5 anos depois - HIATUS
14 Capítulo 13
Notas iniciais
DEPOIS
Eu estava sentada na cadeira do consultório, a cabeça baixa e os olhos fixos no piso de azulejos brancos e sem graça. Depois de uma série de exames chatos e complicados, estava ouvindo um discurso sobre como eu precisava cuidar mais da minha saúde e isso e aquilo.
– Você está sobre muito estresse. — A doutora Elza lançava um olhar preocupante para a minha mãe, que permanecia atenta a cada palavra dela.
Desde que eu tinha acordado no hospital, ela era a médica que mais me ajudava. Talvez fosse por ser bem nova, talvez uns vinte e nove anos, e ainda não tivesse pego os hábitos dos outros médicos. Elza me lembrava de Joana, não só na aparência, mas também nas manias. As mãos nervosas que gesticulavam no ar, o olhar penetrante e uma aura reconfortante que fazia qualquer se sentir um pouco leve.
– O que aconteceu hoje não foi extremamente grave — ela falou — Mas me preocupa. Esse desmaio pode ser uma sequela ou um indício de algo pior.
Eu tremi com aquelas palavras. Sabia que estava doente, que podia voltar à minha inércia a qualquer momento, e esse pensamento me assustava. Meu corpo já não era o mesmo. Eu sentia dores inexplicáveis, minhas memórias iam e vinham, além é claro dos meus dedos… Eu não conseguia mais tocar.
– Você precisa desacelerar — Ela continuou — Não posso dizer que concordo com a ideia de trabalho, mas tente pegar o mais leve possível. A sua terapia nos últimos dois meses tem dado resultados?
Dei de ombros.
– Não consigo mais tocar piano. Meus dedos não respondem.
– Isso é normal. — Ela respondeu — Você se recuperou extremamente rápido, o que é bastante raro. Algumas pessoas despertam do coma com sequelas graves, outras não. Você pode se considerar sortuda.
– Mas… — Engoli em seco — Isso é permanente? Eu posso não conseguir tocar novamente?
Senti a sua hesitação. Os olhos dela se desviaram, os dedos batiam em um ritmo acelerado contra a mesa de plástico. Por alguns pouco segundos ela parecia escolher as palavras.
– Talvez sim, talvez não. Tudo é relativo. Se você seguir o tratamento corretamente, existe uma chance de que você consiga voltar a tocar.
– E as chances de não acontecer?
– São grandes — ela disse — Infelizmente, elas são grandes. Mas vamos torcer pelo melhor.
Vamos. Pensei. Afinal, torcer para as coisas darem certo era a única coisa que eu fazia todos os dias.
***
A primeira coisa que fiz quando voltei para casa foi ir para o Clube. Inventei mil desculpas, fiz de tudo para sair de casa. Eu não iria trabalhar, obviamente, mas queria ficar sozinha no único lugar onde as coisas pareciam não ter mudado.
Cumprimentei o Sr. Beraldo e fui direto para o Estúdio. Não estava a fim de conversa, de abraços ou de comentários sobre qualquer droga de recuperação. Eu queria mandar o mundo se danar. Queria gritar, queria gritar, queria gritar, queria...
– Você voltou.
Senti os pelinhos da minha nuca se arrepiarem assim que ouvi a sua voz. Victor. Eu tinha esquecido completamente que você estaria lá. Me virei na sua direção. Você usava as mesmas roupas do outro dia, mas não usava a touca, revelando um cabelo ruivo em um corte mal feito.
– Eu… — Procurei as palavras certas.
Eu não as tinha.
– Já estou de saída — você disse — Não precisa se preocupar.
Tremi. Fervi por dentro.
– Como assim você está de saída? — Falei em um impulso — Você acha que pode fingir que não me conhece e simplesmente ir embora?!
Você parou no lugar, atônito. Seus olhos pareciam maiores, suas mãos batiam nervosamente contra a sua coxa. Era como se uma onda de choque percorresse o seu corpo.
– Clara Fernandes? — Você falou. Sua voz era rouca, mas firme. Seu cenho se franzia, transmitindo toda a tensão que estava dentro de você.
Minha visão se tornou turva. Uma lágrima teimosa escorreu pelo meu rosto.
– Sou eu — respondi — A garota que você atropelou.
Você hesitou e então andou na minha direção. Os passos pesados, nós dois em um transe visceral. Seus olhos percorriam o meu rosto e então o meu corpo e voltavam e voltavam. Minhas mãos corriam nervosamente pela alça da minha bolsa.
– Eu sei que você me odeia — você disse — Eu sei que eu sou culpado. Não espero que me perdoe, mas mesmo assim eu peço desculpas.
– É isso?
– Eu não posso me odiar mais do que eu me odeio. — Você deu de ombros — Então isso é tudo.
Tudo?
Nem pensar.
Uma onda de raiva invadiu o meu corpo. Senti raiva de você como nunca antes. Quando me dei conta, minha mão já havia acertado o seu rosto. Você não reagiu, não parecia surpreso, e ao menos levou a mão ao rosto.
– Me desculpa — você falou – Eu sei que não posso concertar o que eu fiz.
Me afastei, em repulsa completa por você. Minha cabeça parecia mais pesada do que o normal.
– Desculpas, desculpas, desculpas! – Gritei – É tudo o que você tem para dizer?
– Eu não tenho mais nada para dizer. — Você respondeu calmamente — Eu passei os últimos cinco anos da minha vida em uma prisão, me culpando por ter matado uma garota e ter deixado outra em coma. Eu não sei.... Eu...
Você engoliu em seco e acertou o piano mais próximo com o punho, fazendo um som de notas estridentes ecoarem pelo estúdio.
– Sabe como é se sentir culpado todos os dias? — Você continuou, sua voz já embargada — Sabe como é viver em uma cidade onde todos te conhecem como assassino? Sabe o que é se encontrar a pessoa que você feriu e não saber o que fazer?
Você começou a tremer. Parecia querer chorar, mas não se permitia. Eu senti meu coração apertar. Era como se tudo a minha volta estivesse desmoronando.
– Eu te culpo — falei — E te odeio. E não preciso que você sofra mais pelo que fez. Eu quero que você suma, eu quero seguir a minha vida sem que você apareça nas minhas lembranças novamente.
Me virei, hesitei e por fim caminhei para a saída. Minhas pernas cambaleavam.
– Clara — você falou — Eu não quero problemas, eu quero me redimir. Isso é um pecado?
– É, Victor. — Murmurei — É o seu pecado.
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