você pensa em outra coisa? ― Mas ele não tinha nem um pingo de vontade de recusar.
O inverno rugia lá fora, e não prometia uma primavera de menos dúvidas e preocupações para Connor Walsh.
III. Primavera
Para alguém que se transformava em um cachorro, Remus achava que Sirius algumas vezes se parecia muito com um gato. Ele nunca diria em voz alta, mas naquele momento, com Sirius quase ronronando com a cabeça em seu colo enquanto Lupin passava seus dedos pelo cabelo desalinhado dele, era tudo que conseguia pensar.
Sirius definitivamente parecia bem felino naquela tarde chuvosa.
Não havia mais ninguém no dormitório além deles. Todos estavam ou em Hogsmeade ou estudando para os N.I.E.M’s, que estavam perigosamente próximos. Remus provavelmente estaria estudando se sua cama não estivesse tão confortável e quentinha naquele momento.
E a conversa que tivera com James mais cedo, enquanto este lutava para sair do quarto enquanto ao mesmo tempo tentava amarrar os cadarços, ainda estava rodando em sua cabeça.
“Prongs, Hogsmeade não vai sair do lugar. Você vai acabar caindo de cabeça no chão.”
“Estamos em guerra, Moony!” James não parecia realmente preocupado, exibindo seu sorriso confiante de sempre enquanto batia com as costas na porta e terminava de dar o laço em seu tênis. “Vamos aproveitar, por que amanhã todo o mundo pode estar destruído!”
Apesar de ter rido enquanto via um de seus melhores amigos correr para encontrar a namorada, agora não conseguia parar de pensar no quanto aquilo era verdade. O mundo bruxo estava em guerra e Remus sabia que eles estavam indo direto para o olho do furacão.
Então, naquela tarde, onde um dilúvio caía nos terrenos de Hogwarts, ele ficou na cama, aproveitando a rara quietude ao lado de Sirius Black.
De tão perdido em seus pensamentos, não notou Sirius se espreguiçando e o encarando por entre as mechas de cabelo bagunçado e nem viu o sorriso definitivamente felino que se desenhou nas feições aristocráticas.
― Você está se preocupando de novo ― sussurrou com a voz ainda rouca de sono, fazendo Lupin se sobressaltar pela quebra repentina do silêncio. ― Não estamos morrendo, Moony.
― Eu sei. ― Voltou a acariciar o cabelo de Sirius, que se esticou e se contorceu com um sorriso satisfeito. Felino. ― Eu só estava imaginando... e se não estivéssemos em guerra?
― James e Lily ainda iriam se casar, principalmente por que James morre de medo dela mudar de ideia...
― Lily o tem na palma da mão ― Remus refletiu.
― Wormtail ainda iria dedicar seus dias em comer bolos e explodir coisas por acidente...
― Nós deveríamos deixar a varinha dele fora de alcance durante a noite. Só por precaução.
― E nós ainda passaríamos os finais de semana curtindo preguiça na cama. ― Sirius concluiu. ― Muitas coisas podem estar mudando, mas outras são como deveriam ser.
Lupin riu.
― Você tem algum senso de perigo ou algo do tipo?
― Não, me atrapalha quando estou ocupado sendo maravilhoso.
Mais uma risada e Remus teve que se curvar para deixar um beijo entre os cachos negros. Antes que pudesse se afastar, Sirius se virou e de repente, eram os lábios que se tocavam.
Lá fora, a chuva de primavera ainda caía, e, talvez, por um momento louco de sanidade do universo, trouxesse um verão de paz, onde eles não teriam que se sacrificar por um bem maior.
IV. Verão
E o dia começou com as irritantes borboletas em seu estômago.
― Eu não vou sair daqui. Desista ― Nico falou com teimosia, muito confortável em sua cama com uma HQ em suas mãos.
― Mas... mas! ― Will agitava as mãos, cheio de exasperação. ― O dia está lindo, o sol está brilhando, a umidade não está insuportável e a praia parece tão convidativa!
― Eu tenho cara de alguém que curte um dia ao sol? ― Nico arqueou uma sobrancelha.
― Você tem cara de alguém que precisa urgentemente de vitamina D. ― Cruzou os braços, teimoso. ― E de um pouco de cor nesse rosto. E sorrir um pouco mais. Algumas vezes acho que você está realmente perto da morte.
― Você chama de morte, eu chamo de visita a casa paterna.
― Que engraçadinho, você. ― Apesar da reprimenda, Will lutava para reprimir um pequeno sorriso.
Nico apenas revirou os olhos em resposta e voltou a ler.
E Will até podia não ser brasileiro, mas ainda assim, não desistia nunca. Sentou ao lado do outro na cama e encostou a cabeça no ombro dele.
E as borboletas resolveram fazer um passeio até sua traquéia, e Nico achou que iria morrer engasgado na tentativa de mantê-las quietas.
― Então tudo bem, ficamos aqui dentro.
―... ficamos? ― A conjugação do verbo não passou despercebida.
― Tenho certeza que vamos encontrar algo para passar o tempo. ― Infinitas intenções estavam escondidas naquele tom de voz, o que fez Nico corar. ― Oh, aí está. Agora você só precisa de vitamina D e sorrir um pouquinho, mas não se preocupe, o doutor irá vê-lo agora. ― Riu.
― Oh, calado. ― Nico jogou a HQ em um canto qualquer e se virou para encarar o ser irritante ao seu lado. ― Você é sempre teimoso assim com todo mundo ou você abre uma exceção pra mim?
Will apenas sorriu radiante e Nico o adorava e odiava por isso. Na maior parte do tempo um dos sentimentos vencia, mas estavam em um definitivo empate naquele segundo.
― Nico.
― O quê? ― perguntou com a exasperação que lhe era característica quando se sentia confuso.
― Eu amo você.
Nico desviou o olhar, imediatamente, com as bochechas queimando.
― Morra, Will. ― E tinha um ponto de frustração naquele tom de voz. Frustração por toda a confusão e malditas borboletas no estômago que Nico sentia.
― Já que me apresentar pro seu pai, então? ― Will se esticou e deitou na cama, por cima das pernas de Nico, para dar uma olhada em seu rosto envergonhado. ― Não sabia que estávamos nesse estágio do nosso relacionamento. ― Riu.
E Will tinha esse riso leve e solto que fazia um arrepio correr pela espinha de Nico. Essas sensações inquietantes que faziam questão de surgir toda vez que a figura loira surgia diante dele o fazia ter uma grande vontade de vingança.
― Agora pare de ser antissocial e vamos curtir o dia. ― Will bateu uma palma na outra e fez menção de se levantar.
Estava quase saindo na cama quando um puxão em sua camisa o fez cair deitado na cama, e no segundo seguinte, Nico di Angelo estava sobre ele, com um sorriso nada angelical em suas belas feições.
― Na verdade, acho que gosto da sua ideia de ficar aqui.
E enquanto Will sentia os beijos de Nico queimarem sua pele, tudo que ele torcia era para que o frio do outono jamais chegasse.
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