5 anos depois - HIATUS
9 Capítulo 9
Notas iniciais
DEPOIS
Eu pisquei. Uma. Duas. Três vezes. Você não estava mais lá. Desapareceu na minha frente como fumaça. Eu comecei a temer, mais do que o normal e perdi as forças. Caí de joelhos. A chuva fria sobre mim, o asfalto me impedindo de desabar de vez.
Você. Eu.
Minha dor de cabeça voltou.
E então os seus olhos vieram de novo à minha cabeça. Assustados. Perdidos. Você tinha olhos verdes? Não pude lembrar. Sequer sabia se o que tinha visto era verdade. Podia ser uma ilusão. Eu podia ter ficado louca de vez. O pensamento me dava medo.
– Clara?
Senti alguém tocar meu ombro. Me afastei violentamente. Nicolas me encarava, seu olhar parecia ferido e preocupado ao mesmo tempo. Ele se aproximou, passo por passo, e se ajoelhou na minha frente, deixando um espaço entre nós.
– Clara... Sou eu, Nicolas. – Sua voz era baixa – Eu quero te ajudar. Vem comigo para o carro, por favor.
Ele estendeu a mão. Olhei nos olhos do meu amigo. Segurei sua mão com toda força e fiquei de pé. A realidade voltava aos poucos. Me dei conta de que estava no meio da rua, encharcada, com os joelhos vermelhos pelo contato com o asfalto. Eu nunca tinha me sentido daquela maneira antes. Beirava a loucura. Você tirava a minha sanidade de uma maneira inexplicável.
– Desculpa... – Sussurrei inúmeras vezes. A essa altura, eu já devia estar chorando, nada que a chuva não tivesse o trabalho de esconder para mim. Mas Nicolas percebeu, ele sempre percebia quando algo estava errado comigo.
– Não tem problema... – Ele disse me deixando abraça-lo. – Mas acho melhor voltarmos. Eu não quero que você pegue um resfriado.
Concordei. Sequei as lágrimas e deixei que ele me levasse ao carro. Por um momento, senti pena de sentar com as minhas roupas molhadas no banco de couro. Mas ele parecia não se importar.
– O que aconteceu? – Ele perguntou por fim, dando a partida no carro.
Eu pensei em falar. Pensei em falar sobre você. Sobre como eu tinha pesadelos com o dia do acidente, e você aparecia em todos eles. Sobre como você me assombrava e ao mesmo tempo me intrigava. Sobre como seus olhos eram tão verdes, que pude enxergá-los mesmo em meio à chuva. Eu pensei em falar. Mas eu me calei.
Nicolas era o meu melhor amigo, mas não queria que me visse como uma garota louca. Como uma garota que foi atropelada e desenvolveu uma obsessão maluca pelo seu atropelador. Você não podia ser nada para mim. Então eu fiz de você nada.
– Algumas lembranças desagradáveis – falei, olhando a chuva que caía pela janela – Mas já passou. Eu estou melhor agora.
– Eu sei que você não está. – ele disse – Mas se não quiser falar, eu não me importo. Só não quero que você sofra sozinha.
– Obrigada, Nicolas – sussurrei.
Obrigada por me dar aquilo que eu nunca pude retribuir.
ANTES
– Tocando essas músicas velhas de novo? – Fernanda perguntou, entediada. Ela era do tipo que não conseguia ouvir uma música clássica sem pegar no sono. De vez em quando, nos dias em que ela ficava sozinha em casa, eu fazia com que ela me acompanhasse até o Clube de Música Comunitária. Ela sempre disse odiar, mas nunca protestava em vir.
– Se com música velha você quer dizer um clássico, sim – sorri – Mas hoje não. Eu passei as últimas aulas praticando “Merry Christmas Mr. Lawrence”.
Ela fez uma cara confusa. Dei de ombros.
– É a música tema de um filme japonês. Quer ouvir?
