505

1 Relatos de saudade


E eu estava lá, deitada na cama daquele quarto frio de hotel no qual eu morava. Com minhas mãos entre as pernas, do meu lado da cama.

Estava me recordando do rosto dele que há luas eu não via, enquanto eu estava ali dramatizando minha solidão ele fazia a alegria e excitava as que tanto o veneram.

Enquanto eu me conformava em ouvir sua voz e ver imagens na internet, outras se deliciaram em vê-lo e ouvir- lo ao mesmo tempo. Não poderia nem ter certeza se as palavras saídas da boca dele ainda me tinham na memória.

Ainda consigo me recordar de minhas mãos em seu pescoço, do carinho em seus cabelos que o fazia ter ideias incríveis, obras feitas a partir da solidão, da minha solidão e da mente incrivelmente criativa dele que ele acreditava ser influência minha. Sempre que terminava uma obra e me mostrava era o teste crucial, dificilmente algo não estava de acordo, sua satisfação vinha do meu sorriso. E a das outras vinha com as palavras que eu o influenciava a escrever.

No momento em que ele está viajando pelo mundo fazendo a felicidade de muitos e muitas, eu espero aqui.

Espero ansiosamente todos os dias a sua volta. Enquanto ele, talvez, espalhe secretamente sua solidão por meio de palavras cantaroladas e jogadas em cima de uma multidão, essa mesma multidão torcia, sem saber, mas torcia por eu ficar mais solitária para haver mais obras inimagináveis. Falando sempre de amor, sexo e tristeza. Todas inspiradas por mim.

Em torno de mais ou menos uma semana ele embarca novamente ao meu mundo. O 505 trará o que eu sempre quis, e sempre tive, novamente a mim. Eu tenho o que muitas queriam ter, mesmo quando ele está com elas sua mente e seu núcleo vital estarão somente comigo.

E em meus devaneios eu busco uma forma de mantê-lo perto de mim, mesmo que isso sendo, muitas vezes, fisicamente impossível.

E aqui estou eu. Sozinha nesta cama deste quarto frio de hotel, aquecendo minhas mãos entre as pernas.

Finalmente adormeci.

Meus sonhos foram atormentados por um barulho do mundo exterior, me recusava a atender a porta, mas que absurdo, eram 5 horas da manhã!

Até que finalmente me rendi aos batuques na porta, cambaleando, sentei na cama e acendi o abajur até batuques cessaram. Esperei que houvesse reação do outro lado do quarto.

Nada ocorria do outro lado.

Esperei alguns minutos e nada. Quando estavam cravados no relógio aqueles eternos 5 minutos, eu vi um feixe de luz atravessar o quarto escuro vindo em direção ao meu rosto, automaticamente lágrimas escorriam pelas minhas bochechas rosadas fazendo-me tremer por inteira.

O homem do outro lado da porta fitava-me intensamente, repousou o instrumento que carregava encostado em uma cômoda qualquer e acendeu a luz fechando a porta.

Ele me olhava com espanto, parecia que ele via seu anjo da guarda, era como o reencontro de uma criança com seu ursinho de pelúcia que não vira depois de uma viagem de férias. Eu era o ursinho.


Seus olhos brilhavam, se brilhassem mais iriam parecer dois diamantes brutos sendo derretidos por uma força maior, uma chama interna.

As palavras lhe faltaram naquele momento, eu um pouco mais forte decidi expressar minha indignação.

-Você estragou a surpresa.


Ele paralisado falava tremulamente.

-Eu... eu não queria lhe faltar mais.

Uma lágrima de cada diamante caía perfeitamente em sincronia com sua parceira no colchão bem à minha frente.

Então como uma criança em prantos, ele se refugia no seu ursinho dando-lhe um abraço mais que merecido pelo seu bom trabalho.


. . .

E eu estou aqui, deitada na cama desse quarto quente de hotel no qual eu moro. Com minhas mãos entre as pernas, do meu da cama. Sorrindo.

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