5 anos depois - HIATUS
16 Capítulo 15
Notas iniciais
DEPOIS
Você não olhava para mim. Seus olhos vagavam, ora focavam no seu café, ora pareciam monitorar o ambiente a volta. A loja de café onde estávamos era perto do Clube, um daqueles lugares que deve ter aberto enquanto estava em coma. Até aquele ponto eu ainda não entendia porque tinha aceitado, porque tinha deixado você me guiar para um lugar desconhecido apenas para ouvir o que eu não queria. Mas eu estava lá, na sua frente, esperando que dissesse alguma coisa.
– Eu gosto do café daqui… — Você finalmente falou.
Não respondi. Apenas olhava diretamente para o seu rosto, que ao contrário de alguns meses atrás já não me trazia mais medo, apenas dúvida. Eu tremia por dentro. A incerteza começava a me corroer. Tentava me distrair com as coisas à minha volta. Olhava para os outros clientes, para o balcão, bebia um pouco de café, mas nada adiantava.
Você pigarreou.
– Meu pai era dono de uma loja de café. — Você olhou em volta — Mas não era uma pequena como essa, era maior e tinha várias franquias.
Você se ajeitou na cadeira. Bebeu mais um gole do seu café puro e sem açúcar. Mexeu no cabelo. Apoiou a mão no queixo. Suspirou e pela primeira vez me encarou.
– Não vai falar nada?
– O que você espera que eu fale?
Você se calou.
– Olha, eu finalmente estou superando esse negócio todo e… — Respirei fundo — Eu não quero ficar lembrando, tudo bem?
– Eu não falei nada sobre isso.
– E você precisa? — Vociferei.
– Não. — Você respondeu.
Eu precisava me acalmar. O meu dia ótimo estava sendo bagunçado por você e eu não queria mais daquilo. Engoli o que restava na minha xícara e me levantei.
– Você já vai?
– Vou.
Você se levantou. Seus olhos se estreitaram, seu rosto parecia tenso.
– Eu não quero ser seu inimigo. Eu sei que o que eu fiz não tem volta, mas eu quero pelo menos fazer alguma coisa…
– Fazer o que? — Perguntei nervosa — Acabou. Eu não quero ser a sua amiguinha, se é o que quer saber.
– Eu nunca falei isso — você entrou na defensiva — Eu só voltei para essa porcaria de bairro, só chamei você até aqui, porque eu não quero ser um daqueles caras que faz merda e depois segue a vida como se nada tivesse acontecido.
Um frio percorreu todo o meu corpo. Sua mão alcançou a minha e sem muito esforço me fez voltar ao meu lugar. Naquele momento eu não liguei para a sua pele áspera ou o seu toque, que era completamente indesejado por mim. Eu queria entender, e essa vontade não me deixava sair.
– Eu só quero mostrar que eu me importo. — Você se sentou — Hoje de manhã… Eu visitei o túmulo dela.
Fernanda. Ele tinha ido ver Fernanda.
– Eu já sabia o nome dela. — Você continuou — Era impossível esquecer com pessoas gritando no seu ouvido todos os dias. Mas só seis meses depois, quando estava na penitenciária, eu descobri que eu a conhecia.
– Como assim?
– Eu e Fernanda namoramos por oito meses. Nos conhecemos em uma festa na casa de um amigo meu e ficamos juntos.
Não.
Eu não tinha ouvido aquelas palavras vindo de você.
Fechei os olhos. Mordi os lábios. Aos poucos o meu coração batia mais rápido. Nada vinha à minha mente. Nada à minha boca. Somente dor.
– E eu… — Você continuou. Seus lábios tremiam. Sua voz embargava. — Eu gostava dela, mas eu fui um babaca. Eu era estúpido, completamente grosso. Eu acabei com o nosso namoro por celular e nunca mais dei notícias.
Engoli seco.
– E então você resolveu atropelá-la? — Perguntei ironicamente.
– Por Deus, não. — Você afundou o rosto entre as mãos — Eu não… Eu estava com raiva. Meu pai e eu tínhamos discutido naquele dia. Eu queria sair de casa, por isso eu fui para a primeira boate aberta que eu achei.
Você respirava pesadamente. Seus dedos se apertavam contra a palma da mão. Seus olhos estavam vermelhos.
– O carro era do meu irmão. Ele não estava em casa, nem percebeu quando eu peguei. Eu saí mais cedo do que costumava e resolvi voltar para casa. Eu estava bêbado. Tinha decidido que finalmente iria dizer algumas verdades para o meu pai.
– Mas porquê? — Falei — Porque justo na casa de Fernanda?
– Talvez eu saiba porquê. — Você sorriu amargamente — Talvez fosse pelo fato da casa dela ser o lugar que eu mais frequentava nos últimos oito meses. Ou talvez apenas por má sorte.
Eu me levantei, mas dessa vez não olhei na sua direção. Me virei e caminhei até a saída. Eu precisava ficar sozinha e talvez você precisasse também. Por isso não me impediu.
Naquela noite eu tive um sonho. Nele, você e Fernanda conversavam tranquilamente na rua quando um carro ia desgovernado na direção de vocês. Fernanda era atingida, e como nas minhas memórias ela gritava, um som impossível de esquecer.
Mas você, Victor, não estava mais lá.
Você chorava, dentro do carro.
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