23:42
5 Segundo Encontro
Após o quase súbito acidente, Joseph parou na primeira brecha que encontrou. Olhou pelo retrovisor e a menina que poderia ter sofrido o acidente já havia se levantado.
Passou a mão em seu rosto. Ligou o pisca-alerta e encostou-se ao banco, olhando para o teto.
— Que dia!... Acho que esse carro não me deu muita sorte...
Foi o que conseguiu pronunciar. Esperou não mais que um minuto e voltou a seguir com o carro. Ligou o rádio e esperou por alguma música que pudesse animar. Nada que lhe agradasse. Não conhecia as estações daquele local.
Desligou. Ligou o GPS para encontrar o tal lugar que poderia saciar sua fome. “Talvez tudo seja culpa da fome”, pensou.
Ao enxergar uma lanchonete, estacionou o carro, desligou-o e saiu. Entrou no estabelecimento e uma criança correu ao seu encontro. Seu coração saltitou.
Mas não era Anne...
A possível mãe da menina a olhou de longe e cruzou os braços. A pequena, por nome Elouise, voltou para a sua responsável. Joe descobriu o nome, pois havia uma bolsa em cima da mesa, a qual a mãe da pequena havia se levantado quando a menina correu.
As duas não voltaram para a mesa, a mãe pegou Elouise no colo e saiu. Joe se apressou para buscar a bolsa. Olhou para a saída e as duas já haviam se retirado. Apressou os passos, esquivando-se de uns jovens que entravam no estabelecimento, os mesmos que vinham do Observatório Real de Greenwich. Porém, Joseph não se ligara. Esperou que todos entrassem e correu até a calçada.
— Hey! – Levantou a bolsinha de Elouise. Contudo, a mãe já estava saindo com o carro e não ouviu – Damn it*! – Deu uma boa respirada – Deixarei isso dentro do carro...
Olhou para a bolsa não gostando do fato de ter se movido para pega-la. Pegou o celular em seu bolso automaticamente. Desbloqueou a tela e era a foto de Anne e Emy abraçadas no carrossel.
Desistiu de voltar ao estabelecimento, assim como desistiu de levar a bolsa. Avistou em uma praça ali perto uma carrocinha de Hot-Dog e achou a ideia boa. Lembrava New York.
Enquanto Joseph atravessava a rua, Alicia chegava com suas amigas para completar o grupo. Contudo, ambos não se encontraram.
O assunto entre os jovens alunos ainda era de preocupação, mas Alicia sabia que nada de mal aconteceria com ela.
— Acredito no que diz o meu horóscopo. – Brincou, enquanto os rapazes faziam os pedidos.
***
A hora foi passando... As ruas foram ficando desertas dando cenário aos grupos que perambulavam pela noite.
O tic-tac do relógio era a trilha sonora na mente do astrônomo.
Darwin estava sentado na sua cama, encarando o seu relógio. Era um relógio antigo, com pêndulo e madeira de lei. Ele havia ganhado de um amigo astrofísico como presente de casamento.
"Eu desejo todo o tempo do universo pra vocês dois, e essa é minha forma de representar isso. O amor é como o tempo, sabe?! Imutável... Você não pode "avançar", não pode apressá-lo. Assim como não pode voltar atrás. Quando você entra nessa, meu caro, não pode voltar."
Darwin riu ao lembrar disso. A lembrança surgia, esse pequeno discurso pós-presente do seu amigo, toda vez que ficava aflito com alguma coisa.
Dessa vez, era culpa de um pesadelo que acabara de ter.
Ele pretendia ir no banheiro lavar o rosto até que foi surpreendido por um toque nas suas costas.
— Amor? O que faz acordado às... — Carrie checou o relógio de pêndulo. — 5h18? Sei que hoje é ainda é dia de semana, mas achei que ficaria em casa hoje... Pelo menos de manhã...
O amor. Toda vez que Darwin via o rosto de Carrie, ele entendia o discurso de seu amigo astrofísico. Ele sentia por ela algo tão único e grandioso como o tempo. Mesmo às 5 da manhã, após acordar de um pesadelo, ficar aflito e ser surpreendido por sua esposa com cabelos bagunçados e remelas nos olhos, aquele sorriso mostrando só um pouco dos dentes ainda o fazia esquecer o que causava aflição nele.
— Nada, honey*. — respondeu, com um sorriso acanhado. — Apenas um sonho ruim.
