Notas iniciais
Acordo subitamente no meio da noite. Minha garganta está seca. Jogo os lençóis para o lado e olho o relógio enquanto me levanto. 4:32. Da manhã.
Não me preocupo em vestir minha capa. Apenas coloco minhas botas, me dirijo lentamente até a porta de meu quarto e me arrasto pelos corredores. É só um copo d’água, digo para mim mesma. Deixe de ser preguiçosa.
Quando chego às portas automáticas que dão na sala, elas se abrem e a luz me cega por alguns instantes, mas mesmo assim tento descer as escadas. Quando meus olhos se acostumam e me volto para a cozinha, dou de cara com um Mutano sentado no balcão, com os braços apoiados para trás e a cabeça mexendo freneticamente para todos os lados. Quando me vê, ele desata a falar.
— Ravena, ainda bem que está aqui. Estou colado no balcão!
— O quê?
Ele suspira.
— Eu estava tendo um... hã... — suas orelhas se abaixam — sonho ruim e, quando acordei, decidi andar um pouco pela torre para me acalmar. Andei por uns vinte minutos e, quando cheguei aqui, decidi me sentar um pouco antes de subir e voltar a dormir.
— Ainda não entendi.
— Alguém deve ter passado cola na parte de baixo do meu pijama e nas minhas luvas, muito provavelmente o Ciborgue. Eu não consigo sair!
Ando calmamente até ele, colocando minhas mãos nas laterais de seu corpo e puxando-o para cima. Realmente. Ele está grudado. Não é uma pegadinha. Solto-o e vou até a geladeira, pegando a jarra de água e um copo, despejando um pouco do conteúdo. Volto novamente para a frente de Mutano, o copo de água na mão.
— O que vai fazer? — Ele pergunta.
— Beber água. — Beberico um pouco.
— E eu?
Bebo tudo e deixo o copo na pia. Olho pensativa para Mutano.
— Então você não consegue se mexer mesmo?
Ele nega com a cabeça. Ao notar o que eu estou pensando, ele engole em seco e suas bochechas enrubescem. Seu olhar continua desesperado, mas não apenas por que ele está colado no balcão.
— Interessante. — Isso não é algo que eu normalmente faria. Mesmo sendo namorados, não nos beijamos tão frequentemente e apenas nos sentamos lado a lado no sofá, às vezes com sua casual escapada para meu quarto à noite para conversarmos. Inclino-me em sua direção, apoiando as mãos em suas coxas e deixando nossos lábios a um centímetro de distância um do outro. Sinto sua respiração quente e isso, de alguma forma, me acalma. Quando ele inclina a cabeça para frente para me beijar, rapidamente vou com o corpo para trás, fora de seu alcance.
— Vamos lá, Ravena! Você não pode fazer isso comigo.
Solto uma risada. Uma do tipo que só Mutano consegue fazer sair de minha boca. Mas só quando ele faz aquelas piadas bobas, não quando estou o provocando. Ainda assim, é muito divertido.
— Quais são as palavrinhas mágicas?
Seu beicinho se transforma num sorriso travesso.
— Azarath Metrion Zinthos?
Rio novamente. Apoio minhas mãos em seus ombros e coloco cada uma de minhas pernas dobradas em um lado de seus quadris, meus joelhos quase encostando em seus antebraços. Então me sento cuidadosamente em seu colo e abraço seu pescoço. Quase posso ouvir seus batimentos cardíacos. Encosto minha testa na sua e sorrio.
— Nervoso?
Então ele avança para me beijar e não faço nada para impedi-lo. Nos beijamos gentilmente por alguns segundos, quando ele começa a mordiscar meu lábio inferior. Ele geralmente não faz isso pois tem medo que seus caninos afiados me machuquem. Mas está fazendo isso tão levemente agora que jamais poderia ter certeza se está usando um dos caninos.
