42 - Violet Hill
5 Contos
Notas iniciais
Parte 5: Declarações
Povs Sam:
Eu estaciono o Audi A5 do Freddie na Rua Emerson. Eu sinto o cheiro de sangue próximo. Minha garganta arde e eu me odeio por sentir sede. Eu odeio ser metade vampira. Eu odeio isso amargamente e com todas as minhas forças. Eu saio do carro. Pulo a cerca do parque e adentro na floresta. Eu vejo a silhueta de um rapaz deitado nas folhas secas. Corro e me ajoelho ao lado dele.
— Gibby! — Eu trinco os dentes segurando a sede e seguro ele em meus braços. Escuto as batidas irregulares do seu coração. Trina não o matou, mas chegou bem perto disso.
Viro-me rapidamente ao sentir o cheiro de vampiro e algo se joga sobre mim.
— Freddie vai gostar de saber que você está o traindo — Trina ri sombriamente.
— Eu vou te matar! – Eu tento atingi-la, mas ela corre.
— Não. Primeiro eu vou terminar de matar o garoto, só estávamos nos divertindo — ela me ignora e se vira para o Gibby, ela corre e já está com o pulso dele em sua boca.
— Para! — Eu grito e pulo sobre ela sem me transformar, apenas uso a velocidade.
— Eu cansei de tentar ser boazinha — ela esmaga meu pescoço e eu sinto o ar sumir. — Tive uma ideia melhor, primeiro eu vou matar você — ela ameaça girar meu pescoço quando alguém se aproxima.
— Trina! — Freddie chama o nome dela. — Solte a Sam, agora.
Trina me larga entre as folhas secas no chão e eu rastejo para perto do Gibby.
— Por que negar o que nós somos Freddie? Chega desse teatrinho — Trina bufa para o irmão.
— Trina o que você fez? — Fredward se aproxima devagar. — Trina? — Ele chama e ela não responde. — Trina! O que você fez?! Não! — Freddie passa a mão nos cabelos.
— Como se não soubesse... — Ela dá as costas e corre na escuridão entre as árvores.
Freddie começa a cair de joelhos, mas se recompõe e vem em meu socorro no chão.
— Me perdoa — ele diz sem o olhar fixo em nada.
— Você não fez nada de errado — seguro a mão do Gibby que está ficando mais fria.
— O que eu posso fazer? — Freddie pergunta.
Olho no fundo de seus olhos castanhos, algo me faz querer se aproximar dele, como a gravidade e de repente o que eu disse há poucos minutos atrás me dá um tapa na cara.
— Eu não quis dizer que amava o Gibby da forma que você pensou. Ele apenas significa muito para mim.
— Sei. Assim como Hayes também significava — Freddie suspira.
— Acho que sim.
— Parece que eu sempre vou perder você para um Gibson — ele murmura e ergue o Gibby o colocando inconsciente em suas costas. — Vou levá-lo para minha mãe.
— Eu iria levá-lo para um hospital — contradigo.
Freddie anda ao meu lado.
— E dizer que ele foi atacado por um animal? Acorda Samantha, ele tem marcas de mordidas humanas no pescoço e no pulso. Minha mãe é médica, vai cuidar dele.
— Ou beber o sangue com o canudinho — disparo um humor negro.
— Esse é o problema, você detesta demais a minha espécie, mas é por algo do seu passado, não é?
Relembro o corpo da minha irmã e da minha mãe já sem vida no chão.
— Eu não quero falar disso — fujo do assunto para não contar a verdade sobre o que eu sou.
Ele pula graciosamente a cerca. Abre a porta de trás do Audi. Coloca o Gibby no banco. Fecha a porta e deixa aberta a do passageiro para mim.
— Não precisa falar, só quero te entender — ele me observa entrar no carro.
— A verdade é que eu não sei o que está acontecendo comigo, tem momentos que eu penso que quero estar com você e tem momentos que eu me sinto bem estando perto do Gibby... — Admito a ele que já está dentro do carro.