Carrie se remexeu dando ideia de que iria se sentar também, mas Darwin tocou em seus pés, como se pedisse que ela permanecesse deitada. E assim ficou.
— Já há dias quem vem tendo sonhos ruins... Não quer que eu...
— Não. – Ele sequer olhou para trás – Você sabe que eu não acredito muito nisso. Seria contrariar alguns dos meus princípios. Foi só um sonho. Logo, logo o universo me fará esquecer.
Carrie suspirou, queria dizer algo, mas silenciou-se. Era melhor. No começo foi difícil superar as diferenças entre eles dois, mas agora ela sabia lidar com isso. Ou tentava ao máximo.
Preferiu mesmo o silêncio entre ela e Darwin, por mais que quisesse sempre se expressar. Ainda mais vendo seu marido atordoado. Lembrou-se então de um livro que uma amiga sua emprestou-lhe quando estava de plantão no hospital.
— “O silêncio é a oração do sábio”.— Murmurou Carrie.
Levantou-se rapidamente sem que Darwin pudesse impedir, mas nada fez além de lhe dar um beijo e voltar a se deixar.
Aquilo, com toda a certeza, o acalmou.
***
Onze horas da manhã e, comparando ao dia anterior com uma hora mais cedo, no observatório não havia metade da quantidade de pessoas. Tudo isso por causa das palestras... Era incrível de se imaginar.
Um grupo de alunos de astronomia e astrologia visitavam frequentemente o observatório. Alguns se sentiam inspirados, outros só queriam mesmo usufruir o que podiam para ajudar no curso. Naquele dia, estavam debatendo sobre a palestra e preparando relatórios que seriam entregue aos professores em respectivas universidades.
Uma das alunas do grupo estava meio afastada do mesmo, à espera de alguém.
— Emilly! — Era a aluna fora do grupo, abriu um sorriso ao ser chamada.
— Alicia! Consegui o telescópio. — Disse quando a astróloga se aproximou. – Só espero que você não fique se distraindo com a constelação lá.
— Minha favorita... — Seu semblante entristeceu. — Uma olhadinha apenas...
— Suas olhadinhas podem comprometer o trabalho, Ali.
— Uma olhada rápida não comprometerá, e você foca muito nele. Relaxar é bom às vezes. — Emily encarou a amiga até ela murmurar um “Ok”.
Quando se juntaram ao grupo, entregou para Alicia o telescópio, ainda na caixa. Encontrar-se-iam numa praça por volta das nove da noite para fazer um trabalho de conclusão do curso. A euforia de Alicia a fez esquecer-se de um detalhe: ela nunca havia montado um telescópio daquele.
***
Joe dormiu em cima dos livros e com o restante do terceiro cachorro-quente que havia comprado, que caiu de sua mão no chão do quarto do apartamento em que se instalara. O senhor que vendera era bem gentil e a fome do matemático colaborou com a venda do “melhor hot dog da cidade”, segundo o vendedor.
Acordara com seu celular despertando. Ainda era cedo.
Sentou-se na cama e olhou para o lado.
— Dormir sem a Emy... Acho que nunca me acostumarei... – Passou a mão no rosto. Levantou-se e pisou no restante do cachorro-quente.
— Damn*! – Bateu com os dedos no resíduo que grudou na sola de seu pé — Agora eu entendo como Emy fica quando Anne vomita nela. — Fez cara de nojo.
A mala do matemático estava entreaberta. Pegou a primeira peça de roupa. Ao terminar, viu que seu celular tocara, mas não conseguiu atender. Era Dylan.
Pegou sua carteira e saiu para tomar café.
— Dylan? – Havia ligado para o amigo – Oi... Eu estou indo tomar café em alguma padaria aqui perto. – Disse, olhando para os lados para atravessar. Avistou uma padaria na esquina – Não, cara, hoje não tem como. Irei buscar Emy no aeroporto. – Esperou o amigo comentar algo e riu – Fico te devendo essa. Mas iremos marcar depois, para você conhecer Anne. – Joe estava prestes a se despedir, quando Dylan lhe fez uma pergunta — Se eu fiquei surpreso com a pergunta do Professor Benjamin? Dude... Eu não esperava mesmo por aquela pergunta, mas mostrou o quanto ele é um bom observador. Só confesso que... Não quero me encontrar mais vezes com ele. – Dessa vez Dylan riu.
