30 Dias
2 Trigésimo Dia (Parte 2)
Notas iniciais
As aulas da tarde passaram como um borrão para Yugi. Os ponteiros do relógio pareciam correr, e, antes que percebesse, ele já guardava seus materiais. O cheiro da escola, o burburinho dos corredores e o calor do sol filtrando pelas janelas se tornavam ruídos de fundo em sua mente inquieta.
Jonouchi apareceu do nada, como sempre, com aquele jeito expansivo e barulhento. Passou o braço pelo pescoço do amigo num abraço apertado — quase sufocante — e bagunçou os cabelos espetados dele com um sorriso largo.
— Ei, Yugi! Que tal darmos um pulo no Burger World? — perguntou, empolgado.
Yugi ainda recuperava o fôlego do "ataque surpresa", e mal teve tempo de responder antes de Anzu intervir, cruzando os braços e balançando a cabeça com uma expressão de cansaço.
— Você não cansa de ser imaturo, Jonouchi?
Yugi sorriu sem jeito, ajeitando a mochila nas costas.
— Foi mal, pessoal. Prometi ao meu avô que ajudaria na loja hoje.
Seus olhos passaram rapidamente pelos rostos dos amigos, uma mistura de afeto e cansaço nos traços suaves.
— Até amanhã, gente.
Deixou o grupo e caminhou sozinho pelas ruas familiares de Domino. O céu começava a ganhar tons alaranjados, e o vento tocava seu rosto com leveza. Ele costumava fazer aquele caminho com Anzu, mas naquele dia... precisava de silêncio. De espaço. De si mesmo.
Parou ao chegar à ponte. Apoiou-se no parapeito frio, respirando fundo. A cidade parecia menor dali, como se coubesse inteira dentro de seus pensamentos. O vento, agora mais forte, brincava com seus cabelos.
— Está aproveitando? — perguntou, sem virar o rosto, ao sentir a presença familiar.
Atem estava ali. Silencioso. As mãos nos bolsos, os olhos perdidos no horizonte.
— Meus pensamentos te incomodaram? — Yugi riu, mas o som saiu seco, sem alegria.
— Eu sei que está triste — respondeu Atem, depois de um breve silêncio. — E, para ser honesto, eu também estou. Mas preciso seguir meu caminho...
Yugi suspirou e passou a mão pelo rosto, tentando afastar a névoa emocional que começava a se formar em sua mente.
— Vamos. Se demorarmos, o vovô vai me dar uma bronca — disse, retomando o passo com um meio sorriso.
Atem não respondeu. Apenas retornou ao interior do Enigma, respeitando o momento.
De volta à loja, Yugi colocou a mochila de lado e mergulhou nas tarefas do dia: carregar caixas com novos jogos, arrumar as prateleiras, repor as cartas que chegavam em pacotes coloridos. Sentia o olhar atento de Atem acompanhando cada gesto.
— Está tentando me tirar do sério hoje? — provocou, virando-se com um sorriso cansado.
Atem ergueu as mãos em rendição, rindo.
— Estou só observando. Prometo.
Mais tarde, jogados num canto da loja, os dois ficaram em silêncio por alguns minutos. Yugi olhava para o teto alto, onde girava lentamente um ventilador antigo. Atem sentou-se ao lado dele.
— Não quero que você vá embora... — murmurou Yugi, sem encará-lo. — Mas sei que precisa. E isso... confunde tudo aqui dentro.
Levou a mão ao peito, sobre o Enigma.
— Não quero te ver deprimido por minha causa. Vamos subir.
Yugi subiu para o quarto, após minutos descansando em silêncio no chão, e foi tomar banho, tentando deixar as emoções pelo caminho. Sua mãe já havia gritado duas vezes sobre o jantar, e ele não queria arriscar uma terceira.
(horas depois)
Sentado à mesa de estudos, Yugi finalizava sua lição de casa. Tinha se prometido que seria um aluno melhor. Mas, apesar do esforço, sua mente insistia em divagar. Ao terminar, deitou-se na cama. O teto escuro o encarava de volta.
— Não consegue dormir, Aibou?
A voz suave de Atem o puxou de volta. Ele se sentou devagar, segurando o Enigma com ambas as mãos.
— Hoje, não. Meus pensamentos... estão pesando demais. Sinto como se estivesse sendo soterrado por eles.
As palavras vacilaram. Seus olhos ardiam. Ele respirou fundo, tentando conter as lágrimas.
— Eu sou fraco... Eu...
Atem sentou-se ao seu lado e o envolveu em um abraço — ou o mais próximo disso, considerando sua forma espiritual.
— Você não é fraco, Yugi. Pelo contrário. Você é gentil, esforçado, leal... e eu sou profundamente grato por tudo que é.
Passou a mão pelos cabelos dele com carinho. Yugi fungou, deixando que as lágrimas caíssem sobre o Enigma. A voz falhou.
— Eu não quero dizer adeus... Não quero que você vá... Eu...
Mas parou. Não podia continuar. Era demais. Seu coração batia acelerado e confuso. Às vezes achava que era só a convivência intensa. Outras, sentia que era algo mais.
Deitou-se novamente e fechou os olhos. Atem entendeu. Ficou ali ao seu lado, em silêncio, fazendo um cafuné gentil enquanto olhava pela claraboia.
— Não precisa dizer nada, Aibou... Eu já sei — sussurrou o espírito, mais para si mesmo.
Ele sabia. Desde a Batalha da Cidade, já sabia. Estava apaixonado por Yugi. Mas também sabia que o fim se aproximava. E esse sentimento, se revelado, só tornaria tudo mais difícil.
— Boa noite, Aibou... — disse, antes de desaparecer, voltando para sua sala na alma do Enigma.
Levaria o sentimento com ele. Era melhor assim. Para ambos.
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