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20 Capítulo 20: Always with you. Love, Emma.
Notas iniciais
Vou contar para vocês uma história.
Sobre duas pessoas que se apaixonaram num momento errado da vida. Ou talvez não só um momento na vida, mas como nunca deveria nem ter se apaixonado para começo da história. Um amor proibido. Mas calma, isso não é uma história de amor. Muito pelo contrário, no final dessa história, a gente morre.
E eu sou responsável pela morte de nós dois.
—
Transtorno de estresse pós traumático.
Depois de tantos meses visitando o Dr. Hopper, ele finalmente concluiu qual era o meu problema. Eu literalmente não devo ter falado mais de 30 palavras para ele nos meses que visitei ele, mas de alguma forma ele conseguiu diagnosticar. E agora graças a ele estou aqui, numa reunião onde quem tem o TEPT compartilha suas história, o que para mim é mesma coisas que AA.
— Olá, eu sou o John, tenho TEPT.
Um homem começa a falar.
— Olá John.
Todos respondem. Não disse que era AA?
— Voltei da guerra há 4 semanas, estou com problemas para dormir, para me relacionar como antes com a minha esposa, então... bem, aqui estou eu.
Ele da um sorriso fraco, jogando a mão p cima. Sorrio ironicamente. Que patético.
—-
Emma's POV:
— Eu vou ser acusada de crime de guerra.
Suspiro. Não desvio o olhar dela e nem ela do meu. Permanecemos em silêncio, quando finalmente a Regina desvia o olhar, suspirando fundo.
— Então você sabe o que fazer.
Ela fala sem olhar para mim. Pisco algumas vezes, tentando entender o que ela está dizendo.
— Eu...
Começo a falar, quando ela interrompe.
— Emma... Você sabe do que estou falando.
Dou uma pequena risada. O que que ela está sugerindo?
— Eu... eu não entendo. Do que você está falando?
Pergunto, sorrindo. Mas paro de sorrir quando ela permanece séria, entendendo finalmente do que ela estava falando.
— Não... Não, Regina. Eu já falei. Eu já falei que não vou fazer isso.
— Emma...
Ela começa, balançando a cabeça, mas antes que ela termine, interrompo-a.
— Eu não vou matar você!
Exclamo.
— ...Eu não vou matar você.
Repito, desta vez mais calma. Ela olha para mim fixamente com os olhos lagrimejados e morde os lábios. Ela não disse nada, mas eu sabia exatamente o que ela estava querendo dizer.
"Não tem outro jeito."
— Me desculpe... Eu não quis dizer isso...Eu... Eu não quis te chatear.
Regina fala num tom calmo, acariciando meu rosto, em seguida me abraçando. Fecho os olhos, apenas sentindo o cheiro e o toque dela.
No fundo, eu sabia disso. Eu sabia que não havia outra maneira de resolver essa problema. Era maior que nós dois.
Eu sei disso. Eu sei.
Mas eu não queria admitir.
Não podia admitir isso.
Porque se admitir...
O que seria de nós dois?
********
Regina's POV:
Assim que volto para a minha base, vou para minha barraca direto. Minha cabeça tava explodindo de tanto pensar. Eu tinha que encontrar alguma maneira de resolver tudo isso. Afinal, não era só a Emma que tinha missão de matar. Suspiro fundo, e fecho os olhos por alguns segundos quando o comandante entra no barraco brutalmente, fazendo o maior barulho possível.
— Onde você estava nessa madrugada?
Ele pergunta.
— Ah, oi comandante, estou bem também. Claro, pode entrar. Fique a vontade.
Digo num tom de ironia.
— Não estou com brincadeiras. Eu fiz uma pergunta. Responda.
Reviro os olhos sem que ele perceba.
— Fui caminhar. Precisava pensar.
— Sobre o que, exatamente?
— Bem, o que você acha?
Respondo num tom mais alto que antes. Ele suspira fundo e sai dali.
Por que a vida tinha que ser tão complicada? Fecho os olhos e suspiro fundo.