— Por que não fazemos o seguinte... — Fredward dirige pela rua. — Não me escolha agora, espere o Gibby entrar para a alcateia, se ele tiver imprinting por você, eu te deixo em paz... Porém, se isso não acontecer eu gostaria que você fosse a minha namorada.
Olho para sua expressão serena.
— Você fala como alguém do século retrasado.
— Deve ser por que estou preso lá.
Penso no que ele falou.
— Não acho que eu conseguiria te beijar sem te matar... E você tem um cheiro horrível.
— Não custa tentar — ele aperta o volante com força.
— Na verdade eu não me sinto bem conversando sobre isso com o Gibby no banco de trás, mesmo que ele esteja inconsciente — verifico o Gibby pelo retrovisor.
— Então quando estivermos a sós, podemos conversar? — Freddie é muito persistente.
— Sim. Podemos — respondo e ficamos em silêncio por alguns minutos, até que lembro o desespero dele com a Trina. — Sobre a Trina, eu não entendi aquilo. Ele sempre foi chata, isso eu tenho que admitir, mas sei lá, não parecia ela mesma.
— Ah... — Freddie morde o lábio de pedra e um flash como uma memória antiga retorna na minha mente. — Ela desligou a humanidade.
Dessa eu não sabia.
— Eu pensei que fosse apenas uma lenda.
— Lobos gigantes também são uma lenda — ele bufa.
— Como funciona isso? — A contra gosto sei que estou curiosa.
— Alguns consideram um escape. Quando estamos tão sobrecarregados de emoções, às vezes das piores que existem como raiva e dor, nós vampiros podemos desligar os sentimentos, pensar somente com o instinto. O problema é que depois de desligar, é quase impossível ligar novamente. Trina nunca desligou o que vai ser muito pior na hora de fazê-la religar. Isso se conseguirmos encontra-la é claro — ele se perde em pensamentos.
— Você já desligou sua humanidade? — A pergunta sai em um sussurro.
— Não — ele responde. — Eu vi o que eu fazia com os sentimentos ligados, imagina com eles desligados.
— Alguém vez você cedeu ao desejo? Bebeu sangue humano? — É o que eu realmente quero saber.
— Não exatamente.
— Me explique.
— Eu me descontrolei e acabei mordendo uma humana.
— Conseguiu parar? — A história me parece familiar.
— Eu não mordi para matar, foi um descuido.
— O que aconteceu com ela? Digo, ela está viva?
— Ela está morta — ele responde de uma vez. — Ou pelo menos eu acho que está.
— Sinto muito — toco seu braço docemente ou pelo menos tento.
— Eu também sinto — ele olha de rabo de olho para mim.
A ida para o apartamento permanece silenciosa. Freddie estaciona e desliga o carro, ele parece querer me dizer alguma coisa. Em um piscar de olhos ele já tirou o Gibby do Audi e o carrega nas costas de novo. A portaria do Bushwell está vazia. Andamos em silêncio até o elevador.
Saímos e chegamos ao apartamento 8-D. Freddie abre a porta com facilidade e eu me pergunto a última vez em que eu estive aqui. Não posso entrar sem ser convidada e não sei como dizer isso ao Freddie.
— O que foi? – Ele pergunta e noto ele segurar um sorriso como se soubesse de algo.
— Freddie, a Sam não precisa ser convidada para entrar, ela é um lobo não um vampiro – Tori aparece salvando a minha barra sem nem saber. – Pode entrar Sam – quero saber por que ela ainda está acordada há essa hora.
Eu entro no apartamento e Tori olha para o Gibby com pena, ela se despede dizendo que precisa dormir.
A mãe do Freddie aparece em um instante e me olha com nojo, eu reviro os olhos para ela e busco defesa do Freddie.
— Trina atacou ele, não temos muito tempo – Freddie informa.
Ela suspira com tristeza.
— Traga-o para o meu consultório – Marissa desaparece.
