Aquele inverno parecia mais frio que o comum de todos os anos, mesmo que aqui não faça tão frio assim. Eu havia acabado de cortar meus cabelos e estavam na altura do pescoço, como sempre, eu odiei.

Minha mãe disse que eu estava bonita. Mas isso sempre foi suspeito da parte dela, já que era minha mãe. Então eu preferia evitar me olhar no espelho, ou em qualquer outra coisa espelhada que refletia minha imagem. Não querendo ser dramática, mesmo que isso já faça parte de mim, mas eu não gostava de me olhar porque havia algo que me incomodava. Não só meus cabelos curtos que eu odiava. Eu me perguntava o por quê eu estava ali, e qual era a minha missão na terra quase todos os dias. Talvez fosse salvar alguém, ou sei lá, pelo menos fazer algo pra revolucionar o mundo... Todos os dias eu questionava a existencia humana, e recebia nada como resposta. Dizem que sou deprimida. Outros dizem que é apenas uma fase, ou que preciso de um psiquiatra. Eu prefiro não entender, estou bem assim. Dá pra sobreviver.

Saí da escola e fui para o trabalho da minha mãe, como sempre. Eu não tinha coragem de ficar em casa com o Claudio, ele me assustava. E também não adiantava contar o que havia acontecido pra minha mãe porque ela dizia que eu estava mentindo, ou colocava meu pai no meio da história, o que eu odeio. No trabalho dela eu não fazia nada. Mal comia, porque ela dizia que não tinha dinheiro nunca, então eu ficava na internet escrevendo no blog já que não tinha mais nada pra fazer até nove horas da noite, que era a hora que eu chegava em casa.

Meu blog era super foda, você lembra? Todos gostavam e pediam para eu escrever mais. Eu amava, e sonhava em ser escritora um dia. Dar autógrafos e receber pessoas importantes no lançamento do meu livro. Você sempre me disse que eu escrevia bem. Mas até hoje fico acanhada de te mostrar meus textos. Você escreve tanto.

Eu escrevia sobre amores não correspondidos, e sobre minha crise maternal e paterna. Sempre acho que faço drama em relação a isso, mas não gosto que ninguém me fale a respeito, porque meu drama é confortável pra mim, me encaixo bem nele. É como se só eu soubesse exatamente o que me alivia a dor, ou o que me acalma.

Na minha casa não existia paz. Minha mãe não me dirigia a palavra e o meu padrasto se fazia de santo na frente dela, por isso não gostava de ficar sozinha com ele.

O Claudio não tinha filhos, e foi criado pelos avós. A mãe dele abandonou ele quando era um bebê. Ele não sabe ser carinhoso, e descontava a raiva que ele sentia das coisas em mim. Era estúpido, isso quando não rolava umas porradas básicas. Eu pedia pra minha mãe fazer ele parar, mas ela não acreditava em mim. As vezes via, e ria. Desamei minha mãe dali. Era horrível vê-la a favor dele, e vê-lo brigando comigo como se estivesse brigando com um homem de seu tamanho.

Eu nunca entendi muito bem o que minha mãe fazia com ele. Ele não era bonito, nem atraente. Não era carinhoso e nunca se quer lhe deu um presente. Não pagava as contas e era preguiçoso. Minha mãe sustentou ele durante sete anos. As vezes acho que ela gosta de viver assim, e sinceramente eu não me conformo.

Eu estou desabafando com você, não é? Me desculpa. Essa história era pra ser nossa.

Os dias passavam e as coisas eram sempre as mesmas.

Eu estava no melhor colégio de Nilópolis. Quem frequentava, geralmente, os pais eram ricos ou políticos. O que minha mãe ganhava só dava pra pagar a mensalidade, e o que meu pai me mandava de pensão era para pagar as contas da casa. Nunca tive nada que as outras garotas da escola tinham. Sinceramente, nunca me importei, porque eu via o sacrifício que minha mãe dava pra pagar um bom colégio pra mim. Nunca fiz questão de ter uma roupa da moda, ou o celular do ano. E meus cabelos não davam tanto trabalho, porque estavam curtos. Até hoje, não sou muito chegada a essas coisas, porque gosto de ser diferente. Mesmo que o diferente seja feio.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!