—
Mais tarde, no caminho de ir para o campo, encosto a cabeça na janela, olhando para as crianças que brincavam do lado da fora de casa. Eles sabiam que o seu país estava numa guerra e que eles estavam em perigo, mas de alguma forma eles sempre achavam uma maneira de encontrar a felicidade no meio de tudo isso. Fecho o olho, lembrando da minha infância. Não era lá melhor coisa do mundo, mas era o tempo em que eu fui realmente feliz. Lembro do primeiro dia que meu pai me ensinou a caçar. Lembro até das broncas que ele dava para mim. E minha mãe... Ela nem sempre foi daquele jeito. Teve uma época que ela fazia lição de casa junto comigo e me buscava depois da escola. Lembro que às vezes passávamos no supermercado, onde ela comprava doces para mim, escondido do meu pai, já que ele tinha essa regra, de 3 doces por dia. Éramos uma família. Uma família de verdade. Éramos felizes. Mas aprendi bem nova que a felicidade acaba num piscar de olho. E foi assim que minha família deixou de ser uma família. Num piscar de olho.
Chegamos no campo e entramos imediatamente em posição. Coloco o dedo no gatilho e aperto uma vez... dois... três...
Sem sentimentos, sem piedade... Parecendo um robô, obedecendo seus comandos. Perdi o sentido há muito tempo. Já não sentia nada ao matar um homem. Tudo que me restou era esse vazio que existe de mim, e a Emma. Mesmo que sentisse apenas um vazio dentro de mim, a Emma, de alguma forma fazia eu sentir mais. Ela tinha esse efeito em mim. Penso em ir para a igreja, mas hoje não tinha muitas pessoas então se eu sumir nem que seja por 10 minutos, eles perceberiam. Desisto de ir pra lá, e concentro apenas no que eu estava fazendo: atirar.
***********
Emma's POV:
Depois que volto da igreja, vou direto para refeitório comer. Não que eu estava faminta, mas eu precisava colocar alguma coisa na boca para me acalmar um pouco.
Parecia que quanto mais tempo eu ficava nesse lugar, mais ele me deixava louca. Por mais que eu estava rodeada de pessoas, me sentia só, e como se isso não bastasse, sentia que a qualquer momento, eu perderia tudo que eu tenho.
Bem...
Dito e feito.
Assim que termino de comer, volto para minha barraca, pensando em o que fazer. Quando acontece algo que eu não gosto, problemas no qual eu não sei como resolver, tenho mania de fugir. Mas desta vez, era questão de vida e morte, não tinha como fugir. Eu tinha que encarar isso. Eu tinha que resolver isso.
Mas uma parte de mim ainda queria fugir. Então, dentro de tantos pensamentos, surge mais um: E se... fugirmos?
Penso, logo tiro essa ideia da cabeça. Não que eu não queira fazer isso, se eu pudesse, claro que eu quero... porém, viver como fugitivo... isso não é vida. Se eu vou viver com a Regina, eu quero uma casa, um bairro calma, quem sabe ter até gatos? Cachorros, talvez? Ser uma família de verdade.
Mas todos nós sabemos que querer não é poder.
*********
Depois que eu sai do reunião com pessoas que têm TEPT, vou direto para casa. Deito-me um pouco, suspirando fundo, pensando novamente em tudo. Eu tinha essa mania, de ficar repetindo eternamente tudo que aconteceu na minha cabeça. Desde o início, até o fim de tudo. Onde que eu errei? O que poderia ter feito? Assim passava-se horas afogando nas memórias. Passo a mão no meu peito e sinto colar que eu estou usando. Pego o colar e levanto da cama, indo para armário. Pego uma caixa e coloco na cama, suspirando. Abro com a chave que está com colar. Lá, tinhas foto de nós dois, e era tudo que eu precisava. Conseguia sentir até o cheiro dela. Respiro fundo, sentindo o ar com cheiro dela entrar no meu corpo, e suspiro. Relembrando novamente de tudo, deixando-me afogar nas memórias.
—
(*1)
Era um dia bonito. Não fazia frio, nem calor, o sol brilhando forte no céu, mas não estava calor do verão. Estava gostoso. Lembro como se fosse ontem. Talvez porque estou repetidamente lembrando desse momento, mais que tudo, mas isso não importa. O que importa é que era um dia bonito, mas parecia tudo vago. Eu cumprimentando as pessoas, indo tomar café da manhã... parecia muito vago, um sonho. Não se como dizer. Parecia tudo mentira.
De tarde fui para igreja. Não me importava mais de ficar me preocupando com os outros, vendo quando que eu podia escapar para vir aqui. Agora eles sabiam exatamente para onde eu estava indo, e o que eu iria fazer.
Afinal, é o final de tudo.
—
Assim que entro na igreja, vejo ela, de costas, e dou um sorriso, aliviada de que ela estava lá, e ao mesmo tempo odiando-a por estar lá.
