42 - Violet Hill
1 Eu sigo você
Notas iniciais
Prólogo:
“Em nenhum momento da vida eu poderia esperar que fosse ele. Passei todos esses anos à espera do alfa, para no fim eu me deparar com isso. Nossos inimigos nos cercam enquanto procuramos uma maneira de poder atacar. Vamos morrer. Eu penso. O alfa fica no meio da clareira e faz todos se curvarem diante dele, quando dou por mim, também estou de joelhos em sua frente. Eu estou prostrada diante do grande lobo preto. Minha matilha desaba no chão junto comigo, a lealdade deles permanece intacta. Assim como a minha.”
Parte 1: O Baile
A loba branca desfila pelo baile de máscaras. Em seu olhar ela carrega um mistério e em segredo um pouco de morte. Seus olhos azuis vagueiam pelo enorme salão à procura de seu amigo. Ela arruma sua máscara de loba um pouco para baixo, ergue uma parte de seu vestido para rodopiar ao ritmo da música, enquanto seus pés são eficientes e habilidosos. Seu corpo automaticamente para de se mover e treme em uma postura de ataque. Ela sente o cheiro extremamente doce impregnar em suas narinas. O cheiro mais doce e puro no mundo. Tão doce que seu nariz queima ao inala-lo. O cheiro de um mármore. O cheiro que pode trazer a morte. O cheiro de um vampiro.
Ela sente ele roçar as mãos em sua cintura. Seu coração bate como as hélices de um helicóptero. Ela não pode parar. Seus pensamentos levaram apenas alguns segundos. Ela retoma a postura antes mesmo que alguém tenha percebido o tremor começando em seu corpo. A loba branca acelera os passos e se choca nas costas de seu amigo. Seu amigo não sabe a verdade. Ele não sabe que o mundo em que ele vive é totalmente diferente e inimaginável, do padrão normal e comum em que ele acredita.
O garoto está usando um terno preto e uma gravata cinza. Em seu rosto tem uma máscara de lobo castanho avermelhada, mesmo ele não sendo parte da alcateia de sua amiga Sam.
Em sua mente ele acha que a loira o está chamando para dançar. Ele fica de frente para ela, mas se surpreende quando a loba branca o puxa para longe da multidão, sem perder o compasso da dança. O garoto não compreende a velocidade e a força dela em certos momentos.
Ela dança pela pista enquanto o leva para os fundos do salão em uma sala não utilizada.
O vampiro continua com os olhos nela, ele pensa em segui-la, mas acarretaria problemas com o amigo dela.
A música I Follow Rivers de Lykke Li nunca definiu melhor o momento, já que os pensamentos dele se encaixam perfeitamente na letra da canção que fazem todos pular no salão.
Sam tranca a porta da sala sabendo que está sendo vigiada e se vira para o amigo. O garoto não sabe como reagir quando ela se aproxima bastante e retira sua máscara de loba branca.
— Você os viu? — ela pergunta em voz baixa.
— Sim — ele não consegue parar de olhar o quanto o vestido branco valoriza as curvas do corpo dela e está perdendo o fio do pensamento quando o vê aberto na coxa esquerda. Ele se sente completo em sua presença.
Ela fica mais próxima dele, é o suficiente para o Gibby achar que finalmente vai conseguir o que sempre quis.
— Onde eles estão?
Ele abre a boca para responder, mas ela coloca a sua mão sobre a boca do rapaz empatando-o de falar. Ela sabe que os outros podem ouvi-lo, mas o garoto não sabe disso. Gibby Gibson apenas está encarando tudo como uma missão especial, mal sabe que será cúmplice de dois assassinatos.
A garota loira olha nos olhos dele e pede de forma silenciosa que ele aponte onde os que ela procura se escondem. Ele não precisa ouvi-la perguntar. Ele tem uma ligação profunda com ela. A loba branca sabe disso, mas para o garoto significa outra coisa. O rapaz inspira e aponta para cima dizendo que estão no teto. A loira retira a mão da boca dele que delicadamente acaricia a cintura dela. Ela não se contém, sorri e se inclina para beijar-lhe o rosto. Ela não sabe por que fez isso, mas se sentiu um pouco melhor, ter essas sensações com ele a fazia se sentir bem. Fazia ela se sentir humana.