Fernanda balançou a cabeça, um pouco distraída. Voltei a minha atenção para o piano. Posicionei meus dedos sobre as teclas e toquei as primeiras notas. A sensação era única. Meus dedos dançavam sobre as teclas, meus olhos focavam apenas na partitura. Sentia minhas frustrações indo embora, e aos poucos me sentia mais leve. Esse era o poder que a música exercia em mim.
Olhei para a minha amiga, que permanecia ao meu lado. Seu olhar era distante, mas seu corpo se movimentava conforme a música. Fernanda nunca admitiria, mas ela até que gostava de me ouvir tocar. A grande baladeira, DJ nas horas vagas e amante de festas curtia ouvir um piano instrumental de vez em quando. Esse era o nosso pequeno segredo, o tipo de coisa que nós duas sabíamos, mas não falávamos.
Na verdade, nunca precisamos falar.
DEPOIS
– Clara, o que você e o meu irmão fizeram?! – Joana falava em um tom cômico. Nicolas tinha me deixado em casa fazia pouco tempo, e não demorou muito para que ela me ligasse para saber dos detalhes do nosso “encontro”.
– Nada demais, a gente só saiu – falei enquanto tirava o meu vestido ensopado.
– “Nada demais, a gente só saiu” – ela imitou a minha voz – Então me explica porque Nicolas chegou em casa parecendo que deu um mergulho na Lagoa Rodrigo de Freitas?
Eu ri. Só tinha me dado conta do estrago quando cheguei em casa e vi minha mãe quase ter um ataque do coração. Eu não estava só molhada, estava enrugada, amassada, pingando água, com maquiagem borrada e joelhos esfolados. Me senti como se tivesse dez anos de novo, voltando para casa depois de passar o dia inteiro brincando na rua.
– Nós não tínhamos guarda-chuva – respondi – Foi só isso.
– Só isso, sei... – Ela falou rindo, mas logo o seu tom se tornou sério – Clara, você está se sentindo bem?
Eu senti a sua preocupação. Resolvi não mentir para Joana.
– Não, eu não estou – disse – Você e Nicolas devem ter feito algum curso de leitura de mentes, só pode.
– É que nós te conhecemos, bobinha. – Ela disse, animada e hesitante ao mesmo tempo – Mas eu tenho uma boa notícia para você. Conversei com a sua mãe e concordamos que você precisa fazer alguma coisa para ocupar a mente. Então eu usei os meus contatos e... Adivinha?
– Comprou uma passagem só de ida para os Estados Unidos?
– Melhor.
– Uma passagem de ida e volta?
– Algo mais produtivo. – Ela riu – Lembra do Sr. Beraldo?
– O diretor do Clube de Música Comunitária? – perguntei, me lembrando do senhor gordinho e simpático que sempre ficava na entrada lendo o jornal do dia.
– Sim. – ela respondeu – Eu conversei com ele sobre a sua situação e sobre como você ficou parada nesses últimos meses. Ele disse que como você era uma das melhores alunas do clube, ele poderia abrir uma vaga para você ajudar os pianistas iniciantes.
Engasguei na mesma hora. Mais uma vez, era informação de mais para mim.
– Espera, Joana – falei tentando me acalmar – Você quer dizer que eu vou dar aulas de música? Eu não toco a quase cinco anos.
– O Sr. Beraldo sabe disso, mas ele disse que você só vai precisar ensinar teoria. São só quatro vezes por semana, é uma boa ocupação.
– Eu não tenho certeza...
– Ele falou que você pode tocar a hora que quiser depois das aulas – ela tocou meu ponto fraco – Em qualquer piano do clube, o tempo que você quiser...
Trabalhar não estava nos meus planos. Pelo menos, não antes de terminar a faculdade. Mas eu precisava esquecer, de você, do atropelamento e de tudo que me perturbava. Não hesitei.
– Joana? – Falei decidida – Pode dizer que eu aceito.
Fale com o autor