Ando em direção dela, quando finalmente ela percebe que estou aqui e vira para mim, com um sorriso pequeno no rosto.
Ah, não é justo, não é justo você sorrir desse jeito para mim. Como que vou fazer o meu serviço desse jeito? Penso, sorrindo de volta para ela, com olho lacrimejado.
— Oi, Emma.
Ela fala num tom mais baixo que normal.
— Oi, Regina.
Respondo.
Os dois parada então, respiro fundo e não tiro olhar dela. Ela era tão linda, não conseguiria tirar o olho dela, mesmo se eu quisesse. Ela tinha esse poder.
Suspiro, ainda olhando para ela. Ela estava com olhar triste, dava para notar. Mas ela não tirava esse pequeno sorriso.
Esse sorriso gentil, como se ela quisesse falar, “ Esta tudo bem”, “Eu estou aqui, não vou fugir”.
Nós dois sabíamos, o que iria acontecer aqui.
*******
Regina’s POV:
Sentindo o calor do sol batendo no meu corpo, escuro um barulho e olho para trás. Não era comum nos dois estar aqui nesse horário, mas eu sabia o que estava prestes a acontecer. Olho para ela e dou um sorriso. Me senti aliviada, ela estava aqui, comigo. Pelo menos tudo que aconteceu, não era sonho, não era mentira.
— Oi, Emma.
Falo, num tom mais calmo.
— Oi, Regina.
Ela responde, cheio de lágrimas nos olhos. Por que esta assim Emma? Não fique assim, por favor. Sinto um aperto no coração ao ver ela com olhos lacrimejamos, mas não digo nada e apenas mantenho o sorriso no rosto. Queria chorar, na verdade. Mas sei que, se eu fazer isso, a Emma não conseguiria fazer o que ela precisa. Ela suspira fundo novamente, então anda em direção a mim e para na minha frente, logo embaixo do teto quebrado, onde entrava sol e deixava o cabelo louro dela mais brilhante. Sinto o cheiro dela entrando na minha narina, então respiro fundo, afim de poder sentir mais cheiro dela. Ela olhava para o chão e não me olhava. Então coloco a minha mão no rosto dela e colo a minha testa no dela.
— Emma... está tudo bem.
Sussurro.
Como se essa palavra bastasse, ela me abraça forte. Doía meu coração só de pensar o que iria acontecer. Mas quem está mais abalada com isso, era ela. Eu sabia disso. Então tenho que manter forte, para ela.
— Emma, querida... Está tudo bem.
Repito. Fazendo carinho nas costas dela. Solto-a e olho para ela. Passo a mão no rosto dela novamente, desta vez fazendo carinho. Então nossos olhos se cruzaram, fomos lentamente nos aproximando, até que numa dose de doce paixão nossos lábios se encontraram, foi como se meu corpo não me obedecesse mais, não resistia aquele encontro de desejos. A força do amor era mais forte que eu, o céu parecia ter descido sobre nós. Não podia conter a alegria de beijar a mulher que me fez conhecer o sentido de amar... Era tudo como a nossa primeira vez. Não era muito romântico, não era como na cena do filme, onde o casal se beija num lugar chique. Talvez na Paris, se for mais clichê. Não era assim, o nosso era uma igreja abandonada no meio do deserto. Igreja tudo quebrado, tetos caindo, areia para todo quanto lado. Mas mesmo assim, parecia certo. O beijo com a Emma, sempre tinha um gostinho doce, mas não desta vez. Não hoje. Hoje estava salgado. Talvez porque seja o último beijo nosso. Ou talvez... porque nós dois estávamos chorando.
—
Depois de alguns minutos finalmente nós nos se soltamos e colei a minha testa no dela, novamente. Queria que esse momento durasse para sempre. Limpo minhas lágrimas disfarçadamente. Não queria que a Emma me visse chorando, mas eu já sabia que ela viu minhas lágrimas escorrendo. Emma, por outro lado, não se preocupou em limpar as lágrimas. Pelo contrário, ela continuou chorando, até soluçar. Então, me agacho na frente dela, ficando de joelhos. A Emma finalmente limpou as lágrimas e olhou diretamente para mim, pegando a arma dela. De joelhos ainda, tiro o colar de chave que estava comigo e dou para ela. Nenhum de nós falávamos nada nesse momento, não que não queria. Não conseguia. Quando finalmente ela aponta a arma para mim, quebro o silêncio.