Sigo Freddie para o consultório da mãe dele no pequeno apartamento, eu achei que por serem vampiros seriam mais ricos, mas vejo que Carly e ele estão no mesmo patamar. Penso na minha casa número 4621 na Rua 34. Só moro nela graças aos chefes da reserva que me mantém com o que eu preciso, até eu concluir o ensino médio e ir para Port Angeles.
Entro no consultório. Freddie colocou o Gibby em uma cama. A senhora Benson está montando os tubos para fazer o que eu penso ser uma transfusão. Ela pega uma bolsa de sangue e acopla no tubo, em seguida olha para o Freddie.
— Pode sair meu bem, você não caça a semanas – ela acaricia o rosto do filho.
— Ele vai ficar bem? – Freddie pergunta por mim.
— Sim – ela é curta.
Freddie balança a cabeça e anda para fora do consultório. Ao passar por mim sorri de forma doce. Eu coro na frente da sua mãe.
— Quando ele vai acordar? – Eu pergunto indo para perto do Gibby.
— Provavelmente assim que boa parte da circulação voltar normalmente ao seu corpo, ela quase o matou. Eu sinto muito por isso, ela sempre foi descontrolada, mas nunca feriu ninguém próximo a vocês – ela abre o tubo e vejo o líquido entrando na corrente sanguínea dele. Em seguida injeta morfina na veia do braço esquerdo para aliviar a dor que ele deve estar sentindo.
— Como sabe o tipo sanguíneo do Gibby? – Pego a mão dele para sentir a pulsação, está bem mais forte.
Marissa passa a mão nos cabelos do Gibby me pegando de surpresa.
— Apenas pelo cheiro – ela responde minha pergunta de antes.
— Como você aguenta isso? – Faço uma pergunta comum, na verdade eu quero saber sobre o controle supremo por que mesmo eu sendo metade lobo, minha parte vampira está fazendo minha garganta arder em chamas, me foco na pulsação do Gibby para abafar a sede.
— Anos de prática. Sinto-me útil salvando vidas em vez de tirá-las – ela ainda mantém o olhar no Gibby que me incomoda. – Ele é muito parecido com o Hayes.
Olho para o rosto do Gibson. Está sereno e a cor está voltando ao normal. As bochechas estão rosadas e fofas de novo.
— Sim. Ele é – murmuro baixinho.
— Ele cresceu muito desde a semana passada, você sabe o que isso significa.
— Eu sei. Ele vai entrar para a alcateia.
— Talvez ele seja quem vocês esperam...
Ladro uma risada.
— Pelo visto até quem está de fora da matilha sabe da profecia.
— Nevel nos contou – ela meio que se desculpa.
— Não ligo – mordo o lábio pensando no que dizer ao Gibby quando ele acordar.
— O Freddie gosta de você – ela sussurra.
Eu olho para ela erguendo as sobrancelhas meio chocada.
— Ele me disse – informo.
— Ele gosta mais de você do que da Carly, que em minha opinião ela seria melhor para ele, mas Freddie preza demais a segurança dela, por isso não avançou com esse sentimento.
Levo uns segundos para entender o que ela disse. É simples. Se Carly não fosse humana, Freddie teria optado por estar com ela, mas ele escolheu a mim, isso realmente significa que ele me ama mais? Ou apenas está poupando Carly de ser atacada?
E mais uma vez estou ardendo de ciúmes. Isso é muita coisa para apenas uma segunda-feira, bem, agora já deve ser madrugada de terça. Aquele baile de máscaras no domingo acarretou mais do que eu esperava. Wendy em suas visões disse que algo histórico começaria ali e ela estava totalmente certa.
Eu me sento em uma cadeira ao lado da cama do Gibby, dando espaço para a senhora Benson fazer os curativos nas duas mordidas que Trina deixou. Ela dá pontos na mordida do pescoço para parecer um ataque animal ou coisa do gênero. Na mordida do pulso ela desliza o bisturi lentamente. Quase grito perguntando se enlouqueceu, mas entendo o que está fazendo. Onde o bisturi corta, ela projeta pequenos arranhões como se Gibby tivesse tentado se defender de algo.
