4Ex
1 Capítulo 1 - Tenho uma irmã vândala
Notas iniciais
Meu nome é Higgor Ciffer, conhecido pelos habitantes da dimensão infernal como um dos filhos de Lexon. De seus quinze herdeiros, sou o segundo na linha de sucessão do Trono das Três Horas, a primeira é minha irmã mais velha Kylie. Porém, todos dizem que ela não está apta para se tornar a rainha pois prefere viajar entre as dimensões do que ajudar nos trabalhos do pai.
Eu faria o mesmo, porém, sempre que tentava fugir era impedido pelos guardas. "Como se não bastasse aquela vândala traidora da sua irmã, até você quer abandonar o reino? Não siga os passos dela." diziam eles enquanto me empurravam para longe da sala de portais. Por incrível que pareça, ela era a única irmã que cheguei a conhecer, de dois em dois anos ela visitava o reino e ia embora, sua aparência era sempre a mesma, não importava quanto tempo passasse.
Lexon sempre dizia que não ligava se Kylie fosse sua substituta, mas sempre haviam indiretas em sua fala tentando me convencer a ser o próximo no trono. Era de certa forma tentador, mas não queria isso para mim, até porque meu senso de liderança era tão bom quanto minha mira: horrível (não tem jeito, eu definitivamente nasci para lutar corpo-a-corpo) e meu maior sonho era sair daquele lugar, seja lá como.
A dimensão infernal é dividida em vinte e quatro reinos, cada um comanda cada uma das horas do dia de todas as dimensões. O reino mais forte é o da Meia-Noite, em segundo lugar do Meio-Dia e em terceiro o das Três Horas, no qual Lexon, meu pai, comanda.
Dos outros treze herdeiros abaixo de mim, a maioria foi gerado diretamente em outras dimensões, sendo a dimensão humana a que mais carrega sangue demoníaco, não só vindos do meu pai. Doze anos atrás haviam apenas quatorze de nós, mas chegou o relatório de que mais um havia entrado na lista, porém, em momento algum desses tempos Lexon havia saído da sala do trono, já que estava em momentos complicados no trabalho, o que me levou á conclusão de que filhos dos filhos do meu pai também contavam como herdeiros.
De qualquer forma, só o que queria era sair daquela maldita rotina e daquele mundo.
Meu pai estava sentado no trono de modo desleixado (como sempre) e me encarava sorrindo e passando a mão em seu cabelo negro, os botões da camisa estavam desabotoados deixando seu abdômen exposto e seus olhos vermelhos brilhavam. Eu ficaria desconfortável ao ver alguém desse jeito (ainda mais com essa cara de safado), porém, considerando que se tratava do Lexon... normal.
— Tenho um trabalhinho pra você — disse ele, abrindo mais ainda seu sorriso travesso
— Mas eu passei o dia cuidando da papelada! — respondi
— Tanto faz, dessa vez é uma missão especial
— Missão especial? — levantei a sombrancelha direita
— Sim, preciso que busque sua irmã... hã... como é o nome dela mesmo?
"Será que ouvi direito?! Ele quer mesmo que eu vá em uma missão?!"
Todas as vezes que dizia que tinha uma missão para mim, me entregava vários papéis para eu organizar. Era realmente difícil de acreditar naquilo.
— Kylie, o nome dela é Kylie. — respondi
— Sim, ela mesma.
"Nossa, que exemplo maravilhoso de pai."
— M...mas eu nunca fui para outra dimensão! Nem sei em qual delas ela está!
— Na dimensão humana, aonde mais estaria?
— Mas ela não é viajante entre as dimen...?
— Você está muito desinformado, filhão — ele ri alto — ela não sai de lá faz quase três anos
— Como você sabe?
— Chequei o histórico dos portais
— Hum...
— Você aceita a missão ou não? Todos que mandei não retornaram, provavelmente mortos pela própria Kylie. Como você é quem mais tem afeição com ela por aqui...
"Mas... Só dizemos 'oi' um para o outro de dois em dois anos..."
— Aceito.
— Vê se não morre, caso ela não volte você quem vai assumir o trono.
— Então você a quer de volta porque... ESPERA, VOCÊ ESTÁ MORRENDO?
Não sei porque eu estava preocupado, afinal, nunca liguei muito pra ele mesmo.
— Lógico que não, doente mental. Eu pareço estar morrendo? — falou ele apontando para o próprio corpo — eu só estou com preguiça de continuar, já está na hora de ter meu descanso depois de tantos séculos trabalhando aqui
"Mas... você só controlava o..."
— Toma — ele apontou o dedo para minha testa e uma luz azul me atinge, me jogando no chão
— O QUE FOI ISSO?! — reclamei, com a mão na testa
— Só implantei conhecimento básico do mundo humano na sua mente, vai ser ativado assim que chegar lá. Agora VÁ LOGO, já deveria ter voltado — ele cruza os braços, lembrando uma criança birrenta
— O...ok.
Fui até a sala dos portais imediatamente, pela primeira vez os guardas nem ao menos tentaram me impedir.
— Vista isso — disse um guarda com panos na mão — suas roupas são consideradas "estranhas" ou "formais demais" por lá.
— Essa é a roupa do papai?
— Sim.
Peguei as vestimentas, haviam falado tempos atrás sobre roupas que o papai trazia de lá para quando fosse voltar, pelos relatos pareciam bem mais diferentes e estranhas. Fui até o quartinho e tirei minhas roupas, comparando com as que havia recebido. Seria estranho para mim usar roupas tão leves e finas, uma camisa bege largada de manga longa e uma calça, junto com sapatos nos quais era necessário fazer um laço. Me olhei no espelho logo depois.
"Eles realmente usam isso?" — pensei — "...sinto que meu cabelo está escurecendo aos poucos, antes não era tão azul assim"
Suspirei e me direcionei até o portal, senti meu corpo estremecer e um frio estranho na barriga.
— Quer que empurre o senhor? — perguntou um dos guardas
— Não, obrigado.
Respirei fundo, fechei os olhos e me joguei.
"Finalmente."
Fale com o autor