Eu suspiro e ele aproveita minha distração para fazer uma trilha de beijos até meu pescoço. Coloco a mão na parte de trás de sua cabeça, incitando-o a continuar os beijos. Mas então paro-o.
— Você quer falar sobre seu pesadelo?
— Não mesmo. — Então volta a me beijar nos lábios, dessa vez vorazmente.
Mesmo a sensação sendo tão boa, tento ir para longe dele só para provocá-lo mais um pouco, mas percebo que minhas canelas, joelhos e canos das botas estão presos. Não é Mutano que está com cola. É o balcão.
— Mutano... Também estou grudada.
Ele solta uma risada do tipo Não parece tão legal agora, não é?
— Não tem graça! — Olho séria em seus olhos. — Se alguém nos encontrar assim...
Ele para de rir imediatamente.
— Talvez se gritássemos para alguém nos ajudar... — Ele pondera. — Se a Estelar nos ouvisse talvez não acharia tão estranho.
— É mais ou menos trinta e três por cento de chance de cada um deles nos ouvir. E creio que cem por cento de todos nos ouvirem.
— Quer saber? Vamos apenas esperar aqui até amanhecer. A Estelar geralmente acorda mais cedo para fazer aquele café da manhã esquisito dela. Ela vai nos encontrar aqui e nos ajudar.
Relutante, assinto. Passamos então os próximos longos minutos conversando e nos beijando. Uma hora, apenas encosto a cabeça no ombro de Mutano e ele apoia a sua na minha e, não sei como, estando nessa posição, caio no sono.
Acordo com a luz do sol no meu rosto e uma voz masculina falando:
— Mas que...
Mutano sobressalta e, quando nós dois olhamos na direção da porta, ficamos completamente vermelhos.
Não foi Estelar que acordou primeiro.
Foi Robin.
Olho para o relógio de ponteiro na cozinha. 7:16. Olho para Robin e percebo que ele está se forçando a não olhar para nós.
— Nós... — Mutano começa.
— ... podemos explicar. — Completo.
Então Mutano conta como provavelmente Ciborgue passou cola no balcão e que ele tinha sentado e que quando eu cheguei nós acabamos pegando no sono, esperando alguém chegar para nos ajudar.
— Mas nessa posição? — Robin grita, completamente estupefato.
— E-eu... — Mutano gagueja. — N-nós...
— Apenas vá chamar Ciborgue! — Também grito e aponto para a porta.
Robin sai correndo. Passam-se alguns minutos e começamos a ouvir risadas do corredor. Então a voz de Ciborgue diz entre risos:
— Então deu certo? Cara, eu só planejava grudar pratos e copos, mas o Mutano e a Ravena? Bom demais para ser verdade! — E continua a rir.
Então a porta se abre e Robin sai de trás dela, com um Ciborgue que esfrega as lágrimas de riso. Quando sua visão nos focaliza, ele para de rir. Ele imediatamente se vira de lado e coloca a mão ao lado do olho para não nos ver.
— Cara — ele olha para Robin —, você não me disse que eles estavam assim.
— É — diz Robin seriamente, cruzando os braços. — Eu queria que você percebesse a besteira que fez.
Solto um risinho cobrindo a boca e Mutano me acompanha.
— Hã... — Gagueja Ciborgue como se tentasse falar conosco. — Está todo mundo vestido? Eu não vi direito.
— Sim, senhor. — Mutano responde.
— Ótimo. — Ciborgue se mexe no mesmo lugar, inquieto. Mesmo sabendo que estamos propriamente vestidos, se recusa a nos olhar. — É... hã...
— “É... hã...” o quê? — Me enfureço. — Vá logo pegar seja lá o que for que vai nos tirar daqui!
— Hã... certo. — E volta correndo pelo corredor enquanto Robin nos dá um último olhar de preocupação e desaprovação misturados, sumindo atrás de Ciborgue.
E então olho para Mutano e nós dois rimos alto mesmo.
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