Quando termina, enrola o pulso dele e um pouco do antebraço. Tranco a respiração sentindo a sede aumentar. Assim que a Marissa se retira retorno a pegar a mão do Gibby. Conto sua respiração por que ela é fofa, assim como tudo nele. Os minutos se passam. Acho que mais de trinta minutos foram embora. E mais trinta novamente. Escuto o coração dele disparar fortemente. Seus olhos se abrem e me olham.
— Sam... – Ele sussurra abrindo um sorriso, mas depois de olhar em volta fica confuso. – Que droga aconteceu comigo?
— Está tudo bem, você foi... – Pauso sem saber como continuar.
— Atacado por um animal selvagem – Robbie responde por mim. – A polícia ambiental já está à procura do animal para não resultar em mais ataques – Robbie olha diretamente para os olhos do Gibby. Entendo de imediato o que está fazendo, ou melhor, o que ele acabou de fazer. Robbie fez Gibby acreditar nessa história e seja lá o que se passou antes do ataque vai ficar desfocado em sua mente.
Freddie encosta-se à porta me espreitando. Eu não consigo decidir de quem eu gosto mais. Freddie e Gibby somente se sobressaem quando estou sozinha com um deles. Agora estando no mesmo lugar que ambos percebo que o que sinto pelo Freddie é gravitacional e o que sinto pelo Gibby é uma profunda ligação. Ainda não é o suficiente para me decidir, mas Freddie me deu uma válvula de escape com a ideia de que se Gibby não tiver imprinting comigo, eu escolherei Freddie. A ideia me causa um fogo no peito.
— Você vai ficar bem – eu digo ao Gibby e cheiro a palma da sua mão quentinha.
— A minha mãe se ofereceu para cuidar de você, mais prático e não teria gastos com hospital. Nossas mães vivem saindo juntas – Freddie comenta da porta assim que o Robbie se retira.
— É. Uma vez ou outra eu a vejo lá em casa – Gibby murmura confuso e aperta minha mão com carinho.
— Melhor ligar para sua mãe – eu aviso.
— Já ligamos – Freddie responde. – Ela já sabe do incidente, mas asseguramos que você está bem aqui e irá para casa pela manhã.
— Que bom – Gibby está sonolento, eu levo a sua mão à minha boca e mordo de leve.
— Eu vou é... Deixar vocês a sós – diz Freddie. Olho para ele que se vira de forma elegante e vai embora.
— Ele te ama, sabia? – Gibby sussurra, ele não sabe que Freddie pode ouvir.
— Por que diz isso? – Arrisco perguntar.
— Porque ele te olha da mesma forma que eu olho pra você – ele me responde com clareza.
Então é isso. Gibby acabou de admitir que me ama. Não sei como reagir. E estou mais confusa ainda com o fato do Freddie me amar também. Eu sou um nada. Não mereço o amor de nenhum dos dois. Por que isso está acontecendo comigo?
— Você devia dormir – murmuro para sair do clima de romance.
— Vai estar aqui quando eu acordar? – A voz dele é cheia de esperança.
— Não sei – deposito um beijo no seu rosto. – Durma.
Ele fecha os olhos e boceja.
— Eu te amo – ele murmura e adormece lentamente.
— Eu sei – sussurro de volta.
Quando ele cai em um sono pesado, eu saio do consultório e vejo a porta do quarto do Freddie aberta, me encaminho até lá. Fredward está deitado na cama sem sapatos e com meias brancas escutando música em um fone de ouvido. A música é Don't Cry do Guns N' Roses. Ele sabe que eu estou aqui, mas não faz questão de se importar com minha presença.
— Para que uma cama se você não dorme? – Eu lhe pergunto caminhando para a janela.
— Uma cama não serve só para dormir – ele se senta, depois na fração de um milésimo de segundo está ao meu lado na janela.
— Sua mãe sabe o que você faz na cama? – Olho a iluminada Seattle pelo vidro.
