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1 Asleep
Notas iniciais
Sai do banheiro apressada, tive que fazer tudo rápido devido ao barulho da porta me chamando. Era Amélia que havia chegado de surpresa. Praguejei, já era ruim o suficiente ter que fazer aquilo sem plateia e principalmente com ela. Éramos amigas desde quando eu me entendia por gente e conforme os anos foram passando só aumentou a amizade. Amélia sabia quão mal eu estava de um ano pra cá, mas eu realmente não queria que ela me visse neste estado. Tentei ajeitar o cabelo falhando feio e abri a porta:
— Meu Deus, Priscila! – Ela me abraçou — Não acredito que você emagreceu mais ainda e essas olheiras... Você tem tomado o remédio direito?
Ri da ironia da pergunta naquele momento:
— Você não sabe como.
Ela entrou feito um furacão já comentando da bagunça do apartamento, Ela sempre teve esse jeito de mãe querendo cuidar sempre de mim, comecei a sentir a pior pessoa do mundo. Já não estava conseguindo entender o que ela falava, não lembrava que palavras conseguiam ser proferidas tão rápido em tão pouco tempo. Os Comprimidos estavam fazendo efeito:
— Amélia, eu preciso deitar
— Pri, você mal consegue andar... Mas que merda você fez?
Deitei
— Ei, prometa que não vai se culpar pelo o que acontecer como eu fiz, que vai seguir sua vida.
— Mas o que...?
— Prometa.
— Eu Prometo... – Os olhos dela se arregalaram e ela correu para o banheiro, não sei o que esperar quando visse os frascos de anti-depressivos e remédio contra insônia dessa semana vazios. Ouvi um grito abafado com a mão, ela tinha encontrado. Veio correndo e se ajoelhou ao lado da cama já com lágrimas nos olhos. Aquela sem duvida seria a pior parte:
— Pri, o que você fez...?
— Não se sinta mal por mim, você sabe que no fundo eu estou agradecida por ir.
— Eu sei só que – ela tentou engolir o choro – eu não queria que fosse assim
— Eu também não, mas eu não quero mais acordar sozinha assim.
— Eu sei que foi difícil pra você o acidente com ele só que, Pri... Eu...
— Shh
Usei o que restava de minhas forças para por um dedo na boca dela:
— Amanhã de manha abre a gaveta, tem um bilhete ali. Explica tudo.
— Priscila eu... Eu te amo... Você...
— Eu também de amo. Incondicionalmente, de uma forma que eu só amei uma pessoa na vida sem ser da família. E por favor, não tente me acordar amanhã, eu já terei ido.
Aquela com certeza seria minha ultima frase tão longa, as lagrimas já me escorriam no rosto e Amélia estava inconsolável e eu já não conseguia focar em mais nada, eu só tinha mais um pedido:
— Ei... Canta pra mim
— Leito de morte e você me pedindo para cantar — ela deu um riso. Eu sorri. – Vou sentir saudade desse sorriso
— Canta pra eu dormir
A ultima coisa que lembro é as palavra de The Smiths adentrando meus ouvidos com a voz de Amélia e me envolvendo como um abraço. Nem me lembrava como era a sensação de paz. Depois tudo ficou preto e o mundo já não importava, a ultima coisa que ouvi foi ela repetindo “sing me to sleep”.
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