Ambos saíram da sala em silêncio, como se nada tivesse ocorrido. Ela, porém não pode agir enquanto o vampiro a observa de longe, então terá que usar uma de suas amigas como cúmplice, mas quem será? Wendy Dornan é bonita da sua maneira, ruiva dos olhos azuis e tem certos poderes fascinantes, mas Carly é a queridinha e talvez o vampiro se interesse por ter a companhia dela. Samantha sempre desconfiou que ele ficasse fascinado pela beleza da Carly, o que a preocupa de uma maneira estranha, algo parecido com ciúmes.
Sam localiza Carly pelo seu cheiro de morango e lilás. A morena se mexe ao ritmo da música usando uma máscara veneziana verde esmeralda e um vestido azul-bebê.
A loba não coloca a máscara de volta enquanto desfila até ela sem chamar a atenção, mas já está acostumada a receber olhares pelo jeito de ser. A dama indomável. A loira intocável.
Ela pega a amiga pela mão e a abraça. Leva a boca ao ouvido da garota que já sabe que irá fazer alguma coisa.
Carly Shay é a amiga humana que anda naquela linha tênue entre a vida e a morte. Ela fica perto demais do sobrenatural, sabe que será apenas uma questão de tempo até ser vítima de um dos lados.
— O distraia — Sam sussurra no ouvido da melhor amiga — O chame para dançar.
— Seja rápida — Carly sussurra de volta e dá as costas para a loira.
Com passos rápidos a morena atravessa a pista de dança olhando para seu alvo com intensidade. Ela deveria estar preocupada por ele ser um vampiro, mas não é o momento de temer alguma coisa. Ela gostaria de negar que ele é atraente, porém não pode. Ele é perfeito além do limite. Carly não nega sentir algo profundo pelo vampiro de cabelos e olhos castanhos, mas ela sabe que no fundo do seu coração não chega a ser uma paixão, é apenas curiosidade. Carly sabe quem ama de verdade, mas também sabe que a pessoa que ama jamais seria certa para ela.
O vampiro tem o rosto coberto até o nariz por uma máscara preta e branca com o símbolo Yin-Yang. Ele está trajando um smoking comum, mas nada fica simples nele. A beleza que irradia de sua postura é poderosa demais. A quem diga que seu dom é transmitir para todos o que ele quer, sendo assim, ele consegue iludir as pessoas a pensarem que estão vivendo um momento perfeito, ou tendo algum tipo de sentimento por ele, quando na verdade é tudo uma ilusão que ele projetou. Mas ninguém que tem conhecimento dele sabe se isso é verdade ou não. Ninguém conhece qual é o seu dom. Ele esconde isso muito bem.
Freddie observa Carly com um sorriso. Ele vai à sua direção enquanto ela caminha até ele.
— Dança comigo? — a voz da garota de olhos castanhos é sedutora.
Fredward Benson sabe que Carly está sendo usada como distração pois, ele acaba de perder a loira de vista. Ele sabe que terá que arcar com as consequências depois, por hora deveria desfrutar de uma dança com a morena.
— Com certeza — ele responde a pergunta dela e delicadamente pega sua mão a conduzindo para a pista de dança. Ele não se surpreende por Carly não se encolher com o toque frio da sua mão, a garota já está acostumada com a rocha fria que é o corpo dos vampiros.
Freddie puxa a garota para si e os dois giram pelo salão. Ele gosta de olhar nos olhos dela, não quer perder a oportunidade de fazê-la corar por baixo da máscara. Fredward gosta de ouvir o coração dela bater mais rápido. Mas Freddie também sente sua garganta arder em chamas com a vontade de beber até a última gota do sangue dela, mas ele ama Carly mesmo ela possuindo o sangue mais desejoso do universo.
Ele sente algo pela garota frágil em seus braços, mas sabe que se seu coração pudesse bater, ele bateria intensamente e de forma incontrolável pela loba branca. Freddie se censura mentalmente por isso e dá graças a Deus por seu amigo Nevel não estar por perto.
Nevel pode ler os pensamentos de todos. Para Freddie é difícil tentar não pensar em seus sentimentos conflitantes pela loira de olhos azuis, alfa de uma tribo onde garotos e até mesmo garotas se transformam em lobos enormes quase do tamanho de cavalos. Jamais na história existiu um caso em que um lobo se apaixonasse por um vampiro, ou vice-versa... Era a mentira que Freddie acredita e achava que não era hoje que isso iria mudar.