— Eu disse que a cama não serve só para dormir, eu não disse que faço sexo nela – ele sorri encostando-se ao vidro da janela.
— Por que Robbie apareceu?
— Eu o chamei. Sabia que seria necessário.
— Wendy tem um dom parecido – comento.
— Não é um dom, é magia – Freddie replica para me irritar.
— Não importa, mas vale ressaltar que é bem mais poderoso que essa coisa que o Robbie faz.
— O que a Wendy consegue fazer?
— Ela consegue fazer a pessoa se esquecer totalmente de dezenas de memórias, ela poderia ter ajudado o Gibby se estivesse aqui, vai saber onde aquela maluca está agora – coço o nariz que se irrita com o cheiro do ambiente.
— Então além de ver o futuro e levitar coisas, Wendy pode mexer na cabeça de alguém? – Freddie está admirado. – Para que vampiros com uma amiga dessas?
— Pois é – rio de leve. – Ela está ficando mais forte com o passar do tempo, em breve vai ressuscitar alguém.
— Incrível – ele está fascinado pela história.
Olho para os prédios iluminados. Tem uma pergunta que eu quero fazer.
— Você escutou? – Me refiro a minha conversa com o Gibby.
— Sim.
— Nega algo que ele mencionou?
— Não.
— Você sente ciúmes dele? – Olho de relance para o Freddie que mexe o ombro incomodado.
— Sinto – ele olha para mim. – Sente ciúmes da Carly?
Viro o rosto para responder.
— Sinto.
— Não estamos no mesmo barco.
— Como assim? – Não entendo.
— Você sente ciúmes quando estou com a Carly, mas ela tem o Brad. Eu sinto ciúmes de você quando está com o Gibby, mas ele não tem ninguém... É pior – ele me explica de forma rápida.
— Mesmo ele não tendo ninguém, nós...
— Você já o beijou?
Hesito. Repasso na mente todos os momentos com o Gibby, de fato nunca nos beijamos.
— Não. E você?
— Oi? – Ele fica confuso e eu dou risada.
— Se você já beijou a Carly, mané – soco seu ombro, mas sinto um pouco de dor.
— Não. Eu nunca a beijei e se eu tivesse beijado ela teria te contado.
— Só pra saber – dou de ombros.
— Confesso que fiquei bastante surpreso quando descobri o que ela fez com o Brad, fiquei ainda mais surpreso quando você deu aquela ordem a ele. Você tem um bom coração – ele abaixa o tom da voz e isso me deixa louca.
Encosto-me no vidro para ficar de frente para ele.
— Engano seu. Eu não tenho um bom coração.
— Por que diz isso?
— Você sabe por que – abaixo a cabeça envergonhada e triste.
— Sam, isso não passa de uma lenda – ele se aproxima e me prende contra o vidro.
— O imprinting era só uma lenda, desligar a humanidade também, mas pelo visto tudo é real.
Freddie deixa o joelho entre minhas pernas. Por que ele tem que ser tão atrevido comigo? Eu sou um ser humano para todos os efeitos ou quase, e eu sinto coisas, estou presa para sempre no corpo de uma pessoa de 17 anos e meus hormônios sempre estarão à flor da pele.
— Acredita mesmo que a cor dos pelos do lobo define o coração? – Freddie pergunta ofegante.
— Acredito – espalmo as mãos no seu peito de pedra, tremo, mas não é de frio.
— Não devia acreditar, você tem o coração mais puro que eu já vi.
— Não tenho. Eu sou branca como a neve, quanto mais claro são os pelos mais sujo é o coração, chega a ser uma ironia.
— Para... – Ele sussurra. – Não é verdade.
Olho para seus lábios. Estamos mais próximos do que nunca. Quantas vezes já tentamos nos beijar e alguém aparecia? Mesmo com Gibby dormindo no fim do corredor, eu quero sentir os lábios do Freddie nos meus. Quero juntar fogo e gelo. Quero saber como é beija-lo.
