5103: The Last Soul

1 5103: Capítulo Único


Notas iniciais
Boa leitura

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The Last Soul

A escuridão daquela noite fria impregnava a úmida e escura floresta Freetown-Fall River. Os estalidos do metal esmagado estavam por toda parte, e ecoavam em consonância com os gemidos de terror dos humanos ali, acompanhados pelos seus últimos suspiros. Enquanto suas vidas os deixavam gradualmente. Um a um.

Duzentos e noventa e três.

Era o total de passageiros presentes naquele avião, que agora não passava de ferro retorcido e logo uma carcaça carbonizada pelo próprio combustível que o mantinha no ar, mas agora se espalhava por sua estrutura a encharcando do liquido inflamável e com as faíscas saltitando por toda estrutura não iria demorar até que seu destino se cumprisse. O piloto tentou uma aterrissagem assim que percebeu a falha em seu sistema, mas ele não podia evitar sua fatalidade. Arrastando o grande avião por uma longa distancia enquanto destroçava tudo em seu caminho, perfurando o coração daquela floresta ao sudeste de Massachusetts que acabou sendo seu ponto de aterrissagem mais próximo. Suas tentativas não permitiu a explosão do aeroplano em sua colisão contra o chão, assim como também, não salvou sua vida.

E me livrando da estrutura que pesava sobre meu tórax, me ergui através das poltronas e toda a bagagem reviradas formando vários obstáculos pelo caminho tortuoso de corpos espalhados. A queda e o deslizamento através daquela floresta havia destruído grande parte da dianteira da aeronave e feito uma das assas se partir, deixando um grande buraco de ferragem retorcida e pontiaguda em seu lugar. Porém no meio da difícil caminhada até onde encontraria a saída, um dos passageiros agarrou com força meu tornozelo nu sobre o tecido fino do que restou das minhas vestes. Um homem de meia idade, uma das grandes peças amassadas da ferragem esmagavam seus membros inferiores, sangue escorria da boca e impossibilitava sua fala, tudo que ele emitia eram gemidos de aflição. Com meus olhos completamente negros em suas orbitas, eu o mirei. E com dificuldade ele balbuciou um pedido de ajuda, mas senti sua morte chegando logo em seguidas se apoderando de seu corpo, e me livrando de suas mãos segui para a saída.

Aos meus pés descalços tocarem a terra úmida e gelada daquela floresta, eu pude sentir toda a energia que fluía por ela, a pressão esmagadora da natureza contra aquela catástrofe, a vibração de cada vida se esvaindo e a atmosfera fria e arrebatadora de morte tomando tudo à frente, invadindo aquele ambiente como fumaça. A minha volta uma floresta fechada se estendia, e com meus pés já sujos pela terra, eu continuei. Pouco a pouco sentindo meu corpo adquirindo uma forma humana, semelhante a dos corpos próximos ali. Minha pele elástica e de um tom de azul-acinzentada se tornou alva e frágil. E assim como a maioria das mulheres que avistei ali, longos cabelos castanho-escuros caíram sobre meus ombros. No meu pulso vislumbrei a inscrição marcada em negrito contra minha pela desde meu nascimento. 5103. Era meu nome. E quem eu era.

Eu era o fim.

Era tudo o que havia restado do planeta e da espécie que um dia eu pertenci. Há mais de milhas de distância de onde eu me encontrava agora, em uma galáxia sólida por asteroides e ofuscante por suas estrelas explosivas, havia um planeta denominado Delphini. O quinquagésimo primeiro da galáxia, e minha casa.

Delphini que um dia foi conhecido pela magnitude azul e a combinação gasosa que cercava a atmosfera do planeta, letal para qualquer outra espécie que não pertencesse ali. Hoje, não se passava de uma esfera em combustão em uma chama infinita sustentada pelos próprios gases da sua atmosfera, enquanto ainda houve gás e massa Delphini queimaria, e quando isso cessasse tudo que restaria do meu planeta seria um conjunto inabitável de carbono e enxofre. Este era o resultado de uma guerra intergaláctica de milhões de anos, e que acreditaram ter chegado ao fim quando eu ainda era muito jovem, e que teve como conclusão vitoriosa a destruição do meu lar.

