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1 Capítulo Único
Notas iniciais
Não era necessário escrever através da música e sim apenas do título. Mesmo assim o link da música vai estar no final.
Boa leitura!
Relutei durante muito tempo para te escrever, mas enfim consegui. Uma hora ou outra eu teria que te contar tudo.
Infelizmente não posso ver seu rosto transtornado por não entender nenhuma de minhas palavras... simples, mas que causarão lágrimas que não poderei secar enquanto digo “não precisa chorar, vai ficar tudo bem. Tudo vai dá certo, sempre dá.”
Há quanto tempo nós conhecemos? Há quanto tempo estamos juntos?
Anos, séculos, milênios... nossas vidas sempre estiveram entrelaçadas e nós nunca nos tocamos até o nosso aniversário de três anos, quando a tua mãe mostrava fotos tuas na escola. Aquele menino magricelo, que sempre sentava atrás de você durante o jardim de infância; o garoto que foi o coroinha durante a tua primeira eucaristia; o cara que estava sentado tomando um suco nas escadarias do Cristo Redentor na primeira vez em que foi ao Rio de Janeiro e fez a pose mais copiada e brega de uma típica turista...
Em todas elas eu estava lá, mas nós nunca trocamos uma única palavra. Talvez, talvez tenhamos dito algo durante os tempos de escola, mas éramos tão novos que não lembramos. Nossos caminhos se cruzaram mais uma vez e desta foi à vez.
Ainda lembro-me dos teus olhos amendoados completamente apertados, forçando a visão olhando o mapa do metrô. Aquela foi a tua primeira vez em São Paulo, uma menina do interior se virando sozinha na cidade grande. Enquanto eu já ia para o meu último ano no doutorado e quarto naquela selva de pedra.
Juro que tentei não rir com as caretas que fazia, mas quanto mais tentava enxergar o mapa, mais eu ria... até que passei a gargalhar e você se virou para me olhar e com isso veio a nossa primeira “briga”.
Em vez de ficar mangando de mim deveria me ajudar!
Mangando.
Com essa simples palavra me recordei do meu primeiro dia, também sozinho, ali. Como da saudade que eu tinha de casa, que apertava o peito e me fazia tentar terminar logo tudo o que fazia lá para correr em direção ao meu interior.
Eu fiquei estático, lembra? E nisso com o coração enorme que tem você me perguntou se eu estava bem. Não, querida. Eu não estava bem, com o teu jeito meio cego de ver, o teu sotaque totalmente nostálgico para mim e a tua preocupação, além é claro da beleza que resplandecia de ti eu sábia que não estava bem e não estaria bem tão cedo, pois mesmo sem acreditar em amor à primeira vista percebi que iria me embaralhar em uma história tão clichê quanto os livros de banca que via minha mãe lendo enquanto crescia.
Daquela nossa semi-briga em uma estação de metrô abarrotada em pleno horário de almoço vieram às verdadeiras brigas, primeiro como amigos e conterrâneos, depois dos primeiros beijos de ficantes, namorados e casal. Sempre as terminávamos da mesma forma: um ou outro dizendo “para de mangar de mim!”
Nós não tínhamos jeito, sempre riamos um do outro até mesmo durante nossas brigas e principalmente nas nossas reconciliações.
Mas nossos risos e gargalhadas foram sendo mudados com o tempo pelo choro descompassado, por lágrimas espontâneas que deflagravam toda a dor que sentíamos pelo futuro. Um futuro cheio de incertezas.
O tempo foi passando e passando e mesmo que negássemos sabíamos lá no fundo que teria apenas uma única saída concreta. Tentei de todas as formas com que terminássemos, mas você sempre relutava. Sempre dizia a mesma coisa “eu vou ficar até o fim”. Não importava quantas maneiras eu encontrasse para que nosso relacionamento acabasse você sempre se negava.
Ah querida! Eu sinto muito, mas o fim infelizmente chegou, posso ser considerado um egoísta por te abandonar, mas eu sei que não importaria se te desse umas 49 maneiras de me deixar eu sei que você jamais iria. Você seria minha amante até o fim, exatamente como foi.
Mas aquela que você mais repudiaria seria a 50º e foi justamente está a que achei mais pertinente para que não continuasse se anulando como vem ao longo do tempo, desde que descobrimos que todas as cirurgias, as sessões de quimioterapia e radioterapia e os inúmeros comprimidos que tomei não adiantaram de nada.
Eu quero que se lembre sempre de mim, mas não como o cara doente, acamado e que contra a sua vontade e consentimento assinou o termo de eutanásia. Quero que se lembre de mim como aquele cara que mangava de você na estação, o mesmo que te pediu em casamento durante a viagem mais maluca que vocês já fizeram na vida, que por sinal é o mesmo que se sentava atrás de você no jardim de infância.
Desejo que volte a viver. Anseio que corra atrás dos teus sonhos com a mesma força e garra que tinha quando nos conhecemos realmente. Espero que alce voos mais longos dos que já teve, espero que volte a amar e que seja amada novamente, que forme a família que infelizmente não pude construir contigo.
E que nunca se esqueça que essa foi à única maneira a qual encontrei para te fazer mangar novamente.
Notas finais
Espero que tenham gostado!
E até a próxima! :-*
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