5 anos depois - HIATUS
15 Capítulo 14
Notas iniciais
ANTES
A água cobria todo o meu corpo. As ondas batiam e me jogavam de um lado para o outro, como em uma sinfonia medonha. Eu ia e voltava, ia e voltava, ia. Sentia a sensação fria na minha pele. O ardor dos pequenos cortes com as pedras. O gosto salgado na minha boca.
Eu podia ouvir o vento. As aves. Podia ver o céu azul e sem nuvens. Mas eles se afastavam pouco a pouco e eu ia afundando, afundando, cada vez mais intensamente. Minha respiração era pesada, interrompida. Meu coração batia em um ritmo anormal.
Eu estava me afogando.
Instintivamente, comecei a me debater.
Eu queria ar. Respirar. Fôlego. Mas só conseguia ir mais fundo. Não podia gritar. Não tinha ninguém para me ajudar. Eu estava sozinha. Eu estava morrendo.
Algo dentro de mim me dizia para aceitar. Para deixar. Para acabar o ciclo vicioso que a minha vida tinha se tornado. E então eu lembrei. Eu lembrei de estar em casa. Lembrei de estar com Nicolas. Lembrei de discutirmos, mas não sabia o porquê. E depois disso… Eu não fazia a menor ideia.
Como eu tinha ido parar ali?
DEPOIS
Quando me perguntavam se eu estava em depressão, eu respondia que não. Eu não estava mentindo, nem amenizando a situação. Eu só achava que de alguma maneira o que eu estava passando não era a pior coisa do mundo. Eu poderia estar morta. Poderia estar como Fernanda.
Mas ao contrário do que eu vivia dizendo para mim mesma — e para quem quisesse saber — eu não estava bem. Dois meses depois da minha liberação do hospital eu estava em casa, enrolada nos meus cobertores, assistindo a todos os episódios de House que eu tinha perdido e me enchendo de sorvete de morango. Ocasionalmente, eu saía de casa, mas o meu trajeto consistia em andar algumas ruas até o Clube ou ir de carro para o terapeuta.
Não nos vimos novamente, Victor. Depois da nossa discussão, você pediu demissão. Eu não te procurei. Você não me procurou. Ficamos por isso mesmo e eu continuei a trabalhar. Mas eu me sentia cada vez pior.
Cada vez mais eu me dava consciência de quem eu atualmente era. Clara Fernandes, 21 anos, professora de música não oficial, solteira, sem faculdade, sem casa própria, sem independência, sem melhor amiga, sem nada.
Eu me sentia um museu. Eu vivia do passado, das lembranças; catava momentos com Nicolas quando ele estava livre, garimpava a atenção de Amanda, reciclava os meus momentos com a minha mãe. Eu estava velha, mas tentava continuar a mesma menina de 16 anos que você tinha atropelado.
Foi então que eu decidi entrar para a faculdade.
– Você tem certeza, filha?
Meu pai me encarava um pouco duvidoso. Eu via no seu semblante que ele estava confuso, talvez sem saber se me apoiava ou se tinha medo de que eu estivesse me adiantando e pudesse me meter com mais coisas do que podia lidar.
– Pai, eu preciso aproveitar enquanto eu tenho idade — argumentei — Eu não posso depender a vida inteira de você e da minha mãe.
Ele olhou novamente o panfleto nas suas mãos. Na minha época de ensino médio — só então eu percebi como era estranho falar dessa maneira — a ideia de fazer faculdade particular era loucura. Minha família sempre teve boas condições, mas com três filhos era praticamente impossível bancar cinco anos de mensalidade universitária. Mas a situação não era mais a mesma.
Em vários sentidos.
– Mas você tem certeza sobre Direito? — Ele levantou o olhar na minha direção — Você sempre odiou a ideia.
Ele falava a verdade. Enquanto eu insistia em fazer música, meu pai era firme em me incentivar a fazer Direito. Se dependesse dele, eu estaria no Supremo.
– Eu sei — falei — Mas porque não? Eu já perdi tempo demais, não quero esperar o tempo passar pra descobrir que desperdicei o que sobrou.
Meu pai sorriu. Pelo menos, do jeito dele, uma pequena elevação do canto direito do lábio superior. Era a maneira sincera do Comandante mostrar que se importava.
– Se você realmente quer fazer eu não vou impedir — Ele suspirou — Mas antes que você mude de opinião de uma hora para a outra, eu tenho uma condição.