— Me beija – eu peço abrindo o primeiro botão da sua blusa.
Ele sorri e sua respiração fria retorna na minha face fazendo meu coração disparar. O cheiro dele é repugnante e meu instinto está me fazendo querer o matar agora.
Freddie ergue meu queixo e quando vai me beijar recua.
— Não posso – ele se distancia. – Minha mãe está vindo – Freddie completa para meu alívio.
Ele corre para a cama e joga uma almofada em mim como se estivéssemos apenas brincando um com o outro.
— Larga a mão de ser otário – jogo a almofada nele e a mãe dele entra no quarto.
— Vai ficar aqui? – Ela me pergunta, sei que o Gibby é bem-vindo, mas eu não.
— Não. Vou dormir no apartamento da Carly.
— Assim espero – diz Marissa indo embora.
— Te acompanho até a porta – Freddie se oferece.
Balanço a cabeça em concordância.
Andamos juntos pelo corredor. Nossos passos são leves. Nossas respirações estão silenciosas. Tudo na casa parece calmo demais, silencioso demais e eu não gosto disso.
— Nos vemos por aí – eu digo quando ele abre a porta.
— Em algumas horas – ele olha para trás para verificar se estamos realmente sozinhos, após ter certeza disso ele me abraça. – Gostaria que se lembrasse – Freddie me solta.
— Lembrar-se do que? – Pergunto, mas quando me dou conta já estou sozinha no corredor.
Abro a porta do apartamento da Carly e ando até as escadas. Subo sem omitir barulho. Chego ao andar de cima. Uso a velocidade e entro no seu quarto. Jogo-me na cama a acordando.
— Ham? – Ela murmura tentando acordar totalmente. – Sam?
— Eu mesma – envolvo Carly com meus braços.
— O Gibby está bem? – Ela pergunta com a cabeça no meu peito.
— Sim. Está tudo bem agora – fecho os olhos para dormir um pouco.
— Que bom – ela sussurra. – Tori disse que se o Gibby estivesse bem, daríamos uma festa aqui... Eu não concordei na hora, mas deixei ela usar o apartamento. Você virá?
— Eu estarei aqui.
— Legal...
— Carly? – Chamo com receio.
— Hum... – Ela está quase dormindo de novo.
— Freddie me ama e o Gibby também. Ambos não parecem certos para mim, o que eu faço?
Ela não responde. Deve ter dormido. Até que ela ergue a cabeça para me olhar no rosto.
— Não é você que tem que escolher, são eles que tem que escolher você. Gibby através do imprinting, Freddie através do amor. Eles mesmos vão ter que estar dispostos a serem seus. Não sei te explicar... – Ela boceja. – Quem você ama?
— Não sei – respondo de imediato.
— E quem você quer? – Carly fecha os olhos.
— Ah sei lá... – Admito rindo.
— Você é louca, não sabe nem o que sente – Carly resmunga antes de dormir.
Eu fecho os olhos e acabo por dormir também.
Acordo com o som do despertador e sentindo a cama vazia. Sem Carly em meus braços eu não consigo dormir. Abro os olhos e vejo que ela deixou roupas para mim. Ela vai mesmo insistir que eu vá para o colégio depois de tudo. Eu prometi que ia completar os estudos e não posso falhar. Pego a roupa e corro para o banheiro. Tomo um banho rápido. Escovo os dentes com a escova da Carly – o que vai deixar ela puta depois – arrumo meu cabelo e desço para o andar de baixo.
— Deixou os materiais no armário? – Carly pergunta conferindo a mochila, leva um tempo até eu perceber que Freddie está próximo dela.
— Sempre deixo – olho para ele ao responder.
— Freddie queria saber se você estava bem – Carly ri.
— Oi – ele me cumprimenta e se coloca na minha frente, ele é irritante sendo rápido o tempo todo.
— O Gibby está... – Começo a dizer.
Freddie revira os olhos chateado.
— Ele já foi para casa, disse que iria ao colégio mesmo depois do ataque, minha mãe recomendou repouso mas ele não quer perder a aula hoje, me pergunto o porquê – seus olhos ficam frios.
