254 Dias Com Meu Professor
2 Parabéns pra você...
Notas iniciais
6 de abril de 2015, 2:40 da manhã.
POV. Amélia Santiago Lionel
Eu estava dormindo já. O gosto do álcool da noite anterior ainda na boca, mesmo com os dentes escovados. Eu não sou fã de cerveja, mas às vezes me aventuro em alguns destilados e algumas besteirinhas. Não sou nenhuma bêbada, acredite. O máximo que já fiz sob o efeito do álcool é dançar por 15 minutos seguidos sem parar. Havia bebido alguns copos de caipirinha e batidas ontem, afinal, aniversários foram feitos para serem comemorados, não é mesmo? Ainda mais se for o aniversário de seu “pseudo-namorado.” Que, no meu caso, é Marcelo Brezon, meu professor de química do colegial. Sim, deve estar se perguntando “Amélia, como? Ele não é seu professor?” E lhes respondo: Sim! Ele é meu professor. “E isso afeta o relacionamento de vocês?” Sim, infernalmente (se essa palavra ao menos existe...).
Abri os olhos com aquela irritação natural de quando se é acordada por algo ou alguém no meio de um sonho bom. Meu celular “gritava” as palavras do refrão de "No seu coração" dos Aliados, uma banda que eu nem mesmo ouvia todas as músicas, apenas essa em especial, por conta de um momento especial. "Você me quer e eu te quero também, mas o medo de errar nos afasta..." ecoava no meu quarto, e não parecia tão doce como quando a escolhi como toque de Marcelo. Ela nos definia de uma forma indescritível. Mas eu estava sonolenta demais para lembrar-me dessa informação no momento.
Puxei o celular do carregador e deslizei com muito esforço a tela de bloqueio, atendendo a chamada.
— Alô? — Murmurei manhosa, fechando novamente os olhos e encostando a mão na cabeça. Impulsionei meu corpo para frente, sentando e procurando o abajur sob a mesinha de cabeceira.
— Alô? Amélia, é você? — Uma voz feminina, um tanto quanto embargada, perguntava por mim, e eu não conseguia me lembrar do nome da dona da voz.
— Oi, sou eu sim... — Falei baixo, respirando audível demais. Peguei meu óculos ao lado do abajur e me preparei para prestar atenção em quem quer que fosse a dona da voz.
— Amélia, é a Elizabeth, o Marcelo sofreu um acidente e está aqui na Santa Casa. — Disse a voz, em uma mistura de medo, aflição, ansiedade...
Marcelo, acidente... Por que é que essas duas palavras me fizeram pular da cama em um mísero segundo, cérebro?
— Como? Liz, o que aconteceu? — Falei enquanto pensava nas inúmeras hipóteses de acontecimentos e procurava entender a gravidade do ocorrido e tentava colocar meus pensamentos na ordem em que algo fizesse sentido às 2 da manhã.
— Ele bateu o carro, querida. Acabei de chegar, os médicos já o levaram há algum tempo, estou aqui sozinha, será que não pode vir? Não sei se posso aguentar isso, os irmãos dele não atendem... Eu não sei o que fazer. Não sei se posso entrar, ou se é melhor esperar o médico... Sua mãe não se importaria de trazer você? Eu realmente não sei quem mais chamar. — Ela disse, e mesmo longe, eu pude ver a cena mentalmente. Ela encostada a algum pilar do hospital, com o telefone nas mãos, procurando no telefone de Marcelo o meu número e finalmente ligando e implorando para que eu atendesse no 2º toque.
— Não, tudo bem, Liz. Eu indo praí, me dá 10 minutos, não sai daí! — Falei jogando o cobertor pro lado e pisando no chão gelado. Ela concordou e desligou o telefone, assim como eu.
O gelado do ar condicionado fazia meu quarto parecer um frigorífico noturno. Cada toque de meu corpo quente em algum dos objetos era penoso pra mim e eu arrepiava constantemente.
Mas eu não ligava pra isso agora.
Eu estava ocupada demais enfiando dezenas de coisas na bolsa de couro bege — que havia ganhado no natal retrasado — tentando não quebrá-las, tamanho era meu nervosismo e necessidade de correr. “Merlin, um acidente? Mas como? Eu o deixei em casa, ele não precisava sair! E mesmo que precisasse, teria a decência de não estar bêbado. Ou não teria? Será que ele veio atrás de mim? A briga foi séria, claro, mas não tinha necessidade de sair bêbado de lá, podíamos conversar depois. Droga, espero que não tenha sido grave... Que Deus tenha piedade de nós.”
Peguei uma calça jeans, blusa de manga longa azul e calcei minhas botas. Desliguei o ar e fui para o banheiro e escovei os dentes. Puni-me intimamente por não ter arrumado meu cabelo e tirado a maquiagem do dia anterior, pois agora ela estava toda borrada em alguns cantos do meu olho. O lápis de olho agora se misturava às lagrimas – que percebi existirem após uns segundos – e eu logo fiquei parecendo àquelas meninas de filme de terror. Mas, no estado que cheguei ontem, o máximo que consegui fazer foi tirar o vestido verde e jogar em cima de uma poltrona no canto do quarto e me soterrar – apenas de roupas íntimas – embaixo dos cobertores.