Ele se aproximou. A pequena mesa de jantar do apartamento já pequeno em que ele morava parecia desprezível por alguns segundos.
– Você precisa fazer pelo menos o primeiro período. Se achar que não quer mais, vai precisar esperar até o final para sair. Está certo assim?
Sorri.
– Está.
ANTES
Em algum momento, eu cheguei à praia. Eu sabia disso porque podia sentir a areia sob mim, e as ondas que me faziam engolir água e tiravam o meu pouco ar. Eu não tinha forças para levantar.
Eu podia lembrar claramente, ou quase isso. Eu estava em Angra com mamãe, papai, Rodrigo e Nicolas. Nós estávamos na casa de praia. Alguma coisa tinha acontecido. O que sobrava na minha mente eram flashes. Nicolas gritando, meu pai irado, Rodrigo que não estava em lugar nenhum. Sangue.
Meu Deus, o que tinha acontecido?
Tentei levantar.
Mais uma onda me atingiu. E outra. E outra. E então percebi que algo na minha perna doía. Minha consciência cada vez mais ia embora. E então um vulto entrou no meu campo de visão. E o vulto se tornou um ponto, uma sombra, uma pessoa.
– Clara! Clara, você está bem?!
Ele gritava, mas minha mente estava se rendendo. Aos poucos o meu corpo ficava mais pesado, ao ponto de parecer que a qualquer momento ele se fundiria com a areia.
– Clara, me desculpa!
Ele falava incessantemente.
– Me desculpa.
DEPOIS
O café do meu pai era o melhor do mundo. Pelo menos para mim. Se tinha uma coisa que o Comandante sabia fazer era cozinhar. Mas esse era um talento escondido, do tipo que ele ameaçava qualquer um que ousasse contar sobre os seus dotes.
– Então, como está? — Ele perguntou depois que provei um pouco do líquido vaporoso.
– Continua ótimo — sorri — estava sentindo falta.
Enquanto meu pai enchia a sua caneca satisfeito, eu tentei me lembrar da última vez que tínhamos tomado café juntos. Na época do incidente a nossa família não estava no seu auge. A gravidez da minha mãe tinha a tornado incrivelmente temperamental, e Rodrigo discutia cada vez mais com os meus pais por influência dos seus "amigos". Não fiquei surpresa ao descobrir que a nossa última refeição em família tinha sido há quase cinco anos e meio.
– Rodrigo me ligou — ele falou repentinamente.
– E o que ele disse?
– Ele está voltando. — suspirou — As coisas não deram certo com a banda.
Eu prendi a minha respiração. Desde que Joana tinha me falado sobre o meu irmão, eu tinha procurado tudo o que podia a respeito dele e da sua banda. As notícias não eram muito boas. Brigas em boates, escândalos envolvendo bebidas e outras coisas que eu nem imaginava. No mundo que eu conhecia, esse tipo de coisa nunca poderia acontecer. Mas esse já não era o meu mundo, é claro.
– Ele vai voltar? — Perguntei incrédula — Mas para ficar?
– Pelo menos é o que ele disse. Como você e Amanda já estão na casa da sua mãe, ele vai ficar aqui comigo. Eu vou dar um jeito nesse garoto.
Meu pai olhava para o nada. Se eu conhecia um pouco das expressões incomuns dele, eu podia jurar que estava triste. Apesar da sua aparência jovem, quem o conhecia podia perceber os traços do tempo nele. Ele já não parecia o mesmo de antes. Seus cabelos já tinham vários fios brancos. Seu rosto já tinha rugas. Ele já não era tão intimidador. O Comandante estava perdendo a sua força.
– Eu posso ter certeza... — Segurei a mão do meu pai, deixando-o um pouco surpreso — De que você vai conseguir. Eu sei disso.
Nós conversamos por quase duas horas depois daquilo. Eu me senti leve pela primeira vez nos últimos dias. Finalmente as coisas estavam começando a tomar um rumo na minha vida. Eu tinha planos em mente. Iria para a faculdade, trabalharia, compraria a minha casa e quem sabe conheceria alguém legal e me casaria.
De certa maneira, ainda havia esperança. E naquele dia, a caminho do Clube para trabalhar, eu senti um pouco de mim retornar aos eixos, um pouco do que tinha sido tirado de mim voltando ao seu lugar. Pelo menos… Pelo menos até…
– Clara? Clara Fernandes?
Você me chamou.
– Nós podemos conversar?
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