— Vamos nos atrasar se não sairmos agora – Carly nos avisa caminhado em direção à porta.
— Claro – desço um degrau, mas Freddie fica na minha frente, vou para o lado e ele vai também, vou para o outro e ele permanece na minha frente.
Carly observa a cena intrigada, mas depois abre a porta rindo e sai correndo para nos deixar a sós.
— Podemos conversar agora? – Freddie se retira da minha frente.
— Na verdade não, mas sexta-feira eu vou numa festa, quer ser meu acompanhante? – Pergunto já andando para sair do apartamento.
— Eu adoraria acompanhá-la – ele pega a minha mão e eu não me importo.
Vamos caminhando juntos pelo Bushwell. Pegamos o elevador. Aguardamos ele descer. Chegamos ao saguão e andamos para fora o que foi uma péssima ideia.
Toda a minha matilha está me esperando. Brad com Griffin na camionete. Jade e Beck na moto. Até mesmo Dice que Griffin o leva para a escola da reserva às vezes está na parte de trás da picape. Carly está perto de Tori ao lado da camionete. Nevel, Robbie, Cat e André estão encostados em um Volvo C30 prata de quatro portas. Quando tento soltar a mão do Freddie, ele aperta e me puxa para ele.
— Até mais baby – ele me dá um beijo no queixo rápido demais, perigoso demais, não levou nem dois segundos, mas já foi o bastante para Carly dá um gritinho com Tori.
— Ele não fez isso – Jade leva a mão à boca como se fosse vomitar.
— Ele gosta dela? – Dice pergunta para alguém.
— Você me causa problemas – rio com o Freddie e nos soltamos.
— Eu sei – ele pisca para mim. – Tori, Carly, querem vir comigo? O Audi tem espaço.
— De jeito nenhum – Brad sai da camionete batendo a porta. – Fica longe dela Benson.
— Eu já tenho a minha garota, não se preocupe – Freddie diz em alto e bom som.
— Não. Você não tem – cansei dessa palhaçada. – Freddie e eu não estamos namorando, ok? Somos apenas amigos. Como se vampiros e lobisomens pudessem coexistir nesse tipo de relacionamento. Obrigada pela atenção – eu entro no Audi cortando a festinha.
Freddie entra alguns segundos depois. Ele espera estarmos longe o bastante para reclamar comigo.
— Por que fez aquilo?
— Eles estão pensando que estamos namorando, quando não estamos nem perto disso, não quero ninguém dizendo que estamos juntos, sem contar que o Gibby vai se magoar com isso – mantenho meu foco nas mãos.
— Nem perto disso? O que está faltando? Fazermos amor ou eu te beijar?
Ladro uma risada de deboche.
— Não consigo nem cogitar beijar você sem querer te matar, quanto mais fazer amor.
— É possível. Basta à gente se esforçar.
— Está disposto a tentar?
— Estou disposto a tentar tudo com você. Eu vim de outro século. Primeiro iríamos dar nosso primeiro beijo, depois o namoro, depois o noivado, depois o casamento e então somente depois eu me deitaria com você.
Mordo o lábio pensativa.
— Não vivemos mais no século dezenove...
— Mas mesmo assim – ele retira uma mão do volante para pegar a minha. – Eu quero viver todas essas experiências com você.
— Não somos feitos um pro outro.
Freddie aperta minha mão com força.
— Eu discordo.
— Aquela história... A sua ideia... Se realmente o Gibby não tiver imprinting por mim, eu aceito namorar com você, mas até lá, vamos ser apenas amigos. Eu não quero magoar nenhum de vocês.
— Esse é o problema, você o enxerga como seu futuro, enquanto eu tenho que forçar você a me ver como uma opção – Freddie solta a minha mão.
— Me dê a chance de escolher você.
— Estou te dando.