Como em toda galáxia, em meu planeta havia um líder. Arion, hereditariamente o primeiro de nossa espécie, governava Delphini a mais tempo do que muitos poderiam se lembrar. Considerado um ser justo e um líder respeitado, Arion carregava além de bilhões de anos de sabedoria e um povo devoto, uma rixa familiar que se arrastava através do tempo e espaço. Ele que nunca deixou de lutar, defendeu Delphini com mais de que sua própria vida, porém não foi suficiente contra o exército de Argus, seu maior inimigo. E meio irmão.

A história era conhecida por toda Delphini, e contada aos mais jovens assim que já pudessem compreender seu significado. Arion e seu meio irmão Argus eram o mais próximo que tínhamos da personificação do bem e do mal. Argus, além do peso de ser um bastardo, sempre viveu as sombras do meio irmão mais velho, no qual possuía todas as qualidades de que ele não via em si mesmo. Cresceu amargurado e ignorado pelos próprios pais, ofuscado pelo brilho de Arion, de qual desenvolveu um ódio mortal e envenenador. E o correr do tempo só fez provar o que todos já previam, Arion se tornou o ser benevolente e nobre que sempre se mostrou ser, no entanto, Argus da mesma forma havia se tornado o tudo que haviam presumido. Um ser amargurado e egocêntrico, que cedendo ao infortúnio e a malevolência já presente eu seu interior, se mostrou cruel e ambicioso, desfigurando seu próprio corpo em uma busca incessível pelo poder de forma breve.

Depois da morte de seus pais, Arion conquistou seu território e fez de Delphini seu novo lar, onde daria continuidade a sua espécie e prosperaria. E não muito longe dali, depois da constelação de Eridanus, em um planeta de mesmo nome, Argus também iniciou seu império. Desenvolvendo sua própria espécie completamente mutável e desconhecida. Os ataques entre os planetas eram constantes. Naves foram enviadas, soldados nunca retornaram, bombas foram disparadas em uma batalha que parecia que só a morte de um dos irmãos colocaria fim. Todos nós crescemos no meio desse conflito, mas isso nunca interferiu diretamente em nossas vidas. Porém nos meses antecedentes ao desastre, a segurança tinha sido redobrada, havia tropas em cada ala do planeta e até mesmo a circulação da população e suas atividades haviam sido suprimidas. Não estavam havendo mais ataques de Eridanus, tudo estava silencioso e calmo por anos, o que fez Arion ponderar sobre o que seu irmão estaria tramando, ele sabia que um grande ataque estava por vir.

Quando se é um ser de milhares anos o tempo passa de forma diferente, o tempo passa através de você, enquanto seu corpo viaja intacto ao longo dos séculos, absorvendo tudo em sua volta e te moldando pelos acontecimentos. Muitas vezes te tornando irreconhecível, e te obrigando a deixar tudo para trás. Os dias de um passado, agora muito distante, todos eles se afundaram dentro de mim como se tivessem ocorrido em outra vida, e tudo mudou tão rápido que não consigo dizer ao certo quando aconteceu.

Quando eu me tornei a última alma de todo um planeta.