Primeiramente lobos e vampiros são inimigos naturais, sua própria natureza se repele. Ao estarem perto de um lobo, os vampiros sentem a vontade incessante de matar. Os lobos ao estarem perto de vampiros, clamam pela destruição. Seria uma batalha horrenda colocar esses seres poderosos um de frente para o outro. Só houve uma vez em que eles lutaram em conjunto, infelizmente isso não empatou de uma tribo inteira ser morta. A batalha de Violet Hill jamais será esquecida. E muito menos apagada da mente de um vampiro.
Carly entrelaça o pescoço do rapaz. Ela sabe que ele pode mata-la com um simples movimento errado, mas ela também sabe que Freddie jamais iria machuca-la ou feri-la. O importante agora é mantê-lo ocupado na dança, enquanto sua melhor amiga detona alguns assassinos.
— Você sabe que lidarei com ela depois — Freddie avisa a Carly solenemente.
— Se você conseguir pega-la — Carly ri e coloca a boca no ouvido dele.
Freddie tranca a respiração quando o fogo na garganta aumenta. Seus olhos devem estar ficando pretos e as veias ao redor das pálpebras devem estar se sobressaltando.
— Carly... — ele sussurra se distanciando. — Esse mundo é perigoso demais para você.
— A Sam me protege — ela dá um passo para trás.
Ele ergue a mão e acaricia o rosto macio e quente dela.
— Como ela pode te proteger, se ela é o perigo?
Carly não consegue responder, o gesto inesperado dele a deixa sem palavras. Freddie poderia continuar nesse jogo perigoso com a Carly, mas ele escuta ao longe o som de passos no telhado.
Sam sobe as escadas até alcançar a porta que leva ao teto do salão. Ela sente de longe o cheiro amadeirado e um tanto animalesco dos seus rivais. Sua mão abre a porta e ela encontra dois homens altos, fortes, enormes e perigosos. Qualquer outra garota fugiria ou gritaria por socorro enquanto eles avançam para atacar. Mas ela não é qualquer garota. Ela é uma loba alfa, de uma tribo que tem que ser protegida custe o que custar. Eles podem ter tamanho grande na forma humana, mas não chegariam nem ao seu ombro em forma de lobo.
Sam tem que agir rápido. Seus pensamentos são precisos e ela rapidamente derruba o primeiro com um soco no pescoço, e na velocidade da luz ela desloca o braço do outro. Ambos caem no chão, mas é questão de tempo até os ossos do segundo voltar ao lugar e o primeiro se erguer para mata-la. A loira se abaixa e agarra um pelos cabelos curtos. Para um humano seria impossível enxergar, mas para Sam a escuridão não é um problema. Sam bate o rosto do homem contra um sistema de canos, em segundos ele perde as forças enquanto seu rosto é amassado. O segundo agarra o braço esquerdo dela, porém ela é boa no que faz e quando o cara mais alto tenta quebrar seu braço, ela o puxa para mais perto e chuta o lado direito do seu corpo, o som das costelas sendo quebradas é música para seus ouvidos.
A loira mata o primeiro torcendo seu pescoço, e logo após arrancando seu coração com as próprias mãos. Ela mata o segundo que está tendo espasmos no chão, chutando seu peito até ele afundar sobre o seu Scarpin e sente quando a ponta do salto atinge o coração. Para se certificar que ele está mesmo morto, retira o coração dele e o joga em algum lugar do telhado.
Os outros chegarão em breve para recolher os corpos antes que a polícia apareça. Então será um serviço limpo. Sam já está tão acostumada a matar dezenas de inimigos que ameaçam tomar as terras de sua tribo, que sabe como trucida-los sem ficar com um fio de cabelo fora do lugar.
Seu vestido continua intacto. Apenas as luvas que faziam parte do modelo estão carregadas de sangue fresco. Ela joga as luvas e sua máscara de loba em cima dos corpos por que gosta de ser dramática, e para enviar uma mensagem aos que pensam que podem mata-la.
Samantha pensa em sair pela porta da frente, sendo assim teria que retornar para a festa, porém ela não pode correr o risco de topar com o vampiro moreno que sabe o que ela fez. Sam decide pular do telhado.