Ao chegar no estabelecimento foi imediatamente atendido e Joe se despediu do amigo.
Joseph voltou para casa com uma sacola na mão. Havia comprado alguns doces típicos para Emy. Ao abrir a porta do apartamento um sorriso invadiu seu rosto impedindo que demonstrasse o resultado daquele dia. Sua esposa estava deitada no sofá, segurando uma boneca de pano enquanto a filha do casal brincava entregando uma xícara para que a mãe bebesse e dividisse com a boneca.
O som da porta, ao fechar, chamou a atenção de ambas. Anne correu pedindo colo para Joe e Emy sentou-se esfregando os olhos.
— Por que não esperou eu buscar vocês?
— Queríamos fazer uma surpresa.. – Enquanto dizia, a mulher levantou, espreguiçando-se e com um sorriso no rosto, aproximando-se de seu marido para o beija-lo.
— Pensei que chegariam depois do almoço. — Disse Joe, ainda surpreso e feliz.
— Sabia que se soubesse que veríamos de manhã, madrugaria no aeroporto. — Sorriu.
— Daddy! — Anne correu para seus braços em gargalhadas e deu ao seu pai a xícara de chá.
Joe a apertou em seus braços e a beijou.
— I missed you so much, my little girl*.
Emy sorriu com a cena.
— Quero um pouco desse carinho também. — Comentou a mulher, voltando para o sofá.
Joe colocou Anne no chão e sorriu de canto.
— A que horas Anne dormirá?
Emy riu.
— Acho que dessa vez teremos que esperar Anne ficar bem cansada, porque ela não parou quieta no avião. E outra: ela ficou insistindo que quer ir ao parquinho com você. Conhece algum por aqui?
— Passei por um ontem… Por que essa menina nasceu tão fissurada em parques?
Emy deu de ombros.
— Ela puxou a um certo homem que não para em casa.
Joe abaixou o rosto sorrindo e olhou para Anne, que estava sentada no chão brincando, sentindo-se em casa.
— Não podia leva-la ao parquinho no meu lugar?
Emy abriu a boca, mas Anne, ao ouvir a palavra que lhe encantava, interrompeu:
— "Daddy! ‘Sque’*!" — Disse a menininha apontando para fora da janela.
— Acho que ela já respondeu... — Emy riu.
— Vai com a mamãe, ela conhece mais esse lugar que eu. — Joe tentou um pouco, entretanto, sua filha era determinada.
— Não! Mamãe, não, papai!
Joe suspirou derrotado. Largou suas coisas no sofá.
— Comprei para você.
— Nem em outro país você perde suas manias, não é? — Emy abriu a sacola — Maldade… Agora que entrei de dieta.
Joe gargalhou.
Passaram o dia no apartamento. Joe contando como fora a palestra, sobre o Dylan, o que rendeu risadas e surpresas entre o casal. Anne, em nenhum momento cansou. Ao entardecer, lembrou seu pai do parquinho ao começar a chorar.
— Ela só tem dois anos e acha que manda mais que eu, é isso mesmo? — Joe voltou do quarto, após trocar de roupa, convencido em levar sua filha na praça.
— Outra vez mais uma semelhança entre vocês dois…
— Você se diverte, né? Ficará em casa descansando.
— Eu carreguei Anne durante toda a gestação, acho que uma horinha com ela no parque não custa nada, não é? — Emy estreitou os olhos.
— É... Meu saldo está negativo… — Disse de forma matemática.
***
Na praça, Anne pedia para sair do colo e seu pai deixou. Logo ao colocá-la no chão, a menininha começou a correr em círculos com os braços abertos e fazendo seu vestidinho balançar. Às vezes ela parava e se agachava a para mexer na grama, depois voltava a correr. Cada vez que se distanciava, Joe não deixava que aumentasse.
— Olha que pretty child*! — Disse uma moça sentada na grama da praça com um papel na mão, um telescópio para montar e a caixa do mesmo.
—Sim, lindinha. — A amiga observou com um sorriso meigo. Pegou o papel que estava com a outra e disse com uma voz irritante: — “Mas distrações podem comprometer o trabalho”, né Emilly?
— Okay… — Suspirou. — Esqueçamos a pretty child* e concentremos no trabalho.
