27 De Julho
1 27 de julho, 22:59
Sou escritor. Bebo palavras, como palavras. Sensibilizo-me com a imbecilidade humana ao mesmo tempo que não dou a mínima ao que um humano faz. Seco, irônico e frio. Chaves de caráter essencial para se ter uma boa escrita. Meu tempero favorito é o sarcasmo, servido com uma pitada de compaixão para conservar minha humanidade. Meu psicólogo disse que isso fará bem a mim. Escrevo sobre arte, política, vida alheia, mas sou mestre mesmo em escrever sobre absolutamente nada. Absolutamente nada é o que acontece de mais interessante no mundo. Sexo também e por isso escrevo, vez ou outra, um conto erótico. Baseio nas putas que contrato. Mais fácil pagar do que conseguir de graça. Não preciso de amor, só do sexo mesmo. Meu psicólogo disse que é errado pensar assim, mas como ele não me deu nenhuma solução melhor em nossos 50 minutos de terapia, ainda não mudei esta visão. Ele também sugeriu que eu criasse uma espécie de diário onde anotasse meus sentimentos e etc. para que possa refletir e me tornar mais sociável. Não sei como isso me ajuda a ser mais sociável, afinal estou conversando com um computador. Acho que estou desperdiçando meu dinheiro com terapia. Não que isso seja um problema, porque meu ultimo livro vendeu bem. Ate querem fazer um filme. Uma baranguice sem fim. Mas gastar 240 por hora é fogo! Dava pra pegar uma puta legal com isso, diferente da ultima que eu peguei que faltava um dente. Detesto imperfeição e no anuncio não dizia este honorável charme. É certo dizer peguei uma puta? Seria melhor paguei?
De qualquer forma, odeio publicidade. Ela fica ali passando um photoshop na vida e dizendo que todos seus sonhos vão se realizar se você gastar tal quantia. Esporadicamente meus sonhos se realizam por tal quantia, porem só por 40 minutos ou uma hora. Depende do quanto de pó que eu cheiro. Será que eu devia ter escrito isso aqui? Por que eu refleti sobre isso ao invés de apagar? Isso quer dizer que meu subconsciente acha correto que eu deixe essa informação ai, ou eu ainda to meio doidão. Meu antigo fornecedor mudou do plano físico para o espiritual e eu não vou muito com a cara deste novo. Alem das prostitutas, ele é minha única visita, só que ele vem com menos freqüência. Só quando eu tenho um surto de ansiedade que ele aparece. Segundo meu psicólogo estes surtos acontecem porque eu não sei lidar propriamente com minhas emoções. Pra mim isto ocorre porque este mundo esta podre.
Foi minha irmã que sugeriu que eu fosse a um psicólogo e minha mãe disse que é importante escutar sua família, então eu fui. Acho que minha irmã nunca foi a um psicólogo. Ela é dois anos mais nova do que eu, é casada ha 7 anos tem um filho e um marido estranho. Espera, eu acho que ela se divorciou. Não, não, foi a amiga dela. Minha irmã fala demais e me confunde. Eu já sou bastante confuso sozinho e apreciaria se ela não piorasse a situação. Meu psicólogo disse que eu tenho de ser paciente, então ignoro ela. Sensação minha ou tem gente demais mandando na minha vida? Não sei se é normal deixar esse tanto de gente meter o dedo onde não é chamado, mas eles sempre vem com aquela conversa de “é para o seu bem” e eu acabo me confundindo e aceitando as sugestões.
Semana passada foi a reunião de família e minha mãe e irmã, conhecendo o filho/irmão ermitão que tem fizeram-me a gentileza de realizá-la aqui em casa. Elas e a Madinusa, empregada aqui de casa. Despedi a Madinusa por isso, mas logo depois a recontratei, pois lembrei minha falta de habilidade em morar sozinho. A casa ficou uma zona e em um sentido ruim. Nunca vi família mais difícil de me deixar em paz. Odeio reunião de família. Quando eles vão perceber que, alem de minha propensão ao isolamento, eles são minha principal causa de reclusão e baixa-estima? Nunca tive apoio de ninguém pra nada. Cresci sozinho, me formei sozinho, conquistei sozinho. Puta dificuldade de me deixar sozinho! A mãe de minha mãe, a mais sabia desta família, já disse que eu não presto mesmo. Sou a fruta podre no cesto, um sem coração e eu não discordo dela. Também acho que eu não presto e nasci pra morrer na sargeta, ou transando com uma gostosa qualquer. Tenho isso em mente desde meus 12 anos.
Madinusa é um nome engraçado. Feita num barraco imundo em alguma favela e olhe lá. Ela e um ser que me intriga. Mora na favela, vai ao samba e no sei-lá-o-que e olha que ela e velha e acabada. Junte uma gárgula com a medusa e você tem Madinusa. Ok estou começando a refletir sobre Madinusa, está na hora de parar. Continua minha empolgante vida logo que eu tiver paciência para esta palhaçada.
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