Eu e Marcelo brigamos muitas vezes, mas nunca com tamanha importância. Eram sempre assuntos bobos, ciúmes dele, birras minhas... Nada como “Eu não aguento mais isso, eu só posso ver você escondido, e quando o fazemos, tem sempre que dar uma desculpa e mentir para alguém”. Sim, era esse o motivo da briga pós-festa de aniversário. Ele queria nos assumir, gritar aos quatro ventos que tínhamos esse relacionamento há um ano e que íamos continuar assim. Mas não, não era hora ainda. Eu estou quase me formando no 3º ano, e ele quase saindo da escola onde trabalha atualmente, e é melhor que não saibam de seu histórico com alunas menores de idade, ou ele dificilmente conseguirá uma vaga em outra escola por aí. Se eu queria sair com ele, dançar publicamente, fazer compras, até tomar sorvete no Seu Antonio? SIM. Mas não era tão simples. Eu sempre fui “o cabeça” da relação. Ele sempre foi a vontade, o fogo, a paixão. E é por isso que somos um par perfeito. Um faz merda, e o outro resolve.
Quando terminei de me vestir e aprontar minha bolsa – aparentemente em um piloto automático –, saí correndo pelo corredor de casa, dei a volta pela mesa da cozinha, pegando a chave do carro da minha mãe – como se ela já soubesse de tudo e estivesse vestida e pronta, assim como eu. Então, recuei um pouco. Acordar ela agora não era uma boa ideia. Ela demoraria séculos, talvez milênios para se arrumar. Apressei-me em pegar uma caneta e papel, escrevendo um bilhete rápido e deixando ali no balcão. Eu iria sozinha, pegaria um taxi, qualquer coisa assim, ela me perdoaria por isso depois.
Saí de casa enquanto ligava e pedia um moto táxi, conhecia uns meninos que trabalhavam lá, sempre foram de minha confiança, já que estudávamos juntos.
Não demorou nem 3 minutos e a moto virou a esquina, sendo o único objeto barulhento daquele bairro silencioso e pacato do meu condomínio.
Após ouvir minha explicação atropelada sobre onde deveríamos ir, ele me entregou o capacete e eu subi na moto, enquanto ele voltava a ligá-la. Saímos rapidamente em direção ao hospital central da Santa Casa.
Os carros passavam silenciosos por nós, algumas poucas pessoas habitavam as ruas agora. Isso mudou quando chegamos à entrada do hospital. O mesmo parecia cheio, quase lotado de gente, o que era de se notar, dado ao horário.
Desci da moto e peguei o dinheiro reservado para emergências no bolso, entregando para o homem e saindo correndo para a entrada.
Não reconheci nenhum dos rostos, nenhum dos olhares aflitos... Mas ela me reconheceu.
Elizabeth tocou meu ombro e eu me virei em segundos. Seus olhos pareciam fundos e cansados, assim como os meus. Ela me abraçou forte, não daquele jeito amoroso e calmo, mas daquele jeito desesperado e apavorado.
— Ah, Mel, ainda bem que veio, eu não ia aguentar isso sozinha.
POV. Marcelo Brezon
Horas antes (5 de abril de 2015)
Quem diria que no auge dos meus 37 anos eu receberia uma festa surpresa. Obviamente isso seria trama daquela tampinha irritante. Amélia Lionel. Minha namorada e minha aluna do 3º ano do Ensino Médio da escola em que trabalho.
Quando cheguei a meu apartamento hoje, eu queria deitar, queria dormir por horas e mais horas, até ver um filme, ligar para Amélia e quem sabe, ter uma noite só nossa, talvez fosse sinal de que a menopausa estava próxima. Porém, como eu sempre tive uma ótima sorte, o contrário, o inimaginável, aconteceu.
— SURPRESA! – gritaram inúmeras vozes conhecidas no meu ouvido. Fernando, Alice, Maurício, Matheus, minha mãe... Várias pessoas sorridentes com chapéus cônicos ridículos de festa me olhavam esperando reação.
— Mas o que? – Perguntei resgatando meu senso de humor do fundo de um velho baú na minha mente e sorri realmente surpreso.
— Meu filho, como você está bonito... – Disse minha mãe se aproximando rapidamente de mim e me abraçando. – Está tão grande e robusto... – Ela disse, e alguns dos meus amigos próximos caíram na gargalhada. Minha mãe é assim, sempre foi. Doce, ciumenta, calma, amorosa... Às vezes até desnecessária.
— É, obrigado, mãe... – Falei meio constrangido, retribuindo o abraço e beijando sua testa.
