299 a.FE: A Queda de Bravata.
1 I: A Queda.
Notas iniciais
Eles podiam ouvir os pedaços de naves caindo e rompendo a atmosfera. Era algo estranho e cheio de terror, aquele silêncio que se seguia depois — suas planícies congeladas quietas como a morte por alguns minutos ou horas, antes que o som trovejante e o tremor do impacto contra o solo sacudisse o metal sob seus pés.
E então, mais momentos se passavam em morte silenciosa, interrompida de novo por mais daquela cacofonia flamejante. O chão tremia até que ela achasse que fosse se partir.
Mas não parecia tremer mais violentamente do que o pequeno garoto que segurava entre os braços. A garota ouviu outro daquele assobio incandescente de uma nave rompendo a atmosfera, e pressionou as mãos firmemente contra os ouvidos dele, apertando-o com força contra o peito e sob seu casaco de lã. Ela sabia que aquilo não seria suficiente para protegê-lo do trovão do impacto, mas fez mesmo assim.
E torceu para que fosse o último.
O chão não havia se rompido quando a manhã chegou. O céu, no entanto...
Estava escuro. O sol brilhava intensamente — faixas de luz serpenteavam por entre a escuridão da fumaça que tomava o céu. Mesmo assim, não era o bastante, e ela só percebeu isso quando piscou os olhos para cima.
Um puxão fraco em sua mão enluvada, e ela olhou para baixo, encontrando olhos escuros espiando, hesitantes, a floresta à frente.
— Vamos — resmungou ela, mesmo que sua mão apertasse a dele com carinho. — Precisamos ver se não há fogo.
O menino assentiu. Ela quase sorriu diante do rosto firme e corajoso que ele tentava fazer, que se transformava apenas numa careta disfarçada de bravura.
O ar cheirava a fumaça, metal queimado e borracha, não importava para onde apontassem os narizes, a ponto de provocar lágrimas mesmo através dos lenços cobrindo seus rostos. Mais de algumas árvores haviam sido queimadas, e ela engoliu a preocupação com os animais fugindo da área, a mente já correndo pensando nos "e se" — e se houver um incêndio forte o bastante para se espalhar e queimar a floresta, alcançar a cabine e transformá-la em cinzas; e se o céu nunca mais se limpar e viverem nessa luz turva estranha para sempre; e se os destroços contaminarem o lago e eles perderem o abastecimento de água; e se os animais dessa região todos morrerem ou fugirem e nunca mais voltarem, e ela perder a única coisa que a permite viver e cuidar do menino, sua sobrevivência, sua subsistência, sua vida.
Bufou, exasperada, para si mesma e para a nuvem de fumaça que se misturava às nuvens negras.
Uma coisa de cada vez, Nastasya, seu pai diria.
Então, uma coisa de cada vez.
— Ali!
— Mikhail!
Ela só teve tempo de olhar por sobre o ombro antes de ver o menino apontar e sair correndo, a neve se levantando sob suas botas. Suas pernas eram mais longas, e ela tinha a vantagem de um passo mais largo, mas Mikhail era rápido. Acabou seguindo as pegadas deixadas por ele na neve.
A garota o encontrou parado à beira de uma cratera ainda fumegante, olhando para baixo.
— Misha, afaste-se.
Mikhail deu um passo mais perto, boca entreaberta; Nastasya o alcançou e segurou firme seu antebraço, puxando-o de volta e chamando sua atenção — olhos negros arregalados voltando-se para os dela.
— Para trás.
Não desviou o olhar até ele assentir, a garganta tentando engolir um nó e o queixo fino tremendo. Ela assentiu, satisfeita, e se virou para ver o que o havia deixado em transe.
Era... Não eram apenas pedaços de uma nave que haviam caído no planeta: mesmo retorcida como estava, com partes ainda brilhando em vermelho do calor da reentrada da atmosfera, Nastasya conseguiu perceber que se tratava de uma nave quase intacta. Ou — ou de uma cápsula de fuga. Não intacta o bastante para saber exatamente o tipo. A escotilha traseira estava aberta.
...Ruim. Era ruim.
Uma escotilha aberta significava que ou as pessoas dentro haviam sobrevivido e saído, ou eram saqueadores. Ela não tinha certeza do que seria pior — dependendo de que lado da guerra o dono daquela nave (ou cápsula?) estava.
Olhos atentos às árvores ao redor e às formações rochosas acima, Nastasya apertou a mão de Mikhail e o empurrou suavemente para que ficasse onde estava. Com passos cuidadosos, levou minutos que pareceram horas para descer até a cratera, e ela apertou tanto o rifle nas costas que ouviu a luva de couro estalar enquanto se aproximava da... coisa.
O vermelho não era apenas das brasas: escorria da escotilha aberta, contrastante sobre a neve, e Nastasya notou, distraidamente, como tudo parecia estranhamente silencioso. Nenhum inseto, nenhum coaxar de morcegos, nenhuma respiração além da sua, escapando por entre o cachecol e se condensando diante do rosto, atrapalhando ainda mais sua visão.
Ela disse a si mesma que foi por isso que não percebeu o corpo até estar embaixo da abertura da escotilha.
Mas não era exatamente um corpo, ao que parecia, já que estava apontando uma arma para ela.
Nastasya ficou imóvel e desacelerou a respiração, o dedo se curvando sobre o gatilho do rifle. A — garota? mulher? — abriu a boca atrás do visor do capacete e fez uma careta ao levantar a pistola em direção à cabeça de Nastasya.
Olhos azuis, Nastasya notou, antes que a estranha soltasse uma tosse perigosa: o braço com a pequena arma caiu, o outro se curvou protetoramente ao redor das costelas, e o visor foi borrifado de vermelho, ocultando seu rosto.
Nastasya a segurou antes que desabasse completamente, mãos rápidas ao desprender o capacete ensanguentado e jogá-lo de lado. Não havia como saber a extensão dos ferimentos da estranha naquele momento, não com a quantidade de sangue cobrindo grande parte dos lábios e maxilar e tingindo o topo de sua testa.
Nastasya quase decide deixá-la ali. Não tem nada a ver com os logotipos da Nova que vê espalhados pelas paredes metálicas ou no traje espacial da outra; ela hesitaria também se fossem logotipos da Frota Exilada — é uma estranha. Pode muito bem não sobreviver à jornada de volta, ou até sobreviver e morrer em sua cama, e Mikhail presenciar. Eles desperdiçam comida preciosa, água preciosa, seus escassos suprimentos médicos.
A estranha tosse novamente, ainda inconsciente, e Nastasya vira a cabeça dela para que não se sufoque com o próprio sangue.
Mikhail chama por ela, lá fora, voz jovem e hesitante quebrando. Nastasya coloca a estranha sobre os ombros e se prepara para a caminhada tortuosa de volta para casa.
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