Freddie para o Audi no estacionamento. O tempo está nublado como sempre. O carro está desligado, mas eu não faço questão de sair. Eu olho para ele. Para um humano ele deve ser apenas bonito. Para mim com uma visão perfeita ele é muito mais que lindo. Seu rosto tem uma simetria perfeita. Seus lábios parecem desenhados. Certamente ele tem beleza em tudo o que faz e sei que cada dia que passa me faz ficar mais fascinada por ele.
Fredward quebra o silêncio.
— Eu não vou à aula esta semana até encontrar a Trina, poderia avisar aos outros por mim?
— Posso – abro a porta.
— Sam? – Ele me chama receoso.
— Sim? – Me viro para ver seu rosto.
— Não se preocupe, estarei de volta para a festa na sexta.
— Acho bom mesmo – permaneço dentro do carro.
— Onde vai ser?
— No apartamento da Carls.
— Legal – ele suspira, noto que não quer que eu saia.
— Até sexta-feira.
— Até sexta-feira – ele sussurra de volta.
Eu saio do carro sem qualquer animação. Nunca imaginei que saber que eu não teria o Freddie pelos cantos me espreitando seria tão ruim. Eu já sinto a sua falta.
Ando para dentro do colégio. As pessoas passam por mim com aquele mesmo olhar de admiração. Nunca entendi isso. Vejo Gibby mexendo no seu armário conversando com um pessoal em volta dele. Espero os amigos dele se dispersarem para eu poder me aproximar.
Ele fica sozinho. Eu aproveito para andar até ele, mas quando dou um único passo para frente, ele se vira como se eu tivesse chamado seu nome. Realmente está começando a metamorfose. A audição já está melhorando.
Aproximo-me enquanto ele me olha um pouco corado. Do baile no domingo para hoje, uma manhã de terça feira, ele ganhou músculo demais e cresceu mais um centímetro. Um humano não vê isso com tanta clareza, mas eu sim. A entrada dele para a matilha está próxima.
— Bom dia Sam – ele fecha o armário me cumprimentando.
— Está sentindo alguma dor? – Me preocupo com ele.
— Meu pescoço inchou um pouco, mas nada que você tenha que se preocupar.
— O que foi fazer no Discovery Park?
— Eu não lembro. É engraçado – ele ri como se contasse uma piada. – Tudo antes do ataque ficou extremamente confuso, foi como estar bêbado. Me dá dor de cabeça tentar lembrar.
— Você não precisa mais se lembrar – eu não me contenho e o abraço, ficamos assim durante um tempinho. – Eu também te amo...
— Quando eu disse que te amava? – Ele não me solta mas seu abraço fica mais frouxo.
— Um pouco antes de dormir.
— Eu não lembro.
Eu rompo o abraço sem nenhuma pressa.
— Mas eu sim – sorrio. – Você é meu melhor amigo.
— Se eu disse que te amava, então saiba que não foi por que eu quero ser apenas seu melhor amigo – ele admite sem medo.
Vasculho minha mente por algo para responder, mas já sinto o cheiro da Carly se aproximando, em segundos ela se coloca ao meu lado.
— Tudo bom? – Carly cumprimenta toda feliz.
— Oi Carly – Gibby sorri. De repente ele olha de maneira extremamente fixa para ela, mas balança a cabeça confuso e estreita os olhos como se uma grande claridade estivesse vindo da Carly. – Uau.
— O que foi? — Carly pergunta mais confusa ainda e cora... Será que eles já... Ah não. Eu saberia.
— Não sei – Gibson ri para descontrair. – Sei lá... Eu estou começando a acreditar em contos.
— De fantasmas? – Tori pergunta apertando minha cintura de brincadeira, ela se aproxima do Gibby e ele desliza o braço sobre o ombro dela, espero o ciúmes vir, mas é uma leve irritação, não é a mesma coisa que sinto com o Freddie.
— Na verdade não – ele coça o queixo. – Contos sobre lobos e vampiros.
Carly se engasga. Tori franze os lábios e eu apenas fico quieta. As coisas vão ser bem longas até sexta-feira.
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