— Espero que não tenha se importado com a invasão. – Ela disse fazendo um gesto para seu redor. – Foi tudo ideia da Amélia. – Murmurou, como se fosse se isentar da culpa.
— Eu já imaginava que fosse. – Falei rolando os olhos e colocando a mochila do trabalho no sofá vago à minha esquerda.
— E aí, cara! – Disse Matheus, meu colega de trabalho da escola de Amélia. – Feliz aniversário, hein? Não sabia que ainda curtia festinhas. – Ele disse rindo e me abraçando. Matheus era assim mesmo, com ele, não há tempo ruim. Sempre rindo e fazendo piada de tudo.
— Pois é, nem eu. – Falei rindo.
— A pirralha te pegou de jeito hein? – Ele disse. Ele e Fernando eram meus os únicos amigos que sabiam disso, fora minha mãe.
— Só eu chamo ela assim. – Falei fingindo um ciúme que eu realmente não tinha, dadas as circunstâncias.
— Ah claro, desculpe, querido. – Ele disse debochado, me socando o ombro. –Ela ta na cozinha, é melhor ir lá ver ela antes que ela queime toda a esfirra.
Esfirra? Eu amo esfirra.
— Tá, sinta-se em casa. – Falei antes de seguir meu caminho até a cozinha, parando algumas vezes para cumprimentar os convidados sedentos por atenção do anfitrião.
Quando finalmente cheguei, a vi de costas, com as mãos ocupadas por uma travessa de vidro e uma de suas amigas do lado, conversando sobre algo que eu não consegui entender de primeira.
— Desde quando você cozinha? – Perguntei, fazendo-a assustar e se virar toda afetada.
— Desde quando você chega tarde do trabalho e nem me dá um beijo? – Ela disse abrindo um sorriso e colocando a travessa na mesa em sua frente. Ah, esqueci de mencionar, Ana Clara – amiga de Amélia – também sabe sobre nós. Óbvio que ela contaria pra uma das amigas.
— Nunca, meu amor. – Eu disse galanteador, indo até ela e a abraçando. Ela é bem menor do que eu. Têm 1,65, cabelos pretos, voz irritante, sorriso sedutor, corpão... Não como aquelas modelos magrelas e fininhas, mas um corpão digno de um homem com 1,78 como eu.
Ela me abraçou pela nuca e enroscou seus dedos em meu cabelo, enquanto eu a puxava pela cintura e a olhava encantado. Que sorte tive por ter conhecido essa pirralha à essa altura da minha vida.
Nossos olhos se encontraram e nossos lábios também. Parecíamos dois adolescentes, tamanha era nossa necessidade de quebrar a distancia de nossos lábios. Sua língua macia dançava sobre a minha, e por alguns segundos, me esqueci de onde estávamos.
— Não vale ficar animadinho agora. Guarde um pouco para mais tarde... – ela disse cortando o beijo e rindo baixinho. Só ela sabia fazer isso, só ela.
— Vou guardar, não é como se eu tivesse escolha mesmo. – Falei rolando os olhos.
— Não tem mesmo, não quero ver isso aí, e eu ainda preciso de ajuda, Amélia, para de manha e vem, as esfirras tão queimando... – Disse Ana clara, nos prendendo a atenção repentina e mordendo os lábios.
— Vai lá aproveitar a festa, vai. Já já eu vou. – E me deu um selinho, desvencilhando-se de meus braços e voltando a pegar a travessa.
Saí da cozinha depois de pegar uma garrafa de cerveja e fui conversar com o pessoal. Era bom rever os amigos, principalmente aqueles que eu não via há tempos.
Conversamos por algum tempo, até que Amélia trouxe os salgados e começamos a comer. Ela voltou, sentou-se do meu lado e iniciou uma conversa animada entre Ana clara e Natanael. Seu amigo gay – que também deve saber sobre nós – enquanto eu conversava com Fernando e meu irmão Maurício.
A noite passou calma, musica tocava em um dos meus aparelhos de som, as risadas, comidas, tudo tranquilo, até que chegou a hora.
— Bem, ta na hora dos parabéns! – disse Amélia, se levantando e convidando todos para irem ao redor de uma mesa decorada de verde e branco. – sim, sou palmeirense, caso essa seja sua dúvida.
E antes que eu pudesse dizer algo a meu favor, todos se reuniram ao redor da mesa e Fernando me puxou para o centro, enquanto Natanael apagava a luz e Amélia voltava da cozinha com um bolo em formato de cerveja. Golpe baixo, pensei.
— Parabéns pra você... – Começaram todos, enquanto eu simplesmente a observava colocar o bolo com as duas velas queimando em cima da mesa. Ela se afastou por alguns segundos e começou a bater palma no ritmo da musica. E quando acabou, era a hora de fazer um pedido.
— O que vai ser, mar? – disse minha mãe, do meu lado.
E a única coisa que consegui pensar foi: “Eu quero sempre me lembrar desse momento.”
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