Notas iniciais
TRILHA SONORA: Sarah Jaffe - Vulnerable - https://youtu.be/tPdfZL2FhFQ Sarah Jaffe - Clementine - https://youtu.be/i3AtRBlRQ-I Olá! Depois de várias xícaras de café, terminei mais um capítulo para vocês! Espero que gostem e curtam a leitura. Finalmente temos o tão esperado encontro do nosso atropelador e Clara. O que nos aguarda? Leia para saber! PS.: Um super obrigada para @LaurenPS que me recomendou Vulnerable da Sarah Jaffe e simplesmente me fez viciar! Um beijo! Jojo.

DEPOIS

Eu estava sentada na cadeira do consultório, a cabeça baixa e os olhos fixos no piso de azulejos brancos e sem graça. Depois de uma série de exames chatos e complicados, estava ouvindo um discurso sobre como eu precisava cuidar mais da minha saúde e isso e aquilo.

– Você está sobre muito estresse. — A doutora Elza lançava um olhar preocupante para a minha mãe, que permanecia atenta a cada palavra dela.

Desde que eu tinha acordado no hospital, ela era a médica que mais me ajudava. Talvez fosse por ser bem nova, talvez uns vinte e nove anos, e ainda não tivesse pego os hábitos dos outros médicos. Elza me lembrava de Joana, não só na aparência, mas também nas manias. As mãos nervosas que gesticulavam no ar, o olhar penetrante e uma aura reconfortante que fazia qualquer se sentir um pouco leve.

– O que aconteceu hoje não foi extremamente grave — ela falou — Mas me preocupa. Esse desmaio pode ser uma sequela ou um indício de algo pior.

Eu tremi com aquelas palavras. Sabia que estava doente, que podia voltar à minha inércia a qualquer momento, e esse pensamento me assustava. Meu corpo já não era o mesmo. Eu sentia dores inexplicáveis, minhas memórias iam e vinham, além é claro dos meus dedos… Eu não conseguia mais tocar.

– Você precisa desacelerar — Ela continuou — Não posso dizer que concordo com a ideia de trabalho, mas tente pegar o mais leve possível. A sua terapia nos últimos dois meses tem dado resultados?

Dei de ombros.

– Não consigo mais tocar piano. Meus dedos não respondem.

– Isso é normal. — Ela respondeu — Você se recuperou extremamente rápido, o que é bastante raro. Algumas pessoas despertam do coma com sequelas graves, outras não. Você pode se considerar sortuda.

– Mas… — Engoli em seco — Isso é permanente? Eu posso não conseguir tocar novamente?

Senti a sua hesitação. Os olhos dela se desviaram, os dedos batiam em um ritmo acelerado contra a mesa de plástico. Por alguns pouco segundos ela parecia escolher as palavras.

– Talvez sim, talvez não. Tudo é relativo. Se você seguir o tratamento corretamente, existe uma chance de que você consiga voltar a tocar.

– E as chances de não acontecer?

– São grandes — ela disse — Infelizmente, elas são grandes. Mas vamos torcer pelo melhor.

Vamos. Pensei. Afinal, torcer para as coisas darem certo era a única coisa que eu fazia todos os dias.

***

A primeira coisa que fiz quando voltei para casa foi ir para o Clube. Inventei mil desculpas, fiz de tudo para sair de casa. Eu não iria trabalhar, obviamente, mas queria ficar sozinha no único lugar onde as coisas pareciam não ter mudado.

Cumprimentei o Sr. Beraldo e fui direto para o Estúdio. Não estava a fim de conversa, de abraços ou de comentários sobre qualquer droga de recuperação. Eu queria mandar o mundo se danar. Queria gritar, queria gritar, queria gritar, queria...

– Você voltou.

Senti os pelinhos da minha nuca se arrepiarem assim que ouvi a sua voz. Victor. Eu tinha esquecido completamente que você estaria lá. Me virei na sua direção. Você usava as mesmas roupas do outro dia, mas não usava a touca, revelando um cabelo ruivo em um corte mal feito.

– Eu… — Procurei as palavras certas.

Eu não as tinha.

– Já estou de saída — você disse — Não precisa se preocupar.

Tremi. Fervi por dentro.

– Como assim você está de saída? — Falei em um impulso — Você acha que pode fingir que não me conhece e simplesmente ir embora?!

Você parou no lugar, atônito. Seus olhos pareciam maiores, suas mãos batiam nervosamente contra a sua coxa. Era como se uma onda de choque percorresse o seu corpo.

– Clara Fernandes? — Você falou. Sua voz era rouca, mas firme. Seu cenho se franzia, transmitindo toda a tensão que estava dentro de você.

Minha visão se tornou turva. Uma lágrima teimosa escorreu pelo meu rosto.

– Sou eu — respondi — A garota que você atropelou.

Você hesitou e então andou na minha direção. Os passos pesados, nós dois em um transe visceral. Seus olhos percorriam o meu rosto e então o meu corpo e voltavam e voltavam. Minhas mãos corriam nervosamente pela alça da minha bolsa.

– Eu sei que você me odeia — você disse — Eu sei que eu sou culpado. Não espero que me perdoe, mas mesmo assim eu peço desculpas.

– É isso?

– Eu não posso me odiar mais do que eu me odeio. — Você deu de ombros — Então isso é tudo.

Tudo?

Nem pensar.

Uma onda de raiva invadiu o meu corpo. Senti raiva de você como nunca antes. Quando me dei conta, minha mão já havia acertado o seu rosto. Você não reagiu, não parecia surpreso, e ao menos levou a mão ao rosto.

– Me desculpa — você falou – Eu sei que não posso concertar o que eu fiz.

Me afastei, em repulsa completa por você. Minha cabeça parecia mais pesada do que o normal.

– Desculpas, desculpas, desculpas! – Gritei – É tudo o que você tem para dizer?

– Eu não tenho mais nada para dizer. — Você respondeu calmamente — Eu passei os últimos cinco anos da minha vida em uma prisão, me culpando por ter matado uma garota e ter deixado outra em coma. Eu não sei.... Eu...

Você engoliu em seco e acertou o piano mais próximo com o punho, fazendo um som de notas estridentes ecoarem pelo estúdio.

– Sabe como é se sentir culpado todos os dias? — Você continuou, sua voz já embargada — Sabe como é viver em uma cidade onde todos te conhecem como assassino? Sabe o que é se encontrar a pessoa que você feriu e não saber o que fazer?

Você começou a tremer. Parecia querer chorar, mas não se permitia. Eu senti meu coração apertar. Era como se tudo a minha volta estivesse desmoronando.

– Eu te culpo — falei — E te odeio. E não preciso que você sofra mais pelo que fez. Eu quero que você suma, eu quero seguir a minha vida sem que você apareça nas minhas lembranças novamente.

Me virei, hesitei e por fim caminhei para a saída. Minhas pernas cambaleavam.

– Clara — você falou — Eu não quero problemas, eu quero me redimir. Isso é um pecado?

– É, Victor. — Murmurei — É o seu pecado.

Notas finais
Gostou? Não gostou? Comente! Comentários positivos são sempre bem vindos! PERGUNTA DA SEMANA: Se você estivesse no lugar da Clara, como você teria reagido ao comportamento de Victor?