— Emma... quantas pessoas você já matou?
Pergunto, com tom calma, olhando para ela.
— ...Trinta e sete.
Responde, depois de alguns segundos de silêncio. Dou pequeno sorriso para ela.
— Então... eu sou a sua trigésimo e oito.
Os olhos da Emma se enche de lágrimas novamente, então sinto meus olhos lacrimejando também.
— Emma, não fique assim.
Digo. Dando o melhor sorriso possível para ela.
— Eu...
Continuo.
— Eu te amo Emma.
Digo finalmente. A esse ponto não tinha nada a perder. E por mais que eu não tenha amado alguém, como eu amo a Emma, eu sentia que dizer que eu a amo, seria a coisa certa a se fazer, antes da partida.
— Eu também. Eu também te amo, Regina.
A Emma responde.
Não tinha mais lágrimas nos olhos dela, tinha um olhar gentil, um pequeno sorriso também. Talvez ela esteja forçando, não sei. Mas era tudo que eu precisava nesse momento. Esse sorriso e esse olhar que me dá segurança. Como se ela falasse “Esta tudo bem, Regina. Não tenha medo”
E era isso, que eu precisava.
Então...
Escuto um barulho forte. Barulho de arma. Sinto um cheiro de pólvora juntamente. Não tiro o olhar da Emma, quando sinto um calor imensa na minha cabeça. Tá calor. Tá calor. Tá calor. Aquilo estava me queimando.
Então minha visão começa a escurecer e sinto o meu corpo ficando mole, a ponto de não conseguir ficar de joelhos mais, quando derrepente sinto uma coisa me segurando. Não uma coisa, mas sim, a Emma. Antes que eu caísse, ela me segura gentilmente, acariciando meu rosto e cabelo. A única coisa que eu sentia era dor imensa, leve toques da Emma e o cheiro dela. Já não sentia os meus pés. Respiro ofegante, enquanto o sentia o meu corpo ficar cada vez mais mole e quente. Minha visão já estava começando escurecer, e por mais que estávamos em baixo do sol, já não conseguia mais ver o cabelo louro da Emma brilhando, como eu costumava ver.
Emma encosta a testa dela no meu, deixando cair as lágrimas nos meu rosto. Já não sentia mais o calor que eu estava sentindo, pelo contrário, eu estava começando a ficar com frio. Respiro com dificuldade e olho para os olhos da Emma pela última vez, quando ficou tudo escuro.
—
Abracei o corpo da Regina mais forte, as mãos dela já não segurava meu braço, eles estavam caídos no chão, como se fosse boneco. Tudo nela parecia ser boneco. A cabeça caída, braços e pernas esticadas, os olhos sem luz...
Não sei por quanto tempo fiquei segurando ela. Segundos? Minutos? Horas? Bem provável que seja horas, já que o sol já estava começando a ir embora. Mas não importava. Eu segurei ela, segurei ela do momento que ainda estava quente, até o momento que estava completamente fria, dura.
—
Era um dia bonito. Não fazia frio, nem calor, o sol brilhando forte no céu, mas não estava calor do verão. Estava gostoso.
******
Emma’s POV:
Quando alguém descobre que eu fui uma soldada da guerra ao terror, geralmente as perguntas são:
— Você ja matou alguém?
Não é uma pergunta agradável, mas já me acostumei. Então suspiro e digo:
— Sim.
— Você sabe mais ou menos quantas?
— Eu não sei, parei de contar.
Minto.
64, exatamente 64 soldados eu matei. Gostaria de não lembrar quantos soldados já matei, mas por mais que você não queira se lembrar, você acaba contando, lembrando de cada detalhe e tendo pesadelos sobre isso.
— Qual foi a última que você contou?
Então minha memória me leva de volta a aquela época e sinto como se realmente eu estivesse naquele campo com os barulhos de tiros explodindo na minha cabeça.
— Por quê parou de contar?
As perguntas continua então volto a si.
— 38. 38 foi o ultimo que contei, porque foi o pior.
Então as perguntas param, como se estivesse com dó de mim ao perguntar isso, ou talvez apenas não querendo mais detalhe.
“But you'll never be alone
I'll be with you from dusk till dawn
I'll be with you from dusk till dawn
Baby, I'm right here
I'll hold you when things go wrong
I'll be with you from dusk till dawn
I'll be with you from dusk till dawn
Baby, I'm right here”
fin.
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