Rapidamente em uma velocidade inacreditável ela corre para o fim do telhado e se joga para cair de forma exata no estacionamento. Ela anda normalmente até a caminhonete emprestada de um de seus garotos. Ela chama assim os membros de sua matilha, todos pertencem a ela de uma forma pura.
Sam estica a mão para abrir a porta do carro, mas somente tem tempo de se desviar quando o vampiro pula em sua direção com as presas expostas para mata-la. Ela joga o vestido para trás e faz posição de ataque.
Sendo rápido o vampiro encolhe as presas, guarda sua máscara no bolso e encosta-se à caminhonete com um sorriso sedutor demais para a loba.
— É impossível você conseguir me atacar correndo contra o vento, dá para sentir seu cheiro do outro lado da cidade — ela cospe no chão mostrando nojo da criatura em sua frente. Seus instintos avisam que ela deve mata-lo aqui e agora, mas uma parte de si a qual ela mantém em segredo de todos, menos de Carly e Wendy, abafa os instintos violentos por ter algo em comum com o vampiro atraente.
— Um dia eu irei surpreendê-la e depois o trabalho da sua matilha de cães fedorentos será limpar a sua sujeira ou que sobrar de você do chão — Freddie diz como se fosse uma promessa.
A loira rosna para ele com raiva, seu corpo treme e a fumaça sobe em volta dela, falta pouco para ela se transformar aqui e agora.
— É o que veremos Benson — ela se acalma aos poucos.
— Pare com essas matanças, acarretará problemas para o meu clã.
— Que se foda o seu clã — ela arrisca dar um passo na direção dele, o cheiro doce queima seu nariz, então ela tem que ficar sem respirar por um tempo. — Eu estou protegendo a minha alcateia.
— Bando de crianças que não sabem cuidar de si mesmas — o vampiro debocha sem medo.
— Elas sabem se cuidar, mas ao contrário de vocês, nós nos importamos uns com os outros.
— E quem disse que não nos importamos? A única diferença é que você os controla, e eu dou o livre arbítrio aos meus.
— Eu não os controlo — ela fica com o rosto a poucos centímetros do dele. — Eu os comando — sua respiração volta em sua face, isso o assusta por que ela não tem cheiro de cachorro molhado ou cervo atropelado, tem um cheiro almiscarado, mas animal o suficiente para ele lembrar-se do que ela é.
O vampiro passa os braços em volta da cintura dela e não a deixa recuar, o que faz os pensamentos dele ficarem confusos. Ele sabe o que sente por ela e sabe que isso é extremamente perigoso. "Cortar o mal pela raiz" foi o que seu amigo André lhe disse, mas Freddie jamais conseguiria mata-la.
— Apenas um aperto mais forte para eu partir você ao meio em minhas mãos... Ou apenas uma mordida no seu pescoço seria fatal e você cairia dura em questão de segundos — ele gosta de deixar a voz baixa ao conversar com ela.
Ela ri para irrita-lo.
— E arriscaria ter todos do seu clã abatidos, inclusive sua irmã humana Tori, pela minha matilha? Não Freddie, eu sei que não. Você preza demais a segurança deles.
Freddie não pode contradizê-la.
— Sim. Você está certa — ele a aperta contra seu peito.
Sam roça os lábios nos dele, com a intenção de provoca-lo, mas ela não nega sentir um calor mais forte no peito ao sentir o corpo gelado dele com o seu corpo quente. É fogo e gelo.
— Eu devia denuncia-lo aos antigos caçadores da cidade — ela se refere a um conselho secreto existente nos becos de Seattle.
— Eu denunciaria você primeiro — ele sorri contra a bochecha dela.
— Certamente não teria nada de errado com os moradores da tribo. Vinte e quatro pares de cromossomos? Uma simples alteração genética talvez... Temperatura acima do normal? Uma febre hereditária passada de geração para geração... Crescimento acelerado e falta de envelhecimento em alguns? Mesma coisa, um distúrbio genético... — ela se gaba de poder se safar e manter o segredo da tribo escondido.
— Interessante Puckett — ele dá com a língua nos dentes.
— Mas e vocês? Aberrações certamente... Não podem sair no sol por que se queimam até virar cinzas. Não podem fazer exame de sangue por que não tem um pingo sequer correndo em suas veias. Não podem ouvir os batimentos cardíacos por que seus corações não batem. São apenas mortos-vivos que se deslocam por aí, isso sim daria uma bela caçada — sua boca fala contra a orelha do vampiro, onde ela aproveita para morder o lóbulo frio dele.
