5 anos depois - HIATUS
3 Capítulo 3
Notas iniciais
ANTES
Quando eu era mais nova, meu avô costumava fazer o que ele chamava de “hora do descanso”, que era basicamente um momento que ele separava no seu dia agitado de engenheiro civil para deitar e ouvir música clássica no volume máximo. Eu nunca entendi como alguém podia se sentir descansado fazendo uma coisa como aquela. Mas tudo mudou quando eu conheci o Clube de Música Comunitária, que era basicamente uma casa reformada e transformada em uma escolinha de música gratuita.
Eu me apaixonei pelo piano à primeira vista.
Apesar dos protestos do meu pai, que insistia em dizer que música era apenas um hobby que iria atrapalhar os meus estudos, eu aprendi a tocar e praticava todos os dias depois da aula. Só então eu entendi o que o meu avô sentia quando passava uma hora inteira ouvindo Chopin. Apesar de não ser algo intrinsecamente relaxante, era o que ele gostava de fazer e ele se sentia bem com aquilo da mesma maneira que eu amava a música.
DEPOIS
Meu pai me visitou dois dias depois. Ele usava a farda dele, sempre bem alinhada, e tinha os cabelos arrumados com gel que faziam seus 44 anos parecerem 30. Ele estava sozinho quando veio, o que era estranho já que ele e minha mãe andavam juntos para todos os lados. Papai parecia cansado e estranhamente nervoso. Ele segurou minha mão assim que entrou no quarto.
– Clara, você está melhor? – Ele perguntou, curto e objetivo. Enrolação sentimental não era o forte do Comandante Fernandes.
– Estou... – Sorri – Bem melhor do que quando acordei.
Ele balançou a cabeça satisfeito. Faziam apenas dois dias desde que eu tinha descoberto que 5 anos da minha vida foram tirados por você. Eu estava esgotada, doida para sair daquele quarto de hospital e ao mesmo tempo com medo. Medo daquilo que eu tinha perdido e de encarar a realidade. Minha raiva por você aumentava a cada dia.
Meu pai não era muito de conversa, então aproveitei para fazer todas as perguntas que àquela altura já estavam me matando de curiosidade.
– O que aconteceu depois do acidente? – Perguntei diretamente.
– Ligaram para nós e corremos para o hospital. Você passou algum tempo no CTI e depois te liberaram para o quarto.
– E ele? – Eu hesitei em perguntar. Falar sobre você me fazia sentir náuseas – E o cara que me atropelou?
Papai olhou diretamente nos meus olhos. Era o seu “olhar mortal”, como eu e meu irmão costumávamos chamar. Sempre que ele fazia isto, significava que tínhamos feito alguma coisa errada. Segundo meu irmão, o olhar mortal dele podia assustar até um homem adulto.
– Aquele filho da mãe foi preso – ele respondeu em tom tão áspero que soou estranho até mesmo para ele – Mas foi solto a quase um mês.
Recuei um pouco, assustada. Meu pai raramente usava palavras como aquela, ainda que não fosse um palavrão. Ele e minha mãe eram tradicionais até o último fio de cabelo. Se tinha uma coisa que era rara, era vê-lo com raiva e xingando as pessoas. Eu decidi então não comentar mais sobre você. Sua existência era um assunto sensível para a minha família.
– Como a mamãe está? – Perguntei, desviando o assunto.
– Patrícia... – Ele fez uma pausa – Sua mãe não tem estado bem ultimamente... Acho que a sua companhia vai fazer bem para ela.
Eu concordei com ele, sem saber o real significado por trás das suas palavras. Depois daquilo, ainda consegui puxar assunto por mais meia hora até o meu pai precisar voltar para o quartel. E então eu voltei a ficar sozinha no quarto branco.
Naquela noite, eu não dormi. Eu sonhei com você. Sonhei que vinha na minha direção, usando as mesmas roupas do dia do acidente. Mas você não parecia embriagado e nem desesperado. Você olhava para mim e dizia alguma coisa repetidamente, como se aquilo dependesse da sua vida, e então apareciam as luzes, as mesmas do farol do seu carro. Eu era esmagada contra o muro novamente, o mundo voltava a ficar negro e depois nada. Eu acordei suando frio e com a respiração acelerada.
Eu não consegui voltar a dormir depois. Inclinei a cama e fiquei encarando o teto branco do quarto, que era repleto de adesivos fluorescentes em formato de planetas, foguetes e asteroides. Eu gostava de pensar que estava em casa, no quarto do meu irmão mais novo, brincando de acampamento como quando era criança, me imaginando ao ar livre e fingindo que os adesivos de estrela no teto escuro eram o céu. Era a minha atividade favorita nas noites solitárias e sem sono. Eu nunca realmente descobri porque tinham adesivos naquele quarto. Talvez aquela tivesse sido a ala infantil algum dia, mas isso não me importava.
Quando finalmente consegui dormir, caí em um sono pesado e só acordei de novo na manhã seguinte. Eu ainda podia me lembrar do sonho. Você era para mim como um fantasma, alguém que eu não podia ver e nem conhecia, mas que me assombrava todos os dias.
Afinal, quem era você? Porque você tinha me atropelado?
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