Eu era muito jovem e em universo de possibilidades, mas não podia chegar a muitos metros longe de onde eu vivia, pela segurança restritiva. Imprudente e com uma curiosidade queimando em meu peito em um mundo não compreendido, eu deixei meus impulsos tomarem as decisões e me esgueirando por entre as tropas vigilantes, tomando uma nave que sequer era minha, eu deixei o planeta azul para trás. A ansiedade e o medo corriam em minhas veias em um êxtase de pura liberdade que não durou muito. A pequena nave que pilotava ia se afastando mais e mais com um destino ainda incerto, quando uma onda vibrante me atingiu, a fumaça cobriu toda minha visão e todo o interior da nave chocalhou. Em uma atitude tomada pelo desespero, o que eu fiz foi me afastar ainda mais e vencendo toda a fumaça que me cercava ao olhar para trás a cena que fez interior se remoer. As naves de Eridanus cercavam Delphini, o bombardeando. O planeta entrava em combustão queimando vivos cada ser presente nele, mesmo que inaudível os gritos do meu povo ecoaram dentro da minha mente, em uma morte dolorosa e injusta.

Com anos de estudo e fixação, Argus conhecia o planeta inimigo melhor que a própria população deste. O envoltório gasoso tóxico do planeta sempre havia sido seu maior obstáculo, e sabendo disso ele descobriu e projetou um novo tipo de bombas, recombinando metais pesados e que reagiram com os gases presentes na atmosfera de Delphini quando lançadas, fazendo o planeta queimar de fora para dentro.

As lágrimas encheram as orbitas dos meus olhos totalmente negros e a dor veio em seguida. Ninguém chorava em Delphini, não se não quisesse ser submetido a uma dor latente. Com o passar do tempo e com os efeitos dos gases os componentes presentes nas lágrimas se tornaram ácidos para nossa pele. Mas dor era tudo que podia me permitir sentir naquele momento, as lágrimas escorrem pelos meus olhos queimando a pele por onde passavam e deixando cicatrizes que marcavam meu rosto até hoje.

Enquanto eu assistia tudo distante dali, vi o meu lar ser incendiado e todos que eu conhecia partirem tortuosamente, com plena ciência de que eu deveria estar entre eles. Queimando até os ossos em uma chama sem fim no lugar onde eu sempre pertenci, o que por um infortúnio acaso ou um cruel destino não me permitiu morrer ali com todos os outros. Porém uma parte de mim nunca deixou o amado planeta e um irrecuperável pedaço da minha alma morreu queimada ali em Delphini, de onde eu partiria sozinha para o que agora eu chamava de vida e missão. Onde eu começaria minha própria história.

Minha vingança.

O espaço esconde mais coisas do que muitos acreditam. Eu partir dali, jovem e sozinha, em busca de vingança por todo meu povo, mas aquele era um caminho mais árduo do que eu jamais poderia ter imaginado. Então eu me dediquei mais séculos do que posso me lembrar para encontrar o poder e a habilidade que traria minha revanche, em um treino incessante do equilíbrio do meu corpo e mente. Indo de um extremo ao outro eu passei por incontáveis planetas, de completos desertos a lugares tomados pelo gelo, adquirindo poderes milenários que alguns consideravam fora de alcance. Nenhum deles veio sem uma dor excruciante, mas eu já não temia a dor, e eu tinha tudo os que aqueles que não conseguiram alcançar tal dom ou os que desistiram não tinham. Eu não tinha nada a perder além de um propósito que preenchia minha alma e implorava pela justiça.

E quando percebi, eu estava pronta. Eu tinha uma chama dentro do meu peito e nada em meu caminho. Com tanta força e poder que mal podia conter dentro do meu corpo, eu invadi Eridanus, onde todos os soldados caíram asfixiados ao levantar das minhas mãos e fecha-las em punho. E os debatendo contra o chão, pude ouvir os reforços chegando, porém eles tiveram o mesmo destino. O poder me consumia, eu o sentia vibrar dentro de mim, sacudindo minha alma e me fazendo sentir viva pela primeira vez em milhões de anos, enquanto todas aquelas vidas culpadas caíam aos meus pés. A morte de Argus veio em seguida, deixando uma pilha sangrenta de corpos pelo caminho. Ainda vejo a figura desfigurada de seu rosto acinzentado. Me encarando com os olhos vermelhos e esbulhados, sem ar, prensado contra o chão e paralisado, onde ele ouviu cada palavra da historia da minha antes de eu olha-lo fixamente, sentindo as extremidades do meu corpo se tornarem quentes e o poder agir fazendo-o se engasgar com seu sangue. Nada havia sobrado Eridanus quando eu deixei o planeta.