Fredward se sente excitado por ter Sam em seus braços, ainda mais com ela encostando-se em seu corpo o tempo todo. Ele engole em seco.
— Bom ponto lobinha.
— Eu sei — ela se afasta rompendo o contato com ele fingindo sentir repulsa.
Ele não demonstra incômodo, apenas raiva dos problemas que tem com ela. Esses problemas não são de agora, são de um século atrás.
— Te darei tempo para fugir, antes que eu cace você por ter matado aqueles homens no telhado.
— Eles eram assassinos — ela fica com raiva de novo.
— E você também é — ele lembra e abre a porta da caminhonete para que ela entre.
— Eu sei que no fundo você não vai me seguir para se certificar que eu vou devolver o carro na reserva e retornar para casa. Você vai me seguir por quê quer me proteger. Você quer garantir a minha segurança mesmo eu sendo mais forte e mesmo eu sabendo me proteger muito bem sozinha — ela toma coragem para falar o que pensou das outras vezes. Carly a encorajou dizer como se sentia em relação ao Freddie ficar no seu pé dia e noite, mas Sam não tem coragem de revelar seus sentimentos, mas teve coragem de dizer os dele.
Freddie inspira para ficar calmo, quando a loira entra na picape, ele fecha a porta e diz a ela:
— Vá embora daqui Sammy.
Ela não precisa responder, simplesmente dá partida no carro e o guia pelas ruas escuras.
Sam dirige para a saída de Seattle por uma estrada não muito movimentada, onde leva para a reserva indígena Klautriny. Ela não mora na reserva como todos os alfas devem fazer e ninguém entende o seu motivo, mas ninguém ousa questionar sua decisão. Sam esconde um segredo e se um dia descobrirem poderá usar a desculpa que morou longe para poupa-los. Ela os manteve longe do perigo.
Sam sente a presença de algo correr ao lado do carro no meio das árvores. Ela freia a picape e sabe que não é o Freddie, ele não romperia o tratado e não poderia avançar tão longe. Quem está correndo ao seu lado é um dos seus meninos.
Ela desliga o veículo e sai pisando duro até o acostamento erguendo o vestido para não sujar. Sua mente e seus ombros se endireitam e ela já pretende usar seu tom de alfa, o que ela não gosta de fazer, mas tem vezes que é necessário.
— Saia agora e venha até aqui Dice — ela ordena com o tom de poder ressoando em sua voz.
O pequeno lobo cinza (somente para os outros lobos da matilha, porque para os lobos normais ele seria três vezes maior) com leves tons de preto espalhados pelo corpo desengonçado, aparece no meio das árvores e se aproxima com as orelhas curvadas. Ele se sente envergonhado pela repreensão dela.
Ele gane baixinho para Sam, que sente o coração amolecer. Ele só queria se sentir útil e proteger os limites enquanto os outros estavam fora.
— Dice nós já falamos sobre isso, seu trabalho não é fazer patrulhas sozinho. Você tem apenas treze anos, vai acabar se ferindo se entrar em uma batalha com algum vampiro ou lobo desgarrado, pode até mesmo acabar morto e eu não posso deixar que isso aconteça com você — Sam cruza os braços e Dice responde com um uivo reprimido. — Se transforme de volta, leve a caminhonete para a tribo e fique lá até os outros voltarem da festa, e isso é uma ordem.
Ela se vira para abrir a porta do passageiro. Normalmente nos carros dos garotos da tribo, tem shorts ou calças espalhadas pelos bancos ou no porta-luvas. Nunca se sabe se uma transformação de emergência deve ser feita e não é bom sair sem roupa por aí.
Sam pega um shorts jeans e se vira novamente para o Dice. Ele é o mais novo membro da tribo, dominou a transformação mais rápido que alguns membros mais velhos. Consegue voltar à forma humana colocando o peso nas patas traseiras assim rapidamente ficando em pé. Ele conhece Sam desde que nasceu e não se importa em ter que ficar nu na frente dela. Para todos os efeitos ele é apenas uma criança, só tem inocência nele e Sam sabe disso.
Dice volta para a forma humana e rapidamente se veste com o shorts que Sam entregou a ele.