Alicia murmurou um “ótimo” e começou a ler o manual, mas se estressou e jogou ao lado de Emilly. Decidiu tentar montar sem ver as instruções mesmo. Observando o estresse de Alicia e sabendo que a mesma não deixaria ajudar, ofereceu-se para comprar um café. Era um ótimo motivo para deixar a astróloga quebrando a cabeça e não ouvir resmungos desta.
No outro lado da calçada, um carro estacionou. Darwin desceu e pegou o celular de seu bolso. Passara o dia em casa com sua esposa assistindo péssimos filmes de comédia, o que o ajudou a adiar ao máximo possível a sua ida ao mercado. Havia cerca de seis ligações de Carrie, retornou já que precisava saber o que compraria no mercado. Caçou um papel e uma caneta no porta-luvas. Parecia uma lista infinita, cada vez que pensava que havia acabado, Carrie se lembrava de algo. Ao desligar, avistou uma mulher enrolada com o telescópio, riu por um momento e decidiu tentar ajudá-la.
— Bollocks!* Como encaixa isso? — Bradou a mulher.
— Excuse me*, posso ajudá-la? — Aproximou-se achando graça da mulher, pressentindo sua irritabilidade.
— No, thanks*. — Respondeu sem olhar para o homem. – Eu consigo montar, é só um telescópio. Não pode ser tão difícil…
Darwin ainda tentou ajudar falando coisas do tipo “por que você não faz…”, mas Alicia interrompia antes que ele terminasse. Até que levantou e finalmente olhou para o homem insistente.
— Eu já disse que não preciso de ajuda! — Ele estava com uma feição um pouco assustada e parecia tentar reconhecê-la. – Espera, você não é o chato da palestra em Greenwich?
— E você a maluca teimosa! Se eu tivesse te reconhecido, não ofereceria ajuda. — Darwin se virou para atravessar, estava perdendo tempo ali.
— Mas eu já disse que não quero ajuda!
— Ótimo! — Darwin gritou como resposta.
— Ótimo! — E Alicia retrucou.
Neste momento, Anne aproximou-se deles e batia devagar na perna da Alicia.
— ‘Biga’… Não ‘ode’… — O astrônomo ouviu e virou de volta.
— É! Não pode. Fala com ela!
— Com licença… — Joe pegou a filha. — Será que o casal não poderia brigar em casa?
— Nice*! — Exclamou irônica. — É o cético da palestra… — A astróloga bufou.
— E não somos um casal, your barmy*!
— Que seja! – Joe ficou intrigado pela expressão que a mulher usou, mas concluiu: — Briguem em outro lugar. Vamos, Anne, esses britânicos além de terem gírias estranhas, também são mal educados. — Com a filha em seu colo, e Joe saiu dali.
— Eu tenho mais o que fazer também… — Darwin ainda tinha sua missão para cumprir.
— Deixem-me em paz como eu estava, and bob’s your uncle*, sentirei-me muito melhor!
Emilly estava voltando com dois copos de café, sorriu ao passar pelo homem com a “pretty girl” de antes. Avistou Alicia sentando-se novamente na grama e um cara se aproximando irritado. O mesmo pegou as peças do telescópio das mãos de Alicia e montou em um minuto, sem dizer nada e Alicia também, apenas observando. Quando o astrônomo se foi enfim, Emilly perguntou:
— Perdi alguma coisa?
— Nada que acrescentasse algo… — Bufou com o objeto montado na mão.
— Hey – Emilly observou Joseph – Ele não me é estranho...
— É... Ele palestrou ontem. Mas é um completo idiota sem o microfone.
— Ah... Pensei que já o tinha visto em outro lugar, mas deve ser só a palestra mesmo.
***
Joe chegou em casa com Anne com sono em seus braços, mas a menina não quis dormir.
Emy estava mexendo no notebook do matemático.
— Hey, Darling*! – Emy sorriu, mas Joe só entreabriu os lábios – What happened*? Anne fez muita bagunça? – Cogitou, rindo.
— Não, não... – Ele colocou a menina no chão, que correu para o colo da mãe – Antes fosse a Anne... Aconteceu só algo estranho, mas não foi nada de mais.
— “Nada de mais”? – Emy pegou a pequena.
Joe assentiu, esboçando um singelo sorriso.
— Faz um favor para mim? – Indagou, indo para o quarto tomar um banho – Aproveita que está aí e pesquisa o que significa “barmy”.
— Why*? – Emy estranhou – Isso significa louco, maluco... É gíria britânica.
Joseph fez uma careta.
— Britânicos... – E se retirou.
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