Minha missão estava concluída, mas eu não consegui encontrar nenhum resquício de satisfação no ato. Era apenas uma vingança, mas algo mudou dentro mim no dia em que invadi Eridanus. Então uma coisa ocasionou a outra, a queda do império de Argus trouxe disputa e retaliação dos povos aliados a ele, e o poder de destruir uma raça me trouxe um prazer incomparável. Viciando minha alma na sensação vivida que o poder me permita, ele se apoderou do meu corpo a cada batalha que eu vencia. A cada vida que eu tirava. Pois esse era o preço de tamanho poder que detinha, eu não havia nada a perder e acabei me perdendo por tal força. Eu me vi me tornando o que sempre lutei para combater, mas não havia remorso em meu coração capaz de ser sentido, não havia culpa que me fizesse parar. Então eu continuei.

Viajar pelo espaço pode ser uma batalha, no universo há dobras, buracos e supernovas que podem te desintegrar se aproximar se demais, mas sempre pareci escapar ilesa dos acidentes invitáveis. Usando estrelas de hipervelocidade para me mover de uma galáxia para outra, cumprindo a sede insaciável que o poder em mim havia se tornado. Eu passei por milhares de planetas e luas, destruindo seus impérios, queimando a terra e deixando os corpos para trás. Já não havia um propósito fixo, o poder fluindo em minhas veias e cegando meus olhos era a única coisa que me fazia prosseguir, rumando a uma nova galáxia e a deixando em pedaços ao me afastar. Sendo caçada, perseguida e temida, mas nunca pega. Transfigurando meu corpo para uma nova forma a cada vez que estava próxima de ser descoberta. Havia tirado mais vidas do que poderia admitir, mas o ressentimento não pesava em meus ombros o que nunca me fez parar ou refletir sobre meus atos.

Eu era imparável.

O poder era incontível.

Frio e imparcial.

E depois de raças extintas, planetas em chamas e terras dilaceradas, em uma das minhas viagens eu havia chegado a Via Láctea, e indo de ponto a ponto por ela, espalhando o caos da minha presença, eu cheguei ao que denominavam Terra. Um planeta azul como meu lar. Vivido e povoado, mas a espécie encontrada ali não era diferente ou superior às muitas que havia deixado para trás. Completamente autodestrutiva, eles matavam entre si e por si mesmos, em uma egocentricidade que transbordava de seus olhos. Sequer precisei observa-los muito para ver sua verdadeira essência. Carbono, oxigênio e uma dose gritante de violência em uma mistura de sentimentos confusos e medo, destruindo o próprio em lar em atitudes desconexas. E rumando para o meio deles, eu adentrei a aquele avião já sabendo seu destino. A destruição de um planeta havia se tornado algo poético e deleitoso para mim, era muito mais do que apenas ossos quebrados e morte, era a expansão dos poderes para fora de mim e tomava o tempo que deveria tomar. Uma caminhada que trazia o frio e despertava a fumaça, deixava as cinzas, levava as almas e os corpos eram apenas massa.

E com a plena ciência de que aquele seria o ambiente que dominaria todo aquele planeta em questão de dias, eu segui em passos curtos. Eu sabia que um dia aquilo cessaria, e teria que trocar o prazer da destruição pela doce companhia da minha própria morte. E vagando através dos séculos, talvez um dia eu encontrasse um planeta capaz de chamá-lo de lar novamente, e a piedade ganhasse espaço em meu peito suprimindo o poder. Mas isto estava muito longe de acontecer ali. E deixando para trás o avião partido, a pilha de corpos e o sangue derramado, eu rumei para o que seria o meu próximo desastre.

Notas finais
Me contem o que acharam, comentários são sempre bem-vindos Obrigada por ler ❤️
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!