— Eu não tenho idade para dirigir. — ele reclama olhando para o carro de seu amigo Brad, que preferiu ficar em casa a ir ao baile de máscaras com Griffin, Jade, Beck e Spencer (irmão de Carly), os outros lobos da alcateia.
— Mas você sabe dirigir, não me engana garoto que eu te conheço — Sam procura o zíper do vestido, mas Dice permanece em sua frente, ela não pode se despir na frente do garoto. — No carro, agora — ela aponta para a picape. Dice resmunga e entra na porta do passageiro. Ele coça o braço direito onde está a tatuagem que todos ao entrarem na alcateia precisam fazer, um círculo com dois lobos em rabiscos indígenas completados com outros símbolos da tribo. — Eu irei jogar o vestido e minhas outras peças de roupa no acostamento, então saia, pegue minhas roupas, leve para a reserva, coloque em um saco de papel e quando puder deixe na minha casa — Sam explica a ele.
— Por que não devolve o carro comigo para o Brad? Você nunca está na reserva com a gente — Dice reclama com a Sam.
— Porque eu já lhe disse o que fazer — Sam responde e corre para as árvores.
Rapidamente ela retira o vestido e as roupas íntimas, joga no acostamento e adentra mais fundo na floresta. Em questão de segundos ela se transforma em outra coisa, em uma coisa bela demais para ser desse mundo. E o que tem de beleza tem de perigo. Ela se transforma em uma grande loba branca.
Sam corre em direção à sua casa, que fica a menos de seis quilômetros da reserva. Ela sente a dor e o vazio no peito por não morar onde deveria, mas sente certa força e felicidade por ter uma matilha em seu peito e o espírito de liderança. Ela nasceu para ser um alfa, mesmo não sendo o original. Ela é o maior lobo da alcateia. Os pelos são brancos como a neve. Os olhos azuis como o céu.
Sam escuta somente as coisas em sua volta, como suas patas que batem na terra molhada. Ninguém está na forma de lobo no momento, isso a dá silêncio nos pensamentos. Quando todos os membros estão em sua forma animal, ela pode escutar os pensamentos de cada um, assim como todos eles, porém por ela ser a alfa, ninguém pode escutar seus pensamentos a não ser ela mesma, mas ela teme que um dia isso possa mudar. Guardar segredos é a única coisa que a faz ser quem é. Ter seus pensamentos e sentimentos mais obscuros revelados não seria um bom acontecimento para a tribo e certamente seria inédito na história.
A loba branca chega à sua casa em minutos. Ela não pode saltar do chão até a janela do segundo andar como loba, então olha em volta para se certificar que ninguém a observa. Já faz tempo que os vizinhos não comentam sobre o enorme lobo branco rondando as casinhas da pequena vila.
Sam volta à forma humana e salta na janela. Ela já não se incomoda mais com a própria nudez por que sabe que é uma característica principal dessa vida, só é ruim quando lê isso nos pensamentos dos outros. Sam tem o gênio forte, é mais agressiva do que Jade e muito mais chata do que Brad, o que a faz perder a calma e se transformar com frequência. Todos sempre olham alguma coisa de relance e é horrível escutar os pensamentos descarados deles depois. Ela não pode culpa-los por a desejarem. Ela sabe que é extremamente linda e brinca com o fato de ter um excelente pedigree, mas dá graças a Deus por existir o tal imprinting.
O imprinting só ocorre nos membros masculinos... É isso que Sam. Beck Oliver teve imprinting com Jade West. Griffin, Brad, Spencer e Dice ainda não sofreram imprinting por ninguém, sendo assim nenhum deles ousa se apaixonar por Sam, sabendo que em algum momento da vida teriam que ficar com a pessoa realmente escolhida e não com a loira de olhos azuis, bonita demais para todos.
Sam rapidamente coloca um sutiã e uma calcinha, desliza um moletom velho sobre o corpo e se enrola nas cobertas. Ela pode ser a garota mais forte do planeta, mas se sente exausta após ter que matar dois inimigos que estavam causando problemas. O bom de ser o alfa é que ninguém pode dizer que o que ela fez foi errado e ninguém pode questionar suas ações... Seu último pensamento antes de adormecer é o mesmo de todas as noites: "Eu sou Samantha Puckett e nenhum outro lobo é tão poderoso quanto eu”.
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